Doutrina Secreta Vol. I – Fragmentos

Helena Pretovna Blavatsky

[…] Diz Faiza Dîwân, “testemunha dos maravilhosos discursos de um livre pensador que pertence a mil seitas“:

“Na assembléia do dia da ressurreição, quando serão perdoadas as coisas do passado, deixarão de existir os pecados da Ka’bah, graças ao pó das igrejas cristãs.”

A isso responde o Professor Max Muller: 

“Os pecados do Islam são tão indignos como o pó do Cristianismo, no dia da ressurreição, tanto os maometanos como os cristãos verão a inanidade de suas doutrinas religiosas. Os homens combatem pela religião na terra; no céu compreenderão que só existe uma religião verdadeira – a adoração do ESPÍRITO DE DEUS.”

Em outras palavras: “NÃO HÁ RELIGIÃO SUPERIOR À VERDADE” – Satyat Nâsti Paro Dharmah — o lema do Mahârâjah de Benares, adotado pela Sociedade Teosófica.

Como já se disse no Prefácio, A DOUTRINA SECRETA não representa outra versão de Ísis sem Véu, conforme era a intenção original. É antes uma obra que explica a anterior e, conquanto dela independe, seu indispensável corolário. Muita coisa exposta em Ísis sem Véu era de difícil compreensão para os teósofos naquele tempo. A DOUTRINA SECRETA vem trazer luz a muitos problemas que ficaram sem solução no primeiro livro, especialmente em suas páginas iniciais.

Como o nosso objetivo ali era ocupar-nos simplesmente do que tinha relação com os sistemas filosóficos compreendidos em nossos tempos históricos, e com os diversos simbolismos das nações desaparecidas, não nos era possível, nos dois volumes de Ísis, senão um rápido lance de olhos sobre o panorama do Ocultismo. Na presente obra daremos, com certa minúcia, a cosmogênese e a evolução das quatro Raças que precederam a nossa quinta Raça humana, publicando-se agora dois grandes volumes[1], em que se explicam o que foi dito só nas primeiras páginas de Ísis sem Véu e em algumas alusões esparsas aqui e ali no contexto do livro. Não caberia intentarmos apresentar nestes volumes o vasto catálogo das Ciências Arcaicas, antes de nos havermos ocupado de problemas de tanta magnitude como os da Evolução cósmica e planetária, e o do gradual desenvolvimento das misteriosas humanidades e raças que precederam a nossa Humanidade Adâmica. Assim, a tentativa que ora se empreende para esclarecer alguns mistérios da Filosofia Esotérica nada tem a ver, em verdade, com a obra anterior. Permita-se que a autora dê um exemplo, à guisa de explicação.

O volume I de Ísis começa com uma referência a um livro antigo:

“É tão antigo que, se os antiquários contemporâneos meditassem sobre suas páginas durante, horas e dias intermináveis, nem assim chegariam a pôr-se de acordo quanto à natureza do material em que foi escrito. É o único exemplar original que atualmente existe. O mais velho documento hebreu referente à sabedoria oculta — o Siphrah Dzenioutha — é uma compilação daquela vetusta obra, feita numa época em que a mesma já era considerada uma relíquia literária. Uma de suas vinhetas representa a Essência Divina emanando de Adão[2], à maneira de arco luminoso que se expande em um círculo. Depois de haver alcançado o ponto mais alto da circunferência, a Glória inefável retrocede para voltar à terra, trazendo em seu vértice um tipo superior de humanidade. À medida que se aproxima do nosso planeta, a emanação se torna cada vez mais obscura, até que, ao tocar a terra, é já negra como a noite.”

Esse livro tão antigo é a obra original de que foram compilados os numerosos volumes do Kiu-ti. E não somente este último e o Siphrah Dzenioutha, senão também o Sepber Yetzirah[3] – a obra atribuída pelos cabalistas hebreus ao seu patriarca Abraão(!); o Shu-King, a bíblia primitiva da China; os volumes sagrados do Thoth-Hermes egípcio; os Purânas da índia; o Livro dos Números caldeu; e o próprio Pentateuco — são todos derivados daquele pequeno livro. Reza a tradição que foi escrito em senzar, a língua secreta dos sacerdotes, consoante as palavras dos Seres Divinos que o ditaram aos Filhos da Luz, na Ásia Central, quando se iniciava a nossa Quinta Raça: naqueles tempos o senzar era conhecido dos Iniciados de todas as nações, e os antepassados dos Toltecas o entendiam tão bem como os habitantes da perdida Atlântida; estes últimos o herdaram, por sua vez, dos sábios da Terceira Raça, os Mânushis, que o aprenderam diretamente dos Devas da Segunda e da Primeira Raça. A vinheta de que se fala em Ísis relaciona-se com a evolução destas raças e com a de nossa humanidade das Raças Quarta e Quinta, durante a Ronda ou Manvantara de Vaivasvata. Cada Ronda se compõe de Yugas dos seis períodos da humanidade, quatro dos quais já se passaram em nosso Ciclo de Vida, estando quase alcançado o ponto médio do quinto. O desenho é simbólico, como facilmente se percebe, e abrange o conjunto desde o princípio. 

O antigo livro, depois de descrever a evolução cósmica e explicar a origem de tudo o que existe sobre a terra, inclusive o homem físico, depois de traçar a verdadeira história das Raças, da Primeira à Quinta (a nossa), não vai mais adiante: termina bruscamente no início do Kâli Yuga, ou seja, há precisamente 4.989 anos, quando se deu a morte de Krishna, o resplandecente deus solar, que foi um herói e grande reformador daqueles tempos.

Há, porém, outro livro. Nenhum de seus possuidores o considera muito antigo, por datar apenas do começo da Idade Negra, contando aproximadamente 5.000 anos. Dentro de uns nove anos terá fim o primeiro período de cinco milênios que deu início ao grande ciclo de Kali Yuga[4], e então se cumprirá a última profecia contida nesse livro, que é o primeiro dos Anais proféticos da Idade Negra. Não temos que esperar muito tempo: muitos de nós veremos a aurora do novo Dia, no fim do qual serão acertadas várias contas e diferenças entre as raças. O segundo volume das profecias se acha quase terminado; o seu preparo principiou nos tempos de Shankarâcharya, o grande sucessor de Buddha.

Deve chamar-se a atenção para outro ponto importante, que é o principal dos que constituem a série de provas da existência de uma Sabedoria primitiva e universal; importante pelo menos para os cabalistas cristãos e os eruditos. Tais doutrinas eram conhecidas, ainda que em parte, de vários Padres da Igreja. Afirmase, com base rigorosamente histórica, que Orígenes, Sinésio e até mesmo Clemente de Alexandria haviam sido iniciados nos Mistérios, antes de reunirem, sob um véu cristão, o sistema dos Gnósticos ao Neoplatonismo da escola de Alexandria. E mais ainda: alguns dos ensinamentos secretos (não todos) foram conservados no Vaticano; e desde então passaram a fazer parte integrante dos Mistérios, sob a forma de aditamentos que, desfigurados, a Igreja Latina introduziu no programa cristão original. Como exemplo, temos o dogma da Imaculada Conceição, hoje materializado. Explicam-se por isso as grandes perseguições movidas pela Igreja Católica Romana ao Ocultismo, a Maçonaria e ao Misticismo heterodoxo em geral.

Os dias de Constantino foram o último ponto crítico da história, o período da luta suprema que acabou por destruir as velhas religiões no mundo ocidental, em favor do novo credo, edificado sobre os corpos daquelas. Desde então, a perspectiva de um passado remoto, de períodos pré-históricos anteriores ao Dilúvio e ao Jardim do Éden, começou a ser interceptada por todos os meios, lícitos e ilícitos, aos olhares indiscretos e às indagações da posteridade. Todas as saídas foram interditadas, e destruídos todos os documentos que podiam estar ao alcance. Contudo, entre esses documentos, assim eliminados ou mutilados, ficou ainda um saldo suficiente para nos autorizar a dizer que neles se continha toda a prova exigível da existência de uma Doutrina-Máter. Alguns fragmentos escaparam aos cataclismos geológicos e políticos, para contar a sua história; e o que se salvou demonstra que a Sabedoria Secreta foi em tempos a única fonte, a fonte perene e inesgotável de que se alimentavam todas as correntes — as religiões posteriores dos diversos povos, desde a primeira à última.

A fase que se inicia com Buddha e Pitágoras, e finda com os Neoplatônicos e os Gnósticos, é o único foco, que a história nos depara, aonde pela última vez convergem os cintilantes raios de luz emanados de idades remotíssimas e não obscurecidos pelo fanatismo.

Tudo isso evidencia a necessidade, em que se viu freqüentemente a autora, de invocar fatos recolhidos do mais vetusto passado com apoio em provas fornecidas pelo período histórico. Não dispunha de outros meios à sua disposição, e corria o risco de sofrer, uma vez mais, a acusação de falta de método e de sistema.

É preciso, porém, que o público seja inteirado dos esforços de muitos Adeptos que viveram no mundo, de poetas e escritores clássicos iniciados de todos os tempos, para conservar nos anais da humanidade pelo menos o conhecimento da existência de tal filosofia, se não o de seus verdadeiros princípios. Os Iniciados de 1888 seriam realmente um mito incompreensível, se não ficasse demonstrado que outros iniciados semelhantes existiram em todas as épocas da história. E somente é possível fazê-lo citando os capítulos e versículos dos livros que se referiram a esses grandes personagens, aos quais precedeu e seguiu uma longa e interminável série de outros Mestres nas artes ocultas, assim anteriores como posteriores ao Dilúvio. Esse é o único meio de comprovar, com o testemunho meio histórico e meio tradicional, que a ciência do Oculto e os poderes que o homem confere não representam nenhuma ficção, mas fatos tão velhos quanto o próprio mundo.

Aos meus juízes, pretéritos e futuros, nada tenho, portanto, que dizer — sejam eles críticos sinceros ou esses dervixes literários que fazem tanto alarido e julgam uma obra pela popularidade ou impopularidade do autor, e, sem atentar no seu conteúdo, investem contra ela, à maneira de bacilos mortíferos nos pontos mais fracos do corpo. Não me preocupam tampouco aqueles caluniadores de cabeça vazia, em número reduzido felizmente, que esperam atrair para si a atenção do público lançando o descrédito sobre todo escritor cujo nome é mais conhecido que os deles, e assim ladram e escumam ante a própria sombra. Estes sustentaram durante alguns anos que as doutrinas expostas em The Theosophist, e mais tarde no Esoteric Buddhism, haviam sido inventadas pela autora que escreve estas linhas; e agora, variando inteiramente de tática, denunciam Ísis sem Véu e todas as demais obras como plágios de Eliphas Lévi(!), de Paracelco(!), e, mirabile dictu, do budismo e do bramanismo(!!!). É o mesmo que acusar Renan de haver roubado dos Evangelhos a sua Vida de Jesus, e Max Muller os seus Livros Sagrados ao Oriente, ou os seus Fragmentos, das filosofias dos brâmanes e de Gautama Buddha. Mas ao público em geral, e aos leitores de A DOUTRINA SECRETA em particular, posso repetir o que nunca deixei de afirmar, e que agora sintetizo nas palavras de Montaigne:

Senhores, eu fiz apenas um ramalhete de flores escolhidas: nele nada existe de meu, a não ser o laço que as prende. Rompei o cordão ou desatai o laço, como vos parecer melhor. E quanto ao ramalhete de fatos, jamais podereis destruí-lo. Podeis ignorá-lo, e nada mais.

Concluiremos com mais algumas palavras a propósito deste primeiro volume.

Na introdução que serve de prefácio à parte de uma obra que versa principalmente sobre Cosmogonia, pode parecer que alguns pontos focados se encontrem fora de lugar. Mas outras considerações, além das que foram mencionadas, assim nos obrigaram a proceder. É natural e inevitável que cada um dos leitores julgue as nossas afirmações através do prisma de seus próprios conhecimentos, experiência e foro íntimo. E este é um fato que a autora deve sempre levar em conta. Daí a necessidade de referir-se freqüentemente, neste primeiro volume, a temas que com mais propriedade dizem respeito à última parte da obra, mas que não podiam passar em silêncio sem o risco de vermos o livro considerado como um conto de fadas ou como ficção de algum cérebro moderno.

O Passado ajudará a conhecer o Presente, e o Presente servirá para compreender melhor o Passado. Os erros do dia devem ser explicados e desfeitos. Contudo, é mais que provável, é mesmo certo que ainda desta vez o testemunho das idades passadas e da história não deixará impressão, a não ser nos entendimentos intuitivos, o que vale dizer — em muitos poucos. Em todo caso, nesta como em outras oportunidades, semelhantes, as pessoas sinceras e fiéis podem consolar-se trazendo perante os céticos saduceus modernos o depoimento matemático e histórico da obstinação e da estreiteza do critério humano. Ainda existe nos Anais da Academia de Ciências da França um estudo que ficou célebre acerca da lei de probabilidades, deduzida pelos matemáticos em benefício dos céticos, valendo-se de um processo algébrico, que conclui pela seguinte fórmula: — Se duas pessoas reconhecem a evidência de um fato, e cada uma delas lhe comunica 5/6 de certeza, este fato possuirá então 35/36 de certeza; significando que sua probabilidade estará em relação com sua improbabilidade na razão de 35 para 1. Se me reúnem três evidências semelhantes, a certeza passa a ser de 215/216. O testemunho de dez pessoas, cada qual com 1/2 de certeza, produzirá 1023/1024, e assim por diante. O ocultista pode dar-se por satisfeito com esta certeza, e de mais não necessita.


[1] Da primeira edição inglesa.
[2] Este nome é usado no sentido da palavra grega, αυθρωποζ.
[3] O rabino Jehoshua Ben Chananea, que morreu no ano 72 A.D., declarou abertamente que realizava “milagres” por meio do livro Sepher Yetzirah; e desafiava os céticos. Franck, citando o Talmud babilônico, fala de dois outros taumaturgos, os rabinos Chanina e Oshoi.  (Veja-se Jerusalém Talmud, Sanhedrin, cap. VII etc.; e Franck, Die Kabbalab, págs. 55, 56). Muitos dos ocultistas, Alquimistas e Cabalistas da Idade Média pretenderam a mesma coisa, e o último dos magos modernos, Eliphas Levi, o assegura publicamente em seus livros de magia.
[4] Nota da Edição de Adyar, 1938, pág. 65: H. P. B. escreveu no Vahan, em dezembro de  1890, pág. 2: “…Se quereis realmente ajudar a nobre causa, deveis fazê-lo agora: porque dentro de mais alguns anos os vossos esforços, assim como os nossos, serão improfícuos… Estamos em plena metade das trevas egípcias do Kâli Yuga, a Idade Negra, cujo primeiros 5.000 anos — seu primeiro ciclo sombrio — estão prestes a findar neste mundo, entre 1897 e 1898. A menos que sejamos bem sucedidos em colocar a S.T., antes dessa data, na posição segura da corrente espiritual, ver-se-á ela projetada irremediavelmente no abismo da Frustração, e as gélidas ondas do esquecimento se fecharão sobre a sua cabeça condenada. Desse modo, terá ingloriamente perecido a única associação cujo objeto, normas e propósitos originais correspondem, sob todos os aspectos e particularidades, — se levados a cabo sem desfalecimentos — ao mais profundo e essencial pensamento de todos os grandes Adeptos Reformadores: o esplêndido sonho de uma FRATERNIDADE UNIVERSAL DO HOMEM.”

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