A vida post-mortem (Generalidades)

M. Tenreiro Corrêa

Os veículos do homem

Homem, o Verdadeiro Homem, como procuramos demonstrar em a nossa última palestra, é eterno. Ao fenômeno da morte estão apenas sujeitas as vestes em que se envolve, os veículos de que necessita para mergulhar nos mundos da forma. “Vemos que o conjunto desses veículos constitui aquilo a que chamamos personalidade, através da qual, em cada encarnação, se manifestam os “princípios” que entram na composição de cada um, e que deferem segundo o papel, que, por força de causas anteriores, a nova personalidade é chamada a desempenhar.

O número desses veículos é igual ao número de planos que o raio emanado do Ego imortal, em caminho da reencarnação, deve atravessar para atingir este plano físico nosso conhecido. São 3 esses planos. Igual é o número de vestes em que se envolve o Verdadeiro Homem quando deseja manifestar-se. Denominam-se: corpo físico, corpo astral e corpo mental. Juntando-lhes o Duplo etérico e os 3 veículos superiores –Atmã-Budi-Manas– teremos o homem setenário capaz de agir em todos os planos da Natureza. Os Hindus consideram tão estreitamente ligado o veículo de Manas inferior ou da inteligência concreta com o corpo astral ou veículo do desejo, que os englobam num só; dando-lhe o nome de Manomayakosha. Têm para isso razões muito fortes. Manas inferior é, na realidade, a parte do Ego que mergulha na matéria grosseira para colher experiências. Podemos olhar esse veículo como preso por um lado a Kama ou corpo dos desejos e por outro a seu Pai ou Manas Superior. Dele depende a salvação do homem. Será arrastado para o corpo dos desejos, o Kama dos hindus, e arrancado da Tríade Superior de que deriva e à qual pertence, ou voltará triunfante à sua origem levando purificadas todas as experiências de sua vida terrestre?  É este o problema que lhe é proposto e deve resolver em cada uma das sucessivas reencarnações. Pondo de lado os princípios manifestados através dos veículos inferiores ou corpo físico, corpo astral e corpo mental, digamos, mais uma vez, que todas estas vestes estão sujeitas ao fenômeno da morte. Morto o corpo físico, seguido logo após da decomposição do Duplo Etérico, fica o homem habitando o corpo astral durante um tempo mais ou menos longo, segundo fatores de que mais tarde falaremos. É da vida nesse novo estado ou nesse mundo em que o homem penetra logo após a morte de seu corpo físico, que vamos falar hoje, por nos parecer assunto digno de ser estudado nas páginas desta Revista, destinada a difundir os conhecimentos teosóficos na sua pureza original. Divulgando o que nos dizem os Mestres a respeito dum problema, que tem causado tormentos inenarráveis e preocupado os homens de todos os tempos, acreditamos prestar um serviço real mesmo àqueles que, ouvindo-nos, não nos acreditem.    

Concepções erradas

Em torno do que em geral pensamos sobre o estado do homem no momento da morte do corpo físico, há algumas concepções que, por serem falsas, devemos destruir antes de abordar o assunto propriamente dito da vida post-mortem. Dentre esses erros está o de supor-se que a separação do homem de seu veículo físico, seja acompanhada de grandes sofrimentos. Tudo, inclusive a calma de que se reveste a fisionomia do morto, nos diz ser absolutamente isenta de qualquer sofrimento tal separação, mesmo nos casos de ser precedida duma doença longa e dolorosa. Falsa igualmente a poética ideia de considerar a morte como a “grande igualadora universal”. A desigualdade, como mais adiante se provará, continua no mundo astral no que diz respeito principalmente ao caráter e à inteligência dos indivíduos. Quanto à aparência do homem, quando envolto no seu corpo astral, pouco difere dá que tinha quando ainda pertencia ao mundo que erradamente chamamos dos vivos. Tal semelhança não é absoluta, pois apresenta-se geralmente um pouco mais jovem; e isto se deve à ação do pensamento do morto sobre a matéria de seu veículo astral. Essa matéria, como sabem todos os ocultistas, é muito sensível ao pensamento humano, bastando que o falecido se julgue mais moço do que na realidade é, para ela imediatamente se submeter à sua imposição ou ao seu desejo.  

Os primeiros instantes após a morte

Abandonado o corpo físico, o homem, mesmo quando foi surpreendido por uma morte súbita, vê diante de si o conjunto de toda a sua vida até aos mais insignificantes detalhes. Como um observador imparcial ou como um espectador que contempla o mundo de que acaba de sair, ele analisa a série infinita de causas que o fizeram agir, pensar e sentir desde o nascimento até à morte, e dessa análise deduz a natureza da vida de que deverá utilizar-se na futura encarnação, uma visão muito nítida de que ele em geral logo se esquece para mergulhar num estado de semi-inconsciência muito semelhante ao do sonho. Este período, que poderíamos chamar de atordoamento, não dura comumente mais do que alguns rápidos instantes, podendo, no entanto, prolongar-se par alguns minutos, horas e mesmo dias ou semanas. 

Continuidade de consciência

Passada essa primeira fase de semiconsciência, o homem nem sempre adquire logo uma noção exata do que vem de lhe acontecer. Como a nova vida não é mais do que uma continuação da vida física, em condições diferentes, ele, mesmo que saiba ter morrido, não compreende que o mundo onde acaba de entrar difere daquele donde acaba de sair. A consciência da sua personalidade é a mesma, visto ser o mesmo o seu caráter e a sua inteligência, e carrega consigo os mesmos preconceitos e as mesmas idiossincrasias. Aqueles que sempre acreditaram na imortalidade da alma não estão menos isentos desta ilusão do que os materialistas. No próprio fato de serem conscientes da sua existência, tiram a prova indiscutível de continuarem vivos. Quanto aos que nunca ouviram falar em plano astral, sentem-se um tanto surpreendidos pelas condições inesperadas em que se encontram, acabando, no entanto, por aceitá-las, julgando-as necessárias e inevitáveis. 

Constituição do plano astral

É sabido que a matéria astral, alguns milhões de vezes mais sutil do que a matéria física, se divide em 7 sub planos, tal como a física, e que cada átomo desta é interpenetrado e envolvido por matéria do sub plano astral correspondente. Ao conjunto da matéria astral, contida em um corpo físico qualquer, se dá o nome de contraparte deste corpo. Assim, nenhum objeto físico deixará de ter sua contraparte astral. E se imaginarmos o mundo físico totalmente suprimido, teremos a reprodução exata desse mundo em matéria astral. É como se tal hipótese se tivesse realizado que o novo mundo aparece ao homem recém-desencarnado. Ele deixa em geral de perceber a matéria física, por ter perdido com a morte os órgãos que com ela o punham em comunicação, mas percebendo as contrapartes astrais dos objetos que lhe são familiares, tais como casa, moveis, árvores, amigos, etc. delineados com a habitual nitidez, continuará mantendo viva a ilusão de permanecer no mundo físico. É verdade que se ele examinasse atentamente as coisas que o cercam, depressa se daria conta do seu equívoco. Desde logo notaria que as partículas constitutivas dos corpos que o cercam, são dotadas dum movimento perfeitamente visível, coisa que ele anteriormente não podia notar. Poucas são, porém, as pessoas que têm o hábito de observar as coisas atentamente. E como, depois de mortas, continuam a ver, a ouvir, a sentir e a pensar exatamente como antes, dificilmente acreditam no que acaba de lhes acontecer.

Consequências desta ilusão 

É fácil deduzir a serie infinita de tolices feitas por um homem que, ignorando as leis desse novo mundo, contínua a agir de conformidade com as leis dum mundo a que já não pertence. Não compreendendo, por exemplo, que está livre da necessidade de trabalhar para ganhar sua vida, continuará depois da morte a comparecer à repartição ou a permanecer na sua loja de negócio, a querer despachar os fregueses que inexplicavelmente se mostram surdos aos seus clamores e indiferentes às suas gentilezas. Igualmente ignora de que não precisa mais comer e por isso continuará a consumir os repastos habituais, criados inteiramente pela sua imaginação. Alguns que no plano físico nunca conseguiram realizar o sonho de construir uma casa própria, passam a levantá-la no plano astral, tijolo por tijolo que eles vão criando com o pensamento, quando poderiam criar a casa duma só vez. Durante a construção se apercebem que as pedras e os tijolos não têm mais peso e isso os leva a pensar que as condições da vida, que as leis a que até então obedecia a matéria se modificaram para melhor. Do mesmo modo veremos um homem para quem a vida astral é desconhecida, esperar que as portas das casas se abram para entrar, quando o poderia fazer mesmo com a porta fechada e até através dos muros. Igualmente vereis o homem nessas condições de ignorância marchar pelo solo, desviando-se dos automóveis com medo de ser atropelado, quando tão fácil lhe é mover-se na atmosfera. O homem que acaba de abandonar o corpo físico para dar entrada no mundo astral não está sujeito apenas a essas consequências da sua ignorância, mas também a encontrar-se em condições muito desagradáveis, capazes de lhe infundirem verdadeiro terror. 

Formas pensamentos

Todos os pensamentos, acompanhados ou não de desejos, produzem nos mundos mais sutis uma forma determinada pela natureza do pensamento ou do desejo. Estas formas têm por corpo a essência elemental, e por alma, se assim podemos nos exprimir, o desejo ou a paixão que as produziu. Chamam-se estas formas, de que o mundo astral está repleto, elementares artificiais, uma espécie de criaturas vivas, entidades duma intensa atividade, animadas pelas ideias que lhes deram origem e que os clarividentes inexperientes muitas vezes confundem com entidades humanas. Tais formas estão, constantemente, sendo criadas pelo homem e delas está repleto o ambiente em que vive. Em muitos casos dominam totalmente sua vida astral e mental, dando origem a hábitos que não raro se transformam em verdadeiros vícios. Predominam entre essas formas as de aspecto desagradável, denunciadoras das mais baixas paixões e sentimentos mais inferiores, devido a ser dessa natureza mais do que de natureza superior a atividade mental da maioria dos homens. São essas formas-pensamentos, essas entidades apavorantes, criadas inconscientemente por seus semelhantes e por ele mesmo durante a vida física e de cuja existência não tinha conhecimento por falta de órgão apropriado para a visão astral, que aparecem diante do homem no limiar do novo mundo, causando-lhe verdadeiro terror. Algumas, as mais terríveis e resistentes, têm milênios de existência e recebem constantemente dos homens a energia que as vitaliza. São os demônios chamejantes de formas bem definidas e os deuses criados através das idades pela ignorância e superstição de gerações sucessivas. É natural que essas formas, criadas pelo homem durante a vida física, sejam as primeiras entidades de que ele se aperceba no mundo astral, causando-lhe sofrimentos que só terminarão quando se tiver libertado da influência desastrosa de tão insensatas concepções.

É evidente que nem todos os homens terão criado, durante a vida física, um ambiente astral tão pouco sedutor. Muitos só terão tido pensamentos altruísticos, emoções elevadas, e jamais acreditaram em diabos ou deuses ferozes. Os “elementares artificiais” que os acompanham e lhes aparecerão ao dar entrada no mundo astral, terão as características superiores, quer quanto à forma, quer quanto à cor, dos pensamentos que os criaram; e talvez passem, aos olhos do falecido, por devas ou anjos, encarregados de o levarem à presença do próprio Deus. 

A consciência do novo estado

Por maior que seja a ignorância do homem a respeito do mundo astral, ele irá pouco a pouco verificando as diferenças existentes entre os dois mundos, tomando afinal conhecimento da nova vida. A coisa que primeiro o impressionará, deixando-o um tanto surpreendido, é o desaparecimento de qualquer dor ou fadiga. Essa observação o leva a novas investigações. Nota, por exemplo, que não podendo seguir as atividades físicas de seus amigos, é, no entanto, capaz de lhes conhecer detalhadamente todos os sentimentos, de lhes perceber toda a sorte de paixões, os defeitos morais e vícios mais cuidadosamente escondidos, e este fato causa-lhe muitas vezes surpresas amargas tais como a de ver o ódio onde supunha haver amor, egoísmo, inveja e avareza onde estava habituado a supor existir o mais puro altruísmo e a mais nobre franqueza. É que, vendo seus amigos através do corpo físico, despidos da máscara grosseira com que uns aos outros escondem a verdadeira personalidade, eles se apresentam tais como na realidade são. Prosseguindo suas investigações, nota ser-lhe mais fácil comunicar-se com seus amigos quando eles dormem do que quando estão acordados, e que seus pensamentos e desejos se não exprimem mais em palavras, mas em formas visíveis que cada vez se vão tornando mais nítidas e perceptíveis. Passando a ser mais fortemente influenciado pelos sentimentos das pessoas queridas que deixou neste mundo, procura a explicação para isso a qual só lhe pode ser dada pela ausência do corpo físico que servia de obstáculo a percepções dessa natureza. De observação em observação, o homem acaba por ter consciência do seu novo estado e a adaptar-se a uma vida infinitamente mais agradável do que a vida física e da qual procura tirar o melhor partido no interesse da sua evolução. 

Kamaloka

As condições da vida relacionada com os homens que vem de deixar mundo físico, dizem respeito a Kamaloka, isto é, o mundo de Kama ou desejo que se encontra nos planos mais baixos do mundo astral a que a teologia escolástica chama Limbo. Podemos também identificar essa região com o Purgatório dos cristãos. Ali se acham seres vivos de todos os tipos e de todas as formas, tão diferentes uns dos outros como a erva rasteira é diferente do tigre e este, do homem. De mistura com essas entidades inteligentes e semi-inteligentes, encontra o homem todos os seus  semelhantes, como ele recém-falecidos, além daqueles que, ainda no mundo físico, por ali passam por estarem dormindo ou porque, dotados de poderes psíquicos, para ali se dirigem conscientemente, à cata de conhecimento ou na missão de esclarecer e guiar, os ignorantes. Trata-se a bem dizer dum mundo intermediário entre o mundo físico e o mundo astral, mas como o estado da matéria dum e outro é totalmente diferente, as entidades que habitam um deles não têm consciência das que habitam o outro. Significa isto que os homens, ao passar por Kamaloka, perdem normalmente a visão do mundo físico, tal como os homens vivendo neste mundo só anormalmente percebem as entidades do mundo astral. Nestas condições, os mortos só têm percepção dos veículos astrais dos vivos e é isto, como vimos, que lhes dificulta a compreensão de seu novo estado. Kamaloka não constitui um lugar separado no plano astral, como poderíamos ser levados a acreditar. Sua diferença do resto do plano, está apenas nas condições de consciência dos seres humanos que abandonaram seus corpos densos e não conseguiram ainda livrar-se de Kama, isto é, da natureza passional e emocional. A este estado chamam os Hindus de Pretaloka, sendo preta um ser humano que perdeu seu corpo físico, mas que continua dominado por sua natureza animal. É uma condição que existe em cada subdivisão do plano astral.

A utilidade destes conhecimentos 

Raras são as religiões que ensinam aos seus membros o que os espera depois da morte e como devem viver no plano astral. Geralmente são elas que mais concorrem para tornar a vida do homem nesse plano, cheia de terrores, de dúvidas e incertezas, que o simples conhecimento da matéria astral e da natureza das entidades que habitam esse mundo, bastava para dissipar. Apesar de haver atualmente muitas pessoas preocupadas com o estudo da vida post-mortem, continua a ser pequeno o número das que tem uma compreensão inteligente desse estado e dele saibam tirar o melhor partido. Infelizmente, no plano astral como no plano físico, os ignorantes dificilmente aproveitam os avisos ou os exemplos dos sábios. Preferem manter as ideias herdadas de seus avós e a reforçar inconscientemente as entidades horríficas e artificiais que os irão esperar nos umbrais da morte. Saiba, pois, o leitor que costuma distrair-se com a leitura destas palestras, bastar-lhe este inocente exercício para que ao entrar no mundo astral, desde logo se sinta livre dessa infinidade de preocupações que constituem o seu mais pesado fardo nesta vida. Desaparece a necessidade imperiosa de comer, beber, trabalhar, manter-se preso às mil e uma convenções sociais que lhe tomam o tempo e lhe tolhem os movimentos. O conhecimento mesmo superficial desse mundo, em que todos devemos ingressar, além de lhe permitir ver as coisas com mais confiança e tirar as deduções que o devem conduzir em a nova vida, evitar-lhe-á todos os erros a que nos vimos de referir e todos os sofrimentos que, se for religioso, se julga no dever de aceitar e manter como necessários ao melhoramento do seu caráter ou como castigos das suas faltas. Ficará sabendo que, muito ao contrário do que talvez pense, não o espera nesse mundo nenhuma recompensa nem nenhuma punição de origem exterior; nenhum deus nem nenhum diabo a disputarem-lhe a posse da sua alma, mas simplesmente o resultado de tudo quanto fez, disse ou pensou enquanto viveu no mundo da matéria densa. Verificará não haver possibilidade de qualquer sofrimento físico e ser plenamente livre de fazer o que quiser, de passar seu tempo como entender, sem outros entraves que sua própria consciência. Livre do corpo grosseiro com todos os seus distúrbios e necessidades, notará que a vida que acaba de deixar nem sequer merece esse nome, se a comparar com aquela em que acaba de dar entrada. Reconhecendo muito embora a necessidade da vida física, como uma das etapas indispensáveis do ciclo de vida e morte a que, por exigência da evolução do nosso Ego, estamos sujeitos, verá desaparecerem as dificuldades com que antes lutava para aperfeiçoar seu espírito, desenvolver suas faculdades de percepção, e travar relações mais íntimas com as leis sutis da Natureza. E desse modo rapidamente galgará os sub planos mais elevados do plano astral, em cuja matéria não vibram os pensamentos grosseiros, achando-se em breve no limiar dum novo mundo, última etapa do ciclo de vida, e onde as religiões colocaram o Céu ou Devakan. Para que esse resultado seja atingido o mais rapidamente possível, o homem dará cada vez menor atenção à matéria astral inferior de que são formadas as contrapartes dos objetos físicos e se ocupará apenas da matéria mais elevada em que se envolvem as formas-pensamentos, cuja pureza aumenta à medida que sobe-se nesse plano. 

A marcha para Devakan

Ao dizermos que o homem sobe de sub plano em sub plano em demanda das regiões do Espírito, não queremos absolutamente dizer que ele mude de lugar embora isto seja parcialmente verdade. O que queremos, porém dizer com tal expressão, é que o homem passa a interessar-se por novas atividades. As contra-partes do mundo físico que ele, em consequência do fenômeno chamado morte, acaba de abandonar, desaparecem gradualmente da sua vista, e sua vida cada vez se aproxima mais do mundo do pensamento. Continuarão em atividade, enquanto permanecer no plano astral, suas emoções e desejos, devido à facilidade com que a matéria astral obedece ao pensamento, e ele continuará a ver-se cercado pelos seus próprios sentimentos cuja natureza determinará seu estado de felicidade ou desgraça; mas pouco a pouco suas atividades se tornarão mais nobres à medida que se vir livre das camadas mais grosseiras do corpo astral. Esta ascensão significa a libertação gradual da parte manásica que durante a vida física esteve ligada a Kama e, por conseguinte a volta ao Devakan, ao mundo onde habita o Ego, do seu representante nos mundos inferiores, carregando as experiências, que podem ser assimiladas pelo corpo causal ou mental superior. 

A morte do corpo astral

Vimos que, após a morte do corpo físico, o corpo astral, que em nós permanecia de mistura com o veículo mental, se liberta, carregando consigo todas as paixões, todos os desejos, todos os sentimentos de que foi vítima no plano ou mundo das formas densas. Por isso dissemos que o homem astral em nada difere do homem físico no que diz respeito ao caráter e à inteligência. Ao iniciar a nova vida, a parte do veículo manásico tão inextricavelmente ligada ao veículo astral, inicia por sua vez sua própria libertação, recolhendo-se com as experiências obtidas ao corpo imediatamente superior ou causal. Concluído este fenômeno que tanto pode durar meses, como anos e mesmo séculos, podemos considerar como morto o corpo astral. É a segunda morte a que se referem certas religiões. Este fenômeno difere muito do por nós conhecido no mundo físico. A morte do corpo astral não tem aquelas características definitivas que notamos no corpo físico quando o homem o abandona. Uma parte regular dessa matéria fica ligada a Kama, dando ao corpo astral uma consciência confusa, e uma memória defeituosa da vida que vêm de terminar. Se as emoções e as paixões desse corpo tiverem sido poderosas, e se, por outro lado, o elemento mental não tiver sido muito forte, o corpo astral continuará poderosamente vivificado, persistindo durante muito tempo como uma verdadeira personalidade no mundo astral. Dar-lhe-á vida e consciência a matéria mental que a ele ficou ligada. São estas entidades que, não sendo mais homens, conservam dos homens uma aparência, e se fazem passar entre os vivos do plano físico, por espíritos encarregados de nos ensinar o caminho da salvação… No caso, porém, de a vida terrestre do homem ter-se caracterizado pela pureza e elevação de sentimentos, e se a atividade mental tiver sobrepujado a atividade passional, o corpo astral, uma vez livre da sua parte manásica, achar-se-á pouco vivificado e, não passando duma pálida imitação do homem, se desagregará rapidamente sobrevindo a morte definitiva desse veículo. 

Construção do corpo astral

Quem constrói o corpo astral do homem é ele mesmo durante sua vida física. É a natureza de seus pensamentos, suas paixões, seus desejos e suas emoções; é a própria espécie de alimentos ingeridos, seus hábitos de maior ou menor limpeza, de maior ou menor continência, etc., etc., que tornarão o corpo astral -o veículo em que o homem vai viver após a morte– mais ou menos grosseiro, mais ou menos apto a servir-lhe de veículo de consciência.  A um homem de pensamentos e emoções grosseiras, corresponderá um corpo astral onde fatalmente deve predominar a matéria dos últimos sub planos do plano astral, única que responde às vibrações daquela natureza. Ao contrário, será na sua maior parte constituído de matéria dos sub planos mais sutis, insensível, portanto, a todas as emoções que não forem de ordem superior, o corpo astral do homem que durante a vida física se não deixou dominar por sua natureza animal.  Mas não depende somente das emoções, das atividades boas ou más exercidas durante a vida terrestre, a maior ou menor perfeição do nosso corpo astral.

Já sabemos que, a cada partícula do corpo físico, corresponde uma contraparte de matéria astral e essa terá daquela as mesmas características grosseiras ou delicadas. Donde facilmente se conclui que a um corpo físico nutrido de alimentos impuros, será impossível corresponder um corpo astral ou mental organizados para fins elevados, exatamente como a um corpo físico puro não podem corresponder veículos sutis impuros. A dependência entre os três corpos é absoluta. Daí o extremo cuidado dos Raja Yogis em purificar o corpo físico submetendo-o a uma alimentação em que predominam os elementos “sátvicos” ou “rítmicos”, ou sejam, os grãos e as frutas, incontestavelmente mais capazes de construir um corpo ao mesmo tempo sensível e resistente. Consideram a carne um alimento “rajásico”, apto a desenvolver no homem os desejos animais e inapto a realizar uma organização nervosa delicada. Quanto aos alimentos em via de decomposição, tais como os denominados “de conserva”, eles os evitam cuidadosamente. O mesmo fazem com o álcool, o tabaco, as drogas, cujo emprego tem por fim “acalmar os nervos”, como se costuma dizer entre nós. A verdade, porém, é que, dessa necessidade de “acalmar os nervos”, imposta pelas condições da vida moderna, decorre a impossibilidade da consciência humana em manifestar-se através de um corpo repleto de detritos de carne e envenenado pelo álcool, pelo fumo e pelas drogas, causas fatais da maior parte das doenças nervosas. O órgão mais especialmente afetado, mesmo por uma pequena quantidade de álcool, é a glândula pituitária a qual, uma vez envenenada, suspende a ligação entre os três corpos do homem, paralisando-lhe a evolução.  Dada a estreita ligação entre o corpo físico e o corpo astral, a composição deste está subordinada aos cuidados que se tenham com o outro, e esses cuidados não se limitam à alimentação, mas à própria limpeza e a tudo quanto de qualquer modo o possa afetar, incluindo neste rol os ruídos das grandes cidades causa de constante irritação e fadiga, e que produzem no corpo astral as mais desastrosas consequências.  O corpo astral, pois, de que o homem dispõe ao penetrar no reino dos “mortos”, é uma obra exclusivamente sua. Foi ele quem o construiu indiretamente, com seus pensamentos e ações físicas e, diretamente, com suas emoções. Será perfeito ou imperfeito, capaz de lhe dar uma consciência clara ou obscura do seu novo estado, segundo a natureza da matéria com que ele o construiu durante sua vida física. Se, ao penetrar no mundo astral, em vez de anjos forem diabos que o recebam, queixe-se de si mesmo e não se esqueça da frase de Cristo aplicável a todos os mundos: “Fazei por ti que eu te ajudarei”, ou do provérbio árabe que nos diz: “Confia em Deus, mas amarra bem o teu cavalo”.  

As más tendências do homem

Como já vimos na palestra anterior, o homem astral só difere do homem físico pela ausência do corpo denso. Ao morrer, ele não se vê desde logo livre de suas más tendências e, se elas só podem ser satisfeitas por intermédio dum corpo físico, fácil nos é conceber como será grande o seu sofrimento. Mas à medida que o tempo passa, esses desejos se vão diluindo, até de todo desaparecerem por falta absoluta de órgãos que os satisfaçam. Cabe unicamente ao próprio homem acelerar essa destruição, desembaraçando-se dos desejos inferiores que o atraem para as regiões mais obscuras do mundo astral. Ignorante em geral destas coisas, o homem, ao contrário disso, não cessa de alimentar esses desejos insensatos, e se aferra o mais que pode às partículas grosseiras da matéria astral, por serem as que têm uma relação mais estreita com a vida física para a qual ele se sente atraído. O simples conhecimento intelectual da vida do mundo astral, tal como nós o estamos dando nestas nossas despretensiosas palestras, é suficiente para que o homem procure matar os desejos terrestres e compreenda que, depois da morte física, deve abandonar qualquer pensamento sobre coisas físicas, afim de mais depressa galgar as regiões elevadas do plano em que entrou.

Este procedimento facilitará a desagregação das partículas grosseiras de seu corpo astral, e diminuirá o tempo de sua estada em regiões pouco sedutoras.  Não é este, infelizmente, o procedimento dos homens portadores de más tendências ou de hábitos puramente terrestres a que, mesmo depois de mortos, se prendem com uma desesperada tenacidade. Tudo isso eles o perdem com o tempo, graças à marcha natural da evolução, mas não evitam sofrimentos inúteis nem o retardamento do seu progresso. Digamos de passagem, que essa resistência ao desprendimento das tendências inferiores, encontra apoio ou mesmo auxílio na existência do corpo físico. E o laço que prende o homem astral à terra. Está, portanto, na cremação dos cadáveres, o melhor meio para acelerar a destruição dessas tendências.  

Exemplos típicos 

O homem comum – Nossa descrição da vida astral, pode ser ilustrada, para tornar mais claro o assunto, com alguns exemplos típicos.  Começaremos pelo homem comum, esse homem que durante a vida física não foi nem particularmente bom nem particularmente mau. Tal homem continuará, após a morte, tão ordinário como era antes. Estará livre, por conseguinte, tanto dum grande sofrimento, como duma grande alegria. Sua vida será no mundo das emoções tão morna como era no mundo da atividade. O máximo que lhe pode acontecer é achar essa nova vida um pouco mais insípida. Se, durante a vida física, não se deu ao trabalho de cultivar algum interesse particular, muito menos o poderá fazer na vida astral, visto que o seu corpo astral é, como já dissemos, o resultado dos seus esforços no plano físico.  

O homem fútil – A par desta espécie de homens, aparecem-nos aqueles que, durante sua passagem pelo mundo ocuparam todo o seu tempo a martirizar os outros com conversas intermináveis sobre os fatos banais da vida; que se dedicam apaixonadamente aos esportes, aos negócios ou à moda. Transportados para o mundo astral onde tais coisas não são possíveis, limitar-se-ão a achar o tempo infinitamente longo e a vida simplesmente intolerável.  

Os ébrios e sensuais – Muito mais penosa é a vida para o homem que foi preso de violentos desejos duma natureza inferior como a embriaguez ou a sensualidade. Seus centros de sensação, localizados, como se sabe, no corpo astral, continuam, não só em plena atividade, mas acrescidos duma energia que era absorvida pela necessidade de pôr em movimento as pesadas partículas físicas.  As condições da vida astral para um homem neste estado são as piores possíveis. Vive tão próximo do mundo físico, que chega a ser sensível a certas emanações que afinal só podem servir para lhe exacerbar os loucos desejos, e transformar-lhe a vida num verdadeiro frenesi. A falta de corpo físico torna-lhe impossível satisfazer suas terríveis paixões que, pouco a pouco, se vão atenuando até desaparecerem totalmente.  Um ébrio inveterado é muitas vezes capaz de se envolver num véu de matéria etérica, materializando-se parcialmente. Pode, assim, sentir de certo modo o cheiro do álcool e, para satisfazer seu vício, passar a vida no interior dos tonéis vazios ou penetrar em parte nos corpos físicos dos frequentadores dos locais onde os homens se embriagam. O sensual procede identicamente, obsedando permanente ou temporariamente todos aqueles que pela sua passividade a isso se submeterem. Satisfaz por esse meio os desejos que mais o preocuparam durante a vida física.  

Mitos e tradições

Origina-se, dos fenômenos que acabamos de descrever, o mito de Tântalo, que, sofrendo duma sede intensa, é condenado a ver a água retirar-se no momento exato em que seus lábios lhe vão tocar. Tem igual sentido o de Sísifo condenado a rolar uma grande pedra até ao cimo duma montanha donde ela retumba incessantemente. A pedra simboliza os projetos ambiciosos que o homem não cessa de fazer. Compreendendo, finalmente, a impossibilidade de levar a bom termo um trabalho que exige a existência dum corpo físico, o homem abandona sua ambição e egoísta e deixa a pedra junto da montanha.

O homem cria, assim, por suas próprias mãos, seu inferno e seu paraíso que, como já acentuamos, não são lugares separados, mas estados de consciência. O inferno não existe, como não existe o purgatório: são ficções devidas à imaginação teológica.  

Os assassinos e os vivissectores

Não existindo o inferno, pelo menos no sentido dum sofrimento eterno, visto que uma causa finita não pode produzir um efeito infinito, é no entanto o único nome com que podemos designar as condições, por exemplo, dum assassino que no mundo astral, se vê perseguido por sua vítima e da sua presença, se não pode livrar. O estado de inconsciência em que geralmente se acha a vítima, transforma a perseguição num ato puramente mecânico o que lhe dá um caráter ainda mais horroroso.  Entre os vários casos em que a vida astral nos pode dar uma ideia do inferno teológico, incluiremos aqui o dos vivissectores cujas vítimas mutiladas uivam apavoradas em volta dele. Suas formas acham-se vivificadas pela vida elemental vibrante de ódio contra aquele que as mutilou, o qual repete, automática e incessantemente, consciente de seu horror, as piores e mais atrozes experiências, levado pelo hábito adquirido durante a vida terrestre.  

As lições da natureza

Em nenhum destes casos e em tantos outros igualmente horrorosos, devemos ver qualquer coisa de arbitrário. Tudo isso é o resultado inevitável de causas engendradas por cada homem durante sua vida no mundo físico. Não importa que um homem, tal como o vivissector, tenha agido com a melhor das intenções, destruindo vidas com a finalidade altruística de beneficiar seus semelhantes. Essas intenções livram-no de qualquer sofrimento de ordem moral, mas não evitam os efeitos acima citados e de que ele será testemunha ao penetrar no mundo astral. Ele deverá ver na reprodução das suas mais atrozes experiências, uma lição da natureza destinada a guiar-lhe a alma no caminho da evolução por meio de correções salutares.  

Condições gerais 

Os exemplos de que nos servimos para deixar bem patente que a vida no plano astral é uma consequência da vida do mundo físico, e só podem ser encontrados nos sub planos mais baixos desse plano, não nos dão uma ideia das condições em que se acha a generalidade dos homens.  Para a grande maioria, o estado em que se encontram após a morte física é bem diferente de qualquer desses que nos serviram de exemplo. A primeira sensação do homem ao tomar consciência do seu novo estado, é a de uma liberdade maravilhosa. Não tendo engendrado efeitos que o retenham nos sub planos inferiores; não se sentindo preso à terra pelas atrações de ordem material, ele não será atormentado por nenhuma preocupação; nenhum dever lhe será imposto a não ser o determinado por si mesmo.  Nestas condições, os homens que erradamente chamamos mortos, deixando de permanecer prisioneiros do corpo físico, são na realidade mais vivos do que nunca.  Livres das condições materiais a que estavam encadeados, nada os impede de trabalhar mais eficazmente, tendo à sua disposição um campo mais vasto de atividade. Trata-se dum mundo cuja matéria é muito mais vitalizada que a matéria física, o que permite aos que nele habitam uma vida muito mais ativa, com maiores possibilidades de prazer e progresso. O prazer que pode fruir um homem evoluído, no mundo astral, é de tal sorte, que muitas vezes concorre para o desviar da senda do progresso, fazendo-o supor ser esse mundo o verdadeiro paraíso. As consequências desse equívoco serão, nos mundos superiores, iguais às de que é vítima no plano astral o homem que se deixou prender pelos prazeres do mundo físico. Esse prazer nada tem de comum com qualquer um dos conhecidos no mundo físico; é duma ordem mais elevada e para dele se aproveitar necessita o homem possuir uma grande dose de inteligência. Um homem dessa categoria acha-se no mundo astral em condições de fazer pelos seus semelhantes muito mais do que fazia no mundo físico.

Artistas, cientistas etc.  

Consideremos, para exemplificar, um indivíduo que manifeste interesse pela música, pela literatura ou pela ciência. Tendo desaparecido a necessidade de desperdiçar tempo para “ganhar a vida”; livre para fazer o que mais lhe agrade, esse homem, se for a música que o atraia, terá a possibilidade de ouvir harmonias cuja beleza os habitantes do mundo físico estão longe de imaginar. Para o artista não há beleza do mundo astral superior, que se não ache à sua disposição. Capaz de se mover mais facilmente e mais rapidamente do que no mundo físico, pode o artista gozar todas as maravilhas da natureza de cuja contemplação estava privado antes de morrer. Se for um historiador ou um cientista, não há biblioteca nem laboratório que não estejam à sua disposição.  E fácil nos é imaginar a grande alegria que dele se apossa, ante a facilidade com que pode compreender fenômenos naturais antes incompreensíveis, graças a ser-lhe possível ver o que se passa no interior das coisas tão facilmente como vê o que se passa no exterior. Descobrirá, assim, muitas das causas de que ele só conhecia os efeitos. Para que a alegria de poder levar a efeito tais empreendimentos seja ainda mais intensa, juntemos-lhe o fato de tudo isso poder ser feito sem fadiga alguma e sem nenhuma das multíplices dificuldades que entorpecem a atividade do homem físico. Tratando-se dum filantropo, nada o impede de continuar no plano astral, com muito maior eficácia e em melhores condições, a beneficiar seus semelhantes, com a certeza de serem muito maiores os resultados obtidos. A aquisição de novos conhecimentos é também uma das possibilidades abertas ao homem no mundo astral. Não têm sido poucos os que, livres, enfim, das ilusões dogmáticas das religiões, reconhecem o erro em que viveram, e se dedicam, no mundo astral, ao estudo da Teosofia, por encontrarem ali a confirmação das teorias que ela defende.  

Criação cármica

Vimos que o homem evoluído é, no mundo astral, tão ativo ou ainda mais do que no mundo físico. Pode, sem a menor dúvida, tão facilmente como antes de morrer, influir com seus atos no próprio progresso e no dos outros, não cessando, portanto, de criar bom ou mau Carma. Sua consciência, no mundo das emoções, passa a ser muito mais nítida do que antes; os efeitos de seus atos e pensamentos ele os vê, instantaneamente realizados; as oportunidades de praticar o bem e o mal são muito maiores. Tudo isto lhe facilita, muito mais do que na vida física, a criação de Carma. Dum modo geral pode-se afirmar que o homem é capaz de criar Karma, todas as vezes que disponha livremente da sua consciência ou tenha a faculdade de agir, visto ser Carma sinônimo de ação. As ações que ele praticar no mundo astral, têm suas consequências cármicas na próxima vida terrestre.  

A vida do homem nos vários sub planos 

A matéria do plano astral é dividida em 7 sub espécies que constituem outros tantos sub planos. As condições de vida dos habitantes dum desses sub planos diferem das dos habitantes dum outro, como as condições de vida ou estados de consciência dum homem superior diferem aqui, no mundo físico, das do homem vulgar. Assim, se observarmos o homem incapaz de sentir as vibrações doutra matéria que a do sétimo sub plano, nós o veremos demasiado preocupado com as coisas que o cercam, para se distrair com o que se passa no mundo das formas densas.  

Passando ao sub plano seguinte, o sexto, vamos encontrar os homens que, durante a vida, tiveram todos os seus pensamentos e desejos concentrados nos negócios puramente terrestres. Ficarão, por isso, nos locais em que trabalhavam ou em volta das pessoas com quem lidavam. Não serão, porém, conscientes da matéria física, mas apenas de sua contraparte astral. Imaginemos que se acham num teatro repleto de espectadores, assistindo ao desenrolar duma peça. Eles não verão, como nós, os jogos fisionômicos dos atores destinados a transmitir-nos certas emoções. Eles apenas poderão ver essas emoções, que, por serem simuladas nenhum efeito lhes causam.  Os habitantes dos dois sub planos seguintes, o quinto e o quarto, embora ainda lhes seja possível ter consciência do plano físico, ela já é muito menor do que nos planos mais grosseiros. Esse contato com o mundo dos vivos, por parte dos habitantes dos sub planos imediatos, terceiro e segundo, torna-se cada vez mais difícil, exigindo um esforço especial e o auxílio de um médium. No sub plano mais elevado, ou primeiro, essa comunicação entre os dois mundos, torna-se quase impossível mesmo utilizando um intermediário.  

A vida nos sub planos superiores

Os habitantes desses sub planos cercam-se habitualmente do ambiente que mais lhes agrade. Vemos assim, espalhadas por essa parte do mundo astral, certas paisagens criadas pelos próprios que as habitam, ou já por eles ali encontradas. Na maioria dos casos, essas construções são inspiradas nas escrituras religiosas donde tiram as cenas encantadoras nas quais há árvores cujas frutas são joias preciosas; rios de fogo; criaturas fantásticas dotadas de mil olhos e centenas de cabeças ou dezenas de braços. Na região denominada pelos espíritas “summerland”, as pessoas duma mesma raça ou duma mesma religião, conservam o hábito de se reunir como faziam antes. Encontram-se ali tantas comunidades diferentes como na terra, devido não somente às naturais afinidades, como talvez também ao fato de continuarem no mundo astral as barreiras da linguagem.  

As comunicações espíritas

Daí a estranha disparidade entre as comunicações que os espíritas recebem do plano astral. Cada comunicante vê esse plano segundo a concepção que fazia do outro mundo antes de morrer. Se a entidade que faz a comunicação foi um budhista, jurará ter achado além tumba a confirmação de suas concepções religiosas, o mesmo garantindo qualquer membro das diferentes seitas cristãs ou maometanas. Numa sessão espírita do Ocidente, todas as comunicações do mundo astral nos falam em Cristo e nos vários santos da corte celeste enquanto que de tais entidades não se ouvirá uma palavra, nas sessões espíritas realizadas no oriente. É que o homem acha, no plano astral, não somente suas próprias formas-pensamentos, mas também as criadas pelos outros e que muitas vezes são o produto de várias gerações durante as quais muitos indivíduos pensaram do mesmo modo.  

As influências dos “mortos” sobre os vivos

São variadas as espécies de influências exercidas pelos que deixam o mundo físico, sobre os que aqui ficam.  Às vezes é um pai esforçando-se por impor seus desejos a um filho, encaminhando-o para determinada carreira ou para uma aliança matrimonial há muito projetada. Não raro o homem ordinário toma esta continua pressão de seus parentes falecidos, por seus próprios desejos subconscientes e acaba realizando atos contrários à sua vontade. Em muitos casos os mortos se constituem os anjos da guarda dos vivos, papel em geral desempenhado pelas mães em relação aos filhos, pelos maridos em relação às suas viúvas, etc.

É igualmente comum ver-se um escritor ou um compositor falecido impor suas ideias a um homem físico, de forma que não são poucos os livros atribuídos a homens vivos e cujos autores estão na realidade mortos. A pessoa que executa o trabalho pode ser consciente ou inconsciente dessa influência. Igualmente pode um médico, que continua a interessar-se por seus doentes, procurar curá-los diretamente ou sugerindo a seu sucessor os métodos de tratamento que ele julga mais eficazes.  

A influência dos vivos sobre os “mortos” 

Durante toda a duração da vida astral, está o indivíduo sujeito a ser atingido pelas influências terrestres. Mesmo a maior parte das pessoas denominadas “boas” que, atravessando os sub planos inferiores sem darem tento da vida astral, são inconscientes dos acontecimentos físicos, podem ser atraídas para este plano pela inquietação que lhe inspire a sorte de qualquer pessoa. Atração igual é exercida sobre os que acabam de passar para o plano astral, pelo pesar dos parentes e amigos. Essa tendência em voltar atrás aumenta com o hábito, acabando por transformar-se num ato da própria vontade. Grandes são os sofrimentos inúteis e os males que essas pessoas causam àqueles que eles lastimam com suas lágrimas e lamúrias. Em todos estes casos, a dor dos amigos deixados neste mundo, acorda vibrações no corpo astral do falecido, atingindo mesmo seu espírito, pelo menos o Manas inferior. Acordado, assim, do seu torpor, o falecido tenta comunicar-se com os amigos, servindo-se em geral dum médium. Este esforço é acompanhado de duros sofrimentos e, em todos os casos, concorre para retardar o fenômeno natural da evolução do Ego.  

Os conselhos da Teosofia 

A Teosofia não aconselha absolutamente o esquecimento dos mortos, mas sugere que a recordação afetuosa é uma força capaz de auxiliá-los na travessia entre o mundo físico e o mundo mental, ao passo que o desgosto e a desolação, além de inúteis, são-lhes prejudiciais e retardam essa travessia. As preces, por exemplo, criam elementares que vão agir no corpo astral, acelerando pela sua desagregação a partida do homem para planos mais elevados.  Sem deixarmos, pois de recordar os mortos, “façamo-lo sempre de modo a não lhes despertar desejos que não podem satisfazer ou concorrendo para lhes perturbar a evolução, atraindo-os para o plano donde saíram e no qual lhes é impossível agir sem veículo apropriado”. É este o conselho da Sabedoria Iniciática das Idades.

Revista Dhâranâ, n. 107-108, janeiro-julho, 1941 e n. 109, julho-setembro, 1941

 

 

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