O Tibete e a Teosofia

Mario Roso de Luna & Henrique José de Souza

Os Seres Superiores do Gobi e do Tibete1

Por mais extraordinárias que pareçam as afirmativas contidas no capítulo anterior, nada têm, no entanto, de “sobrenaturais”, no sentido que se costuma dar no Ocidente, a essa inexpressiva palavra, porque, segundo nos diz H. P. B. no Prefácio de Ísis sem Véu, “nada há de sobrenatural na Natureza, mas apenas coisas já conhecidas e coisas ainda por conhecer”; opinião também mantida por A. David-Neel, quando diz em sua conferência no Colégio de França2

“Tudo quanto de perto ou de longe se relaciona com os fenômenos psíquicos em geral, deve ser estudado como outra ciência qualquer. Neles não existem milagres, nem nada de sobrenatural, nem coisa alguma que possa produzir nem nutrir a superstição. O adestramento psíquico racional e cientificamente conduzido, pode levar a resultados apreciáveis. Por isso mesmo, os elementos recolhidos sobre tal adestramento, embora os praticados empiricamente, baseados em teorias que nem sempre podemos submeter, constituem documentos utilíssimos, dignos de toda atenção. “Tal é o verdadeiro determinismo científico, tão distante do ceticismo como da cega credulidade”. 

A mesma autora acrescenta em outro lugar: 

“Não obstante a habilidade desenvolvida pelos tibetanos, no seu afã de encontrar uma explicação racional para todos os prodígios, muitos deles permanecem ainda incompreensíveis, já por serem alguns, pura ilusão, já por outras muitas razões. Por exemplo: eles admitem que os místicos avançados não têm necessidade de morrer de modo comum, mas que podem, se o quiserem, dissolver seus corpos de maneira que não deixem vestígios. 

“Conta-se que Retchungpa, esposa de Marpa, incorporou-se a seu marido no decorrer de certa meditação. Semelhantes tradições, cujos heróis viveram há séculos, se nos apresentam como lendas, porém, o seguinte fato é mui interessante para ser aqui citado, tanto mais quando ao invés de se produzir em lugar solitário, o prodígio teve lugar em pleno dia, diante de inúmeras testemunhas. Devo declarar que não me encontrava entre elas, o que deploro amargamente. Minhas informações procedem de pessoas que foram unânimes em afirmar que presenciaram o fenômeno. A única ligação que tenho com o milagre é o ter conhecido aquele que foi o seu herói. 

“Este último era um dos guias espirituais do Tachi-Lama e se chamava Kyngbú- rimpotché. Quando residi em Chigatsé, ele era já velho e vivia como eremita a alguns quilômetros da cidade, à margem do Yesu Tsangpo (Brahma-putra). A mãe do Tachi- lama o tinha em alta veneração e durante o tempo que estive ao seu lado ouvi de seus próprios lábios inúmeras e extraordinárias histórias a respeito do santo asceta. Dizia-se que à medida que decorriam os anos, a estatura do santo e sábio asceta diminuía, fato a que os tibetanos atribuem um sinal de elevada perfeição espiritual, existindo numerosas tradições de místicos magos que tendo sido em sua juventude de elevada estatura, foram-se reduzindo gradualmente até chegar a proporções minúsculas, desaparecendo finalmente. 

“Quando se começou a falar da consagração da nova estátua a Maitréia, o Tachi-Lama3 formulou o desejo de que Kyngbú-rimpotché procedesse a cerimônia, porém, este declarou que morreria antes que a estátua estivesse terminada. O Tachi- Lama, disseram-me, suplicou ao eremita que retardasse até então a sua morte, a fim de que pudesse consagrar o templo e a estátua. Semelhante pretensão poderá parecer bastante estranha a um ocidental, porém, o fato está mui de acordo com a crença tibetana de que os grandes místicos podem escolher o momento de sua morte. O eremita diante do pedido de seu discípulo, o Tachi-Lama, prometeu oficiar no dia da consagração. 

“Então –ou seja, um ano depois de minha partida de Chigatsé– templo e estátua estavam terminados, fixando-se a data para a inauguração. Chegado o dia, o Tachi-lama enviou uma magnífica liteira e uma escolta a Kyngbú-rimpotché para o conduzir a Tachi-lumpo. Os homens da escolta viram o eremita ocupar seu lugar na liteira, que foi logo fechada, iniciando-se a marcha. 

“Durante esse tempo, alguns milhares de pessoas haviam-se reunido em Tachi- lumpo, a fim de presenciar a cerimônia, e qual não foi a sua admiração quando viram chegar a Kungbú-rimpotché só e a pé! Ele atravessou o templo, em silêncio, adiantando- se para a gigantesca estátua até tocá-la e nela fundir-se gradualmente. Um pouco mais tarde, os portadores da liteira, seguidos da escolta, chegaram; a porta da liteira foi aberta, porém dentro dela não havia ninguém. Desde então, nunca mais se ouviu falar do asceta”. 

Fenômenos semelhantes a este aconteceram a H. P. B.: 

Entre eles figura o que foi relatado por Vera P. Jelihovsky, irmã de Blavatsky: “Tenho de Helena outra carta escrita em 1881 de Meerut, além de Allahabad, depois de uma grave enfermidade. Seus amigos iam levá-la para o campo, quando receberam ordem de abandonar lugares povoados e interná-la na montanha. “Ali encontrareis certos indivíduos – lhe disseram – que vos guiarão aos bosques sagrados de Deoband”. Eis aqui uma passagem da carta que a mesma, me escreveu três semanas depois: “Perdi o conhecimento e não conservo recordação alguma a não ser de que fui levada em palanquim até um grande cimo. Encontrei-me recostada em lugar espaçoso, talhado na rocha viva e sem outros objetos, a não ser, algumas estátuas de Buda e vasos apropriados onde eram queimados agradáveis perfumes. Um ancião de alva túnica inclinado sobre mim, dava-me passes magnéticos, que enchiam todo meu ser de um bem-estar indescritível. Tive tempo apenas de reconhecer nele o lama Delo-Durgai, a quem havia encontrado no caminho dias antes e me havia dito que nos tornaríamos a ver em breve. Logo caí em estranho sono e quando despertei estava de novo ao lado de meus amigos, já curada tanto de corpo como de espírito”. 

Nunca foi permitido aos seus amigos ingleses nem aos naturais que a seguissem em tais expedições misteriosas, tidas como para visitar a algum ser superior. Apesar desta convicção por parte dos que a rodeavam, ela nunca deu a entender coisa alguma a respeito. Entretanto, em uma de suas primeiras cartas de 1879, relata a presença de um desses Seres, em uma de suas viagens com o coronel Olcott, entre restos de antigos templos”. 

Caso análogo, quanto à existência dos Jinas ou Seres superiores no país de Gobi ou Shamano, é o seguinte, que também transcrevemos de Místicos e Magos do Tibete: 

“Certo dia o príncipe Sidkeong-tulku, Daling-lama e eu, conversávamos no bungalow de Kewzing. A palestra convergiu para os ascetas místicos. Com fervoroso e impressionante entusiasmo, o impassível lama nos falou de seu mestre, de sua sabedoria e poderes sobrenaturais. O príncipe, por sua vez, experimentava a veneração que irradiava das palavras do lama. Ademais, Sidkeong nutria, naquele instante, projetos de matrimônio com uma princesa birmana. “Lamento”, disse-me ele em inglês, “não poder consultar a tão excelso nadjorpa, porque me poderia dar um bom conselho”. E depois, dirigindo-se ao gomtchen ou lama, acrescentou: “É pena que vosso mestre não se encontre aqui, pois tenho grande necessidade de um sábio clarividente como ele”. O gomtchen respondeu com sua frieza habitual: “Trata-se de assunto grave?” “Importantíssimo‟, replicou o príncipe. “Nesse caso, podereis receber dele a resposta que desejais”, concluiu o gomtchen. 

“Eu imaginei que se tratava de enviar-lhe uma carta-consulta por algum mensageiro e ia observar a enorme distância que era preciso para alcançar o Tibete oriental, quando fui surpreendida pelo estranho aspecto que acabava de tomar o rosto do lama. Seus olhos estavam fechados; extremamente pálido, seu corpo se contraía. Alarmada, tratei de logo ir em seu auxílio, temendo um acidente repentino, porém, o príncipe me conteve, dizendo: “Não o toqueis. O gomtchen cai com frequência em transe. Se violentamente o tirardes desse estado, pode adoecer e até morrer”. Permaneci, pois, quieta, contemplando o homem que continuava em estado de transe. Seus traços fisionômicos haviam mudado por completo; seus olhos se abriram tomando para mim uma nova e surpreendente expressão. O príncipe fez um gesto de admiração. Com efeito, aquele que em tal momento tínhamos diante de nós não era o lama de Daling com sua fisionomia habitual, mas outro ser completamente desconhecido, que abrindo com grande esforço os lábios, exclamou com voz diferente da do gomtchen: “Não vos preocupeis com o caso, porquanto tal problema jamais terá solução‟. Depois de tais palavras, cerrou lentamente os olhos; alteraram-se seus traços e de novo voltou a ser o lama de Daling com sua fisionomia habitual. Recusando nossas perguntas, retirou-se em silêncio cambaleante e abatido pela fadiga. “Sua resposta carece de sentido”, replicou o príncipe. No entanto, ou por causalidade, ou o que quer que fosse, o futuro demonstrou que, desgraçadamente, a resposta “tinha um sentido”. O problema que, com efeito, preocupava o jovem maharajá se referia à sua prometida e certa ligação que o mesmo mantinha com uma jovem de quem tinha um filho, laço que não desejava romper casando-se com a princesa birmana. O problema de tal duplicidade se resolveu por si mesmo: O príncipe morreu antes de realizar o enlace projetado”. 

Para finalizar este capítulo e, embora que nem sempre estejamos de acordo com as teorias e problemas da Sociedade Teosófica (o grifo é do tradutor), citaremos os seguintes conceitos de C. W. Leadbeater, acerca de H. P. B. e dos Seres superiores ou Mahatmas que com esta se relacionavam. 

“A princípio, Mme. Blavatsky não falava tanto dos mestres como “dos Irmãos” e por esse termo queria expressar, não só os grandes Chefes da Jerarquia, com seus servidores, os empregados, como se disséssemos, dos diversos departamentos aos quais ela olhava como iguais e tratava-os, mais como ajudantes e amigos do que como dignos de maior reverência. Para seu Mestre ela tinha sempre a maior devoção e obedecia-lhe imediatamente; porém, havia os camaradas de níveis subalternos, que às vezes a auxiliavam na produção dos fenômenos, que tão grande papel jogaram nos primeiros tempos da Sociedade. Havia um grave egípcio chamado Tuitit-Bey; um jovem discípulo a quem ela chamava de Benjamim, “o desditoso”4, um ser alegre e às vezes amigo de gracejar. 

Eu creio que Mme. Blavatsky empregava tais termos com menos precisão do que nós temos aprendido a empregar hoje, porquanto restringimos o vocábulo “Adepto” àqueles que passam a quinta grande iniciação –a de Asekha– que assinala o fim da evolução puramente humana; de fato se pode dizer que é o que eleva o Arhat acima da humanidade e fá-lo definitivamente um super-homem. Porém, eu ouvi a Mme. Blavatsky falar de “adeptos” que tinham sido iniciados e adeptos que não o tinham sido, empregando talvez a palavra no sentido apenas de privilégio imposto em ciência oculta, tal como se dissesse de um homem “adepto” na arte de pentear! 

Nossos Mestres quando tivemos a honra de entrar pela primeira vez em contato com Eles, já eram Adeptos no mais alto sentido da palavra –Adeptos Asekha– e, portanto, no nível onde lhes era permitido tomar discípulos, se quisessem. A diminuta proporção de Adeptos que foi possuída de tal desejo é daqueles aos quais corresponde verdadeiramente o nome de “Mestres”; e naturalmente é com estes com quem temos tido contato mais íntimo. Um pouco mais tarde, no ano de 1907, para estarem harmônicos entre si, quase todos os Mestres que conhecíamos intimamente, alcançaram a categoria de Chohan e assumiram a responsabilidade do governo de seus respectivos Raios. Aquele que alcança tal nível, geralmente não continua trabalhando com discípulos do plano físico, pelo fato de lhe não sobrar tempo para os atender; porém, nossos Mestres, por seu grande amor e compaixão, consentiram em continuar em relação com aqueles a quem tinham dedicado seus esforços e assim o fizeram até o presente.

Mesmo assim, não devemos supor que os Adeptos que tomam discípulos empreguem muito tempo com eles. O progresso do discípulo depende muito mais do firme e incessante efeito das vibrações do Mestre sobre seus veículos do que da menor parcela de instrução direta que o Mestre possa ocasionalmente lhe oferecer. Deve-se, portanto, considerar que os Adeptos –tão bondosos em nos tomar como aprendizes– tal coisa o fazem, não como seu labor cotidiano, mas em adicional ao mesmo labor. Eles ocupam-se da humanidade inteira e não de personalidades. 

Podemos imaginá-los influindo na opinião pública, provocando nobres sentimentos de simpatia, piedade ou patriotismo. Sempre vigiando cada um em sua própria linha, para aproveitar talvez a oportunidade favorável e fortalecer o bem e minorar o mal. O Adepto reflete-se sobre um certo grupo de gente –uma nação talvez ou parte da mesma. Assim como o sol se refletindo em um jardim faz com que as flores se voltem para ele, assim os corações dos homens sensitivos de tal nação se voltam para cima, embora sem saberem donde vem esse desejo, mas sentindo que a sua ação é boa e nobre”. 


1 Capítulo VII do livro O Tibete e a Teosofia. Compilação de Bruno R. para a revista Dhâranâ, n. 70-n. 98.

2 A respeito desta também excepcional mulher a quem temos de citar muitas vezes no decorrer destes apontamentos, o Dr. D. Arsonval, membro das Academias de Ciências e de Medicina, professor do Colégio de França e presidente do Instituto geral de Psicologia, diz no Prefácio da obra Místicos e Magos do Tibete: “Para muitos ocidentais, o Tibete se acha envolvido em estranha atmosfera. O “país das neves” é para eles a pátria do misterioso, do fantástico e impossível. Há lamas, magos, feiticeiros, necromantes e ocultistas de todas as espécies que moram naqueles lugares isolados do mundo já forçados pela própria natureza, já por sua própria vontade – lhes atribuem os mais sobrenaturais poderes, aceitando como verdades indiscutíveis as mais estranhas lendas. Dir-se-ía que tal país, plantas, brutos e homens podem fugir à vontade das leis estabelecidas pela física, a química, a fisiologia e até ao simples bom senso. “É natural, pois, que os investigadores entregues às rigorosas disciplinas do método experimental não tenham dado a tais narrações, maior interesse do que o relativo e pitoresco dos contos de fadas. Tal era o estado de meu espírito até o dia em que tive a sorte de entrar em relações com a senhora David-Neel. A célebre e valorosa exploradora do Tibete preenchia todas as condições físicas, intelectuais e morais que se podem desejar em um observador consagrado aos referidos problemas. Ela escreve e fala perfeitamente todos os dialetos tibetanos e residiu quatorze anos consecutivos no referido país e suas comarcas limítrofes. Professa o budismo e soube granjear a confiança dos mais elevados lamas. Seu filho adotivo é um lama autêntico. A Sra. David-Neel, em uma palavra, submeteu-se às aprendizagens e provas psíquicas de que fala e chegou a ser, como ela mesma assegura, uma perfeita asiática, na acepção da palavra, fato mais importante para explorar um terreno até aqui inacessível aos observadores estrangeiros. “Esta asiática, esta perfeita tibetana, entretanto, soube continuar sendo uma ocidental, discípula de Cartesio e de Claude Bernard e praticando a dúvida filosófica do primeiro, que deve ser na opinião do segundo, a base de todas as investigações do sábio. Assim, desembaraçada de toda ideia preconcebida, não estando polarizada por nenhum dogma nem doutrina, observou as coisas do Tibete com toda liberdade e serenidade de espírito. Nas conferências que a meu pedido fez no Colégio de França (cadeira também de Claude Bernard, meu mestre) pôde firmar, em conclusão que, “tudo quanto de perto ou de longe se relaciona com os fenômenos psíquicos e a ação das forças psíquicas em geral, deve ser estudado de igual modo que qualquer outra ciência. Não há nisso nada de milagroso, nada de sobrenatural, coisa alguma que deve engendrar ou alimentar a superstição. A aprendizagem psíquica racional e cientificamente conduzida pode levar-nos a resultados racionais apreciáveis. Por isso mesmo, as observações recolhidas a respeito de semelhante disciplina, embora seja esta praticada hoje de modo empírico ou debaixo de teorias a que não nos submetemos, constituem utilíssimos documentos, mui dignos da maior atenção”. Tal coisa, como se vê, representa o verdadeiro método científico, afastado tanto do ceticismo como da cega credulidade”. Nota do autor.

3 No número anterior desta revista tivemos ocasião de citar o caso relatado pela Sra. A. David-Neel em sua obra Místicos e Magos do Tibete, embora que já o conhecêssemos de outras fontes –que por sinal lhe demos a interpretação iniciática que merece. Nota do tradutor. 

4 Muitos traduzem de modo diferente o apelido dado por H. P. B. ao ser que se conhece com o nome de Benjamim. Nós, porém, preferimos dar o de “desditoso”. Nota do tradutor.

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