Magnetismo animal em Cuba. Um passeio bibliográfico.

Pedro Marqués de Armas

Tradução de Javier Alberto Prendes Morejón

1.

Em 1839 apareceu em La Cartera Cubana o artigo “Magnetismo Animal”, assinado por “um discípulo de Mesmer”. Não sei de onde tomei a referência de que o desconhecido autor declarava ter praticado o magnetismo em Havana, mas resulta que a narração tem lugar em Paris e deve tratar-se de uma tradução. Mas discípulos de Franz Anton Mesmer houve também em Cuba. Aqui falaremos deles, de suas sonâmbulas com poderes de adivinhar ou antecipar acontecimentos, ou de ver, como no caso do texto de La Cartera, pelo olho da nuca.

Para qualquer mesmeriano, a vida é um prodígio regido pelo sol, fonte de tudo, sem cuja energia não haveria atração nem simpatia, nem os demais princípios que obram entre os corpos. Como na do maestro Mesmer –cujo nome soa em Cuba desde os tempos do Papel Periódico–, a concepção de seus seguidores não estará isenta de inferências histórico solares: “Existem realmente épocas em que vaga pelos ares o suicídio, a guerra, a revolução, o assassinato, que podem qualificar-se de epidemias morais e resultam uma ação estimulante e magnética”.

Com um pouco de sorte e paciência se descobrem na imprensa crônicas, relatos e anúncios curiosos. Lá por 1848 começaram a aparecer no Diario de la Marina os fragmentos do “Diário de um magnetizador” que operava em Havana pelo menos desde três décadas antes. O autor desse diário assinava como Francisco de Paula y Goizueta, e entre as curas que reporta –quase sempre em mulheres jovens– conta a da senhorita Cecilia Valdés, que então vivia na rua Prado. À primeira vista resistente, mais que nada pelo seu extremo abatimento e desesperança, o magnetizador induz nela, entretanto, um estado de sonambulismo –não existia ainda o termo hipnose nem nada parecido– e já em uma segunda visita a faz falar e contar suas dores, curando-a de “todos os seus males” após sete “magnetizações”.

Goizueta, que não perde oportunidade de fustigar aos médicos de Havana pelos seus errados diagnósticos e terríveis prognósticos sobre a saúde de Cecília Valdés (não seria, com efeito, a célebre mulata da Loma del Ángel?) conta que a jovem se converte logo em curadora, isto é, em médium (também não é o termo empregado): “É muito sonâmbula para consultar doentes, em cujas consultas não tem se equivocado ainda nem uma só vez: os vê a largas distâncias, e algumas vezes sem necessidade de vestimentas do doente”. De igual índole são outras curas que narra, mas melhor deixemos ao leitor a entrada.

Memórias e diários de magnetizadores foram todo um gênero na primeira metade do século XIX, e em Cuba –como veremos– não podiam faltar. Quem foi Francisco de Paula y Goizueta? Em um Catálogo do Arquivo Nacional (1954) se fala de alguns terrenos extramuros de sua propriedade situados na rua Desordenada. Seguimos buscando e se encontra que no Journal du Magnetisme da Sociedade de Magnetizadores e Médicos de Paris, se traduz ao francês, em 1850, uma aposta que lançara um par de anos antes aos médicos que tentassem desacreditá-lo. Apresentava com “Aposta magnética. Valente desafio de M. Goizueta aos médicos de Havana, de obter pela sua ciência o diagnóstico das doenças e os resultados terapêuticos que obtém pela clarividência dos sonâmbulos”, não pode evitar localizá-la. Ainda que pudesse parecê-lo, o seu não é de modo algum, bobagem, senão um esquema rigorosamente lógico. O magnetizador de Havana contava já, pelo que pode apreciar-se, com uma corte de “sonâmbulos” ao seu encargo, algo assim como uma gerência de adivinhos.

Eis aqui o desafio que lança:

A sociedade de magnetizadores de Paris inseriu ao texto o seguinte comentário: “Este valente desafio ao ceticismo se traduz do Diario de la Marina, periódico de Havana, de 17 de agosto de 1848. Esperamos que, ainda que antigo, este documento interesse aos nossos leitores, porque pinta o estado do magnetismo num país onde a propagação até agora tem sido muito limitada”.

Quando lançou aquele desafio já havia tido problemas, não só com os médicos, mas também com boa parte da sociedade ilustrada. Em uma ocasião foi convidado pela redação do Diario de la Marina para fazer demonstrações. Se dispôs com dois dos seus melhores sonâmbulos, mas nenhum deles entrou em transe, apesar de que o outro – assim como uma de suas videntes que se “comunicava” com ele à distância, desde Campo Florido– acertou em cheio, adivinhando os padeceres e até as roupas íntimas de alguns presentes, a junção gerou dúvidas e o fez saber à redação do periódico. Desde logo, respondeu airado, em carta que os punha de vai e volta.

A última notícia que temos de Goizueta é uma instância que apresentou ao governo solicitando autorização para dar lições de magnetismo. Para isso foi convidado pela seção de Instrução Pública a realizar um “teste prático de magnetismo”. O resultado foi negativo e assim se fez constar:

“Que embora o magnetizado se mostrou persuadido de que o magnetizado se encontrava submetido ao verdadeiro sonho magnético, a seção por razões poderosas acreditava o contrário, comprovado com as respostas do submetido ao magnetismo. A seriedade do ato e a conferência sobre a teoria do fluído afetaram acaso o ânimo do magnetizador com prejuízo da sua atitude e eficácia moral para completar seu compromisso; mesmo assim não é possível prescindir dos atos comprovatórios em que se há de fundar sobre matéria tão delicada a opinião desta Seção, que não acredita que o referido Goizueta se encontre em aptidão de dar lições de magnetismo”. (Gazeta de La Habana, 21 de julho de 1849).

Também não é uma baboseira, apesar de parecer, mas sim uma dilacerante decisão burocrática.

2.

Ao revisar a bibliografia cubana sobre sonambulismo –mesmeriano ou não– e magnetismo animal, ou seja, o publicado antes da emergência do “hipnotismo”, não deve esquecer-se essa brevíssima peça do Papel Periódico, “Raro exemplo de um sonâmbulo”, que algum antologizador percebeu –pese a sua origem do século dezoito– colocar ao início de uma antologia do conto cubano. Oxalá houvesse tradição assim, feita de peças soltas e anônimas e referidas não em Cuba, senão, como ocorre nesta área, a sujeitos que sonham com pássaros em Nova York e ao despertar encontram em suas camas ninhos inteiros de andorinhas. Mas a verossimilhança do transe sonâmbulo –seria uma non fiction, ou pelo menos, uma ficção em dúvida– chega com a linha seguinte: “As tinha pego a noite passada nas vigas de sua casa por onde subiu por uma escada muito alta”.

À citada peça anônima segue-se uma de Felipe Poey (do seu extraordinário Viaje a Rangel em 1858) que fascinava a Lezama e converte ao naturalista cubano em outro precursor de Kafka:

“Uma noite sonhei que tinha me convertido em escaravelho, e mastigava a erva com mandíbulas horizontais. Coisa estranha! dizia eu: antes movia o maxilar de cima abaixo e vice-versa, e agora o movo lateralmente. Quando acordei, pude lembrar-me daquele de quem escreve La Bruyère que sonhava ter-se tornado canário, que mudava as plumas e tirava suas ninhadas; pagava vinte e cinco pesos ao organista que educava aos pássaros, e deixava seus filhos sem educação”.

Mas sonhos, por mais raros, sonhos são, ainda que tenham algo de sonambulismo.

Em outro relato anônimo do Papel Periódico, “Notícia rara e curiosa sobre a estranha doença e duração de um largo sonho”, estamos já, não diante do sonambúlico, mas frente à variante mais duradoura e profunda: o letargo. Deixo aqui ligação à história daquele carpinteiro parisiense que quiçá não era senão um caso de catalepsia; ou talvez, pois ao não existir o conceito, não existia a diferença: um catatônico.

Na bibliografia a que viemos aludindo cabem textos a que apenas os títulos já nos incitam tanto como o conteúdo ausente, perdido acaso, e que recordam como o discurso médico seguia sendo um discurso insólito, fascinado com fenômenos da natureza e da fisiologia: “Maravilhas médicas: a catalepsia. Relato de uma catalepsia por um indivíduo que a padeceu”, que publicara o Diario de La Habana durante uma série de números em 1838.

A meio caminho, se não é que perdido entre o letargo e a catalepsia, apareceu em 1828 no Diario de La Habana em largo título “Sonambulismo. O célebre professor Hufeland refere em seu Diario Médico o caso de uma garota de Silésia que fazia anos que estava em letargo”.

Outra publicação que divulgou esses saberes limítrofes surgidos entre a Ilustração e o Romantismo que foram a fisionômica, o magnetismo animal e a frenologia, é Memorias de la Sociedad Económica Amigos del País, a revista da fisiocracia cubana. Além de um artigo sobre o frenólogo Gall e seu tenaz impugnador Fluorens, em suas páginas apareceram não poucas dissertações sobre o magnetismo de Mesmer. Uma das mais interessantes, “Do sonambulismo e do magnetismo animal”, corresponde à nona lição da “Psicologia de Arhens”, que a memorável publicação teve por bem traduzir e publicar em totalidade. Seguidor e crítico do Marquês de Puységur, quem tinha se iniciado jovem no mesmerismo, e que fazia cair em transe profundo aos seus criados, pelo que chamou sua técnica “sonambulismo artificial”; Arhens foi um conhecido expoente da filosofia alemã, afiliada à escola de Krause, de tanto impacto desde mediados do século XIX em Espanha e Cuba. Considerava, com razão, que o magnetismo podia ser útil em doenças que dependiam de uma alteração das “relações justas entre o espírito e o corpo (epilepsia, histeria, catalepsia e loucura) mais que nas afecções exclusivamente orgânicas.”

Arhens se estabeleceu na França onde ditou em 1836 um curso gratuito de filosofia, cujas lições apareceram no ano seguinte como Curso de Psicologia, sendo rapidamente traduzidos, como vemos, em Havana.

Mas em Memorias de la Sociedad Económica não ficou fora quase nada do pensamento da época, fosse traduzido pelos seus redatores ou tomado de outras publicações. Na matéria que nos ocupa, por exemplo, “Magnetismo: sua história e opiniões”, que apareceu antes do capítulo de Arhens. Foi publicado também parte da “História do descobrimento e educação de um homem selvagem ou primeiros ensaios físico e morais do jovem selvagem” que foi encontrado nos bosques perto de Aveyron, o que seria –andando o tempo– o relato fundacional da psiquiatria infantil, escrito em inícios do século XIX por Jean Itard. Como se sabe, Pinel declarou que L’Enfant sauvage (com este título seria levada ao cinema por François Truffaut, filme que valeu a Néstor Almendros um importante prêmio pela fotografia) padecia de uma demência incurável, enquanto Itard, médico do Instituto de Surdo Mudos de Paris, armado do seu método de “educação sensorial”, se empenhou em devolver-lhe algumas faculdades intelectuais.

Nessa década de 1840 apareceu também O homem e o desenvolvimento de suas faculdades ou ensaio de física social, obra fundamental do antropólogo belga Lambert A. J. Quételet, com a qual começa a biometria, isto é, a aplicação da estatística ao estudo das populações. Se somam textos de antropólogos como Malthus, Mortom e Zestermann, e de naturalistas como Curvier e Saint Hilaire.

Outro tanto fez o Diario de La Habana com a publicação de inumeráveis artigos sobre a tríade magnetismo-frenologia-loucura. Um dos mais importantes, paradigmático dessa etapa romântica, foi “Ideias médico-psicológicas. Influência da moral no físico e do físico na moral”, de Laurent Cerice, traduzido dos Annales Médico-psychologiques que ele mesmo fundara junto a Baillarger. Crítico, tanto da frenologia pelo seu excessivo materialismo, como do magnetismo pelo seu excessivo idealismo, quis deixar claro como e em que medida obravam corpo e alma um sobre o outro. Assim mesmo, apareceu intitulado “Mesmerismo”, em tradução de Albión, pseudônimo cuja origem desconhecemos. E por último, de Manuel Valdés Miranda, sem dúvidas o médico cubano que mais contribuiu à divulgação dos tópicos da medicina romântica (e talvez tradutor de alguns dos entes citados): “Das investigações de Mr. Moreau de Jonnès encarregado de considerar as luzes que a estatística médica pode ministrar com respeito à loucura”. Viajante incansável, geógrafo, antropólogo, historiador e estatístico, muito citado por Sagra Saco, Moreau de Jonnès realizou estudos sobre a Espanha e quase todas as Antilhas, e era membro de mérito da Sociedade Patriótica de Havana.

3.

Mas voltemos ao magnetismo. Dizíamos que existem referências muito recentes aos baldes e ímãs de Mesmer. Uma vez para elogiá-lo, como no artigo “Sobre magnetismo animal”, que apareceu no Diario de La Habana em 28 de outubro de 1826; e outras para criticá-lo, como no “Mesmerismo”, aparecido no mesmo diário em 25 de abril de 1828, sem assinatura, e apoiando-se seu autor em Mr. Thoret, cujas investigações e dúvidas sobre o magnetismo animal foi uma das primeiras demolidoras críticas à doutrina mesmeriana. Como diz o articulista: “anzol que mordem com facilidade muitos espíritos ilustrados”. E um bom resumo de sua revalorização na França pode ver-se no “O magnetismo animal em Paris”, da pluma de Alphonse Esquiros, que o Diario de La Habana trouxe em várias entregas em junho de 1844.

Tudo indica que nas quatro primeiras décadas do XIX, os magnetizadores tiveram pleno emprego, e que eram chamados em certas intervenções cirúrgicas. O grande anatomista e cirurgião dessa época, Francisco Alonso y Fernández, adscrito já ao modelo observacional, e à frente do Hospital Militar de São Ambrósio, não duvidava em utilizar o “sonho magnético” para atenuar e inclusive anular a dor em algumas operações. Se perguntava exaltado, nadando em um mar de acessórios:

“Os encantadores fenômenos de ótica, os encantos da acústica, o prazer que ocasionam os jogos elétricos, o pavor que infundem alguns experimentos praticados com a pilha Voltaica, o magnetismo, a física, enfim, não proporciona a vossa aplicação e amor aos estudos um manancial inesgotável de considerações importantes, utilíssimas, grandiosas, prazerosas?”

E assim era descrito o começo de uma operação na pessoa de A. L. M.:

“De 30 anos de idade e submetido de antemão, em presença nossa, ao influxo do sonho magnético e de sensibilidade absoluta, certificamos o seguinte: às 2 e 40 minutos foi magnetizada e adormecida a doente à distância de duas varas e em menos de três segundos. Então, para assegurar-se o operador da insensibilidade da paciente, lhe aplicou várias vezes ao pescoço a ponta de um estilete, e colocou debaixo do nariz um pouco de amônio concentrado, a cujas provas permaneceu imóvel, inalteradas suas funções, e sem sinal algum de percepção”.

Na década de 1840 os magnetizadores estavam em seu apogeu. O golpe vem a dá-lo certo descobrimento que acabava de fazer um dentista de Boston. Em 26 de dezembro de 1846 aparecia no Diario de La Habana o seguinte lapidário: “Substituto para o mesmerismo”, que oferecia em seu lugar um método para mitigar a dor mediante a inspiração de um gás que “parece demonstrar que é um admirável substituto para a fastidiosa função de magnetizar, a fim de fazer certas operações cirúrgicas”. Cinco meses mais tarde, em março de 1847, Vicente Antonio de Castro aplicava já os “vapores do éter” no Hospital São João de Deus em Havana e foi, de certo, uma operação de testículo, a primeira indolor intervenção.

A anestesia foi recebida com uma enxurrada de notícias e todo um seguimento dos resultados e polêmicas que suscitava seu emprego tanto na França como nos Estados Unidos. Em “Inspiração de vapores do éter sulfúrico” (Diario de la Marina, 27 de março de 1847), se insistia nos prós e contras do anestésico a respeito do transe hipnótico.

“É certo que por meio do magnetismo também se pode conseguir um resultado semelhante, como o provam diversas operações praticadas com o êxito mais completo; mas este método tem vários inconvenientes e não parece prometer-nos resultados constantes e certos, posto que muitas pessoas resistem a todos os esforços dos magnetizadores mais expertos; do contrário, deveria preferir-se a insensibilidade do magnetismo, porque não seria provavelmente de temer-se que produzisse nenhum dos acidentes que podem acontecer em certos casos o uso do éter; este como todos os demais agentes terapêuticos, sem dúvida deve cair mal a certas idiossincrasias ou temperamentos peculiares”.

Porém, em breve se impõe a evidência de que os efeitos deletérios do éter são quase inexistentes, e os contrariados, no geral, de escassa monta. Quando Dubois publica seu informe sobre o parto sem dor, que todos os parisienses celebram, é também traduzido em Havana, a dica está dada.

Ainda que as caricaturas e burlas sobre o mesmerismo viessem de mais longe, justo então –em meio da polêmica que suscita o “substituto”– se representa a peça de Breton dos Ferreiros “A Frenologia e o magnetismo” que, além de representar-se no Liceu Artístico, acontecia por muitos outros cenários e teatrinhos.

Não resultam tão exíguos os mesmeristas que tem transcendido. Nomes ilustres, ao que teríamos que adicionar o citado Goizueta, temos o honorável Dr. C. Cruscent –de Mataró (Catalunha)– que viveu longos anos entre Porto Rico e Cuba, percorrendo fazendas e estudando as águas, os solos, as variações barométricas e as “doenças reinantes”. Foi membro das sociedades parisienses de homeopatia e frenologia, da filantrópica-magnética e da mesmeriana, além de autor da “A coleta, a homeopatia e a alopatia”, publicado pela Sociedade Econômica em 1850. Ademais disso tratava os coléricos com seus produtos homeopáticos. Em Santiago de Cuba, onde residiu por quatro anos, assistiu a epidemia de cólera de 1852, curando –segundo as suas estatísticas– a mais de 90% de um total de 300 doentes. Tudo terminou em um sonoro pleito que o obrigou a retirar sua fórmula do mercado, voltando definitivamente a Barcelona.

Também, o de Francisco María Facenda, uma relação de cujos trabalhos magnéticos realizados em Havana apareceu em Breves notícias do magnetismo animal dispostas em forma de cartas por D.M.C. (Trinidad, 1847, Imprenta de El correo), livro que recebeu amplia publicidade, hoje, porém, impossível de encontrar.

Mas acaso o de maior reputação foi Sabino de Losada, mais conhecido como frenólogo, mas também fisionomista, magnetista e educador. A Revista de La Habana publicou em 1854 seu “Magnetismo. Doutrinas e procederes de Mesmer”, do qual tomei em Cuba estes apontamentos: “Defende a Mesmer das imputações de charlatanismo e destaca seu critério de que as doenças curam por sua própria natureza. Sustenta, sem crítica alguma, conceitos como influxo animal e emanação da matéria. Passa a citar seus aforismos, que qualifica também de procedimentos: o “toque entre sobrancelhas” em casos de epilepsias e catalepsias, e o “toque no peito” nas apoplexias. Cita sua frase: “Todos os gêneros de alienação do espírito vem sendo matizes de um sonho imperfeito”. E termina: “Temos expostos os princípios, métodos, sentimentos e o espírito do homem a quem a maior parte dos médicos de seu tempo consideraram um charlatão (…) Não vemos que os que tanto lutaram contra ele descobrissem coisa melhor; o único bem que fizeram foi igualmente diminuir o número de remédios engendrados pela Idade Média”. Com outro trabalho seu, “Tratado práctico de magnetismo arreglado”… não tive a sorte de dar. Nascido em Penzacola, em 1817, Sabino de Losada e Rocheabavle obteve em 1850 o título de Licenciado em Farmácia, deixando a meio caminho a carreira de medicina que iniciara em Paris, após o que volta ao seu país onde continua de boticário e frenólogo. Não obstante, estabeleceu Cátedra de Frenologia no Liceu Artístico. Escritor profuso e inquieto, membro da Sociedade Frenológica de Paris, se acertava o mesmo com Pinel que com Bouillard, os que o elogiam mais de uma vez. Era cunhado do doutor Julio J. Le Riverend, que o inicia na doutrina fisiológica e lhe oferece sua vasta biblioteca onde adquire seus conhecimentos. Faleceu em 1862, de difteria, rodeado de amigos e dos seguidores de uma conhecida tertúlia que organizava em sua casa.

Losada vem ocupar o posto vacante do catalão Mariano Cubí y Solé, de quem alguns –Calcagno e Martí, etc.– tem dito que praticou a frenologia e o magnetismo animal em seus anos cubanos, enquanto outros o negam, talvez por não ter-se encontrado documento que o valide. Ao declarar o número de anos que levava dedicado a essas práticas deu uma cifra tão exagerada, que terminou por confundir. Mas foi só a partir de 1835, quando se instala em Nova Orleans, que começou seu labor frenológico, o qual expande por todos os Estados Unidos e logo na Espanha. Pulicou, entre outros muitos, Elementos de frenología, fisionomía y magnetismo humano (1849), e La Frenología y sus glorias (1853), na qual estabelece as vantagens de ditas disciplinas, já que serviram ao seu juízo “tanto para eleger uma esposa ou um governante como para assinalar um assassino ou um louco”.

Cubí fundou em Havana o Colégio Buenavista, e junto a José Antonio Saco, a Revista Bimestre Cubana. No colégio, ficou impactado com a inteligência de um aluno chamado Torices, espécie de gênio aspergiano anterior a Solé y Camps –o célebre garoto prodígio de Manzanillo do qual deixei algumas postagens no meu blog– sobre o qual realiza esta observação:

“Jovem de dezesseis anos, traçava um círculo perfeito sem ajuda de nenhum instrumento, e indicava o centro com exatidão matemática. Sua capacidade para medir era colossal, como era também a configuração, a cujo extraordinário desenvolvimento deveu seus rápidos e prodigiosos avanços no desenho lineal e de perspectiva”.

Enfim, ainda que alguns assegurem que não manuseou cabeças em Cuba, tudo indica que tinha já conhecimentos frenológicos, como transluz a alusão aos tipos de centros de inteligência. Cubí tinha lido em Baltimore, onde viveu antes de transladar-se para Havana, as obras de George Combe –o grande continuador de Gall– e deve ter prosseguido esse tipo de leituras em Cuba, onde coincide, além do mais, com outro catalão dedicado já a tais ocupações: Magí Pers i Ramona.

Autor de A Ilha de Cuba, algumas considerações sobre as reformas políticas e econômicas que devem fazer-se em nossas Antilhas (Barcelona, 1863), Pers i Ramona passou seus melhores anos em Matanzas, onde se estabeleceu ainda adolescente em 1821. Multifacetado, por conjuntura, como tantos outros imigrantes, foi um exitoso alfaiate cujas peças de roupa se vendiam em todo o país. Logo se converteu em poeta, gramático, frenologista, magnetizador, e um largo et cetera. Em data tão recente como 1830 –calculava ele mesmo– “diagnosticou” um discreto caso de apego amoroso –o termo frenológico era “adesividade”– entre dois varões de Matanzas.

“Conheci em Matanzas dois jovens, cuja mútua amizade era tão excessiva que poderia ter-se tomado por uma monomania. A maioria das noites, estes jovens dormiam em uma mesma cama. Às vezes se sentavam em cima das pernas do outro, se cantavam e se davam beijos. À mesa se sentavam um ao lado do outro, e se falavam constantemente ao ouvido. A separação de um de ambos ao lado do outro, era a maior desgraça. Se um deles manifestava afeto em relação a outra pessoa o outro não podia dissimular os ciúmes intensos que lhes devorava. Este estado de exaltação durou alguns meses, o qual depois mudou para uma amizade razoável. Amizades desse tipo se veem muito entre as mulheres, pois parece que elas estão mais dispostas ou constituídas para isso”.

Quando deixou Cuba na década de 1840, Pers i Ramona avivou sua amizade com Cubí, junto ao qual traduziu e publicou algumas obras do gênero, estabelecendo a que se conheceria como “escola frenológica” de Vilanova i la Geltrú que, como tantas aventuras catalãs ligadas ao empreendimento –e aos mais díspares negócios econômicos e do saber– tinha seu ponto de partida em terras da América. Todos chegam jovens e adquirem esses conhecimentos nas prosperas colônias, onde metem cabeça nos mais diversos ofícios que logo importam à Península, passando não poucas vezes por Paris. Todos foram gramáticos do castelhano e mentalidades catalãs. Mas voltemos ao magnetismo, e agora, segundo a opinião de cubanos.

4.

Em carta que José Antonio Saco lhe fez chegar a Domingo del Monte em 1845, dava conta da curiosa deriva do professor Cubí, antes filólogo de nível: “Este homem é mais valente que um leão. Se declarou frenólogo-magnetizador; vai percorrendo as capitais da Espanha, e ensinando com grande estrépito a frenologia, e o magnetismo animal”.

Nem Varela nem Saco nem Luz Caballero, que reconheciam a importância do magnetismo terrestre, acreditavam no animal. Para Varela era “delírio”. Para Saco “bruxaria”. E Luz o qualifica de “charlatanismo”. Aí estão os aforismos de Luz, a quem tampouco convence a psicologia de Ahrens:

“Que emaranhado e envolvente está Ahrens em quase toda lição 7ª, sobre fisionomia e frenologia! Assim, não é estranho que a juventude, e ainda os homens ausentes de critérios e de profundos conhecimentos, não saibam com que carta ficar”. (Aforismo 324, Jul. 7-46).

Dos mesmerianos diz: “No magnetismo animal se vê como certos filósofos “puxam a brasa à sua sardinha”. Aludo que por aí já querem inferir qual será o estado da alma depois da morte”. (Aforismo 326, Oct. 27-46).

E para ironizar sobre Cousin: “Agora sim é verdade que creio eu a punhos cerrados no magnetismo animal; pois não pode deixar de ser Cousin o magnetizante e Tulio o magnetizado”.

Na década de 1860 eram já poucos que defendiam com seriedade o magnetismo animal em qualquer de suas variantes: Mesmes, Puységur, Deleuze, o Abade Faria, etc. Entretanto, uma nova corrente recorre o mundo e são cada vez mais aqueles que se associam ao espiritismo. Enquanto o mesmerismo se torna, em tratados e dicionários de medicina, capítulo histórico – agora se fala em eletromedicina, de correntes de Gaiffe e farádicas -, o espiritismo e a teosofia ganham terreno e põem em guarda os círculos médicos.

Não obstante, ainda circula algum título ingênuo ou pretensiosamente comercial: Manual de magnetismo animal e sonambulismo magnético, seus procederes, fenômenos e aplicações postas ao alcance de todos (La Habana, Imprenta El Fénix, 1881, 208 p), assinado J. F. Nobiatur e Lapau. Um desses que por mais que se busque, saltará só sua remota referência na bibliografia de Trelles. Nobiatur e Lapau é o anagrama do licenciado José Florencio Turbino e Paula, mestre do primário e higienista vegetal que, pelo visto, também hipnotizava. Em 1883 reuniu parte de seus trabalhos do ramo agrícola em Tratado completo de floricultura com os segredos para injetar e obter formosas flores (La Habana, 1884) e ainda nos surpreendia com Arboricultura e floricultura cubana: com uma descrição das árvores, arbustos, lianas, plantas aromáticas e de jardinagem, indígenas e exóticas, seus nomes comuns e botânicos (La Habana, Imprenta “La Universal” de Ruiz y hermano, 1894) e até com um Tratado sobre as galinhas, pombas, canários e os rouxinóis [s. n.]… E não sigo, pois são uns quantos e todos largos.

Para a temporada de 1881 temos o espetáculo, assim anunciado no Diario de la Marina: “Do magnetismo humano e físico experimental”, a cargo do célebre magnetizador D’Anico, a quem apresentaram como consumado artista científico. Começa a época das grandes funções teatrais de magnetizadores e ilusionistas que são por sua vez médicos (ou dizem sê-lo) e apelam à legitimidade científica de suas práticas, atuando para o público mais amplo, como também, ante as sociedades de psiquiatria. O bolonhês Prieto D’Anico foi um dos mais conhecidos. Voltava de México, onde havia tido um êxito clamoroso. Não será o primeiro, nem o último dos grandes hipnotistas populares que passará por Cuba.

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