Minha breve história no Esoterismo – os Encantos e Desencantos

Javier Alberto Prendes Morejón

Parte I – Do Choy Lai Fut ao Hatha Yoga

Em decorrência de ter-me afastado das práticas de Kung Fu, em certa academia de São Paulo, donde se ensinava o estilo Choy Lai Fut, por conta sobretudo de uma desavença com o Sifu (Mestre), além de algumas outras considerações, tais como o fato dali nada aprender-se da cultura chinesa e da influência budista nessa arte marcial; o caráter particularmente comercial de tal iniciação guerreira, donde todos e qualquer um, pese a evidente inabilidade, poder adquirir a faixa preta, apenas por frequentar regularmente e, claro, pagar as matrículas; o pouco preparo em se aprender realmente a lutar, do ponto de vista da vida real, com as técnicas originais de Kung Fu, dando-se ênfase mais do que tudo aos Katis (coreografias marciais imitando os gestos dos animais); e outras coisas mais, como a excessiva competividade e inveja entre certos praticantes uns com os outros – tudo isso fez-me desencantar com a aquela bela arte marcial, ou antes com a instituição que a professava, até hoje sentindo saudades dos Katis, que eram para mim a coisa mais bela naquele tempo.

Kung Fu

Não podendo estar sem praticar alguma atividade física, por demanda de minha atração aos esportes, através de um amigo fui levado a conhecer o Hatha Yoga, ao redor dos meus 21 anos, numa academia no Centro de São Paulo, com a excelente professora Rosana Khouri. Tendo já largos anos de experiência na Capoeira Angola – espécie de luta iniciática afro-brasileira criada na Bahia, baseada em golpes ilusórios ou mayávicos, cujos principais expoentes foram Mestre Pastinha e Mestre Bimba, este último criador da modalidade conhecida como Capoeira Regional, sendo a tradicional a Capoeira Angola -, pareceu-me o Hatha Yoga fácil, exceto algumas posturas que exigem demasiada e avantajada condição de alongamento e plasticidade; diversas das posturas do Hatha também estavam presentes nos movimentos praticados na Capoeira. O ambiente tranquilo, perfumado com incenso, com tatames, e música mântrica, pareceu-me algo profundamente agradável. Somava-se a isso a locução verbal da tutora, numa modalidade suave, que surtia um efeito hipnótico que induzia à calma e ao relaxamento.

Roda de Capoeira

Começava-se a aula com a entoação do mantra Om, repetido três vezes, depois do qual começava a prática física. Logo vieram os exercícios de respiração ou Pranayamas, a meditação de alguns poucos minutos e as visualizações mentais. Tudo isto pareceu-me descortinar um novo horizonte. Havia uma grande diferença entra a Capoeira e o Hatha Yoga. Pareceu-me esta, a princípio, uma prática mais espiritual. Tempos depois pude verificar que o Yoga, dividido em várias modalidades, era um sistema esotérico hindu (um dos seis Darsanas ou escolas filosóficas da Índia), com vasta literatura a respeito, e com origem histórica desconhecida, mas muito anterior à Jesus Cristo.

Hatha Yoga

Patanjali é o nome do sábio Yogue e gramático que sistematizou o sistema do Yoga na obra “Yoga Sutras”, que sintetiza o Yoga em oito passos. Foi-me apresentado e comecei a estudá-lo, com as naturais dificuldades de um neófito não versado na fraseologia e alegorias orientais. Foi, então, que tomei ciência do termo “Samadhi”, oitavo passo daquele sistema, e do fato de ser o Raja Yoga a modalidade superior. Tempos depois compreendi que o Raja cuidava da integração da alma ao espírito, enquanto o Hatha cuidava apenas do aspecto físico, sendo uma preliminar com o intuito de preservar a saúde e preparar o praticante para as posturas meditativas; não era mais do que um proêmio, e por ele, por si só, não se poderia chegar ao Raja – um e outro são opostos diametrais. Antecedia aos Asanas (posturas), as observâncias éticas e religiosas (Yamas e Niyamas); e seguia-lhes os Pranayamas, para só depois avançarmos em Pratyahara, Dharana, Dhyana e finalmente Samadhi, apanágio de um esforço contínuo e supremo de renúncia, pureza e Vontade, que muitas vidas poderia demandar. Comecei a levar em conta as milenares doutrinas do Karma e da Reencarnação.

Passei a tornar-me, assim, místico, e introduziu-se em minha alma o desejo intenso de lograr o Samadhi e ser, em consequência, um Iluminado ou Andrógino Perfeito. Anos depois, quando finalmente conheço a Teosofia, é que a profundidade dos conceitos se alarga e minha visão se amplia gigantescamente.

Começo a frequentar as aulas com tal tutora, de coração muito bondoso, de voz doce e espírito materno. Logo converto-me em um de seus melhores alunos – o que, porém, não era muito difícil para quem desde muito pequeno praticou diversos esportes e em todos também se destacava. Passaram-se meses e logo surgiu a ideia de frequentar o curso de formação de professores com o Guru da minha professora, chamado Cláudio Duarte, que dava aulas na Paulista, Av. Brigadeiro, São Paulo.

Nesse momento de minha vida, já havia começado a praticar também dança contemporânea, e vivia entre essas duas paixões, além da poesia. As aulas começam; a turma conta com aproximadamente vinte e cinco alunos, uma boa parte deles com mais de quarenta anos. As lições eram dadas a partir de apostilas feitas pelo próprio Guru e das perguntas dos alunos. As práticas de Asanas eram particularmente intensas e muito boas, cada aluno diferindo em sua capacidade de executá-los, havendo bem poucos capazes de ir mais fundo, sobretudo no que tange à permanência. As aulas teóricas soam como revelações para mim naquele estágio de minha vida. Que tivessem sido os deuses (uma “humanidade” superior, digamos assim, vista como divina pelos homens primitivos) a dar aos homens a Ciência do Yoga; que fosse possível sair do corpo e encontrar-se com diversos seres; que fosse possível resistir ao fogo, ao frio extremo; que fosse possível levitar, tornar-se invisível e transmitir os pensamentos, etc. etc., fizeram-me considerar o que antes para mim era uma incógnita. O homem não era tão só esta mísera forma de barro limitado à percepção dos cinco sentidos. Tais fatos não eram “milagres” nem muito menos “obra do Diabo”, mas possibilidades absolutamente naturais quando se dispunham de certos métodos de treinamento.

Nesse interim, tive três grandes influências: o primeiro era um psiquiatra chamado Roberto Shinyashiki; o segundo era Gurdjieff e seu discípulo Ouspensky; o terceiro era Osho.

Roberto Shinyashiki agarrou-me pelos discursos motivacionais e certas observações psicológicas, e graças a um de seus livros, em que citava a Bíblia, é que decidi estudá-la, pois antes disso recusava-me a lê-la e a acreditar na religião católica, e de modo geral nas religiões. Sigo sem acreditar nas religiões, particularmente as cristãs, mas há muito não acho mais inteligente não ler as Sagradas Escrituras, quer do Ocidente ou do Oriente – muito pelo contrário, agora quero lê-las todas. De fato, passei de ateu (simples negação do fanatismo religioso que cai, por sua vez, no ceticismo materialista, igualmente reprochável) a agnóstico (pois se não podia provar a existência de “Deus”, também não podia negá-la) para só depois entrar no ocultismo (porque há muito mais do que nossos efêmeros cinco sentidos podem observar e porque tudo provém de uma Fonte desconhecida ou Abismo). Tive, assim, que contradizer-me diversas vezes, e há tempos vejo com bons olhos aqueles que se contradizem, pois ao menos estão buscando chegar a alguma verdade, e de erro em erro é que chega-se ao acerto, assim como de dor em dor é que alcança-se a sabedoria.

Depois conheci Gurdjieff e Ouspensky e passei a considerar o referido psiquiatra como pertinente às massas mais afeitas ao emocionalismo, e muito preocupadas com o sucesso material e amoroso. Estes dois russos eram místicos e apresentam ideias muito mais profundas e incomuns – ao menos comparado aos médicos ocidentais, que raramente transpassam o fisiologismo. Logo li algumas de suas obras e comecei a frequentar uma associação, na rua Augusta, que ensinava os saberes legados por Gurdjieff; mas logo me enfadei – não do russo, mas da instituição. Cheguei ao ponto de buscar prestar atenção em meu corpo, minhas ideias e emoções constantemente, em ócio ou não, em casa ou nas ruas, como era sugerido. Mas tudo isto ainda era difuso para mim.

Logo a seguir deparei-me com Osho, o guru indiano tão polêmico e adorado sobretudo pelos ocidentais. Estes três referidos autores eram ambos famosos; o primeiro deles apenas no Brasil e no meio profano, e os outros no meio místico e mundo afora. Nada conhecia dos grandes Iluminados da Índia, a não ser Gautama Budha e Patanjali, mas muito vagamente, e Osho pareceu-me atrativo e cheio de coisas novas aos meus ouvidos de estudante incipiente; depositei nele grande confiança. Pouco depois o descartava como charlatão e pseudo-guro.

Graças a ele, porém, comecei a meditar intensamente. Durante quase dois anos meditei diariamente, no auge chegando a dedicar quatro horas de meditação contínua e uma hora contínua praticando algum Asana, além de ler, fazer aulas de Hatha e conversar sobre esoterismo, com particularmente um amigo. Duas horas meditava sentado com apoio para os pés, e duas horas deitado, na postura do morto. Variava nos objetivos internos da meditação: ora visualizava um ponto no meio da cabeça com uma luz saindo entre as sobrancelhas (para estimular a Glândula Pineal ligada ao “terceiro olho”, o uraeus mágico), ora observava o ar entrando pelas narinas, ora focava o olhar na ponta do nariz, ora fitava largo tempo uma vela acessa, ora imaginava-me fora do corpo, ora concentrava-me nos chakras, ora nos nadis, etc. Pronto advieram os primeiros sintomas e constatações, o mais interessante dos quais era o fato de após uma hora o corpo tornar-se sensivelmente eletrizado; depois de duas horas ainda mais e ao término de quatro horas sentia-me uma bateria elétrica efervescente, aquecendo-se consideravelmente o corpo e formigando a pele por todas as partes. Logo comecei a sentir fortes palpitações nos diversos chackras, a começar pelo Muladhara; depois pelo Swadhistana, o Anahata e o Ajna – estes o que eu mais sentia palpitar. Na região do estômago, passei a sentir fortes sensações oriundas dos sons externos: se fortes ou desagradáveis, sentia desagrado e mal-estar partindo dali. As vozes das pessoas logo passaram a evidenciar com notável visibilidade o estado mental e emocional em que se encontravam, tudo auferido pelas sensações que sentia nessa região, embora tudo isso de maneira não racional. A audição, a visão, o paladar, o tato e o olfato pareciam ter-se aguçado, sobretudo nas horas seguintes após as meditações, e uma sensação duradoura de calma invadira-me, e minha voz também tornara-se mais amena. Percebi que, por firme esforço de concentração, era possível acelerar a rotação dos chakras e até mesmo fazê-los girar em sentido contrário (o que não é aconselhável, pois constitui uma prática de magia negra). O estopim, por assim dizer, das práticas, deu-se em duas ocasiões: na primeira delas, estando eu na terceira hora de meditação contínua, sinto repentinamente, dos pés à cabeça, uma violenta torrente de eletricidade tomar-me o corpo, até enrijecer meu maxilar bruscamente; de pronto perco os sentidos e vejo uma árvore resplandecer, extremamente luminosa num fundo negro, como se fosse etérica, e de uma beleza ímpar; logo volto à consciência. A segunda ocasião mais proeminente deu-se da mesma maneira, com uma rajada elétrica subindo dos pés à cabeça, e perdendo os sentidos, mas desta vez é a audição que interfere: ouço não um som externo oriundo do quarto, mas provindo de alguma parte desconhecida para mim, e se apresentam diversas vozes sinistras, dizendo algo incompreensível, e sou tomado de pavor; acabo abrindo os olhos e sentindo-me desnorteado. O que teria sido aquilo? Seres de outro plano se comunicando comigo? Já hoje estou melhor situado da variedade de seres que povoam o mundo Astral, mas ainda não sei dizer com clareza o que fora aquilo… A última das experiências que tive, atípica ao comum dos humanos, fora treinando Hatha, onde na postura do gato, com o foco de concentração na inspiração e expiração, e ondulando o corpo para baixo e para cima, até fazê-lo com demasiado vigor e certa violência, perdi os sentidos e apenas vi um espaço negro com uma luz branca no horizonte, à qual sentia-me atraído a ir, enquanto percebia que meu corpo continuava a balançar e respirar sem eu dar-lhe comando algum conscientemente; uma experiência que durara poucos segundos, embora das mais vívidas que tive até hoje, e após a qual tive de repousar longos minutos; todo restante do dia senti meu corpo num tipo de torpor estranho, que pouco a pouco desapareceu. Pareceu-me que meu coração iria parar de bater.

Após alguns meses de práticas, deu-se o curioso fato de sentir e ouvir sutis estalos na cabeça, quando já estava a bastante tempo em concentração profunda; e certo dia, senti uma onda de compaixão para com todos os seres viventes, que produziu um efeito incomum, durante sete dias, de fazer-me sentir extremamente sensibilizado para com a dor humana, chorando constantemente. Nunca me senti tão calmo e equilibrado emocionalmente.

Noutra ocasião, estando numa sala de uma academia de Hatha, e formando um círculo com alguns participantes, abro os olhos e fito com surpresa um ondulamento no espaço, como se se trata-se de ondas etéreas, que circundava o grupo. Seria isto que chamam de éter?

São essas as minhas principais experiências psíquicas com Hatha Yoga e práticas de meditação. Em nenhum caso as quis produzir.

Do que está dito acima, tirei algumas conclusões naquela época: primeiro de tudo, tais práticas, sem um Guru esclarecido e vivenciado, eram de todo perigosas, e mesmo com uma boa orientação. Estava ciente, desde pouco antes, de tais perigos, sobretudo o da insanidade, à qual tantos praticantes de Yoga, especialmente de Hatha, haviam chegado, ainda mais tratando-se do despertar precoce e por meios violentos de Kundalini, o Fogo Serpentino enrodilhado no Muladhara Chackra. Soma-se a isso o não preparo moral e intelectual em que a maioria dos praticantes se acham, assim arriscando-se inadvertidamente em coisas que desconhecem por inteiro. Igualmente, percebi a futilidade egóica ou egolátrica (Ahamkara) com que muitos se projetam no universo espiritualista com a intenção de adquirirem, sobretudo, poderes psíquicos (Sidhis inferiores) para assim sentirem-se seres supostamente evoluídos. Mais tarde passei a conhecer melhor a literatura hindu e budista e dei-me conta das diversas advertências a respeito dos Sidhis. Por fim, ficou nítido que ao Hatha não deveria dar-se tanta importância; era ao Raja-Yoga que realmente deveríamos aspirar. Com efeito, o Hatha Yoga está para o Corpo, como Jnana Yoga para a Alma e o Raja Yoga para o Espírito, sendo três os Caminhos da Vedanta: Karma Yoga (a vida ordinária, da Ação, à qual a maioria está presa), Bhakti Yoga (a Devoção, o Amor ou Justiça) e Jnana Yoga (o Conhecimento Divino, a Sabedoria). Eis a correlação.

Desde então, sem auxílio algum para conduzir-me em tais Asanas e meditações, preferi abster-me delas e esperar o tempo oportuno para retomá-las. Nesse tempo também logrei, durante vários meses, abster-me de relações sexuais e do hábito da masturbação, que alguns sérios ocultistas apontam como origem de desiquilíbrios mentais e inclusive da criação de elementais artificias que vem a prejudicar-lhe. Tal ausência, ao contrário de ser penosa, mostrou ser muito benéfica. Faltava-me, como ainda me falta, abster-me da alimentação carnívora, pois esse é um regime contraindicado pelos verdadeiros Yogues. A respeito da alimentação, tomei ciência, anos depois, que deveríamos fazer a transição da alimentação carnívora para a vegetariana, e desta para a frugívora, muito embora tenha-se também de levar em conta os quatro temperamentos humanos, que influenciam na dieta alimentar, ou seja, o melancólico, colérico, sanguíneo e fleumático, por vezes um misturando-se com outro.

Em termos filosóficos-sociais, passei a considerar que só dedicando-nos coletivamente à meta do Samadhi, ou a uma genuína espiritualidade além das divergências religiosas, é que poderíamos chegar a uma superação das tantas revoluções históricas que nada mais haviam engendrado do que novos estados de caos e desordem. Havia de ser, logo, a mudança interior, aquela que por corolário faria instaurar a harmonia social, conceito que passei a identificar, a partir do estudo teosófico, com o termo Sinarquia. Somente quando todos fôssemos Budhas ou estivéssemos perto desse estado, é que vingaria a Utopia; seríamos então como cristais puros. Cedo ou tarde haveria isto de suceder. Além disso, após uma Kali-Yuga (época atual) compete uma Satya-Yuga (o futuro mais ou menos longínquo da humanidade, donde estaremos mais integrados a Nous ou Espírito, o Eu-Superior, Atma-Budhi, a Mônada imperecível).

Mas as coisas com o Hatha Yoga levaram também a um grande desencanto; primeiramente com o guru Cláudio Duarte, o ministrador do curso para formação de professores de Yoga, e em segundo lugar em relação ao universo da espiritualidade, tanto a Oriental quanto particularmente a Ocidental.

Este guru – que mostrou ser um falso guru, um dos tantos a ludibriar mentes fracas e ingênuas com almas com forte tendência à passividade e à passionalidade -, dava sinais de comportamento diametralmente oposto à espiritualidade. Nas aulas, debochava dos alunos, principalmente de certas senhoras; enaltecia-se dizendo que não sentia frio, calor, que quase não dormia e outras asneiras mais; e claro, envolvia-se com as menininhas que frequentavam o espaço – sina do erotismo camuflado de espiritualidade, tão em voga nos meios New Age dos dias atuais – e sempre à espreita dos seios e bumbuns das alunas. Além disso, mostrava ser um homem violento, conforme várias histórias por ele narradas, e queria por que queria manter todos presos ao seu pressuposto manancial de sabedoria, dando a entender que no mundo afora, no Brasil, nada havia de melhor. Praticamente todos os alunos diziam, de modo mais ou menos claro, que era uma pessoa com temperamento difícil e dúbio; porém, apesar de todas as contradições que apresentava, de todo incompatíveis com a posição que assumia, o que os alunos punham por cima era o diploma da formação do curso, e logo o começar a trabalhar e ganhar dinheiro com Hatha Yoga – a constatação do fato e a coerência moral de nada valiam. Outra coisa molestou-me demasiado naquele círculo: achavam quase unanimemente e sentiam-se superiores aos outros meros mortais, por fazerem alguns meros Asanas e falarem de uma ou outra coisa mais ou menos esotérica, mais ou menos exotérica. Havia, sem dúvida, um ar de pseudo-superioridade latente. Um dos melhores momentos, e que amenizava todo o possível desconforto, eram os Satisangas (confraternização com frutos, doces e alimentos postos no chão) realizados a cada aula. Este era um hábito muito belo dos hindus. Na falta da floresta, restava a sala do prédio.

Comecei a perceber algumas respostas superficiais em suas explicações e outras que, feitas as minhas perguntas, fazia de conta não tê-las ouvido. Ficou claro também que não aceitava objeções à sua magnífica sabedoria. O extremo do desgosto deu-se quando, em certo dia, lhe faço uma pergunta que o desgostou, em nada ofensiva à sua pessoa, e de repente levanta-se furiosamente e começa a dar-me chutes nas pernas; levanto-me e então, esbravejando e espumando de ódio, põe-se a dar-me socos no peito e no rosto, querendo a todo custo que eu revidasse; porém, não havia meditado tanto para nada, e permaneci incólume, fitando-o nos olhos durante todo o tempo, até que ele vira as costas, claramente desequilibrado e consternado, e eu retiro-me do lugar dizendo-lhe que seria denunciado à polícia. Comigo retiraram-se duas alunas, revoltadas com o acontecido; porém, as duas com ele continuaram o curso. Enquanto isso, um grande amigo meu, que estava ao meu lado e segurou meus óculos enquanto ele me batia, permaneceu na sala, e durante alguns anos mais com o Guru até concluir sua formação. Se fosse um irmão de verdade, penso eu, bem possivelmente teria tomado parte fisicamente no caso ou, pelo menos, deixado de frequentar tal lugar.

Aquela primeira professora minha de Hatha, que eu tanto prezava, também ela continuou seu vínculo com tal criatura malévola. O mero fato de estar associada há tantos anos àquela pessoa mostrava o quão cega era – espero que tenha aberto os olhos. Mesmo tendo-lhe ameaçado denunciar à política, repensei dizendo-me a mim mesmo que o Karma ou a Justiça Divina era quem deveria dar-lhe a suprema lição; a retribuição dos atos, cedo ou tarde, deveria ser paga tim-tim por tim-tim. Com medo, porém, de que isso eu fizesse, teve a coragem de ligar para o Departamento de Letras, na Universidade de São Paulo, onde minha mãe leciona, ameaçando-lhe com o fato de sermos estrangeiros, embora residentes-permanentes neste país. Foi a gota d’água. Decidi algum dia desmascará-lo, e agora o faço por esta via que é de minha preferência – a escrita.

Abandonando o curso de formação – pois ele ainda disse que se eu quisesse voltar não haveria problema!, como se eu fosse estúpido para tanto… -, decidi abandonar a ideia de formar-me professor de Yoga e dedicar-me a outra grande paixão: a dança contemporânea. Vários anos depois, decidi retomar a ideia de formar-me professor de Yoga, e dessa vez encontrei um professor muito bem quisto nesse meio, e um dos mais famosos – Marcos Rojo, cujo curso de formação ou capacitação é muito mais bem-sucedido do que o daquele pseudo-guru. Este outro professor não me pareceu um charlatão; muito pelo contrário. Seu curso conta com diversos palestrantes muito bem estudados em seus respectivos temas de predileção; é pessoa simpática, muito bem-humorada e digna.

Uma coisa que deve ser dita, e que é sumamente importante, é que tais cursos de formação de professores duram em geral um ano ou dois, o que é exíguo para a formação de um iniciado; na verdade, não são iniciações de fato – é apenas uma formação elementar, superficial e ligeira para preparar minimamente o aluno a dar aulas; depois, como se diz, tem que se virar. Isso acontece sobretudo porque o apelo comercial está colocado à frente da própria formação, e porque os Gurus ocidentais só possuem um fragmento minúsculo de tal Ciência Esotérica, não tendo tanto assim a lecionar. A própria Academia requer, minimamente, quatro anos para graduar-se, e depois outros anos mais no Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado e Livre-Docência, para aqueles que desejarem, obviamente. E as escolas esotéricas, como a Maçonaria e a Teosofia, exigem uma iniciação por diversos graus que demandam pelo menos quatro anos; nas antigas Fraternidades de Mistérios, exigiam-se mais de vinte anos para sair-se como Homem Perfeito, tal como Pitágoras em sua iniciação no Egito. Que é, logo, um mero ano ou dois? De fato, é algo um tanto ridículo, para dizer pouco.

Por isso e por mais, tantos são os professores hoje em dia de Yoga, pois só basta pagar uma matrícula e frequentar as aulas durante um período efêmero…

Nessa altura de minha vida, ao redor dos vinte três anos, já havia abandonado o gosto por Osho – execrando-o em realidade – e Roberto Shinyashiki, mantendo-me simpatizante apenas de Gurdjieff e Ouspensky. Reservava-me o “destino” ainda outra iniciação, na verdade outra cilada, antes de dedicar-me tão só à Teosofia.

Parte II – Do Animismo New Age à Teosofia

Começando a fazer minhas primeiras performances de dança contemporânea em saraus, mistura instintiva de Kung-Fu com Capoeira Angola, Hatha Yoga e muito improviso, certo dia conheci um homem chamado Tiago Magnos, que adorava falar de Pós-Modernidade e Imaginário. O mesmo tinha um conceito sobre o Imaginário, chamado “Modelo do Imaginário”, onde em poucos parágrafos, em linguagem condensada, expunha alguns conceitos inventados por ele, mas cuja base estava em conhecimentos que adquiriu em suas formações espiritualistas, nomeadamente as referentes à tradição do candomblé, do espiritismo e da teosofia, pois era membro da Série Interna da Eubiose, embora há vários anos não frequentasse o Colégio Iniciático, e quase nada fala-se a respeito de Teosofia.

Era músico e tocava teclado; era também diretor da Neopardas Cia. de Artes, que ele levava adiante junto com sua esposa Aline Magnos. Ele era de Valinhos (Campinas) e ela era da Cidade Tiradentes (Zona Leste de São Paulo). Ambos conheceram-se na USP. Tinham um pacto amoroso inusual: ela poderia ficar com mulheres; ele poderia ficar com mulheres e com homens; ele ficava em casa e cuidava dos projetos culturais; ela sai para trabalhar e sustentava economicamente a família. Foi ele quem me disse que a maioria, senão todos os pais-de-santo, eram homossexuais ou bissexuais: tinham namorados e esposas.

Por ele ser esotérico, logo fizemo-nos amigos, e convidou-me a fazer parte de um curso por ele ministrado na “Escola de Artêstas”, em sua residência no Butantã (São Paulo). Participamos eu e meu então amigo íntimo e companheiro de casa, Ricardo Aparecido Silva, professor de capoeira, poeta e artista de dança contemporânea – era com os artistas, intelectuais e esotéricos que eu gostava e gosto e sempre gostarei de andar.

O curso pareceu-me denso e difícil de captar todas as nuances, no embrolho de conceitos “pós-modernistas”. Completamos o curso e pouco depois eu e Ricardo também passamos a ensiná-lo para outros que se associaram à dita “Escola de Artêstas”, inclusive minha mãe, a poeta, professora, tradutora e crítica literária cubana. A tônica era bastante mental e mais ou menos abstrata.

Enfim, entrei para a Neopardas Cia. de Artes como bailarino, e depois também como produtor. Comecei a escrever textos baseados nos conceitos por ele sugeridos sobre o Imaginário e outras coisas mais; e começamos a apresentar-nos na cena cultural paulistana, eu e Ricardo dançando e Tiago tocando teclado, com as suas músicas chamadas de “Ida Sonora”. Tempos depois associou-se a nós o Milton Rodrigues Santos, o “Tom Barão”, músico que tocava saxofone e gravou álbuns produzidos pelo Tiago, com a metodologia “Ida Sonora”, e a bailarina Cleia Plácido, entre vários outros.

“Ida”, era o método que utilizávamos para criar nossas performances e as músicas. Tratava-se de colocar um som repetitivo que evocasse algum objeto predeterminado, e com os olhos fechados buscava-se manifestar as impressões corporais e vocais que advinham das imagens despertadas na mente pelos sons; tudo isso era registrado em vídeo e depois anotadas as imagens visualizadas, constituindo-se um roteiro. Esse “itinerário imagético” era uma narrativa que poderia ser usada como mote para alguma obra artística, e os movimentos físicos surgidos como cenas coreográficas. Eis aí o método.

Avançando nos conceitos, criou-se a “Dimensão Contextual”, onde buscávamos construir personagens com o roteiro de imagens mentais. Falava-se, entre alguns, que aquilo poderia fazer “baixar” um ente qualquer. Era um método para acessar e manifestar o inconsciente. Naquela ocasião, nada sabia precisamente sobre a mediunidade. Cheguei a definir, em um texto que disseram-me que não deveria ser publicado (já hoje compreendo bem a apreensão), que o “artêsta”, como nos chamávamos (cujo símbolo era patas negras), era uma espécie de médium.

Acontece justamente que aquele que veio a ser meu tutor “espiritual”, afirmava ser visitado ou baixar – como se diz vulgarmente -, sobretudo, o Zé Pilintra, o Preto Velho e Exú, e vai saber o que mais!… Disse-me que quase na totalidade dos dias estavam presentes. Virgem como era eu a respeito desses assuntos, nada suspeitava dos perigos e enganos de que disso poderiam advir.

Avançando na história, terminei por fazer parte do círculo íntimo de sua família, e de tornar-me o seu pupilo. Começaram então os rituais. De tempos em tempos, tinha de comparecer à sua casa vestido de branco para fazer parte de um ritual, onde no chão achava-se inscrito um círculo com os doze signos do zodíaco e outras coisas mais. Sua esposa preparava-lhe comida, que era a “divindade” a que iria comer, e em certo ponto ela lhe dava um colar, usado somente nesses rituais e que marcava o início da incorporação. Então ele, com o santo baixado, instruía a mim e sua mulher sobre os projetos culturais, certas dificuldades de relacionamentos humanos e outras coisas mais, mas em verdade quase nada de ensinamentos esotéricos. Aparentemente a conexão desfazia-se abruptamente, e era necessário então repetir, por mim ou pela sua esposa, três palavras-chaves predeterminadas. Durante tais rituais, diversas vezes senti meu corpo ser vivamente eletrificado, sem saber com precisão do que se tratava. Depois do processo ritualístico, sentia-se o médium abalado e esmorecido, diversas vezes sendo obrigado a deitar-se na cama e dormir longas horas para recuperar-se. Deduzi, posteriormente, que os médiuns perdem boa parte de sua energia vital, que lhes é sugada ou vampirizada por entes do Astral, podendo e de fato prejudicando-lhes severamente a saúde, e ele de fato vivia reclamando de dores e inconvenientes físicos. Longe estava eu, naquela ocasião, de saber a diferença entre “mediação” e “mediunidade”, tal como explica brilhantemente Blavatsky.

A parte que muito me entusiasmava na época, era o hábito da dança com ele, em sua casa ou noutros lugares, em que “puxávamos o bonde”. Tal é a característica do Zé Pilintra: rei da dança, rei dos malandros, protetor das meretrizes, jogador e conselheiro.

Disse-me, certa vez, que quando criança ou adolescente havia visto um seu guia espiritual, que fora um dos membros passados de sua família, sobre o ar, e do qual emanava forte brilho que o deixou doente por alguns dias. Emitiu a opinião de que o Espiritismo havia se desvirtuado ao converte-se numa espécie de religião. Professava certo dom oracular, embora muito duvidoso e sobre coisas as mais efêmeras, e às vezes sobre coisas das quais a Teosofia já há muito havia anunciado. Tornei-me o “guardião” da entrada de sua casa, e convimos que eu estava ligado a Exú. Nada disse-me, porém, de que os cultos africanistas adoram, em verdade, os Espíritos da Natureza, ou seja, os Elementais, que pertencem a uma categoria inferior ao próprio reino mineral, quanto mais ao humano! A subserviência a tais “espíritos” sempre foi condenada pelos Adeptos da Boa Lei, a Magia Branca. Disse-me também que poderia dar-me poderes, como entortar o ferro (como se isso pudesse ser de alguma utilidade…). Chegamos a discutir porque havia me referido à estrela de cinco pontas com o vértice para baixo, como símbolo da Kali Yuga e da Magia Negra, e irritou-se por eu utilizar tal termo, como se se tratasse de uma questão ligada à cor da pele negra… coisa que não procede, pois a Magia Negra (ou má Magia) tem sido praticada desde tempos imemoriais por todos os tipos de raça, particularmente em seus períodos de decadência. Eis outro ponto que me consternava, e não podia crer que um teósofo estivesse a dizer tal bobagem.

Roda de Candomblé

Sua tutoria era, a bem dizer, uma salada mista de animismo candomblecista com animismo espiritista ao sabor de pitadas de mentalismo teosófico. É, desde logo, a característica própria do espiritualismo New Age, onde mistura-se tudo sem se ser coisa alguma, e onde cada um “inicia-se” por conta própria e com Gurus os mais duvidosos, sem regra nem disciplina verdadeiramente iniciática. Acrescente-se a tudo isso, o gosto irrefreável pela maconha, que dizia ser planta de preferência do seu Zé Pilintra. Durante aproximadamente três anos fui “filho” de Pilintra, como o mesmo me chamava, mas no fim as coisas não acabaram bem e, “por sorte”, desfiz-me por inteiro do animismo, nisso que pode ser considerado ainda meus primeiros passos no caminho espiritual, um tanto quanto tortuosos.

O ponto determinante para minha reviravolta no caminho esotérico deu-se quando num dia qualquer, o senhor Tiago apresentou-me uma foto do Professor Henrique José de Souza, dizendo-me que a olhava nos momentos difíceis da vida, e que este havia sido um homem que muito havia sofrido. Nesse momento, sem o saber, ele próprio concorria para nosso futuro rompimento.

Ao chegar em minha casa, procurei pesquisar tal indivíduo, e deparei-me com o site da Eubiose, onde havia e há alguns dos textos do Professor Henrique, também conhecido como JHS, dentre outros autores. Fui tomado de fascínio e admiração por seus conhecimentos eruditos e sua grande destreza literária. A partir dali comecei a buscar materiais via internet, comprar livros e logo cogitei entrar para a Eubiose.

Muito se alegrou que eu tivesse tomado conhecimento do esoterismo teosófico; agora ele tinha alguém próximo para conversar sobre tal área. Porém, ao manifestar-lhe que intencionava entrar para a Eubiose, não me encorajou; disse-me que ele como fonte era suficiente. Mas não era verdade. Pouco falava de real esoterismo, e certa vez disse-me que ele não era esotérico; que o esotérico era eu. Não dando-lhe caso, entrei para a Eubiose. Disse-me, porém, de antemão, sobre falhas da Eubiose e sobre o caso da espera do Avatara de Aquário, Maitreya, ter sido esperada para o ano de 2005; quando da ocasião, muitos o esperaram no templo de São Lourenço, mas o Avatara não veio – decepção geral para muitos eubiotas. Mais à frente eu mesmo teria, logo no início, de passar por um desencanto com o citado Colégio Esotérico, embora este seja o portador privilegiado de uma herança deixada pelo maior Adepto do século XX nos cinco continentes, conforme ouso afirmar, corroborado por outros: o Professor Henrique José de Souza.

Refletindo, dei-me conta que ele, apesar de eubiota da Série Interna, nada dizia sobre a mediunidade, tão criticada por Blavatsky e Henrique José de Souza, além de muitos outros ocultistas proeminentes. E isso era só a ponta do iceberg. Muitas outras coisas ele parecia desconhecer, não lembrar ou intencionalmente passar por cima. Não estava certo. Nos dias dessas reflexões, lá pelo ano de 2017, quando eu contava com vinte seis anos, disse a mim mesmo que não descansaria até estar inteirado das mais intrincadas questões esotéricas. Era o começo do último momento da ruptura com o animismo.

Nesse meio tempo, viajei a Cuba, meu país de origem. Estando em Habana, capital, cidade da minha procedência, e estando com meu pai, que havia se tornado babalaô há alguns anos, visitamos a casa de Ifá à qual ele pertencia, e apresentou-me o “Padrinho”, velho amigo dele. Curioso e querendo aprender sobre esse sistema adivinhatório africano, decidi fazer a iniciação básica, preliminar, chamada Mano de Orula, depois da qual lhe entregam alguns objetos para estar no seu cuidado. Queria vivenciar tudo que fosse relativo à espiritualidade.

O ritual de iniciação consistia em cantos e no sacrifício de algumas galinhas, que depois de mortas e cozinhadas, tínhamos que comer-lhe o resto de carne que lhe sobrara na cabeça, coisa que me pareceu asquerosa e o fiz à minha revelia. O próprio abate de animais, como método ritualístico para a comunicação com seres invisíveis, aos quais se pede favores e respostas, através do poder do sangue, pareceu-me abominável. Pouco depois passaria a condenar todas as tradições que apelavam a tais rituais, pois como era possível haver magia boa e elevada, se tudo dependesse da morte de inocentes animais? Não haveria outro meio? Muito diferente, de fato, é a Teurgia, como vim descobrir.

Depois do sacrifício, entrávamos numa sala com vários babalaôs. Se adivinhava então o Orixá e o Anjo da Guarda, no meu caso Ogum e Exú ou Ellewá. Logo os babalaôs falavam, um por um, sobre as características ligadas a esses dois seres, acrescentando conselhos. Findo o processo, um tanto demorado, dava-se uma pulseira com as cores amarela e verde.

Mas percebi, mesmo no pouco tempo que ali estive, um erro doutrinal. Dissera o babalaô-chefe, o Padrinho da casa, sobre a impossibilidade de voltar-se à forma animal. Tal não é o ensinamento do busdismo tibetano nem da Doutrina Secreta. A escala evolutiva parte da pedra ao vegetal, do vegetal ao animal e do animal ao humano, mas pode muito bem um ser humano ser punido karmicamente com a regressão ao estado animal ou até anterior.

Pareceu-me o Ifá, hoje o posso dizer, um resto esquálido e degenerado da Tradição Primordial, e como as matrizes africanistas, puramente animista, ou seja, não ultrapassava a região Astral.

Ifá

Poucos meses depois de voltar ao Brasil, por fim, chegou o dia fatal da desavença com meu tutor, e, em certa tarde, após já alguns casos de arrogância e maltrato comigo, discutimos duramente; nunca mais nos volveríamos a ver.

Poucos dias depois, na casa de minha mãe e em presença dela e mais um amigo, vi por breves segundos seu “duplo” ou corpo astral, em pé com braços cruzados e sorrindo. Fora a primeira vez que vira semelhante coisa.

Foi-se assim, tristemente, como as folhas mortas levadas pelo vento, aquele que até então tinha sido o amigo mais fiel e com o qual mais afinidade tivera.

Parte III – A Teosofia propriamente dita

Nada afim ao animismo é a Teosofia. Esta representa o verdadeiro “Espiritismo” (por estar ligada a Manas Superior, Budhi e Atma, e não tão somente a Manas Inferior e ao Astral), e não é nova, mas tão antiga quanto o homem na terra. Não é um ramo em que se diversificam as religiões e ciências, mas a raiz de todas elas, a árvore-mãe de todos os conhecimentos divinos. É a Tradição Primordial, a Religião-Sabedoria.

Rompidos os laços com o médium, fiz e completei o grau Peregrino da Eubiose, que dura aproximadamente um ano. Seguem-se os graus Manu, Yama, Karuna e Astaroth, depois dos quais entra-se para a Série Interna e tem-se acesso às Cartas-Revelações do Professor Henrique José de Souza, que somam 47 livros privados.

Nada, nos movimentos esotéricos contemporâneos, me parece tão profundo e vasto como a Teosofia redescoberta por Helena Blavatsky, e aqui no Brasil, pelo trabalho do polígrafo Henrique José de Souza. Não obstante o desvirtuamento dos estatutos da Sociedade Teosófica pela senhora Annie Besant e o senhor Charles Leadbeater, continua sendo o movimento teosófico o melhor expoente espiritualista dos tempos correntes. Nem todos os teósofos concordaram com o messianismo Krishnamurtiano e o Catolicismo Liberal besantista. O próprio Krishnamurti frustrou os planos para o qual havia sido treinado, como é bem conhecido, agindo como um verdadeiro “rebelde espiritual”.

Pude perceber, aceitar e comprovar a tese de que era o Professor Henrique aquele que Blavatsky havia anunciado na Doutrina Secreta, que viria no século XX, como enviado dos Mestres de Sabedoria, para dar continuidade às suas próprias revelações inéditas no mundo Ocidental, mas bem conhecidas dos iniciados do Oriente. Pronto pus-me a ler seu livro “O Verdadeiro Caminho da Iniciação” e “Teosofia e Ocultismo”. Depois passei a ler a Revista Dhâranâ desde os seus primeiros números, donde muito aprendi.

Templo Teosófico em Minas Gerais, São Lourenço

Paralelamente comecei a ler os livros da heroica Blavatsky (que conhecia desde os 19 anos, mas julgara sobremodo difícil de entender sem uma prévia preparação cultural esotérica) e de outros tantos ocultistas, como René Guenon, Papus, Paracelso, Ferdinand Ossendowski, Saint Yves d’Alveydre e Nicholas Roerich. Grande perplexidade causou-me, ainda causa e causará a Teosofia; somente uma mente dotada de grande afinidade à metafísica e a um alto idealismo, junto a um coração altruísta, poderia penetrar-lhe as entranhas mais recônditas.

Acontece, porém, que a Obra teosófica instigada pelos Mahatmas é divina, mas não as Instituições que a representam. Vários, pode-se dizer, foram os erros e ainda o são, da Eubiose, depois da morte de JHS. Poderão dar testemunho disso teósofos mais vividos e conhecedores do que eu. Aponto apenas o fato seguinte, durante o trânsito no curso do Peregrino, que muito me desanimou: fazendo o curso online, do referido grau, em certa ocasião recomendei-lhe o blog Lusophia a um colega que perguntava sobre conhecimentos ligados à Portugalidade. Não tardou a que me ameaçassem com expulsão se insistisse em falar no senhor responsável pelo dito blog. Discuti por e-mail com a tutora em questão – que antes disso iria revisar um artigo meu -, e assim acabou meu curso do Peregrino, num tremendo mal-estar. Acontece que tal senhor, segundo ela e certos líderes eubiotas, é pessoa non grata, por diversas razões, e que se eu admirava textos dele, ela logo não poderia relacionar-se comigo, pois eu devia ser, então, deduzo, má pessoa. Eu, que não passava de mero principiante conhecedor do universo teosófico e suas personalidades do presente, nada sabia sobre isso. Se o soubesse não teria sugerido ao meu colega de turma tal blog, pelo menos abertamente.

O caso pareceu-me de um autoritarismo, fanatismo e intolerância sobremodo incompatíveis com um suposto ambiente de iniciação. Frustrei-me com a Eubiose e durante um ano permaneci sem dar continuidade ao grau seguinte, o Manu. Levando em conta o quanto desejo fazer parte de um Colégio Esotérico de valor, mesmo em meio a alguns erros, e do quanto desejo ler as Cartas-Revelações, decidi sobrelevar tal caso e seguir adiante, sendo desta vez mais cuidadoso, pois nunca se sabe quem é ou não o próximo non grato… Fanáticos há, enfim, em todas as partes.

Outras coisas mais poderia dizer sobre aspectos defeituosos desse Colégio, mas é melhor silenciar. O que está dito já aponta algo.

Eis então que os Maharajas estão a dar uma lição nos homens, com a atual pandemia – que só pode ter como causa as próprias ações humanas desregradas, em torvelinhos de incongruências e males auto-engendrados -, e assim vejo-me impossibilitado, por ora, de prosseguir minha iniciação eubiótica, mas desde sempre estudando com afinco, e produzindo alguns poucos projetos visando o engrandecimento da cultura nesta pátria brasileira, que a amo do fundo da alma; nela quero ter o privilégio de reencarnar inúmeras vezes, até que a Sétima Sub-Raça Ariana cumpra os desígnios aos quais está predestinada.

Não fosse a Teosofia, não sei o que seria de mim… Talvez fosse ainda o pupilo de um médium, ou pertencesse a uma Maçonaria que desconhece o próprio significado real de seus símbolos. Devo tudo a Blavatsky e a Henrique José de Souza.

Estes são meus encantos e desencantos no Esoterismo.

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