O “Verdadeiro“ Autoconhecimento — Introdução ao Advaita Vedanta

João Gabriel Simões

Shankaracharya foi um filósofo, sábio e místico indiano do século VIII, que ajudou a consolidar a doutrina do Advaita Vedanta, conhecida popularmente como sabedoria não dual.

Para Shankaracharya, só é real aquilo que não se modifica e que não cessa de existir. Ou seja, aquilo que é imutável e eterno. Esse algo é “Brahman”, a realidade absoluta e inefável. Tudo mais é ilusório. Ou seja, o universo com todos seus seres em modificação, em certo sentido, não é real, mas sim uma aparência de realidade que está sobreposta a natureza de Brahman. Por exemplo: ao ver uma corda, durante uma noite sombria, podemos pensar que a corda é uma cobra. Isso acontece, porque sobrepomos a imagem da corda (que não conseguimos ver por causa da escuridão), a imagem de uma cobra. Embora a cobra não seja real, naquele momento ela existe na nossa mente — que sente tudo o que normalmente sentiria ao avistar uma cobra real.

Assim como confundimos a corda com a cobra, confundimos Brahman (a realidade absoluta), com o mundo concreto, que embora seja vivenciado como a verdadeira realidade, é ilusório para a filosofia do Advaita Vedanta. Essa ilusão que faz a gente confundir o real com o irreal é chamada pelos Hindus de Maya. Maya, metaforicamente falando, é como uma espécie de névoa que vela, que encobre e obscurece a possibilidade de conhecimento do real.

Maya (a grande ilusão)

Maya faz o uno aparecer como múltiplo, o eterno como temporal e o infinito como espaço limitado. Multiplicidade, temporalidade e espacialidade são as características dessa ilusão que esconde a verdadeira natureza de Brahman, que é unidade eternidade e infinitude.

Em suma, maya é uma ilusão, que só é dissipada quando o conhecimento de Brahman é realizado. Quando acendemos a luz e vemos que é uma corda, a ilusão de que era uma cobra é dissipada. Da mesma forma, o nosso universo material — dos seres e entes em modificação, submetidos ao tempo e espaço — desaparece quando se atinge o conhecimento de Brahman. Brahman e maya não podem coexistir. Quando um desses é percebido, o outro é inexistente.

Logo, a ideia central de Shankara é a de que nós não somos Maya, ou seja, não somos esse corpo físico submetido ao tempo e espaço; nós também não somos a nossa mente que, assim como o corpo, está sempre em modificação. Estes são invólucros de maya que velam a nossa verdadeira natureza que é Brahman. Nesse sentido, “Deus” (a verdade última que buscamos) tem estado conosco desde o início. Entretanto, em razão de estarmos desorientados pelas trevas da ignorância (Maya), não o percebemos, não tomamos consciência de que somos, em determinado sentido, Brahman. Assim como um homem procura fora de si um colar que está no seu pescoço, procuramos fora de nós, algo que sempre esteve conosco.

Essa ignorância de quem nós realmente somos é chamada de Avidya. Ela é a causa da dualidade. É ela que faz o homem se identificar com seu ego, e se distanciar cada vez mais do que ele verdadeiramente é.

Diante disso, podemos fazer as seguintes perguntas:

Nós somos um corpo tentando perceber que é Brahman ou Brahman sob a ilusão de que é um corpo? Nós somos um corpo com consciência ou uma consciência pensando que é um corpo?

Para Shankara, nós somos Brahman sob a ilusão de que nós somos um corpo, ou uma mente, ou um Ego desejante. Logo, a solução para a realização da verdadeira natureza humana é, precisamente, a remoção da ilusão de que não somos Brahman. Quando essa ilusão é removida, pode-se dizer que o homem alcançou o verdadeiro conhecimento de Si.

Essa tarefa não é nada fácil. Para muitas pessoas que vivem sob a ilusão de Maya, é normalmente o inverso que acontece: o que parece ilusório é Brahman e o que parece real é o universo manifestado. É, em certo sentido, similar ao que acontece no Filme Matrix, onde a grande maioria nem desconfia que vive numa ilusão.

Enfim, como se libertar de Maya ou sair dessa “matrix”?

De acordo com Shankara, a ignorância de que não somos brahman é destruída pelo conhecimento de Brahman. Logo, o estudo e a reflexão (amparados por um “mestre”) sobre os Vedas, Upanishads e meios que abordem a sabedoria de Brahman são recomendados. Todavia, isso (que, a propósito, é conhecido como Jnana Yoga) não é suficiente para a maioria das pessoas, que, portanto, precisam de outras práticas para desfazer todos os nós da ilusão, a qual estão submetidas.

Quando o Jnana Yoga não é suficiente é recomendado o seguinte: práticas de meditação para reduzir a dispersão da mente e aumentar seu poder de concentração (Raja Yoga); práticas para cortar a raiz do egoísmo e incentivar o altruísmo (Karma Yoga); e, por fim, práticas para canalizar a nossa afetividade, que normalmente se encontra dispersa no mundo, para a unidade do divino e transcendente (Bhakti Yoga).

Em síntese, o conhecimento do Eu real, ou nossa verdadeira natureza, que é o objetivo do esforço espiritual, não é a realização de algo novo ou estranho a nós, mas sim a redescoberta do nosso eu real sempre presente, mas que estava escondido pela nossa ignorância. Como a verdadeira natureza do sol é ocultada por uma nuvem, a verdadeira natureza do Eu real é ocultada pela ignorância proveniente de Maya. Sendo assim, diz Shankara: “Remova a ignorância que você conhecerá sua verdadeira natureza”. Isto é, dissipe a ilusão de maya que você irá se dar conta de quem você realmente é.

Fonte: The Atma-Bodha, Self-Wisdom: Of Shankara-Acharya.

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