Sobre a Morte e questões relacionadas

Manoel Tenreiro Corrêa

VONTADE DOS MEUS LEITORES

Não julgava que esta história da vida post-mortem interessasse muito àqueles que costumam passar os olhos por esta despretensiosa seção de DHÂRANÂ. Resolvera, por isso, mudar de assunto e abordar outro ramo mais sedutor das Ciências Ocultas, tal como aquele de que tratei na palestra anterior. Parece, porém, ter-me enganado.

Mal o último número de DHÂRANÂ entrou em circulação, sobre a minha mesa de trabalho – onde os “espíritos da natureza”, vindos da floresta próxima, costumam divertir-se nas horas vagas – choveram várias cartas cheias de expressões pesarosas por termos deixado tão cedo esse belo mundo astral para onde estamos condenados a partir mais tarde ou mais cedo.

Todos os meus prezados leitores (e eles já são muitos a julgar pelas cartas recebidas que, bem contadas, atingem quase duas dezenas…), me pedem mais pormenores sobre a vida post-mortem.

Não se contentaram em saber que a vida continua para além da tumba e que, salvo casos excepcionais em que se não enquadram nenhum dos meus leitores, essa vida é mil vezes mais agradável e sedutora do que esta a que tão ferozmente nos apegamos.

Querem que lhes fale nesses casos excepcionais; que entre em certas particularidades e lhes explique até a causa por que as religiões não ensinam essas importantes coisas aos seus prosélitos ou por que cada uma tem sua opinião particular a tal respeito.

É para atender esse louvável desejo dos meus leitores, que deixo para mais tarde outros assuntos teosóficos, e, de novo, venho falar da vida a que estão condenados aqueles que partem deste mundo dum modo anormal. A seu tempo falarei dos outros assuntos sugeridos nas cartas recebidas.

MORTE SÚBITA

A vida no plano astral do homem que teve seu corpo físico destruído por um acidente, embora não seja só por isso mais penível, não é, no entanto, igual à daquele a quem a velhice ou uma doença prolongada desagregou as partículas astrais, preparando, por assim dizer, o trabalho próprio para a vida nesse novo plano. O veículo em que o homem passa a viver, bruscamente arrancado à vida terrestre, em consequência dum acidente ou do suicídio, não consegue romper totalmente os laços do desejo nem da vitalidade física, de forma que esse homem se verá, durante um tempo maior ou menor, preso à terra pelos princípios inferiores que o dominavam. Se quiséssemos apresentar uma comparação aproximada do fenômeno, poderíamos dizer que ele se assemelha à retirada violenta do caroço duma fruta ainda verde. Assim como no caroço se conservam fragmentos da polpa da fruta, também boa parte da matéria mais grosseira do plano astral continua adstrita aos princípios superiores, impedindo a marcha da personalidade através das camadas mais elevadas ou sutis do novo mundo. A esse natural impedimento, deve-se acrescentar ainda a perturbação mental e o terror que quase sempre acompanham essa espécie de morte.

CONDENADOS À MORTE

Para as vítimas da pena de morte, o caso torna-se ainda mais grave, porquanto, além dos prejuízos causados pela separação brutal do corpo astral, este parte agitado pelo ódio e pelos desejos de vingança que farão do homem que desse modo ingressa no mundo astral, um elemento particularmente perigoso. Acham por isso os teósofos que, por mais perniciosa que seja para a sociedade a existência dum criminoso, muito mais perigoso se torna quando arrancado do seu veículo físico. Contra ele, quando vivo, tem a sociedade elementos de defesa de que se acha privada quando projetado, violentamente, repleto de paixão, no mundo astral. Ali se tornará o instigador de novos crimes, vingando-se daqueles que o condenaram à morte e aumentando o seu Karma, decorrente desses seus novos erros e da multiplicação dos crimes de que será, de certa forma, o responsável. Essa influência dos condenados à morte, no mundo dos vivos, está sobejamente provada pelo fato bem conhecido de se repetirem sempre os mesmos crimes, após a condenação, nas regiões em que o condenado agiu.

OS SUICIDAS

Já vimos, nas palestras anteriores, que o Verdadeiro Homem, o Ego imortal, envia em cada encarnação uma parte de si mesmo aos planos inferiores, em busca das experiências de que necessita para se tornar omnisciente em todos os planos da Natureza é não apenas naqueles em que Ele vive.

Concluída a missão determinada para cada encarnação, o Ego chama a seu seio aquela parte de si mesmo, entrando na posse dos resultados obtidos. Esse trabalho é enormemente dificultado no caso de suicídio, podendo-lhe causar os mais terríveis perigos, inclusive o de se ver impedido de chamar a si a parte que de si destacou para reencarnar.

É evidente que o ato do suicídio varia segundo as circunstâncias que lhe deram causa, desde o gesto moralmente inatacável de Sócrates até ao desespero do homem que se mata para escapar às consequências físicas de suas próprias faltas. No mundo astral, a situação após a morte varia do mesmo modo.

Devemos considerar o suicídio como um crime contra a Natureza, visto modificar a duração prescrita para a vida física; duração determinada por um conjunto de causas muito complexas, cujos efeitos devem ser vividas antes da dissolução da personalidade.

Quanto às condições de espírito do homem no mundo astral e que vão determinar sua nova vida, não podem deixar de ser profundamente diferentes entre aquele que abandona a vida por motivos altruísticos e aquele que destrói sua existência por motivos egoístas tais como o medo por exemplo.

CAUSAS DA ENCARNAÇÃO

O homem encarna para cumprir certos fins que só podem’ ser atingidos neste plano. Lições há que só no mundo físico nos é possível aprender e quanto mais depressa as aprendermos, mais cedo seremos libertados da necessidade de voltar a uma vida mais inferior e mais limitada. Grande é o trabalho do Ego cada vez que deve encarnar num corpo físico. Além do período de infância, sem nenhum interesse para Ele, há ainda os grandes esforços que é obrigado a fazer para se assegurar do controle de seus novos veículos.

Não devemos, pois, desperdiçar a vida; praticar aquilo a que podemos chamar suicídio lento, nem, muito menos, destruí-la de um só golpe. Ao contrário, é dever do homem tirar da vida terrestre o maior partido possível e torná-la tão longa quanto as circunstâncias lhe permitam. Para isso, deu-lhe a natureza o instinto de conservação que ele deve atender sempre que se manifeste.

OS ASSASSINADOS

De duas espécies podem ser considerados os homens assassinados ou vitimados por um acidente. Se forem dotados de espírito puro, ou tiverem tido aspirações elevadas, sua vida no mundo astral assemelhar-se-á a um sono mais ou menos feliz, que durará tanto tempo quanto o que lhe faltava para completar sua vida física. Sua vida normal, no plano em que entrou só então terá início, permanecendo, em muitos casos, durante os 10 ou vinte anos que ainda deveria viver no mundo físico, no sub-plano astral correspondente ao seu grau de evolução, consciente da última cena por que passou na vida terrestre.

No caso, porém, de o homem assassinado ou vitimado por um acidente, não possuir qualidades elevadas, ficará no sub-plano mais grosseiro do plano astral plenamente consciente das suas paixões e por elas totalmente dominado. Nessas condições é ele capaz de se transformar numa terrível entidade malfazeja: impulsionado por paixões através dum médium ou qualquer outra pessoa suficientemente sensível para ser por ele obsedada. Tais apetites e desejos que não pode satisfazer, tudo fará para desencadear suas entidades sentem um diabólico prazer em levar os outros à prática de atos idênticos aos que elas mesmas praticavam na terra. São estas entidades, conjuntamente a outras de que falaremos em futura palestra, os demônios ou tentadores a que se refere a literatura eclesiástica.

Cabe aqui a seguinte citação em que se nos descrevem as vítimas de morte súbita, suicidas ou assassinados, quando se trata de homens grosseiros ou depravados: “Sombras infortunadas perambulam errantes pelo mundo astral, aguardando que chegue a hora de sua morte natural. Separadas do mundo físico e plenamente ativas suas paixões terrestres, são tentadas pelas oportunidades que lhes oferecem os médiuns, para satisfazer, na medida do possível, essas paixões. São os Pishachas, os Íncubos e Súcubos da época medieval, os demônios da embriaguez, da glutonice, da sensualidade e da avareza, os elementares de imensa malícia e de enorme crueldade, forçando suas vítimas à prática de crimes horríveis, e com isso se regozijando grosseiramente”.

OS QUE MORREM EM CUMPRIMENTO DO DEVER

Não podemos incluir nas categorias dos acima descritos, os homens que têm morte súbita no exercício de funções altruísticas, como os bombeiros, os membros da Cruz Vermelha, etc. Os próprios soldados mortos no campo de batalha estão isentos dessa classificação pela certeza em que se acham de combater por uma causa justa. Trata-se para eles do cumprimento dum dever e é voluntária e desinteressadamente que sacrificam suas vidas. Isto nos leva a concluir que a guerra a despeito dos seus horrores, pode constituir de certo modo, um poderoso fator de evolução. Há, na realidade, uma pequena parcela de verdade na ideia do fanático maometano ao afirmar que o homem que morre combatendo pela fé atinge imediatamente uma vida muito melhor no outro mundo.

OS QUE TÊM HORROR À MORTE

E enorme ainda o número daqueles que se aferram desesperadamente à matéria, seja por ignorarem a existência doutra, seja pelo terror das penas do inferno. Daí o não se verem livres, logo após a morte física, do duplo etérico, ponte de ligação entre os dois mundos. Impedidos de entrar no mundo astral pela muralha da matéria etérica, e impossibilitados de continuar agindo no mundo físico, por falta de órgãos apropriados, eles erram solitários, mudos e aterrorizados nas fronteiras dos dois mundos, incapazes de se comunicarem com as entidades que os habitam. O pavor que as domina impede-os de compreender que, para se livrarem de tal estado, bastaria deixarem de se aferrar tão freneticamente à existência material. Se compreendessem isso, logo se veriam livres do duplo etérico e, após alguns momentos de inconsciência, dariam entrada no plano astral onde finalmente chegarão mais tarde ou mais cedo.

Muitas vezes, no auge do desespero, resolvem não se preocuparem mais com o que lhes possa acontecer e, preferindo a vida que levam, até mesmo o aniquilamento absoluto, soltam as amarras que os prendem à terra, nada mais desejando que morrer definitivamente; e o resultado desse abandono os surpreende agradavelmente, lançando-os num mundo de que não tinham a menor ideia.

Antes, porém, que isso aconteça, pode uma entidade dessa natureza apossar-se do corpo duma criança, tomando o lugar da fraca personalidade para que esse corpo estava preparado. Pode ainda obsedar o corpo dum animal, completa ou parcialmente, entrando em contato com o mundo físico. Nessas condições ele verá através dos olhos do animal, sentirá as dores que lhe são infligidas, terá consciência do seu estado e, tendo expulso o fragmento da alma do animal, ele será para todas os efeitos o próprio animal.

OS HORRORES DESTAS OBSESSÕES

O homem que deste modo se apossa do corpo dum animal, fica impedido de o abandonar quando quer sem que para isso deixe de despender esforços consideráveis. Habitualmente, sua liberdade só lhe vem após a morte do animal e depois de romper os laços astrais que a ele o ligam. O que em geral acontece a tal alma é obsedar outro membro do rebanho a que pertencia o animal morto. Os animais preferidos, ou mais facilmente obsedáveis, são os porcos, os carneiros, sem que ao abrigo de tais obsessões estejam os animais mais inteligentes ou evoluídos como os cães, os gatos e os cavalos.

Ligado por esse modo a determinado animal, o homem apresenta-se no mundo astral com as mesmas características, assemelhando-se-lhe pelas qualidades que ele ajudou a desenvolver, durante a vida física. Excepcionalmente, pode ficar impedido de desligar-se do corpo astral do animal.

Então com ele encarnará, ficando aprisionado no seu corpo físico, consciente de seu estado, senhor das faculdades humanas, mas incapaz de exprimir-se no plano físico, por falta de meios apropriados. O verdadeiro proprietário do corpo será a alma do animal, não passando este veículo duma prisão para o homem que a ele se agregou. Aos casos desta natureza se deve a crença, muito espalhada no oriente, da reencarnação dos homens no corpo dos animais. Não se trata, na realidade, duma reencarnação, pois a morte física não se processou integralmente, mas apenas duma obsessão causada pela impossibilidade de o homem quebrar os laços que o prendem à terra. Por isso se diz dessas pessoas “estarem legadas à terra” serem pessoas que “ficam” e não que “voltam” como acontece com os homens normais.

A PERDA DO “EU PESSOAL”

Já dissemos numa das nossas palestras, que, depois da morte física, o homem verdadeiro se separa de seus veículos exteriores, e que, principalmente Manas, se esforça para abandonar Kama ou o Desejo. Casos há, raros embora, em que a personalidade ou o homem inferior se acha de tal modo preso a Kama, que impossível se torna a Manas superior atrair para si Manas inferior. Então acontece a maior das desgraças:

“O fio de prata que nos lega ao Mestre” parte-se e o “eu pessoal” se separa do seu Pai ou “Ego superior”. Este fenômeno é conhecido em ocultismo pela expressão de “perda da Alma” e constitui realmente a perda do “eu pessoal”, condenado à destruição total.

Já sabemos que sete são os princípios do homem: três superiores e eternos e quatro inferiores e mortais. Pertencem os primeiros ao Ego, ao Eu Individual, e os últimos à personalidade, ao eu inferior. São estes que encarnam e se manifestam através de veículos sujeitos ao fenômeno chamado morte. Quando se dá o caso acima apontado, o quaternário inferior, isto é, os 4 princípios que agem através do corpo físico, ou duplo etérico, os veículos astral e mental inferior se separam da Tríade Superior, dos princípios inerentes ao Ego, ou seja Atmã, Budhi e Manas Superior. O homem vítima de tal desastre – o maior de quantos lhe possam acontecer no imenso trajeto de sua evolução – vê-se repentinamente dividido em duas partes, pela destruição da ponte que as ligava. O Ego, uma vez reconhecida a impossibilidade de utilizar convenientemente aquele conjunto de princípios a que chamamos personalidade, dele se separa abandonando, por imprestável, a parte mais inferior de si mesmo. Do homem assim separado do Mestre, fica o bruto que carrega consigo os reflexos da luz manásica abandonados pelo Ego. Tal criatura, devido principalmente à posse do mental abandonado, torna-se mel vezes mais perigosa do que o mais feroz e menos evoluído dos animais. Ostentando, muito embora, uma forma humana, sua natureza é a do bruto para o qual a verdade, a justiça e o amor não tem o menor sentido.

Este desastre pode-se dar durante a vida no plano físico e suas vítimas se caracterizam pela ausência absoluta de qualquer emoção elevada pelo requinte na prática das paixões execrandas, dos crimes mais tenebrosos…

Quando no plano astral, depois dá morte do corpo físico, constituem entidades dum poder terrível, dominadas apenas pelo instinto selvagem que as leva a realizar as mais atrozes crueldades e as transforma nos inimigos naturais do gênero humano.

Excepcionalmente, pode uma entidade desta espécie reencarnar, ainda, uma ou mais vezes em forma humana, mas faltando-lhe a fonte donde emanava todo o poder, seus veículos se vão gastando de encarnação em encarnação, até que toda a matéria que os constitui se desagrega e volta ao grande laboratório dá natureza. E o homem deixa de existir como entidade separada.

Revista Dhâranâ, n. 111, janeiro a março, 1942

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