Yoga

Marcos Rojo

Yoga é uma antiga disciplina que se desenvolveu no sub-continente indiano há muitos séculos atrás. Ninguém sabe ao certo quando que o Yoga teve sua origem e nem quem foi seu criador. Sabe-se por escavações e documentos arqueológicos que já era conhecida por um povo que habitava uma região que hoje pertence ao Paquistão.

Mitologicamente foi ensinado por Shiva, uma divindade indiana, que se tornou o patrono do Yoga e é reverenciado por todos os yogues.

Existem muitas lendas, mas, uma delas conta que Shiva ensinava Yoga para a sua esposa Parvati, numa praia, a beira-mar e que eram observados por um peixe curioso que queria aprender esta tão intrigante disciplina. Percebendo o interesse do peixe, Shiva o transforma em homem e dá a ele o nome de Matsyendra, a palavra matsya quer dizer peixe. Matsyendra se torna um grande yogue e passa a ensinar o Yoga, criando um grupo de seguidores. É sabido que os antigos yogues tinham poderes e eram procurados por pessoas que clamavam por suas bênçãos para adquirir curas e milagres. Uma vez, quando Matsyendra passa por uma aldeia, é procurado por uma mulher que desejava ter filhos, mas, não conseguia por ser estéril e pede a ele que lhe dê uma benção para que ela pudesse gerar uma criança. Matsyendra dá a ela um punhado de cinzas provenientes de rituais sagrados chamadas de vibhuti e pede a ela que as tome. Doze anos depois, Matsyendra volta para a mesma aldeia e procura pela mulher perguntando a ela onde está o filho e ela responde dizendo que não teve o filho. Intrigado, Matsyendra pergunta o que ela fez com as cinzas e a mulher responde dizendo que não acreditou no poder das cinzas e que as tinha jogado num bosque. Juntos eles se dirigem até o local onde as cinzas foram jogadas e Matsyendra grita o nome de Goraksha e aparece uma criança de 12 anos que é a criança que deveria ter sido gerada pela mulher. Goraksha se torna o principal discípulo de Matsyendra e também passa a ensinar o Yoga criando seu grupo de seguidores que eram conhecidos como Gorakshanath.

Sem dúvida, tudo o que conta esta lenda é muito simbólico, a estória diverge bastante de uma tradição para outra, mas os símbolos sempre são os mesmos, como o peixe, os 12 anos e as cinzas.

Há diversas lendas em relação a Goraksha e Matsyendra. Acredita-se que eram encarnações de Vishnu e Brahma que vieram ao mundo dos homens para prevenir o declínio da espiritualidade, propagando a mensagem do Yoga.

Goraksha escreveu alguns livros sobre Yoga sendo o mais conhecido Gorakshashataka onde são apresentadas algumas técnicas e muitos conceitos importantes.

Outro texto importante sobre o Hatha Yoga é o Gheranda Samhita que logo no seu início diz que Chandakapali (um rei de uma família de guerreiros) foi à morada de Gheranda (mestre yogue) e após saudá-lo com humildade e devoção, pergunta:

Oh, senhor, o maior dos yogues, eu quero conhecer o Yoga, que leva ao conhecimento da Realidade”. E Gueranda respondeu: “Muito bem alma valente, não existem correntes com as de maya (ilusão); não há poder maior que a disciplina do Yoga e não há pior inimigo que o egoísmo. Assim como começamos pelo aprendizado do alfabeto para depois aprendermos as escrituras sagradas, da mesma forma, dominando as técnicas do Yoga, obteremos o conhecimento da Realidade”.

Através destes relatos tentei mostrar que com toda esta simbologia fica muito difícil saber as verdadeiras origens do Yoga.

O registro mais importante e mais antigo que fala exclusivamente sobre Yoga são os “Yoga Sutras de Patanjali”. Da mesma forma, ninguém sabe ao certo de que época é. Estima-se que seja de um período entre 200 anos antes e 200 anos depois de Cristo. Na época, o sânscrito não era uma língua escrita, portanto os textos eram decorados e passados de mestre para discípulo. São 195 versos (sutras) que explicam todo o sistema, fundamentos e bases do Yoga.

Logo no início do texto, Patanjali define o yoga como sendo um estado de meditação profunda que ele chama de Samadhi. Neste estado, nos encontramos na nossa verdadeira natureza e nos identificamos com a nossa essência. Essência essa que já estava em nós quando nascemos e continuará existindo quando morrermos, mas, por estarmos constantemente identificados com os papéis que vamos assumindo na nossa vida, não percebemos. A mente só entrará em contato com nossa verdadeira essência quando ficar livre das distrações. Em outras palavras, dizem os indianos que nossa mente é como um lago com águas cristalinas movimentadas pelo vento e que por isso não conseguimos enxergar o fundo do lago. Somente quando as águas ficarem completamente paradas é que poderemos ver com clareza o que existe no fundo. Por isso, todas as técnicas de yoga tem como objetivo preparar o praticante para a meditação.

Patanjali estabelece um caminho de oito membros que ele chama de “ashtanga yoga”. A jornada (sadhana) começa pela conduta, pelas atitudes adequadas para aquele que almeja o caminho espiritual; destacando que não adianta viver de qualquer forma, com todas as ganâncias, raivas e ignorâncias achando que no final do dia você entra no seu quarto e faz alguns asanas (posturas de yoga) e alguns pranayamas (técnicas respiratórias) e que com isso vai se “iluminar”. Todos os elementos do yoga estão interligados, todas as técnicas estão relacionadas. Os asanas preparam o praticante para os pranayamas, que por sua vez, preparam o praticante para a meditação.

As atitudes adequadas no caminho do Yoga são conhecidas como yamas e niyamas. O primeiro yama é a não violência, portanto o caminho do Yoga começa com a não violência. Não violência em todos os sentidos, seja por pensamentos, palavras ou ações. Assim, quando estiver praticando os asanas, pense que não devemos ficar brigando com o próprio corpo, quando estiver praticando os pranayamas, não é para ficar brigando com a respiração. Estas atitudes tanto valem para o “yoga do tapetinho” quanto para o yoga “fora do tapetinho”. O segundo yama é a verdade, ou melhor, ser verdadeiro, ser transparente, não querer parecer o que você não é, lembre-se, “vale para o tapetinho” e “fora do tapetinho”. O terceiro yama é não roubar, ou não querer se apropriar daquilo que não lhe pertence, é fazer jus aos vencimentos no final do mês trabalhando honestamente, é não querer roubar o tempo dos outros. O quarto é brahmacharia, é fazer tão bem feito que você pode oferecer a Deus; é sacralizar cada momento, tudo é feito de forma ética e devotada; até o ato sexual, por isso alguns entendem brahmacharia como celibato. Por fim, o último dos yamas é não acumular coisas (aparigraha), não fique guardando coisas que você não usa, inclusive conhecimentos e conceitos, coloque em prática o que você sabe e o que você aprende.

Depois de apresentar os yamas, Patanjali apresenta os niyamas como sendo outros cinco elementos importantes no caminho da meditação, cinco atitudes importantes para que você não seja um problema para você mesmo. A primeira delas é o sentido de purificação e limpeza (sauca), limpar-se por dentro e por fora. Tudo no Yoga é purificação, asanas são exercícios de purificação, pranayamas são exercícios de purificação e também a meditação. Tudo que possa de alguma forma ser assimilado pelo nosso corpo ou pela nossa mente e que perturbe o nosso ambiente interno, terá que ser eliminado. O segundo dos niyamas é samtosha, contentamento, é como se Patanjali nos tivesse dito, você pode escolher entre ser uma pessoa que reclama de tudo e não dá valor para aquilo que tem ou ser uma pessoa que vê sempre o lado positivo das coisas, é sempre agradecido e vê as dificuldades como desafios. Entre essas duas possibilidades, Patanjali sugere que você fique com a segunda. O terceiro niyama é disciplina (tapas), perseverança, determinação. O quarto é o estudo das escrituras e textos sagrados que se referem ao sentido da vida e à nossa existência. No último, Ishvarapranidhana, Patanjali sugere que a sensação de entrega a Deus, seja qual for a sua religião ou concepção do divino, é positiva no caminho da meditação.

Mudar um hábito não é fácil, nossas respostas emocionais e forma de agir estão muito enraizadas, é recomendável começar por pequenas modificações, como por exemplo, agradecer o alimento, como faziam nossos avós; agradecer a pessoa que gentilmente nos abre a porta do restaurante; não fazer julgamento antecipado sobre alguém ou não falar mal de pessoas quando não estão presentes e não tem como se defender.

Yoga é a disciplina da transformação de si mesmo, não quer mudar o mundo e nem acha que deveríamos convencer os outros a praticá-la. É apenas um dos possíveis caminhos de autotransformação. Yoga não quer nos levar a lugar nenhum e nem quer nos transformar em alguma coisa; quer que estejamos exatamente no aqui e agora e que reconheçamos que já somos. Já somos aquilo que procuramos dentro ou às vezes fora de nós, já estamos integrados a todas as coisas, já estamos inter-relacionados com o Todo, apenas não percebemos; estamos distraídos com os papéis que assumimos no mundo e estes papéis são passageiros, são transitórios, existem por um tempo e por isso sofremos. Deveríamos nos conectar, nos identificar, com aquilo em nós que sempre existiu e sempre vai existir, mas, não é fácil, estamos apegados aos objetos, às pessoas, aos conceitos e tudo isso está em constante transformação. Sabemos que tudo neste mundo material um dia vai passar, mas não vivemos como se tivéssemos certeza disto, vivemos achando que as coisas serão como são para sempre e quando perdemos algo ou alguém, sofremos. Nos achamos diferentes dos outros e isto é um grande problema para a humanidade, mas, não é o maior, o maior problema é acharmos que somos melhores, que nossas escolhas são as corretas e isto gera distância e desintegração entre nós.

Praticar Yoga é se esforçar para viver os yamas e niyamas, é tentar responder aos estímulos de forma adequada para aquele que deseja seguir um caminho espiritual. Yoga é a filosofia do “como”. O “como” fazemos as coisas, o “como” vivemos e “como” vemos o mundo. Não é a filosofia do “quanto” e nem do “o que”. Por exemplo: o como você pratica os exercícios, vai definir se é Yoga ou não. Deitar-se é fácil, mas, relaxar é outra coisa, a diferença entre deitar-se e relaxar está no “como” eu me deito. A diferença entre sentar-se e meditar, também está no como nos sentamos. Se vamos a um nutricionista procurando uma dieta adequada por determinados motivos, sempre seremos orientados com relação ao “que” comer e ao “quanto” comer, mas, se for alguém ligado a este tipo de filosofia, seguramente questionará o “como” comer. Agradecer o alimento, desfrutar do prazer de poder se alimentar de forma independente e comer conscientemente.

Me lembro de um antigo professor de Yoga, meu saudoso amigo professor Shimada, que dizia que teve que sofrer um acidente e ficar internado num hospital sem sair da cama por alguns meses, para dar valor a ir ao banheiro sozinho, a poder comer sem que alguém tivesse que levar a comida à boca dele.

Desta forma, observamos que o sistema apresentado por Patanjali está muito ligado ao nosso comportamento e às nossas atitudes, fazendo da meditação o ponto alto destas práticas, reconhecendo que o “como” nós vivemos é que vai determinar a qualidade da meditação e que a prática da meditação também vai nos nutrir de experiências importantes para fazer de nós seremos humanos mais humanos, seres humanos melhores. Dizia o querido professor Hermógenes: “Faça Yoga para ser melhor para os outros e não para ser melhor do que os outros”.

O sistema de Patanjali acaba recebendo posteriormente o nome de Raja Yoga, ou o Yoga real, tendo como característica principal a meditação. Posteriormente a Patanjali, surge um outro sistema de pensamento denominado Tantrismo que serve de base para o que conhecemos como Hatha Yoga.

Hatha Yoga enfatiza a importância do corpo no desenvolvimento espiritual, entendendo que corpo, mente e alma se interagem o tempo todo. Propõe o caminho de volta, ou seja, se a mente interfere no corpo o corpo também pode interferir na mente, ainda que numa escala mais lenta e sutil. O corpo passa a ser uma estratégia para a aquisição de experiências importantes no caminho da meditação, tais como sensações de leveza, vazio e outras que pertencem ao universo de uma anatomia que não é conhecida pelo mundo ocidental e que chamamos de anatomia sutil. Falam de fluxos de energia que denominam prana, de canais chamados nadis de pontos específicos chamados chakras que são até hoje desconhecidos pela ciência moderna. Todo este conhecimento veio pela experiência dos antigos yogues que além de terem o controle sobre estes elementos, transmitiram isto para seus discípulos que se tornaram mestres e também transmitiram para outros discípulos, constituindo assim uma linhagem que permitiu que estes conhecimentos chegassem até nós.

Há quem veja que o Raja Yoga de Patanjali e Hatha Yoga, são escolas antagônicas e que uma veio para modificar a outra, mas, há quem veja estas escolas como linhas complementares e que não necessariamente se anulam, que fazem parte de um desenvolvimento natural que acontece com o tempo. Há um importante texto de Hatha Yoga chamado Hatha Pradipika que diz que não há Raja sem Hatha e que não há Hatha sem Raja. Neste caso, o termo Raja se refere ao estado de meditação profunda, ao estado de Integração ou União, que é a própria tradução da palavra Yoga.

Os textos de Hatha Yoga são mais técnicos do que o texto de Patanjali, descrevem as técnicas e seus efeitos, falam de como deve ser a vida e a alimentação do yogue enquanto o texto de Patanjali é mais filosófico. Os textos mais antigos apresentam poucas posturas (asanas) e na maioria são posturas sentadas ou forma de se sentar com firmeza e conforto para as práticas mais avançadas como pranayamas (técnicas que trabalham com os impulsos respiratórios) e meditação. Textos mais recentes apresentam mais posturas, mostrando a necessidade de se trabalhar cada vez mais com o corpo, pelo distanciamento que temos de uma vida natural e saudável. Afirma o Hatha Yoga que existem 84 posturas, mas, que poderiam ser 84 mil ou tantas quanto são as espécies de animais sobre a terra, mas, que com o tempo o praticante vai reduzindo até selecionar um número adequado de posturas para seu aprofundamento neste caminho do grosseiro para o sutil, onde o grosseiro é o corpo e o sutil é a consciência.

Quando o Yoga chega ao ocidente e é influenciado pelo pensamento e valores deste lado do mundo, passa a ter no seu currículo um número muito mais expressivo e desnecessário de asanas. No ocidente, estamos acostumados a trabalhar com o corpo por motivos estéticos, seja para competições, demonstrações ou vaidade e o Yoga começa a receber este tipo de conotação em suas práticas. Hoje, poucos vão as academias ou institutos de yoga por motivos espirituais. Recebo vários alunos que são indicados por médicos e que querem melhorar sua postura, sua capacidade de relaxamento e condição respiratória; são raros os que veem o Yoga como possibilidade de autoconhecimento, mas, não importa o motivo que traz alguém para esta prática, são todos bem-vindos, compete ao professor mostrar o universo amplo que é oferecido por esta disciplina. Dizia Swami Kuvalayananda que “Yoga tem uma mensagem para o corpo, para a mente e para a alma humana”, cada um vai buscar aquilo que sente necessário naquele momento, mas, nada impede que com o decorrer do tempo e pelas experiências adquiridas, modifique sua forma de pensar.

É somente no começo do século 20 que o Yoga começa a ser ensinado para o homem urbano, até então era ensinado nos monastérios e para grupos muito específicos. Obviamente o Yoga que praticamos hoje é diferente daquele que era praticado por pessoas que se retiravam e viviam para isto. As adaptações não significam modificações no seu sentido e objetivo. Existem coisas que podem ser mudadas no Yoga que continuam mantendo Yoga como Yoga e há modificações que não podem ser feitas, porque descaracterizam os princípios e fundamentos desta disciplina. As práticas de Yoga devem sempre ter como objetivo um estado específico da mente que é chamado de meditação, devem ser feitas em condições de estabilidade, conforto, relaxamento do esforço e constante atenção. Existem aspectos pessoais importantes que deverão ser levados em conta, aspectos relacionados com o corpo e com a mente de cada um. A instrução da técnica deverá respeitar estas individualidades.

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