Não confunda a Alma com o Espírito – Entenda porque desfazer essa confusão poderá mudar a sua vida!

João Gabriel Simões

Assimilar o espiritual à ordem psíquica é uma das grandes confusões disseminadas no século passado, tanto pela ciência, como pela própria psicologia. Tal confusão já faz parte do imaginário popular e afeta não só a ciência, mas, por incrível que pareça, as pessoas que se reconhecem em um caminho espiritual, bem como suas respectivas instituições. Eu mesmo fui afetado por ela e custei para desfazer esse engano.

Uma das raízes dessa confusão está no dualismo cartesiano (corpo e espírito), que ao separar corpo, por um lado, e tudo o que não é corpo por outro, acabou misturando o psíquico e o espiritual na mesma categoria. Tal confusão se intensificou ainda mais com o advento da psicologia moderna e o surgimento da “espiritualidade new age”. O resultado disso tudo foi a perda da visão “tradicional“ de homem.

A visão tripartida do ser humano, que o considera um composto de corpo, alma e espírito (Spiritus, Anima, Corpus) esteve presente na humanidade por milênios. Ela operou na mitologia, na filosofia clássica, nas religiões, na alquimia e também, em certo sentido, na espiritualidade oriental. Do ponto de vista metafísico é a visão que melhor descreve o homem.

De acordo com essa ótica tradicional, a grosso modo, a alma humana compreende: emoções, pensamentos, desejos e memórias. É o que normalmente se chama de mente, personalidade ou “ego”. Já o espírito é de outra ordem: envolve a intuição (voz da “consciência”) e o discernimento no sentido mais elevado do termo. De acordo com uma perspectiva teológica, o espírito é a presença de “deus” no ser humano.

A tríplice natureza do homem era amplamente conhecida na “antiguidade” e recebeu diversas atribuições nas mais variadas culturas, como mostra o quadro abaixo:

CorpoAlmaEspírito
CristianismoCorpusAnimaSpiritus
JudaísmoBasarNepheshRùah
IslãJismNafsRuh
Grécia AntigaSomaPsychePneuma

Foi só na modernidade, com os avanços técnico-científicos e a dissolução das grandes narrativas metafísicas (acontecimento expresso pela frase de Nietzsche: deus está morto) que a ideia de espírito e seu respectivo domínio (espiritual) perderam o protagonismo. Em razão de uma grande mudança de foco — na antiguidade, de maneira geral, o foco era em se conhecer e transformar-se; já na modernidade o foco foi conhecer e transformar o mundo — o que inicialmente era só uma perda de protagonismo se transformou, com o tempo, na perda de direito de existência. Se “deus” está morto, toda a realidade espiritual que lhe dizia respeito já não tem mais razão de ser. Sem “deus” não há mais espírito!

Atualmente, como consequência disso tudo:

1. Por um lado, o espiritual é rebaixado e confundido com o psíquico. Aqui temos a psicologia com seu psicologismo. Nesse lado se encontram aqueles que negam, direta ou indiretamente, a existência ou a primazia do domínio espiritual.

2. Por outro lado, o psíquico é confundido com o espiritual. Aqui entram as diversas formas de ”neo-espiritualismo” que trabalham, por exemplo, com as ideias de chacras, corpo astral (perispírito), fenômenos paranormais, siddhis etc. Nesse lado temos muitos que, de forma declarada ou não, têm como principal objetivo o desenvolvimento de “poderes psíquicos“ e a experimentação de estados alterados de consciência, que são considerados por eles “superiores“ e especiais, quando, em verdade, são apenas prolongamentos da alma humana desconhecidos da maioria incauta.

Experienciar projeções astrais, conversar com “espíritos” guias, usar a clarividência para ”regular” os chacras de alguém, usar o poder de cura do magnetismo pessoal, tomar um chá para expandir a consciência, captar pensamentos e sentimentos na ”aura” de uma pessoa, acessar a memória de lugares e objetos etc. Ainda que tudo isso possa ser útil, em maior ou menor medida, quando situado adequadamente dentro de uma tradição específica, nada disso (em si) diz respeito ao domínio espiritual, mas sim ao psíquico (ou parapsíquico).

A travessia pelo domínio psíquico

A realização espiritual — isto é, o objetivo final das tradições que consideram os 3 aspectos do homem (somático, psíquico e espiritual) — não se encontra no domínio psíquico (da alma). De acordo com um simbolismo iniciático, a jornada humana é como a travessia de um oceano (símbolo do domínio psíquico) turbulento, cheio de perigos e tentações. É muito fácil ser iludido no meio do caminho, como foi Ulisses pelas sereias, na odisseia de Homero.

Herbert James Drape (1909) — Ulisses e as sereias

Nesse sentido, muitos médiuns, curadores, pastores, paranormais, eruditos e místicos, que se regozijam de seus poderes e vida ”espiritual”, podem estar, na verdade, situados em pequenas ilhas no meio desse oceano (psíquico). Embora, atracar nelas possa ser útil para algumas embarcações (pessoas), que precisam de determinados “suplementos” para continuar a viagem, permanecer ali é sempre um risco, ainda mais quando, em troca, a ilha oferece poder, glória e uma falsa sensação de dever cumprido. Em síntese, não confundamos as ilhas com o destino final, o que equivaleria a dizer, não confundamos o psíquico com o espiritual.

Então, o que é eminentemente espiritual?

Se quase todos ”efeitos especiais” e paranormais se referem ao domínio psíquico, que é, por excelência, o domínio das formas em devir, o que é o domínio espiritual? O domínio espiritual, propriamente dito, se refere a 2 aspectos:

Macrocósmico
  • A fonte da qual emana o espírito humano na sua face “não dual“, além de qualquer manifestação, infinita e inefável (é o Tao sem nome para Lao Tsé; o Uno de Plotino; Para-Brahman para os hindus; Ein Sof para os cabalistas; a Divinitas inefável — Gottheit — de Meister Eckhart) e essa mesma fonte na sua sua face manifestada (ex: deus no sentido comum do termo; Tao com nome para os taoistas; Saguna Brahman para os hindus).
Microcósmico
  • O reflexo dessa fonte no ser humano, ou seja, o “nosso” espírito (chamado de Atman pelos hindus; centelha divina pelos Teósofos, consciência). De acordo com René Guénon (2001), a alma humana é comparada à imagem do sol (espírito) refletida na água (matéria). O raio luminoso, proveniente do sol, que produz o reflexo na água (alma) e a liga à sua fonte é o intelecto superior, isto é, a potência humana que pertence ao domínio da manifestação informal e que, portanto, nada tem a ver com a razão/racionalidade, que é um atributo da alma submetido ao domínio relativo das formas (psíquico). O intelecto superior foi chamado de intelecto intuitivo pelo filósofo Plotino e de Buddhi (uma de suas diversas acepções) pelos Hindus. Além disso, ele foi e é simbolizado pelo coração, como mostra o simbolismo de diversas pinturas, vitrais e estátuas ao longo da história humana.
Vitral na Igreja Santa Efigênia (SP-Brasil)

Diante do exposto, agora podemos situar o que é, de fato, o desenvolvimento espiritual do homem. De forma bem resumida ele envolve duas etapas, cada qual com diversos graus de “ser” a serem realizados.

Mistérios menores

Objetivo: alcançar o grau de homem primordial ou integral. Aqui o ser humano sai da periferia de seus desejos e retorna ao centro do seu ser. Ele se torna consciente do intelecto superior e de sua conexão com o espírito (buddhi). Ele não mais se identifica com seu corpo, nem com a sua mente (psiquismo), embora ainda tenha de esgotar algumas de suas possibilidades. No simbolismo da cruz ele sai das extremidades do eixo horizontal e retorna para o centro da cruz. No simbolismo da caverna de Platão ele é aquele que recém saiu da caverna, mas que ainda não consegue contemplar o sol.

Nos mistérios menores o foco é no conhecimento da natureza, em seu sentido amplo, incluindo não só aquela que interagimos através dos 5 sentidos, mas também a natureza psíquica, do mundo (ou mundos) “sutil”.

Essa etapa está associada às ciências tradicionais, como a alquimia, a arquitetura sagrada, medicina integral, arte sacra, onmyōdō e as iniciações realizadas na idade média, por exemplo, aquelas envolvendo as ordens de cavalaria (Guénon, 2001).

Mistérios maiores

Objetivo: alcançar o grau de homem transcendente. Após retornar ao centro da cruz, o homem agora está livre para ascender no eixo vertical. Aqui ele vai além das possibilidades humanas. É aquele que contempla o sol após sair da caverna (alegoria de Platão). Aquele que alcançou o grau máximo de realização espiritual (enquanto humano) é chamado no hinduísmo de Jivanmukta. Após o descarte (morte) do seu corpo físico ele se torna um Paramukta, ou seja, alcança a libertação total e não precisa mais retornar à vida corporal, nem a psíquica, pois está além disso tudo. Esse é, enfim, o destino de chegada da jornada espiritual humana, que nos leva do humano ao supra-humano (comunhão com o absoluto).

Os mistérios maiores implicam no conhecimento daquilo que está acima da natureza (física e psíquica), a saber, o conhecimento dos princípios perenes que estruturam a realidade.

Essa etapa está associada às iniciações sacerdotais e abarca o conhecimento dos fundamentos de todas ciências tradicionais praticadas na etapa dos mistérios menores (Guénon, 2001).

Segue abaixo, uma tabela com algumas referências dessas etapas, nas mais diversas tradições:

TradiçãoMistérios menoresMistérios maiores
SufismoHomem principal (el-insân el qadim)Homem universal (el-insân el-kâmil)
TaoísmoHomem verdadeiroHomem transcendente
CabalaAdam Qadmon (homem primal)Adam IIaah
Simbolismo de DanteParaíso terrestreParaíso celestial

Em síntese, podemos dizer que a jornada espiritual do ser humano envolve a realização de diversos graus, cada qual resultando numa mudança ontológica (de ser) e não meramente na aquisição de conhecimentos ou habilidades específicas. Nesse sentido, é importante salientar que desenvolvimento espiritual não é academicismo (erudição), muito menos desprezo pela alma (domínio psíquico), como alguns desavisados podem pensar. Se trata, em primeiro lugar, de saber situar cada coisa em seu lugar e dar a cada uma delas o seu devido valor.

É por isso que é de extrema importância não confundir a alma com o espírito e saber situá-la dentro do edifício tripartite que é o homem. O espírito é o fundamento da alma, da mesma forma que o céu é o fundamento das nuvens. Sem espírito não há alma, assim como sem céu não há nuvens. Espírito e céu são permanentes, enquanto que a alma e as nuvens são passageiras. O espírito “é”, já a alma “devém”. O espírito não tem forma, já a alma é a mãe de todas as formas. Logo, em poucas palavras, a busca verdadeiramente espiritual tem como objetivo transcender o domínio da alma e completar a travessia até o ”continente” do espírito. Continente este que — aliás — não oferece riqueza, nem glória, muito menos poder.

Como disse Nisargadatta Maharaj, a realização espiritual não dá vantagem alguma (até por que não há mais “ego“ para desejar vantagens). Não vai te dar nenhum status superior (dado que inferior e superior só dizem respeito ao domínio dual da alma), nenhum céu com castelos astrais (pois está além das formas), muito menos poder sobre os outros (pois quem deseja poder sobre os outros é quem não o tem sobre si); tudo o que você obtém é o verdadeiro conhecimento de si e a libertação de todas ilusões — isso é tudo!

Referências

Perspectives on Initiation. René Guénon. Hillsdale, NY: Sophia Perennis, 2001
Man and His Becoming According to the Vedanta. René Guénon. Hillsdale, NY: Sophia Perennis, 2001
Hermetismo — René Guénon
The Confusion of the Psychic and the Spiritual — René Guénon
I Am That — Dialogues of Sri Nisargadatta Maharaj
The Atma-Bodha, Self-Wisdom: Of Shankara-Acharya
O uno e o ser no pensamento de Meister Eckhart — Matteo Raschietti

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