Poemas

Javier Alberto Prendes Morejón

Javier Alberto Prendes Morejón, coleção “Figuras Místicas”

1
Pouco importa se soçobra a nau,
desde que o timoneiro não perca a direção.

2
O oposto da mente é o sexo,
e se o homem não consegue harmonizá-los,
há de sofrer terrivelmente.
De homem se fará animal,
sofrerá e fará sofrer.

3
Sintra encanta,
merífico sonho de amor!
A tua flâmula consagra,
nas brumas de tuas matas,
o horizonte bem fadado.

4
Nada se logra sem o coração em florescência,
do contrário o mental é um instrumento
inútil e pernicioso.
Ávido, como a abelha,
está o meu a colher o néctar
das flores em que pousa.

5
Uma Torre de Fé,
e não de crença,
busco construir,
com as pedrinhas do caminho.

6
Verto a minha potência numa prosa pasma. Não escrevo; desfaço-me. No rosto de Rimbaud descarrilha-se meu sangue. Dói-me o diafragma pelo que surge do meu nada. Um festim estupra minha tristeza numa coroa de lirismo. 

7
São dos que fazem perder a humanidade no mais completo descalabro os que afinam com a mesma, enquanto os verdadeiros Prometeus vivem à míngua. Não se passa do Muladhara neste maldito estado de consciência em que vivemos coletivamente. Haja desatino e falta de escrúpulos. Finge-se de anjo, mas há tão-só asnos.

8
Há três espécies de transviados: a dos que se afastaram de toda moralidade e se tornaram espúrios a ponto de serem encarcerados; a dos rebeldes a toda efêmera forma de uniformização social, que nada mais faz do que ceifar ao indivíduo sua própria essência; e a das “estrelas caídas”, que tendo jurado à Lei fidelidade, denegaram a Obra do Eterno. 

9
O maior psicólogo
é aquele que está unido ao seu Eu-Superior.
Prescinde de remédios
e cura através do conhecimento do Grande Arcano.

10
Tarda mas não falha, a luz
esmeralda do Cruzeiro,
que em arrebóis esplêndidos
do Alto lacrimeja.

11
Sol que ressurge por detrás dos montes,
após a névoa macilenta
de uma noite empestada de morbo.

12
Aquele que destoa deteriora as algemas. Aquele que destoa representa a ruína de um mundo, e é o artífice de um novo. Representa um chamado às alturas, um chamado ao enriquecimento do espírito. Aquele que destoa faz nascer flores, e faz vir à tona o incômodo. Se não fossem profundos seus gestos e suas palavras, seria exatamente igual aos demais. Seria ordinário, mas aquele que destoa é sempre mais.

13
O tempo presente é uma noite sem flores e de pessoas ocas. É uma noite em que a luz se perdeu e onde as canções foram substituídas por gritos de angústia. Em todos os lugares se encontra a infelicidade, e muitos dos que não se sentem infelizes, é porque são muito medíocres a ponto de não se darem conta do que é de fato a felicidade. Nosso mundo é um mundo devastado, uma terra insólita e fúnebre, onde não há vida. É um mundo sem flores, um mundo de pessoas ocas.

14
Invoco a Ti, Mãe do Mundo,
para que nos resguardes das mazelas
com teu manto azul índigo!
Sempre com teu véu entrelaçado,
aberto somente ao eleito;
sempre a tua face é um nó górdio!
Sustentando os pilares da terra,
Rainha do Céu avoenga!
Teu mar não cabe em palavras,
nem tua beleza em esculturas!
Nem Fídias poderia retratar-te…
Somente um murmúrio poderia
aproximar-se de Teu seio…

15
Quem diz poeta não diz santo,
mas um farol esmaecido
que ora e outra reluz com majestade.
São almas que vagam no turbilhão da vida,
tateando às escuras,
mas pressentindo um saber acima
das vãs filosofias.

16
Quem não se apaixonou
por muitas artes
cria o caminho inglório
de viver entediado.

17
Embora Gautama, Jesus, Krishna, Moisés
e muitos outros sejam admiráveis,
esquecem-se os profanos que foram Iniciados
em colégios esotéricos.
Não formaram-se em Academias vulgares,
por melhores que sejam,
mas em excelsas Fraternidades.
Não aprenderam com os doutos,
antes a eles ensinaram.
Se são a meta da moral e da razão,
se são os sábios sem igual,
hemos de seguir-lhes os passos e iniciar-nos.
Só assim a humanidade alcançará
o cume de sua evolução.

A luciferina chama vive em custódia
no Seio da Terra,
onde é obrigada a manter-se
até que a Mônada
se redima por seus próprios esforços.

18
O Grande Dia se avizinha
pelo esforço da mão redentora,
que durante largos eons
dissipa na terra
a Luz do Sendeiro.

Não fosse o sacrifício de Prometeus,
na cana guardando o fogo divino,
pigmeia todavia seria a humanidade.
Não fosse o pastóforo Iluminado,
a ovelha viveria transviada.

Debate-se sempre a humanidade
crucificada no sexo;
das sete chaves a mais perigosa,
ouvida somente de boca à ouvido.

Em busca de sua alma-irmã
vivem e cantam os poetas,
sem saberem que o que buscam
é a perfeita androginia,
o consórcio entre o fogo e a água.

Vislumbremos
“os excelsos frutos de evoluções passadas”,
testemunho superior de incompreendida
ciência que tudo abarca.

19
Te escreverei poemas pelas manhãs
Te escreverei poemas pelas manhãs, para festejar a vida junto ao canto dos passarinhos em suas copas…
Quando o sol descortinar a máscara da noite, meu coração nascerá em flor pronto para entregar-se a uma canção…
Ao verde latejante das árvores, e ao azul esbranquiçado das nuvens, vou esculpir em teu céu as estrelas que carrego em meu interior…

20
Elogio à tua beleza
Nos teus lábios há mais embriaguez do que no vinho, e nos teus olhos há mais doçura do que nos favos de mel! São tão brilhantes os teus olhos, tão belos quanto a lua, tão resplandecentes quanto o sol. Tua pele é mais macia do que a seda mais fina; teu corpo mais belo que um diamante translúcido! De marfim são tuas palavras, e tua face zafiras!

21
Helena Pretovna Blavatsky é um lótus branco
em meio a uma sociedade que é a lama;
tanto é mais espúria tal lama
conquanto mais “civilizada” for.
O cancro humano sempre fora o egoísmo,
junto ao domínio dos irmãos gêmeos
– a parelha caótica – a Ignorância e a Ilusão.
O “Tesouro dos Deuses” vive dentro
do próprio coração – ali onde o homem jamais
se atreve a perscrutar.
É este o lugar mais óbvio para se guardar
a chave da redenção.

Blavatsky é a polígrafa, a sábia e a mártir.
Sua obra, até hoje incompreendida,
é a Bílbia da Futura Sociedade.

Idalia Morejón Arnaiz, coleção “Figuras Místicas”

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