A “arte” da Dialética aplicada ao autoconhecimento – Por João Gabriel Simões

Dialética é um termo grego, proveniente da palavra “dialegein”, que significa a arte da discussão ou a arte do diálogo. Já em um sentido puramente platônico, de acordo com o filósofo brasileiro — Mário Ferreira dos Santos (1957) — dialética seria a arte de esclarecer, ou de descobrir a verdade através das ideias.

O prefixo “diá”, significa “através de” e nos dá uma pista do que Platão (filósofo grego) queria dizer, quando falava no ato de conhecer, como um passeio “através” das ideias. Em seus livros, mas especificamente em seus diálogos, a dialética se apresenta como o meio, pelo qual as “trevas da ignorância” são dissipadas e a “luz da verdade” revelada. Para Platão, “verdade” implica em “iluminação”, esclarecimento.

E nada melhor do que o atrito para gerar o “fogo”, a “luz” que ilumina e esclarece — na troca, no embate e na oposição entre ideias. Posição em grego significa “thesis” e oposição “antithesis”. Logo, a dialética envolve tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (composição e “esclarecimento”). Toda síntese, ao mesmo tempo em que conserva elementos da tese e da antítese, conduz a discussão a um grau mais elevado, para em seguida se transformar em uma nova “tese” e dar prosseguimento a um novo ciclo.

Nota-se aqui que a dialética é a base da ciência, pois é através dela que se opera a confrontação de hipóteses do método científico. É a discussão de ideias, mediada pela razão, em prol da “verdade”. A dialética também pode ser observada na natureza, por analogia, quando um “campo” seco e árido (tese), após receber muita chuva (antítese) se transforma em um ambiente favorável à vida (síntese); ou quando um homem (tese) e uma mulher (antítese) produzem um novo ser (síntese).

Sócrates, mestre de Platão, cuja mãe era parteira, considerava-se um “parteiro” de ideias, na medida em que, pela dialética, auxiliava seus contemporâneos a “parir” ideias e alcançar o esclarecimento — a verdade. Esse é o sentido da maiêutica (arte de assistir em partos) socrática. E como Sócrates fazia isso na prática? Através de perguntas e respostas, mediadas pela razão, bem como, por uma postura de “abertura” à busca da verdade.

Bom, agora que temos de forma clara o conceito de dialética, podemos aplicá-lo ao autoconhecimento. Isso pode ser feito com o auxílio de um interlocutor — e neste caso temos os terapeutas da “alma”, como os psicólogos — ou, a partir da autorreflexão, o diálogo consigo mesmo — que será o nosso foco aqui.

Que é a nossa mente, a não ser um “micro-universo” de ideias e opiniões sobre nós mesmos, sobre os outros e o mundo. Muitas vezes o que pensamos de nós entra em conflito com o que o “mundo” ou os “outros” pensam de nós. Muitas vezes, a nossa percepção da realidade não condiz com a mesma e muitas vezes achamos que sabemos algo, que de fato não sabemos e, por outro lado, pensamos que não sabemos algo, que na verdade sabemos.

A dialética entra aqui, ao modo de uma conversa consigo mesmo, no sentido de “iluminar” as nossas contradições, elucidar os nossos verdadeiros sentimentos/pensamentos e propiciar a constituição de maneiras mais satisfatórias de lidar com os aspectos “positivos” e “negativos” de nossa personalidade. Sua função é dupla: dissipar as sombras da ignorância e iluminar o caminho que conduz a “verdade”.

Por exemplo, imagine um indivíduo com um traço de timidez bem evidente. Essa é a sua posição inicial, ou a sua tese. Ele está consciente da sua “posição”, dessa “sombra” em sua personalidade. Se por acaso, ele resolve superar a timidez e se comportar de maneira oposta a esta, ele estará gerando uma oposição: tem ele agora uma antítese, a saber, um “lampejo”, um clarão que lhe permite ver o caminho. Do confronto entre a timidez (tese) e a reação oposta a ela (antítese) surgirá uma síntese, que será o seu novo comportamento, a sua nova verdade.

Além de nos possibilitar separar o aparente do real, o passageiro do perene, a dialética aplicada ao autoconhecimento, nos permite utilizar dos opostos para trazer harmonia e equilíbrio a nossa mente. Contrabalançar a “escuridão” com a “luz”, a passividade com a atividade, a ignorância com o conhecimento, o “vício” com a “virtude”, e assim por diante.

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