O binômio Ciência e Religião – Por Javier Alberto Prendes Morejón

“O objetivo da ciência se resume num incessante esforço para um fim que nunca poderá ser atingido, pois, dada a sua natureza, é inexeqüível” 

Max Planck

De um lado a Ciência materialista (por mais quântica que se diga), do outro a Religião fanática e supersticiosa. Ambas dogmáticas. A Religião em queda, e a Ciência em ascensão. Porém, as duas fracassadas em sua missão. As religiões criaram a divisão entre os homens, pois cada uma afirma-se a “escolhida”, “a melhor”, “a que possui a Verdade”, e em consequência disso resultam as guerras, os êxodos, a miséria, a censura, a peste. A Ciência, por sua vez, serve aos interesses econômicos das elites sociais, que por sua vez dominam e subjugam as outras classes. Constituiu a panacéia de dias dourados; prometeu ser a mais augusta auxiliar e promotora da evolução humana, e cá está a civilização chafurdada em erros sobre erros. Uma imensa tragédia moral da qual resulta a desgraça material e a própria revolta da Mãe-Natureza ou Dies Irae. Ciência apartada, portanto, da ética, e vendida aos interesses mercantilistas e militaristas.

                Texto precioso, certeiro, da Revista Dhâranâ n°136, ano 1948, “A Tradição – A Revelação”:

“’Vencer na vida’ passou a significar, em suma, ganhar maior ou menor quantidade de dinheiro, ao cabo de certo tempo, e portanto, obter vitórias maiores ou menores. De modo que há dois comportamentos facilmente identificáveis: o que se cifra em estudar só para ganhar a vida, e o que consiste em estudar e aprender porque é bom saber, porque o conhecimento é um deleite íntimo.
Os próprios pais dizem hoje aos seus filhos: ‘estude, senão você não arranja nada na vida’. ‘Não arranja nada na vida’ quer dizer não ganhar dinheiro.
É uma atitude que deriva das contradições econômicas provocadas pela má aplicação da Ciência. Os que apreciam o conhecimento pelo conhecimento já são homens de um valor intrínseco maior no que respeita à evolução do seu Eu interno.”

É justamente o desvirtuamento da Religião em bancarrota (por ter se mostrado inerte ante o problema da felicidade humana e, portanto, falhando no ideal de tornar seus prosélitos em Cristos) e da Ciência em ascensão, em que vê-se atolada a humanidade, ainda supersticiosa e fanática, e ainda de um mental concreto e positivo, reacionário ao espiritualismo, especialmente à ideia de imortalidade da “alma”, ou antes do espírito, e da continuidade da vida após a morte (tese defendida por gregos, egípcios, hindus e inúmeros outros). Longe se está, portanto, daquilo que denominamos de “consciência búdhica” e “atmica ou crística”. Estes estados de consciência compreendem a Intuição e o Espírito ou Eu Supremo, aliados ainda a Manas (o Pensamento) ou Mental Abstrato, o quinto princípio teosófico da escalada setenária do homem. Esta trindade, reprodução no microcosmo da tríade macrocósmica de todas as teogonias, é que constitui o que vem a chamar-se Individualidade, Tríade Superior, Mônada ou Espírito. Trata-se do aspecto imortal do homem, contraposto ao mortal Quaternário Inferior que se caracteriza como Personalidade, isto é, o Eu-inferior, o Não-eu, a Alma propriamente (a Carruagem do simbolismo arcaico comandada pelo Cocheiro, isto é, o Espírito), perecível e reelaborada a cada nova encarnação.

Esta Trindade Superior ou aspecto imortal do homem é que é a “Voz da Consciência”, imanente e em constante contato, mais ou menos intenso, com o Quaternário Inferior, ou dito de outra forma: o contato entre o Espírito e a Alma. A inspiração dos gênios não é, senão, um reflexo das vibrações de Budhi-Atma (a Intuição-Espírito) sobre o mental e o astral, o que se verifica como “lampejos”, “vislumbres”, caracterizando-se como uma espécie de instinto superior não-animalesco, mas místico e oracular. São as faculdades dessa tríade imortal, sobretudo as do Sétimo Princípio, superior aos demais, que permitem aos homens realizar as mais diversas curas e fenômenos desconcertantes chamados erroneamente de “sobrenaturais”. Da ótica espiritualista, portanto, o homem que elevou-se a “titã”, “super-homem”, ou que integrou-se à Nous (o Espírito), passa a ser o médico, o juiz e o legislador inigualável de si próprio e do mundo em que vive. Tal mérito dá-lhe o direito de ser efetivamente um Instrutor da Humanidade, uma Grande Alma, um Adepto Perfeito. Só o é, portanto, quem descobriu a si mesmo. Este status dá-lhe, também, a hierarquia consciencial necessária para ser ao mesmo tempo ungido como Sacerdote e Rei, tal como os antigos faraós. Tal realização traz os conhecidos poderes psíquicos (inferiores e superiores) tão apregoados desde o Oriente, entre os quais a lembrança de todas as vidas passadas (acessível tão-somente através de Budhi, o Sexto Princípio) e do conjunto de conhecimentos adquiridos em todas elas, tornando a sua memória e seus saberes realmente gigantescos. Possibilita-lhe ainda ver o passado e o futuro, assim como qualquer coisa do tempo presente. No Oriente fala-se dos Oito Poderes do Yoga despertados pelo Iluminado ou Mahatma, através do despertar de Kundalini pelos sete chakras principais, além de um oitavo de especial importância e pouco mencionado, chamado Vibhuti, logo baixo do chackra Anahata, com oito pétalas.  

As religiões, se puderem pacificar-se entre si, criando um liga espiritualista verdadeiramente tolerante, estimulando o ensino comparado das religiões e das Sagradas Escrituras no ensino público de seus países, mostrando o mais nobre senso de ecletismo cultural e racial; se deixarem toda forma corrosiva de mercantilismo em seu seio; se derem mostras públicas de respeito; e se buscarem as filosofias dos mais diversos Instrutores Espirituais, poderiam prestar melhores serviços à Causa Humana, estabelecer a paz no mundo e dar uma certeza, mesmo que baseada na fé, do invisível e divino.     

Hoje, porém, a Religião é apenas o reflexo da decadência de um ciclo, e uma das causas maiores dessa mesma decadência.

Enquanto ao cientista de nossos tempos, pode-se ter em Einstein um exemplo salvador: budista (logo conhecedor das Leis de Karma e Reencarnação), músico (tocava violino, instrumento já de si iniciático) e estudioso da astrologia (logo conhecedor das influências dos astros nas personalidades humanas, até certo ponto). Esta combinação de ciência (que graças a seres como ele contribuem para que a mesma seja menos materialista a cada século), religião budhista (mais pacífica e mais sábia que as do Ocidente), arte e esoterismo, revela-nos o gênio e pendor promissor de um novo tipo de cientista (observe-se que apenas para o mundo atual). Nele há um modelo vanguardista. Em suas próprias palavras: “A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”.

Tanto o espírito religioso quanto o espírito lógico fazem parte da condição humana, e não podem ser extirpados dela. Nem tudo são capazes de explicar nossas religiões, do mesmo modo as ciências. Fé e Razão complementam-se, prestando mútuo auxílio e testemunho para o conhecimento de certas verdades, ora inalcançáveis pela mente analítica e discursiva, ora inexplicáveis pela experiência direta e mística. Deve ser o binômio Religião-Ciência, depurada uma das falsas interpretações e depurada a outra de seu materialismo congênito, que há de criar-se realmente um saber superior e mais verdadeiro sobre o Ser e a Natureza. Além do mais, isto constitui o equilíbrio entre duas partes mutuamente necessárias ao ser humano, o que está de acordo com a ideia de Unidade. Ambas, abertas uma à outra, podem ser a chave maestra a abrir novos caminhos que conduzam à Fraternidade Universal dos Povos, concorrendo para o bem-estar físico, psíquico, mental e espiritual de todos.  

Quanta mais avança a Ciência, mais próxima fica de velhas verdades ocultistas, que ela tanto teima em rechaçar, considerando-as fantasias e charlatanismo. Trata-se, no entanto, de seu limitado campo visual. Seu ceticismo deverá ser rompido pelo decorrer de sua própria evolução, diante de problemas e soluções incontestes, e na medida em que o Ocidente se orientalizar, coisa esta em andamento sobretudo depois da segunda metade do século XIX, quando se tem início uma nova espécie de Renascimento (das culturas orientais, centradas no Egito e na Índia, como outrora na Grécia e Roma), embora este seja um fato ainda não divulgado pelas escolas e desapercebido de boa parte dos intelectuais. Estamos ainda a falar somente do Renascimento do século XVI.

Deste cenário caótico reluz um aerólito divino: é a expressão plenamente ativa entre a Religião e Ciência – a Teosofia. Expressa a mais alta tradição revelada desde tempos imemoriais, antes mesmo de existirem os Mistérios, constituindo a Tradição Primordial ora transmitida pelos “Deuses” aos homens nos albores de sua infância civilizacional. São os mesmos Mistérios instituídos na velha pátria de Rama, Osíris ou Odin, desmembrando-se nas diversas artes, línguas, ciências, religiões e filosofias ao longo dos tempos, e progressivamente distorcidos. Tal Ciência dos Deuses, apesar de sufocada circunstancialmente pelos entraves políticos e religiosos, nunca tem desaparecido por completo. Ontem, como hoje e amanhã continuará a inspirar os homens de boa vontade, libertos do jugo de preconceitos.

Cito novamente os pensamentos certeiros explanados no texto “A Tradição – A Revelação”, na Revista Dhâranâ, n° 136, ano 1948:

“Falta ao mundo uma didática transcendental, uma Iniciação e um ensino penetrante que não fique só na periferia da mente visando o equilíbrio social, à base da virtude, não dessa virtude convencional, pela qual o homem se porta de conformidade com o “bom senso”, ou seja, a maneira de proceder em uso em cada país, de acordo com os hábitos e costumes locais, mas na acepção que lhe dá Platão: do desenvolvimento das potências internas, das virtualidades daquilo que se acha no âmago de cada homem. Como supremas faculdades do Eu, que transcendem a mente. A Ciência não propicia ao jovem moderno estas possibilidades; as religiões da mesma maneira, por ordenarem que se busque fora o que está dentro. Realmente é muito mais árduo e difícil o processo iniciático, e nem é de se pensar por enquanto que os homens, já num futuro próximo, se tenham tornado Iluminados de um dia para outro. O que é imprescindível é que haja governos de justiça, liberdade universal de cátedra, fora dos quadros rígidos e tirânicos de uma didática de ferro. Destruição universal dos armamentos e instrumentos de fabricar armamentos. Liquidação mundial dos sistemas aduaneiros. Disseminação gradual e mais rápida possível, pelos ensinamentos nas escolas do mundo inteiro, de uma língua em que, e só nela, seja publicada toda a literatura mundial, inclusive livros didáticos escolares (estes também em língua local). Separação estatal dos cleros de todas as religiões, respeito à individualidade humana, moralização da justiça em todo o mundo, pela procura de juízes, cuja razão paire acima do frágil e vulgar “senso comum”, que varia de indivíduo para indivíduo, e que de comum só possui uns tantos preconceitos arraigados. Nessa base, a Humanidade viveria muito mais feliz e não mais presa às contingências de uma existência desgraçada como a em que hoje se debate. Ao cabo de algumas gerações perceberia que sua constituição interna, sua maneira de ser íntima, se estaria modificando, vendo e percebendo o mundo por outra faceta, de modo mais profundo e belo. Teria uma compreensão mais penetrante da Natureza, sentiria um entrelaçamento maior com ela. Seria afinal a evolução da alma humana para o Bem, o Bom e o Belo. Então, dia a dia, a Tradição “perene”, que “subsiste, apesar dos radicalismos circunstanciais”, desabrocharia mais potente e pública, e as Verdades primitivas, as Revelações das eras arcaicas, conhecimentos imorredouros voltariam a se impor naturalmente ao consenso universal, na esfera da Ciência e na esfera da Religião, fazendo com que ambas acabassem por se confundir num só conhecimento público, ensinado nas escolas, da Religião-Sabedoria da Religião-Ciência. E isto já então pela impossibilidade evidente de se isolarem os conhecimentos científicos dos conhecimentos religiosos, que a esta altura já teriam perdido o caráter dogmático, imposto até hoje por concílios de uma ínfima minoria humana, ou por conjecturas de pesquisadores científicos. Para se tornarem conhecimento transcendentais, metafísicos, intelectualizados como princípios básicos do equilíbrio interno, e portanto, social. Os conhecimentos físicos encontrariam assim explicação em sua origem metafísica. As religiões estariam unidas num só corpo místico em simbiose com a Ciência. O esoterismo – não na acepção muito desvirtuada que grande número de pessoas pouco compreensivas dá hoje a esse termo – pouco a pouco se teria tornado exoterismo, o velado, desvelado, a “Maia”, realidade, sem a presunção de qualquer mistério sobrenatural, ou em função de processos de ocultismo”… ou “Teosofia”… na acepção pejorativa que a Ciência positiva e as religiões emprestam a essas palavras. A “Maya”, ilusão, “avydia”, falta de conhecimento da Verdade, de “Dharma”, da Lei, não decorre de véus que por ventura a possam esconder, mas da própria mente humana, de acordo com os seus graus de assimilação, apreensão e prática dos princípios que determinam a natureza desse mesmo Dharma: não existem, pois, mistérios, limites ao conhecimento humano ou segredos. Estes são proporcionais àqueles graus acima referidos.”

Este binômio, por outra, não é mais do que a união entre a Bondade e o Conhecimento ou Sabedoria. É a mística devocional da Fraternidade Humana, do sacrifício, renúncia e laborar pelos demais, ao qual o conhecimento científico deve estar atrelado, caso contrário tornar-se-á somente semente de holocaustos. É como se disséssemos que um é o Pai (Ciência, Sabedoria) e o outro a Mãe (Religião, Amor). São os gêmeos Pensamento-Amor. Que civilização, em sã consciência, poderia aceitar a exclusão ou a discórdia entre ambos aspectos? Estes não são senão pratos da mesma balança, e para tanto devem estar equilibrados, pois daí resulta o Reino da Paz e Justiça.  

As seguintes palavras sábias de Goethe muito bem se aplicam à Ciência de hoje: “A natureza cerca-nos e coleia-nos por toda a parte; e nós somos igualmente impotentes, quer para fugir ao seu abraço, quer para conhecer a intimidade do seu seio”.

Sinésio, bispo grego católico e neoplatônico, diz o seguinte:

“Asseguro que eu nunca discutirei a crença de que a origem da alma é posterior a do corpo. Não admitirei que o cosmos e a suas partes estão destinados a uma destruição conjunta. A tão alardeada ressurreição considero algo sagrado e inefável e bem distante estou de coincidir com as opiniões das massas. (…) Se isto me consentem as leis do ministério sagrado que vou desempenhar, poderia exercê-lo da seguinte maneira: em privado, dedicar-me-ia à filosofia, porém, em público, contaria fábulas (μῦθοι) em meus ensinamentos”.

Fábulas ou discursos velados, ilusórios ou mayávicos, que escondem atrás de si o Sol da Verdade e método com o qual se iniciam as massas. Tanto Jesus como outros Iluminados agiram igual. Mais vale ao Cristianismo voltar às suas origens, quando era positivamente norteado pelas doutrinas esotéricas por meio do Gnosticismo, Platonismo, etc. Tenhamos dito, também, por consequência, de que o melhor da teologia cristã radica na filosofia de Platão, também um iniciado nos Mistérios do Egito (Mênfis), como seu mestre Pitágoras.

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