Gurdjieff era Sufi Naqshbandi

      George Ivanovich Gurdjieff, nascido na região do Cáucaso, na última metade do século XIX, foi dramaturgo, místico, mestre espiritual…. Alguns o consideram como filósofo, vendia tapetes, consertava qualquer coisa, enfim fazia um pouco de tudo. Outros o consideram até charlatão. Faleceu em 29 de outubro de 1949. Ele era uma pessoa cercada de mistério e muitos relatam que ele tinha uma presença espiritual extraordinária. Alguns estudiosos o consideram como o maior místico do século XX.

      A origem dos ensinamentos de Gurdjieff é considerada ainda um enigma pela grande maioria das pessoas que o estuda. Uma pista mais concreta que Gurdjieff deixou em relação à origem de seus ensinamentos é Sarmoung (templo esotérico de local incerto). Porém, apesar de poucas pessoas conhecerem a origem de sua sabedoria, ela já foi bastante estudada e está disponível em vários livros, dos quais citaremos alguns agora.

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Gurdjieff

            Nos diversos livros que apontam para a verdadeira origem dos ensinamentos de Gurdjieff, há uns mais ficcionais, outros críticos e alguns sérios e com uma riqueza enorme de detalhes. Começaremos por um livro de ficção, que diz que Gurdjieff (chamaremos a partir de agora de G.) foi um sufi. O título deste livro é “Os Mestres de Gurdjieff” de Rafael Lefort. Dos livros que abordam este tema, este é o mais conhecido. Mas, tem uma história de ficção, ao melhor estilo de G., como em seu livro “Relatos”, logo não tem tanto crédito no mundo acadêmico-científico. Neste livro o autor nos leva a uma viagem pela vida de G., passando por encontros fantásticos com mestres sufis. O curioso aqui é que G. falava que os seres humanos têm a capacidade de “sentir o cheiro da verdade”, mas que esta capacidade está muito exaurida no homem contemporâneo. Neste livro em questão, o estudioso de G., ao ler o livro, sente um “cheiro da verdade”, vê nexo no que é exposto, mas há algumas contradições enormes, como a possibilidade de encontrar mestres sufis que já eram idosos quando G. os conheceu, mas que até a época na qual o livro foi escrito, estavam vivos (década de 60 do século XX).

        Passemos agora para outro livro, com muito mais credibilidade. O nome deste livro é “A Tradição Sufi no Ocidente” de Omar Ali-Shah. Neste livro Omar Ali-Shah (conhecido como Agha), expõem que G. extraiu todos os seus ensinamentos da Ordem Naqshbandi. Porém, Agha é extremamente duro, dizendo que G. foi um usurpador, pois vestiu uma roupa que não era sua e alegou ser sua, referindo-se aos ensinamentos de G. E o acusa de ser um charlatão. Temos que ver o contexto no qual este livro foi escrito. Este livro é uma coletânea de palestras de Agha. Esta palestra específica sobre G. foi dada diante de vários ex-discípulos de G. Agha estava tentando mantê-los cativos às suas ideias e ao seu grupo. Agha é considerado um mestre do grupo conhecido como Tradição Sufi¹. O mestre anterior deste grupo é seu irmão Idries Shah. Este é muito conhecido e tem dezenas de livros sobre o Sufismo. Após a morte de Idries, Agha se tornou, durante muitos anos, coordenador deste grupo, que tem milhares de integrantes, principalmente no ocidente. Depois da morte de G., grande parte de seus alunos adentraram no Instituto Gurdjieff². Outra parte considerável foi para a Tradição Sufi. Infelizmente, nos dias atuais, quase não há nenhum aluno direto de G. vivo.

        Agha criticou G. neste livro provavelmente devido ao contexto de sua palestra. Queria manter os ex-discípulos de G. mais próximos às origens dos ensinamentos deste. Pois, depois de anos da morte de G. muitos iam buscar em mestres indianos a origem destes ensinamentos, dizendo que G. reencarnou na Índia e seria um ou outro mestre de lá (atitude bastante contraditória, pois G. sempre afirmou não haver reencarnação nos moldes em que o hinduísmo e espiritismo pregam).

        Logo, as críticas de Agha à G. devem ser vistas neste contexto, pois em seu âmago Agha sabia a verdade sobre G. (exposto nas notas no final do texto). O importante desta palestra de Agha é sua afirmação categórica de que G. extraiu suas ideias do Sufismo.

        Agora, sem dúvida, um dos estudiosos que mais se aprofundou nas pesquisas da origem dos ensinamentos de G., foi John Bennett. Ele foi um matemático, cientista, tecnólogo, diretor de pesquisa industrial e autor britânico. Ele é conhecido por seus muitos livros sobre psicologia e espiritualidade, particularmente sobre os ensinamentos de G. Bennett conheceu G. em Istambul em outubro de 1920 e depois ajudou a coordenar o trabalho de G. na Inglaterra após a chegada de G. em Paris. Bennett foi então um discípulo muito próximo de G. e também muito próximo de Ouspensky (discípulo mais famoso de G. e autor do livro “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido: Em Busca do Milagroso”).

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Ouspensky

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        Bennett esteve com G. por duas horas no sábado anterior à morte de G. Após este acontecimento Bennett (chamaremos agora de B.) conversou com familiares de G., coletou relatos e depoimentos de todos (familiares e alunos mais próximos) em relação a tudo que sabiam sobre as origens de seus ensinamentos. Estes familiares deram autorização à B. de fotocopiar todos os apontamentos de G., todas as folhas de todos os passaportes de G. e todos os documentos que ele possuía. Após todas estas tomadas de informações, B. refez todas as viagens de G. Além de ter pesquisado a fundo seus livros. “Relatos”, livro escrito por G., com mais de 1.000 páginas, B. afirmava ter lido entre 40 e 50 vezes.
       B. afirmava categoricamente, em dois de seus livros, “Gurdjieff: A Very Great Enigma” (sem tradução para o português ou espanhol) e “Gurdjieff: Haciendo un Mundo Nuevo” (sem tradução para o português), que G. extraiu pelo menos 70% de seus ensinamentos da Ordem Naqshbandi. E que parte considerável dos outros 30% era do próprio G. ao tentar adaptar este ensinamento à cultura ocidental.

Imagem5John Bennett

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      Como citado anteriormente, a única pista mais concreta que G. deixou em relação à origem de seus ensinamentos é Sarmoung. B., no livro “Gurdjieff: A Very Great Enigma”, nos aponta para a pista mais evidente: no livro “Encontros com Homens Notáveis” de G., ele escreveu que o sufi Bagaedin, de Bokhara, lhe indicou onde era Sarmoug. B. nos relata que na língua russa, a qual era a mais utilizada por G., o som da letra “g” é igual ao som do nosso “h” das línguas latinas. Se substituirmos o “g” do nome Bagaedin, pela letra “h”, o nome se tornará Bahaedin. Há um sufi muito famoso, nascido em Bokhara, no século XIV, chamado Bahaudin Naqshband, mestre da Ordem Naqshbandi em seu tempo. Esta era uma pista, que G. deixou para quem queria se aprofundar em seus ensinamentos e encontrar suas origens.

        O livro “Gurdjieff: A Very Great Enigma” é praticamente um resumo do livro “Gurdjieff: Haciendo un Mundo Nuevo”. Vamos explorar agora um pouco deste último livro.

“Ao entrar em contato com os sucessores dos Khwajagan, a

Congregação Naqshbandi, comecei a convencer-me de que

[Gurdjieff] havia adotado muitas de suas ideias e técnicas.”

(John G. Bennett, “Gurdjieff: Haciendo un Mundo Nuevo”, pg. 32).

 

         B. explora em mais de 300 páginas, neste livro, a ligação entre G. e a Ordem Naqshbandi. No trecho abaixo, B. fala que o Olman Tabor (o mestre que inspirou a Essência de G.) foi um Khwaja, isto é, um integrante da Ordem Khwajagan (a Ordem Kwajagan levou este nome até o século XIV e dela saíram inúmeros mestres sufis ilustres, como Rumi. A partir do século XIV, com o mestre da Ordem Khwajagan chamado Bahaudin Naqshband, esta ordem passou a adotar o nome de Ordem Naqshbandi).

“Khwaja Ahrar foi o mais famoso dos Khwajagan… Ahrar era

considerado como homem de poderes milagrosos. Seu nome

aparece em todas as histórias da Ásia Central do século XV. No

próximo capítulo se sugere que Ahrar foi o verdadeiro Olman

Tabor de Gurdjieff…” (John G. Bennett, “Gurdjieff: Haciendo un

Mundo Nuevo”, pg. 51).

 

          Faremos agora uma “chuva de informações” rápidas para passar ao leitor uma visão geral deste livro de B. Na página 59, deste livro, B. relata que Sarmoung e Naqshbandi são praticamente sinônimos. Pois, os Khwajagan eram os mentores da famosa Irmandade Sarmoung.

           Na página 79, B. escreve que frequentemente G. falava: “cada homem deve ter seu Mestre. Até eu, Gurdjieff, tenho meu mestre” e as vezes acrescentava: “Eu nunca me separei de meu mestre e agora mesmo estou em contato com ele.” [O mestre vivo de G., naquela época, era Grandsheikh Abdullah al-Fa’iz ad-Daghestan. Grandsheikh Abdullah Daghestani foi o 39º mestre da cadeia dourada de transmissão da Ordem Naqsbhandi. Foi o mestre de Mawlana Sheikh Nazim, o 40º mestre da Ordem Naqshbandi (que foi o mestre vivo de Omar Ali-Shah – Agha, já citado anteriormente). O atual mestre da Ordem Naqshbandi, o 41º é Mawlana Sheikh Mehmet Adil an-Naqshbandi al-Haqqani].

           Na página 94, B. aponta que e origem das Danças Sagradas de G. ou “Movimentos” é da Ordem Naqshbandi no Afeganistão. Na página 100, Bennett relata que entre 1905 e 1907 G. esteve em uma Tariqa Naqshbandi na região de Yesevi, lá ele aprendeu as Danças Sagras Yesevi, que posteriormente ensinou em seu instituto. E muito do que ele ensinou no instituto se deve a este contato, deste período.

          Encontramos na página 106, deste livro, que é um achado para os apreciadores de G., uma relato de B., no qual expõe que G. esteve entre os Mestres da Sabedoria, a Ordem Naqshbandi, herdeira da antiga Ordem Khwajagan, entre 1902 e 1912 e que sempre confiou suas intenções, pedindo orientações a esta Ordem quanto ao direcionamento de seu Instituto e estes cooperaram com G. neste direcionamento.

         Já na página 115, B. novamente aponta sobre a origem Naqshbandi das Danças Sagradas de G., dizendo que G. ensinou-as pela primeira vez em 1918, com 40 discípulos [número muito utilizado nos ensinamentos Naqshbandi] em Tuapse.

         Na página 163 e 164, B. clareia que Gurdjieff mandou várias cartas entre 1927 e 1928 à Ordem Naqshbandi. Nesta época, G. falava aos seus alunos que ia para Alemanha, mas na realidade, em seu passaporte consta, nas datas que falava estar na Alemanha, viagens para o Oriente Médio, em especial para o Turquestão. País onde a Ordem Naqhsbandi é muito forte. Nestes anos G. estava bastante dedicado à escrita de seu livro “Relatos”.

          Algumas outras preciosas informações são encontradas na página 208, na 8ª linha do primeiro parágrafo, B. afirma que G. praticava o Ziker (meditação sufi) regularmente. E a partir da página 220 em diante, B. explora algumas ideias centrais de G. e relaciona-as à Ordem Naqshbandi.

          Por fim, acabando esta nossa rápida tomada de consciência deste livro, na página 267, B. nos aponta que a origem da Cosmologia apresentada por G. é Naqshbandi. Passamos aqui, por apenas alguns dos trechos interessantes deste livro, sendo o último a ser citado:

“G. era, antes de tudo, um sufi e queria dar a entender que não

se pode reconhecer o sufismo somente pela aparência externa.

O verdadeiro caminho transmite uma força espiritual, Baraka,

que permite fazer algo que está muito longe do alcance de

nossas próprias forças.” (John G. Bennett, “Gurdjieff: Haciendo

un Mundo Nuevo”, pg. 263).

          Dentro da Ordem Naqshbandi há relatos, passados oralmente aos murids (discípulos), de como foi a iniciação de G. na Ordem. Inclusive há um texto, que segue em anexo, que expõe de uma maneira poética esta iniciação.

          Ouspensky, no seu livro Fragmentos (citado anteriormente) e autorizado por G. para publicação como um livro útil para exposição de suas ideias, relata que G. dizia que pode-se medir a evolução de um ser humano analisando qual é o conhecimento deste em relação ao Eneagrama. Logo, G. dava uma importância considerável a este símbolo, chamado Eneagrama (que contém em si a explicação para qualquer fenômeno micro ou macro, passando pela personalidade do homem até às leis que o Absoluto criou para reger o universo), desta forma imagina-se que os estudiosos de G. deveriam conhecer este símbolo e saber como ele funciona. O curioso é que G. nunca o explicou por completo, deixando-os sem o conhecimento real e completo do Eneagrama. A Ordem Naqshbandi detém há mais de mil anos os segredos dele. Há Naqshbandis que o explanam com maestria.

Um dos exemplos mais próximos de nós, é o do Sheikh Naqshbandi Abdul Karim Baudino, da região de Buenos Aires – Argentina. Além de explicar o Eneagrama em seus livros, ele também nos brinda com análises profundas dos ensinamentos de G., como poucas pessoas vivas no ocidente hoje poderiam transmitir. Nestas ideias é nítida a equivalência entre o que G. expunha e o ensinamento milenar que o Sufismo nos traz:

“Gurdjieff dizia: o ser humano vive uma falsa personalidade,

mas atrás da falsa personalidade está a personalidade, e atrás

da personalidade está a Essência, e atrás da Essência está o Eu

Real, e atrás do Eu Real está Deus.” Livro: “El Eneagrama Sufi”,

de Abdul Karim Baudino, pg. 79.

 

Em outra passagem deste livro, Abdul Karim nos aponta outra ideia de G. e de qual ensinamento sufi G. adaptou tal ideia:

“O antídoto contra o esquecimento de si é a lembrança de si,

que é o conceito central do sistema de Gurdjieff, que tomou tal

conceito do Sufismo, cujo termo capital é a ´lembrança de

Deus´.” Livro: “El Eneagrama Sufi”, de Abdul Karim Baudino, pg. 66.

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Eneagrama

E pouco adiante, neste mesmo livro, Abdul Karim aponta, indiretamente, sem ter isto como foco central de sua explanação, qual foi a missão de G., recebida de seu mestre Grandsheikh Abdullah Daghestani:

“Pergunta: ‘Então, Gurdjieff secularizou o Sufismo?’ Depende

de como você vê. Tudo está relacionado ao que ele tinha que

fazer. Uma das missões de Gurdjieff foi aproximar a

espiritualidade do ocidental cético. Então, o que ele fez? Pegou

uma tradição espiritual como o Sufismo, captou os conceitos

essenciais, retirou dele as conotações emocionais e

apresentou-o sob uma terminologia técnica que não

despertava associações religiosas. Se você vê assim, a

“lembrança de si” substituirá a “lembrança de Deus”. Mas,

disto a pensar que ele secularizou ou profanou o Sufismo,

entendo que fica limitado, porque Gurdjieff era muito

consciente da impossibilidade de conseguir algo aqui sem a

intervenção de um Poder Superior. Agora, se o que ele fez tem

valor ou não, vamos entender logo. Livro: “El Eneagrama Sufi”,

de Abdul Karim Baudino, pg. 67.

 

      Então, podemos perceber que G. recebeu a missão de seu mestre Naqshbandi, de difundir o Sufismo no ocidente, tirando do que difundiria a parte devocional contida neste. Desta maneira G., com extrema eficácia, adaptou o Sufismo à mente de um ocidental europeu do século XX, fazendo com que o Sufismo, chegasse, indiretamente à milhares de corações. Fenômeno que reverbera até os dias atuais.

      Em outro trecho, deste mesmo livro que estamos expondo agora, é possível perceber a relação de G. e da Ordem Naqshbandi, levando em conta a própria relação da distribuição geográfica que G. faz dos conhecimentos espirituais, coincidindo como “uma luva” aos relatos de Bennett sobre, por exemplo, a frequentes viagens de G. ao Turquestão e Oriente Médio:

“A questão importante é como utilizar este conhecimento para

deter a projeção e a reinjeção, recuperar o Espírito e retornar

à Deus. No Sufismo não há nada que se ensine sem o sentido

prático. De modo que não se trata de transmitir um

conhecimento que não se possa usar, e sim um ensinamento

que transforme. Como dizia Gurdjieff: ‘Faz muito tempo que as

coisas ficaram repartidas assim: na Índia a ‘filosofia’, no Egito a

‘teoria’ e na região que corresponde hoje a Pérsia,

Mesopotâmia e Turquestão, a ‘prática’. E acrescentava que a

prática era central, porque permitia reconstruir qualquer vazio

das outras disciplinas.

A chave da prática foi preservada no Oriente Médio – Irã,

Iraque, Síria, Turquia, Afeganistão -, onde se enraizou o

Sufismo, daí ser possível o conhecimento ser passado num livro

e o poder deste conhecimento, só ser transmissível através de

um Mestre vivo. Gurdjieff dizia: ‘Todos os caminhos conduzem

a Balkh’ que está no Afeganistão e é a cidade onde se

estabeleceu a Escola dos Mestres da Sabedoria, conhecida

como Irmandade Khwajagan [Ordem Naqshbandi]. E, aqui há

um tema imenso, que somente vou mencionar neste ponto:

estes ensinamentos provém desta Escola e, a menos que se

guarde conexão com um de seus integrantes, o conhecimento

que se transmite está morto, quer dizer, não transforma.”

Livro: “El Eneagrama Sufi”, de Abdul Karim Baudino, pg. 109.

 

        Através desta curta exposição de algumas partes relevantes de alguns livros, podemos ter uma percepção bastante clara das origens dos ensinamentos de Gurdjieff.

 

     Dentro da Ordem Naqshbandi, Gurdjieff é considerado um santo ou um sufi, propriamente dito. Para a pessoa se tornar um sufi é necessário que ela atinja um grau de evolução espiritual específico. Gurdjieff teria chegado a um grau de evolução, segundo suas próprias ideias, equivalente ao Homem Número 5. Que é exatamente o mesmo grau equivalente ao Nafs 5, de acordo com os ensinamentos sufis. Gurdjieff é um dos principais místicos ocidentais do século XX, realmente. Porém, não é largamente conhecido no oriente. Dentro do sufismo há outros notáveis que foram além deste grau de evolução que Gurdjieff chegou, sendo mais notórios lá que Gurdjieff. Um exemplo é Mawlana Sheikh Nazim.

 

      O leitor pode tomar as referências de livros aqui expostos e se aprofundar nos livros citados para uma visão mais ampla desta relação. No entanto, este breve texto deixa bastante explícita esta relação, mostrando que é indubitável a origem no Sufismo Naqshbandi de quase a totalidade das ideias e práticas de Gurdjieff.

 

Abdul Qadir – Curitiba – 19/09/2017

¹Tradição Sufi:  o grupo com esta denominação é considerado por alguns estudiosos como um Neo-Sufismo. E por autoridades no Islã como um pseudo-Sufismo. Ele surgiu logo após a morte de Gurdjieff e coptou muitos de seus alunos. A verdadeira Ordem Naqshbandi, assim como incumbiu Gurdjieff da difusão de seus ensinamentos, pode ter incumbido Idries Shah e Omar Ali-Shah desta mesma missão. Uma curiosidade quanto ao Agha (Omar Ali-Shah – o segundo coordenador deste grupo) é que ele era discípulo direto de Mawlana Sheikh Nazim, 40º mestre da Ordem Naqshbandi Haqqani. Inclusive o Agha levava seus discípulos mais próximos para serem iniciados nesta ordem sufi. Logo, Agha sabia que Gurdjieff não era um charlatão e sim um sufi Naqshbandi.

²Instituto Gurdjieff: no livro de Gurdjieff “A Vida só é Real Quando Eu Sou”, ele deixa claro que não autorizou ninguém a dar continuidade a seu Trabalho e que seu “Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem” estava definitivamente encerrado. Gurdjieff não poderia passar para ninguém sua maestria ou mandato, pois ele não possuía o poder espiritual equivalente para este fim. Seu poder espiritual não lhe concedia a possibilidade de transmissão deste para outra pessoa, tornando-a assim um mestre de sua cadeia de transmissão. Sabendo disso, Gurdjieff encerrou ainda em vida a continuidade de seu Trabalho. Como ele mesmo expôs em seus ensinamentos, todos precisam de uma Escola para evoluírem espiritualmente. E uma Escola para ser verdadeira precisa ter um mestre vivo verdadeiro. Como ele não deu continuidade a seu Trabalho e o Instituto Gurdjieff nunca se arrogou, honestamente, ter um mestre vivo que coordenasse seus trabalhos, chega-se à conclusão de que o Instituto Gurdjieff é uma pseudo-escola.

 

Referências Bibliográficas:

– Bennett, John G.; “Gurdjieff: haciendo un mundo nuevo”; editorial

Sirio,  s.a. – Málaga; primeira edição; 1986;

– Bennett, John G.; “Gurdjieff, A Very Great Enigma”;  Samuel Weiser,

INC; York Beach Mine; 1973;

– Lefort, Rafael; “Os Mestres de Gurdjieff”; Edições Dervish;  Rio de —

Janeiro; 1985.

– Ali-Shah, Omar; “A Tradição Sufi no Ocidente”; Editora Dervish; Rio de

Janeiro; 1997.

– Ouspenski, P. D.; “Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido: Em

Busca do Milagroso”; Editora Pensamento; São Paulo; 2010.

 

Anexo 1:

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Shaykh Abd Allah ad-Daghestani

      Grandshaykh Abd Allah ad-Daghestani costumava servir no khaniqah de seu mestre. Todos os dias, centenas de pessoas chegavam para visitar o Grandshaykh. A maioria delas vindas de Daghestan. Em meio aos visitantes do Grandshaykh estava o professor russo George Gurdjieff. Tendo recém-chegado na Turquia, após uma longa e árdua fuga da revolução comunista, Gurdjieff veio para visitar Shaykh Sharafuddin. Ele já tinha contato anterior com os Sufis de várias formas e tinha sido criado dentro da filosofia, tinha viajado por toda região do Cáucaso. Ele teve o prazer de encontrar herdeiros da distinta linhagem dos Naqshbandi Daghestani.

      Shaykh Sharafuddin pediu ao Grandshaykh Abd Allah para hospedar seus convidados. Grandshaykh Abd Allah contou, a todos os convidados, alguns eventos nos quais aprendeu diversas de suas lições/instruções/disciplinas. Logo que se encontraram, Grandshaykh Abd Allah disse à Gurdjieff: “você está interessado no conhecimento dos nove pontos. Podemos falar sobre isso pela manhã, após a oração da alvorada. Agora, coma algo e descanse.”

     Na hora da oração da alvorada, Grandshaykh Abd Allah chamou Gurdjieff para orar com ele. Logo que a oração terminou, Grandshaykh começou a recitar a Surah Ya Sin do Corão sagrado. Assim que terminou, Gurdjieff se aproximou dele e perguntou se ele poderia dizer o que era aquilo que ele tinha acabado de experimentar/vivenciar. Gurdjieff disse: “Assim que você terminou de orar e começou a declamar, eu te vi vindo e pegando na minha mão. Nós éramos transportados para um lindo jardim de rosas. Você me disse que esse jardim é o seu jardim e essas rosas são seus ensinamentos, cada uma com sua cor e perfume. Você me direcionou a uma rosa vermelha, em particular, e falou, ‘Aquela ali é a sua. Vá e sinta o cheiro dela.’ Assim que eu o fiz, vi a rosa abrindo e desapareci no interior dela. Entrei nas raízes dela e elas me conduziram à sua presença. Encontrei-me entrando no seu coração e tornando-me parte sua. Através da sua força espiritual fui capaz de subir e conhecer a força dos nove pontos. Foi então que uma voz veio até mim como Abd an-Nur, disse, ‘Essa luz e conhecimento foram concedidos para você pela Presença Divina de Deus para trazer paz ao seu coração. Entretanto, você não pode usar a força desse conhecimento. ‘A voz acenou e se despediu com a saudação de paz e a visão acabou, ao mesmo tempo em que você estava terminando de recitar o Corão.”

      O GrandShaykh Abd Allah ad-Daghestani respondeu: “A Surah Ya Sin, chamada de ‘o coração do Corão’ pelo Sagrado Profeta (saws), contém o conhecimento desses nove pontos. Ela foi aberta a você através dessa experiência.

      A visão foi pelas bênçãos do Corão, ‘Paz! Palavra (de saudação) de um Deus Misericordioso’ [36:58]. Cada um dos nove pontos é representado por um dos nove santos, que são do mais alto nível dentro da Presença Divina. Eles são as chaves para os incalculáveis poderes intrínsecos do ser humano, mas não há permissão para o uso destas chaves. Isso é um segredo que geralmente não será revelado até os últimos dias, quando Mahdi aparecerá e Jesus retornará. Esse nosso encontro foi abençoado. Mantenha isso como um segredo em seu coração e não fale sobre isso nessa vida. Abd an-Nur é seu nome entre a gente. Você está livre para ficar ou seguir com suas responsabilidades consentidas. Você sempre será bem-vindo entre nós. Você alcançou salvação na Presença Divina. Que Deus te abençoe e que te fortaleça, assim como seu trabalho.”

 

Retirado e traduzido do site:

http://www.naqshbandi.org/naqshbandi.net/www/haqqani/sufi/NaqshSufiWay/gurdjieff.html (este link é antigo e já está inativo).

Link da Ordem Naqshbandi do Brasil

https://naqshbandibrasil.org/

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