Reforma Integral da Educação Pública Brasileira

ou Projeto: Educação a caminho da Sociedade Futura

Javier Alberto Prendes Morejón

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Tu saberás, se o Céu assim quiser, que a natureza,

semelhante em todas as coisas é a mesma em todo lugar,

de modo que esclarecido acerca de teus direitos verdadeiros,

teu coração de vãos desejos não mais fará o repasto.

Verás que os males que devoram os seres humanos

são o fruto de sua escolha; e que esses infelizes

buscam longe de si os bens de cuja fonte são portadores.

Pitágoras – Versos Áureos

 

      O erro desce por um plano inclinado, ao passo que a verdade tem que subir penosamente a escarpa da colina.

Provérbio Oriental

   
 

 A Eternidade do Universo in toto, como plano sem limites; periodicamente “cenário de Universos inumeráveis, manifestando-se e desaparecendo constantemente”, chamados “as Estrelas que se manifestam” e “as Centelhas da Eternidade”. “A eternidade do Peregrino” é como um abrir e fechar de olhos da Existência-por-si-Mesma, segundo o Livro de Dzyan.

Fragmento da Doutrina Secreta, vol. I, Helena Petrovna Blavatsky

 

   Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem.

Heráclito

    

Sumário

 

   – Prólogo

   – Crítica e ideais gerais sobre a Educação

   – Crítica e ideais práticos sobre a Educação

   – Crítica ao Conhecimento e sobre o Humanismo

 

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Em homenagem à Pátria Brasileira

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Apoteose à Missão Y – Yolanda Campello

 

Prólogo

   Diante de um mundo convulso em que as partes se digladiam em torno de sua própria ignorância, a saber, à procura de seus próprios benefícios como grandeza, opulência, domínio, etc., é visível, por corolário, a decadência da educação de cada país; de modo contrário, como teríamos chegado a tal nível de miséria e aflições por todo mundo? Fato a saber de que nossas escolas, por melhores que sejam consideradas, o são apenas profanamente, uma vez que, ao confundirem inteligência com informação, ou conhecimento com sabedoria, fizeram de seus alunos consortes estéreis, precipitando-os, no mais, à rebeldia consequente que os tem levado, por sua vez, às mais também estéreis filosofias contemporâneas.

   Assim deflagrada a incongruência em todos os sentidos, às vésperas, porém, de um novo mundo nos achamos, como o provam todos aqueles que, no horizonte das lutas sangrentas de nossos dias, realizam o sumo esforço de lançarem as bases de um novo rumo à humanidade. Gente de todo tipo, agora mesmo, medita sobre os futuros da civilização, enquanto as pátrias jazem adormecidas.

   As âncoras que ora encurvam os pensamentos em monólitos estáticos, ora, pela brisa, são repuxadas a uma inflexível verdade. Igualmente, enquanto tombam mil árvores, crescem outras dez mil. Da aridez desértica das cidades, da vida onde quer que esteja, pronuncia-se também o infindo desejo de Paz e Justiça, cuja vibração lança suas hostes à final Fraternidade entre os homens. Se fará esta, contudo, não pelo ferro, ouro ou prata, mas antes pela pena e punhos dos sábios.

“Mais vale viver pela humanidade do que morrer por ela”. 

 

Crítica e ideais gerais sobre a Educação 

    

   I – Formação Integral: corpo, alma e espírito

   Creio que, a início de reflexão – como é sabido do senso comum -, pode-se considerar a escola, colégio ou universidade, por excelência, como a própria vida; a vida que é o “sumo teatro iniciático” do ser humano; teatro onde o homem aprende a conhecer-se, “a pôr-se em desvelo”; onde tateia, às escuras, à luz dos sofrimentos; onde, através das fadigas, das lutas e pesares, compreende-se, torna-se sábio; onde passa, portanto, a conhecer a si e o universo: tudo isto através dos embates que trava, em última instância, consigo próprio. Para tanto, logo necessita romper com seus próprios grilhões, os quais os atam ao mundo das lágrimas e ilusões; necessita, por força maior, progredir por meios dos erros e acertos, dos bons e maus caminhos, dos bons e maus pensamentos, segundo as virtudes ou os vícios, segundo a ignorância e os impulsos automáticos, uniformes, ou segundo a sabedoria, a sapiência, a intuição…  

   Desta ideia não se duvida, por muito comum que é a todos nós. Contudo, também existem – sempre existiram e sempre existirão – escolas, colégios ou academias para além dos institutos convencionais de educação e cultura, uma vez que formam indivíduos através de metas que, pode-se dizer, não se limitam ou não se enclausuram a um simples saber específico – acadêmico –, ou a uma série de também pequenos saberes específicos – tanto mais superficiais quanto mais “específicos” o são -, nem em vista de uma formação estrita ou restritiva, no sentido de estar voltada para uma única profissão ou uma única direção social, sem vazão para outras possibilidades e experiências de vida – algo igualmente, portanto, limitado e superficial de antemão. Ao contrário, pode-se dizer que são escolas – à guisa da arte do ferreiro que, qual Hefesto, através do fogo e de sua ciência, de algo líquido e informe passa a criar algo sólido e formidável; ou ainda à imagem da arte do oleiro, que de matéria inferior cria formas perfeitas e admiráveis – que forjam o indivíduo do ponto de vista do que poder-se-ia denominar como educação total, integral ou holística, ou ainda “suprema” – ou como bem quiserem empregar os termos -, constituindo esta a única forma verdadeiramente útil e edificante, ou melhor, sábia, de se formar indivíduos, ou antes, verdadeiros semideuses e gênios. Isto porque só uma educação integral, que faça jus à tríplice natureza humana (isto é: corpo, alma e espírito) pode ser, por conseguinte, funcional, profunda e sábia, em todos os níveis, estando de acordo com natureza real do homem e, logo, em harmonia com a mesma. Assim, evidentemente, se fará também em harmonia com a sociedade e, por isso, com o Todo, o Infinito ou o Incognoscível. Esta educação, portanto, não é apenas técnica, mas sobretudo moral e intelectual, tendo-se em vista uma educação o mais universal possível e ainda pautada nos ditames espirituais, estando, assim, em conformidade com a Evolução. 

   Porém, por tal denominação, para ser preciso, entende-se o seguinte, em relação às escolas: que estas não formem apenas em termos, como disse, técnicos (como normalmente é de práxis nos estudos das disciplinas, voltadas, por sua vez, por lei de interesses meramente mundanos, a fins especificamente práticos ou financeiros, sem dar-se valor à própria moral ou ao intelecto, à alma ou ao coração, pouco importando, logo, o conhecimento ou a maturidade; tal é o caso, por exemplo, dos vestibulares, assim como de toda lógica que envolve ingressar na universidade para ser, supostamente, uma pessoa “instruída” ou “culta”, mas nunca, já se vê, de bom caráter…), mas que desenvolva estas mesmas “bases do homem” citadas acima, ou seja: primeiro (1), o corpo (que bem deveria ser, antes de tudo, em relação a cada país, fomentado através de uma prática cultural autóctone, para a valorização da própria cultura nacional, o que está em perfeita adequação com as necessidades idiossincráticas de cada país, para assim salvaguardar-se uma determinada identidade que, porventura, se ache cada vez mais perdida face, sobretudo, à norte-americanização – ou “imperialismo psíquico” – das sociedades, do materialismo “bravio” e das desenfreadas ideias de consumo e amor ilimitado ao dinheiro; sinais estes que concorrem, cada dia mais, para a perda de grandes riquezas culturais, extremamente belas e profundas, radicadas no coração de cada Pátria); em segundo (2), a alma ou a mente (representadas pela Ciência e pela Filosofia, ou pela Razão, Lógica, etc., embora que, se considerada a Iniciação, “alma” compreendida como o “fio de ouro” que liga esta ao espírito, ou à Consciência Eterna, na mesma razão daquelas três perguntas fundamentais, filosóficas e iniciáticas desde sempre perquiridas pelo homem: “Quem eu sou? Da onde vim? Para onde irei?”); e em terceiro (3), o espírito ou o coração (germens da Arte, da Meditação, do caráter, do senso religioso ou espiritual inerentes à natureza humana, ou à intuição, à beleza, à poesia, etc., na mais sublime de suas expressões).

   Tais são as “bases unívocas do homem”. A rigor: corpo, alma e espírito. Tais são também, analogamente, os três caminhos básicos das Sendas Espirituais (Devoção, Karma e Sabedoria), como três colunas indissociáveis, assim como Nascimento, Vida e Morte.

   É preciso lembrar que tais denominações ou ideias não são novas, mas mais do que nunca urgentes. Estas são, pois, as três bases, camadas, colunas ou pilares da natureza humana, sem as quais não a podemos compreender. Por isso, por corolário, também implícitas as ideias de Karma e Reencarnação – do contrário não haveria espírito nem se explicariam as “desigualdades” verificadas na vida humana, logicamente, como uns nascerem ricos e saudáveis e outros pobres e enfermos. Ora, se assim é – se aceitamos tal ideia, uma vez que a podemos verificar em nós e segundo nós mesmos, sem maiores problemas -, não deveria, portanto, como seria lógico, a educação estar direcionada nesse sentido – no sentido da união dessas três esferas -, de fato, e em termos perfeitamente equilibrados?

   Não deveria a educação estar em consonância com a natureza humana, de modo que assim pudesse desenvolver ao máximo as suas próprias potencialidades ou forças latentes? Por acaso alguém pode afirmar, com razão, que o corpo é uma realidade desconexa da mente, ainda neste século? Ou que o coração é uma realidade desconexa da alma, sem ocasionar-lhe influência alguma? Que a psique não influencia, portanto, o corpo e vice-versa? Ou que a alma, ainda, não está ligada ao espírito – o que vai mais além do mero “psicossomático”? Que não é o homem também uma unidade entre diferentes planos ou dimensões, unidade essa que o torna tão esplêndido e semelhante às próprias divindades ou à própria Eternidade? Não é ele dividido, pois, em três, como em todas as religiões? Não é ele uno, trino e também setenário?

   Portanto, por que não seria benéfica a aproximação do corpo, da alma e do espírito (do físico, da razão e da intuição), dentro da concepção educacional, e do início ao fim da formação de cada indivíduo, se trinos nós somos? O único fim é o de que sua formação não seja meramente pseudointelectual, técnica, ou meramente física ou meramente devocional, ou somente artística, mas que seja ela por inteiro a soma e a realização de todas. Isso equivale a abranger ao máximo a educação.

   Também, não faria isso com que a própria intelectualidade do educado fosse maior (no sentido de uma ampla erudição que necessita nutrir), assim como sua moral, seu apreço à vida, o regozijo pela mesma, uma vez proporcionada através da arte e das coisas espirituais, além das físicas, que tão bem exemplificam a elevação da consciência e a expressão do belo e do bom e do bem, assim como uma saúde mais vigorosa através de um corpo bem educado?

   Não aumentaria com isso, com tal soma, a própria capacidade de assimilação do aprendizado? Não daria isso uma grande tranquilidade mental ao indivíduo diante do desassossego de um mundo turbulento em constante competição e em constantes desgraças? Não seria isso mais humano, de fato, do que a fajuta educação automática que incorporamos, calcada somente em mentiras e em pobreza intelectual, física, artística e moral? Não seria isso algo infinitamente acima dos tipos de morte cíclicas, tácitas e irrefletidas que podemos ver em todos os cantos do mundo, em especial naqueles mais desconfortantes, como nos ônibus, metrôs e elevadores – que tão bem ilustram o que digo – e, também – não muito diferente deste exemplo -, nas plateias das salas de aula do mundo inteiro e nos departamentos de todas as instituições culturais, além – por cruel que seja à nossa razão -, de nosso próprio lar – também enfadonho – e, enfim, de tudo quanto é lugar a que podemos ir? 

   Assim, não seria isso, sob todos os pontos de vista – tal “formação holística”, baseada nesses três pilares, verdadeira síntese da unidade humana -, algo mais criativo, mais saudável, mais cultural, mais humano, mais profundo e, portanto, mais benéfico em termos de uma formação viva, ao mesmo tempo que erudita e sagrada?  Não seria tal união entre tais pontos aqui expostos, na concepção educacional de nossas escolas e também na compreensão individual de cada indivíduo, uma ideia robusta e uma concepção transcendente? Se, como disse, são tais os “pilares humanos”, como “educar”, sem tê-los em vista? Logo, falsa é a educação que não os leva em consideração, preferindo aviltar-se, destruindo suas próprias gerações.

   Creio que da compreensão e concretização desses três pilares depende o futuro promissor e glorioso de qualquer sistema educacional (ou da construção de um verdadeiro “Edifício Humano”) ou então, sem eles, a completa decadência – como hoje se vê em todo o globo, e cujas desgraças, inúmeras, são provas vivas.

   Assim, qualquer educação que se ampare nesta premissa filosófica e saiba aplicá-la, ao contrário, encontrará na sociedade o progresso, porque nas pessoas a moral será vívida, a razão acima de qualquer pragmatismo, e da educação feita uma ciência integral, desde que não manchem tais valores com a estupidez dos preconceitos de raça, cor, gênero, casta, credo, etc. E enquanto os intelectuais não se organizarem e exigirem tal ponto de vista e sua implementação concreta, quem poderá fazê-lo? Como disse, em princípio, o bom desenvolvimento de nossa educação depende da compreensão e da aplicação correta desta premissa: corpo, alma e espírito. Este é o início teórico; cabe agora aprofundar-nos em outros aspectos.

    II – A inteligência deve prevalecer, nunca nenhuma outra forma de poder, e só a união pode dar frutos. Que a razão esteja sempre com o mais sábio, nunca com o mais forte.

   Um dos grandes fatores de decadência de nossas escolas é, regra geral, a falta de inteligência com relação aos tipos de concepções educacionais que se adotam – quando muito – , porque em geral baseadas em falsas premissas filosóficas ou em premissas incompletas perante a natureza humana ou do contexto social, sejam as concepções oficias, bem estimadas, ou não, e tanto por parte dos professores, através de iniciativas pessoais – muitas vezes opostas aos interesses burocráticos e partidários em vigor –, quanto às próprias orientações e projetos do Estado. De ambos os lados há grandes vazios e erros. E é, justamente no vazio, que se dão as quedas; e é justamente do vazio que é difícil soerguer-se…

   Fato consumado e indiscutível é que estar numa sala de aula implica, quase que necessariamente, estar como em qualquer outro lugar, ou seja: estar num nãolugar; num vazio onde, consequentemente, não há intimidade, não há irmandade, amor nem altruísmo; é estar onde tudo se dá através da solidão, porque vive-se sempre à lógica de grupos isolados entre si, entre pessoas isoladas entre si e entre pessoas isoladas de si mesmas e, portanto, não pode existir nada de significativo ou profundo que reúna-as em torno de algum fim comum ou de algum hábito comum e que as faça criarem e se relacionarem juntas, gerando assim afeto e companheirismo, delicadeza, ora comportando-nos, logo, como verdadeiras irmãs e irmãos, como família fraterna!

   Porém, nada disso existe – a educação somente é real quando conduz a isso – e é disso que mais necessitamos para sermos felizes e para termos uma educação digna e verdadeira, assim como seu reflexo imediato, que deriva também numa sociedade digna e verdadeira. Tal escola, porém, só atinge tal meta não pelo sucesso acadêmico de seus alunos – pois a inteligência não se demonstra por meio de provas, ao menos não essas a que somos forçados a fazer –, mas através de atos diários que demonstram o valor moral de cada ser humano, e pela união que existe entre os alunos – ou entre as pessoas –, que deve ser fomentada pela própria escola, para não dizer em todos os âmbitos da vida em sociedade… Deve ser fomentada também, portanto, entre aqueles que ensinam e administram a escola. Daí o imenso desafio, porque terão de ser os mais velhos, já com “cascas duras e impenetráveis”, que terão de fomentar isso; porém, como o farão, se não realizarem este mesmo ideal entre a sua própria categoria, entre aqueles que administram e, muito além, em relação a si próprios?

   De fato, todos precisam ser reeducados; os mais velhos principalmente. Pois, apesar de todos os méritos acadêmicos e de todos os sucessos materiais, em termos morais ou espirituais, todos são crianças que precisam ser educadas segundo uma verdadeira moral altruísta, porém, muito além das doutrinas exotéricas: a moral do amor e da humildade verdadeiras, ou melhor, a religião baseada no caráter, e não em crenças. Sem esta, só haverá professores, mas jamais mestres; nem haverá união, mas sempre infinitas distâncias. Seremos então uma nação e um conjunto de nações afastadas umas das outras, vazias de coração e cheias de tumores, porque só os mestres realmente sábios – e estes são os que possuem o caráter, não crenças! – tem algo a ensinar aos homens sobre o amor e a humildade – isto é, sobre a vida em si. E o lugar que não crie tal ideal… sempre será um fracasso, por mais endinheirado que seja, por mais fausto que seja, por mais estimado e tido em alta conta que seja: só será rico segundo os olhos vulgares, que só se importam com as aparências, e por isso mesmo supérfluos, mas jamais segundo a inteligência, que só visa as coisas elevadas e difíceis, isto é, as que demanda caráter e retidão.

   O “sucesso” são as asas do amor, pois é o reflexo do céu e alento de vida. Que as escolas e quaisquer instituições passem a cultivar o amor, a criar intimidade, para que venham a possuir tais asas. Pois do contrário não haverá voo, e ninguém será leve como o ar, nem nenhuma nação conhecerá a paz ou a felicidade.

 

   III – O dever de um contexto humanista e o dever individual por uma transformação ética

   Supõe-se que, tal como os alunos são na escola, tal serão nas ruas e em suas casas. Se não, algo há de errado, porque o homem precisa ser reto em todos os lugares. Ora, se a escola souber criar o ambiente e tiver em seu bojo intelectual o humanismo necessário à sua evolução, seus alunos experimentarão e usufruirão da amizade, do diálogo, da intimidade, do respeito, que é o que irá gerar, verdadeiramente, frutos e grandes obras, em grupo e individualmente. Tal fato levará, consequentemente, à elevação da nação e à realização de todas as aspirações utópicas que, com diferenças aqui e acolá, podem ser resumidas em poucas palavras: felicidade, ordem ou progresso. E note-se bem que isto não se dará, de modo algum, através dos padrões que hoje consideram como úteis, que em realidade são estéreis e sem profundidade espiritual, mas somente através deste ideal que é, em síntese, a expressão do amor mútuo e da amizade como únicos alicerces para a evolução humana.

   A escola deve gerar, assim, uma “pureza moral” ou um humanismo recíproco em que por base tenha-se o amor e a união, ou seja, que tenha por base o serviço individual cujo fim é o serviço público; o interesse pessoal amalgamado ao interesse coletivo, ao bem comum. Tal tipo de mentalidade deve ser o objetivo essencial da escola e da prática educacional como um todo. Ela deve ser tida como boa unicamente em vista da consagração deste ideal e de seu êxito ao ser colocado em prática, o que, como disse, não se verifica através do modo usual que predomina nas instituições – o dos exames –, mas por meio do convívio e dos valores morais que o convívio demonstra ser existente. Isto é, através da Ética, a ninfa que conduzirá por fim à Paz e à Justiça. 

   Ora, a escola tem o dever de criar tal contexto, adequando-o à nossa necessidade intrínseca de amor, lealdade, respeito, carinho, honra… em suma, de comunicação e de valores morais altruístas. A escola tem o dever de transformar o convívio pacato e indiferente em convívio exultante e amoroso. Daí a felicidade, daí a ordem e daí o progresso. Sobretudo, a inteligência deve prevalecer, jamais nenhuma outra forma de poder. E não há nada que demonstre mais a inteligência do que aqueles que sabem amar e ser sinceros. Diante disso, nenhuma nota é importante: pois é da amizade e da união que o mundo torna-se realmente humano, e é da amizade e da união que nasce o poder real entre os homens: a Inteligência. Tudo mais é vão e manto de morte. 

 

   IV – A miséria é o desamor, não a pobreza. Preferíveis são as nações pobres, mas bem-educadas, do que as nações ricas e cheias de ódio

   Pois uma coisa está clara como o sol: que em nenhuma parte leva-se em conta tais ideais como essenciais à educação e determinantes à evolução social, e aos próprios indivíduos; que tal meta – a união e a amizade, filhos de uma boa moral, junto à existência de verdadeiros mestres – são os valores imanentes do próprio progresso humano; que, sem tal filosofia, não haverá verdadeiro crescimento; que os homens permanecerão imaturos, desunidos e, portanto, em constante conflito.

   Poderíamos considerar que a razão própria das guerras está no fracasso deste ideal, pois todos estando num mesmo espaço, ninguém, todavia, cria laços honestos e profundos.  Assim como as escolas são exemplos de mediocridade moral, assim como na vida. O orgulho torna-se então maior do que o altruísmo, pois, mal-educados como somos – e isto não se refere às letras! –, não conhecemos os hábitos fraternos e gentis de que necessita uma nação e cada indivíduo para conhecer a paz e a felicidade. E que seja mil vezes ressaltado que é indiferente a tal ideal a condição econômica das escolas, do povo ou o montante de dinheiro que é destinado à educação: o que é prioritário à evolução do ensino e do país é o crescimento moral de seus indivíduos, a firmeza e correção do caráter, e não a condição econômica. Mais uma vez, aqueles que falam apenas em mais investimentos como determinante à educação falam de maneira incorreta. É preferível um país pobre, mas bem-educado, a uma nação rica, mas estúpida e ignorante. 

   Vejam vocês mesmos como um país de grande potência, sem falta de dinheiro e bastante “desenvolvido” educacionalmente, ainda assim goza de um povo ignorante e estúpido, mesquinho e por vezes racista, xenófobo, homofóbico, etc. Portanto, não fica claro como a verdadeira educação é moral? De que só no valor moral, baseado no amor e na busca por entendimento é que reside o “progresso”? É também melhor uma nação sem desenvolvimento técnico, mas altamente espiritual, do que uma nação – tais como são as nações do mundo contemporâneo – altamente tecnológica, mas sem sabedoria para saber utilizar sua própria ciência. Isto nos prova, irremediavelmente, o uso das armas atômicas. Quantas vezes não terão de dizer isto, com palavras distintas, os seres de maior inteligência entre nós, e quantas vezes terão de não ser escutados, até que por fim a humanidade os ouça, diante de seus próprios padecimentos?

    V – Sem união não há solução; sem organização não há vitória; e sem espírito não há valor

   Ora, como lograr tais ideais acima expostos?

   Em primeiro lugar, para que tal mudança ocorra, deve-se ressaltar que os mais urgentemente responsáveis por essa mudança e situação presente de nossas escolas são os próprios educadores – não os políticos ou outros quaisquer; em segundo lugar os alunos e por último o povo e a classe governamental, sendo que estes dois últimos, em verdade, serão obrigados a reconhecer a luta e o sucesso dos primeiros, mas não antes sem muito resistirem e prejudicarem. Porém, nada resiste à vontade genuína: é como a água que rebenta na mais dura pedra até transformá-la numa bela escultura.

   Dos políticos nada se deve esperar; do povo também. Deve-se esperar, em relação a isto que tratamos, somente daqueles que fazem parte da educação diretamente, ou seja: professores, funcionários, alunos e administradores; mas, para melhor dividi-los, ficam entre dois grupos: alunos e professores. Destes é que advirá a luta e a reforma da educação. Dos demais nada se pode esperar, senão a letargia. Note-se, também, que pouco importa a educação privada no país: deve-se transformar a educação pública, pois esta diz respeito ao povo.

   Acredito que a educação privada deva ser extinta naturalmente através das grandes e inescusáveis benesses da educação pública – se adequadamente reformada –, pois quem preferirá pagar para ter uma boa educação, do que nada pagar para ter a mesma qualidade ou uma até superior – tal como antigamente? Só as pessoas racistas e que se creem “especiais” é que prefeririam construir escolas para apartar-se dos demais. Porém, se a escola chegar a tal nível, como poderia florescer mentalidade tão degenerada?

   Assim, como disse, os primeiros responsáveis são os professores. São eles as peças principais da mudança deste grande xadrez, em questão educacional, mais do que os alunos, pois raramente se encontrarão jovens suficientemente precoces, intelectual e espiritualmente, como para modificarem por suas próprias ideias e práticas a educação, segundo uma verdadeira filosofia, e também por ser mais fácil reprimi-los e por terem menos condições de resistirem. Contudo, a respeito dos professores, é preciso admitir que também são desunidos, desorganizados e incompetentes, e também que poucos dentre eles são “elevados” intelectual e espiritualmente, ou coerentes com seus próprios discursos humanistas – considerando-se apenas os humanistas, pois grande parte dos professores são conservadores; como a própria sociedade é desunida, eles também… Ora, a mesma situação passa-se com os alunos: desunião, falta de elevação – naqueles mesmos termos –, desorganização e incompetência. Logo, a primeira necessidade de todas é corrigir estes quatro erros. Portanto, o primeiro de tudo é tomar consciência desse fato, saber que eis aí o grande mal que obstrui a própria possibilidade de melhoria do ensino e de uma revolução educacional, já que não se pode esperar nada dos políticos ou de um único homem esclarecido para a revitalização da educação e da sociedade, ao menos não no atual momento. 

   Tomada consciência, cabe então aos professores e alunos criarem organizações em torno de um fim comum: o da reforma do ensino público. Isto em primeiro plano; logo em seguida: uma assembleia entre os alunos e professores, de preferência, de todos os estados, que discuta e crie um plano de ação comum, em diferentes níveis, e que crie uma carta magna estabelecendo os ideais que serão perseguidos. Tal luta deve-se dar em nome dessa carta magna e deve haver uma regularidade nas reuniões dessa assembleia, de modo que cada estado dê conta ao demais dos progressos e dificuldades que vem conquistando e enfrentado. De preferência, também deveria existir uma assembleia a nível estadual para que as escolas de um mesmo estado discutam seus problemas e administrem planos e empreendimentos que os auxiliem, também isto para ajudar a dar contas à assembleia geral. Logo, cada estado deve criar um boletim, sobre seus resultados, a ser apresentado a tal assembleia.

   Esta é a linha mestra, inicial, do que deveria tomar forma e que decididamente seria um tremendo avanço à educação e à sua reforma. Cabe-me dizer que, em relação à carta magna, que se leve em conta o ideal que expus logo no início sobre a educação integral (corpo, alma e espírito). Esta educação integral deve ser tomada como mote principal de toda discussão e, além disso, a parte em que expus um ideal sobre a necessidade da criação de um contexto humanista e dos valores que tal contexto necessita criar para que a educação não seja apenas ilusória ou tecnicista. De minha parte, contento-me em que pudessem levar estes dois pontos avante, mesmo que tudo mais que ainda tenho por dizer e sugerir seja negligenciado.

 

   VI – Empreendimentos e trabalho altruísta

   Quem quiser revolucionar a educação deve começar a pensar seriamente em organizar empreendimentos que melhorem o ensino e os aspectos morais dos quais falei anteriormente. Os alunos devem tomar parte nesses empreendimentos por conta própria, caso os professores não coordenem essas atividades – pois supõe-se que deveriam, pois são mais velhos e tem mais experiência. Se não, que façam por sua própria conta tais empreendimentos, que devem ser de todas as áreas possíveis. Por exemplo: (1) criação de periódicos – impressos ou online –; (2) de eventos culturais de todos os gêneros (como de música, de esporte, de dança, de espiritualidade, de literatura, de artes plásticas, de teatro, etc.); (3) de publicações pertinentes à produção intelectual de grupos de estudos, individualmente, ou de grupos mais específicos (isto também é extremamente importante, pois daria a ver quão inteligentes são aqueles que lutam pela educação, fechando os lábios dos que os querem denegrir); (4) cursos de alfabetização para a população; (5) cursos variados… etc.

   Não cabe a mim, logicamente, explanar tudo, mas dar um bom mote de como começar. Eis que isto que acaba de ser explanado é suficiente como para realizar uma grande mudança no ensino, espiritual e materialmente. Ou seja, o que estou dizendo é que o aluno e o professor deixem de esperar da escola, que obedece aos políticos e ricos do país, que ela própria faça algo, mas que se apropriem dela, física e intelectualmente, e façam tais empreendimentos. Devem lutar, portanto, para terem o direito de eles mesmos realizarem tais empreendimentos nas escolas. Isto, em verdade, é dar autoridade e responsabilidade aos jovens. Isto, consequentemente, é o que os fará amadurecer, construindo, positivamente, gerações rebeldes.

   Para isso, cada escola deve ter uma organização que responda legitimamente por todos os estudantes. Tal organização deve ser balizada por uma assembleia livre de estudantes e professores. Os professores, supõe-se, deveriam liderar tal organização e supervisioná-la, educando os alunos a como se organizarem, a como ser eficientes e aconselhando quais direções poderiam ser tomadas, quais erros suprimidos, etc., recordando de que todas as escolas e suas respectivas organizações devem obedecer à carta magna da assembleia geral dos estudantes e professores do país. Demais aspectos de minúcias de organização desse “partido escolar”, ou dessa assembleia, representando cada escola, não me é dado fazer. Como disse, dou aqui as linhas gerais do como iniciar os câmbios na escola pública.

   Logo, deve existir uma rede nacional que represente todas as escolas do país, escolas essas ocupadas e mobilizadas pelos estudantes e professores. Nenhuma outra organização existente é útil; se fosse já teria concretizado isto mesmo que é dito.

   Porém, como iniciar tudo isto? Como chegar a tal carta magna e tal assembleia geral?

   Como disse, só através dos professores ou alunos, que de alguma escola qualquer do país faça-se forte o suficiente e tenha o ímpeto intelectual necessário para projetar tal necessidade ao resto dos estados, usando os meios que tiver disponível, e trabalhando para criar essa rede entre todas as escolas. O momento atual no Brasil é extremamente propício a tal acontecimento. Basta que os alunos e professores tenham um ideal e projeto como este, e que trabalhem para concretizá-lo, lembrando que tal ideal não inclui necessariamente a ocupação física das escolas, pois estas suprimem as aulas. Mais vale que lutem pelo direito de poderem ter o direito de realizar tais câmbios e poderem influir diretamente na organização das escolas, de maneira muito justificada e com ideias muito benéficas à sociedade, de modo que fosse o mais difícil possível serem barrados. Já aonde surgirá o pontapé inicial pouco importa; importa que alguma escola mobilizada entre alunos e professores tenha a dinâmica, o trabalho braçal e intelectual requerido para tal objetivo e a coragem para enfrentar as classes políticas e mais ricas do país. Naturalmente daí é que surgirão as primeiras grandes lideranças a nível nacional, entre professores e alunos.

   É necessário compreender também que cada “ocupação” (dentro da perspectiva aqui descrita) necessita de pessoas extremamente bem organizadas para que se cumpra cada função adequadamente. Assim, os alunos não necessitam residir ou ocupar as escolas necessariamente, mas precisam, isso sem dúvida, ocupá-las intelectualmente e em termos de empreendimentos, pois, como disse, ninguém fará isto a não ser os próprios estudantes e professores, a não ser que se queira esperar câmbios demasiadamente demorados na vida do país. Logo, cada escola deve contar com uma equipe, formada pelos próprios alunos, que cuide do espaço físico e outra que cuide das atividades relativas à produção de eventos.

   Como disse, é preciso ocupar a escola dentro de uma outra e nova perspectiva. A ocupação física não é realmente necessária, a não ser em última instância com o fim de levar a cabo tais ideais. Mas o objetivo não é paralisar as aulas, mas continuá-las e a elas incrementar novos projetos que vivifiquem a escola e que tornem legal a influência direta dos alunos em sua organização e seus destinos. Se for possível implementar tais ideias sem a necessidade de uma ocupação física, que então só se ocupe a escola da maneira intelectual – e também braçal – que acabo de expor.

   Por isso, tal ideal inclui, naturalmente, esta questão: que todo este trabalho é feito em vista de uma ocupação pautada em empreendimentos culturais em vista da melhora do ensino e do auxílio à população, sobretudo mais pobre e menos instruída. A ideia de eventos por conta dos próprios alunos e professores é um exemplo disso. Assim, a questão toda resume-se ao altruísmo, pois a princípio ninguém ganhará dinheiro, mas ganhará honra, dignidade e experiência braçal, intelectual e moral. Creio que tudo isto é mais do que dignificante e honrado e meritório, e sobretudo um grande desafio ao amadurecimento dos jovens, pois necessitarão amadurecer rápido para lograrem tais metas. A geração que se prestar a tal esforço será sem dúvida recompensada de alguma maneira pela natureza ou pela própria sociedade – em seu devido tempo -, mas o que não deixará de deixar, com certeza, serão frutos benéficos à nação. Os políticos estão mortos; cabe aos jovens a revolução.

   Mais à frente irei expor uma ideia de como os alunos e professores poderiam criar um mercado próprio de cultura dentro da escola, e assim passarem a ganhar dinheiro para se autossustentarem.   

   

VII – Uma revolução por humanistas e eruditos

   A respeito do que foi dito acima, gostaria de fazer mais alguns esclarecimentos. Gostaria de sugerir que os alunos e professores das atuais ocupações de escolas no país deixassem de ocupá-las como vem fazendo, não sem razão e não sem mérito, e não sem bons frutos, que por causa delas estão sendo produzidos na consciência coletiva da nação, mas gostaria de sugerir a perspectiva de que venho tratando neste texto, a fim de que partissem agora para uma etapa mais evoluída e difícil do avanço rumo a uma genuína revolução educacional.

   Ora, nada que é físico é tão árduo quanto o que é moral e intelectual. Já o podem perceber aqueles que nutrem desejos revolucionários. Com efeito, é a causa que motiva a ação, do contrário não haveria propósito. E o mais difícil é manter a retidão, a coerência, o caráter e fundar os alicerces éticos e filosóficos de qualquer empreitada. E já o sabem os mais inteligentes que os pensamentos precedem as grandes convulsões sociais.

   Nesse sentido, gostaria de propor um novo ideal para a juventude.

   Em primeiro lugar, só o humanismo pode dar frutos dourados nos dias de hoje. Em particular porque é contrário a toda forma de discriminação, seja qual for. Por seu arcabouço filosófico ser universalista, é idôneo com relação à necessidade de união de nosso mundo e de superação de estigmas e tabus. Além disso, o humanismo não exige credo religioso ou filosófico algum, apenas que nutra-se o amor pela “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”. Qualquer revolução, portanto, que venha a suceder-se, para que seja benéfica, tem de ser motivada por esse mesmo arcabouço filosófico humanista.

   Em segundo lugar, quanto mais sabe um homem, mais sabe que menos sabe e, portanto, é mais humilde e mais sábio. Assim era Sócrates: sabia tanto que sabia que nada sabia; logo, ninguém era tão sábio quanto ele. Por isso, todo revolucionário deve ser erudito, todo rei, todo governante, todo intelectual, todo artista… em suma, todas as pessoas. E a erudição não é um bem excelso apenas para os ricos e afortunados, mas o é para todo aquele que buscar a chama viva na letra morta, desde que nutra enorme vontade por aprender e pesquisar. Até mesmo um mendigo, se quisesse, poderia tornar-se erudito. E uma sociedade erudita – mas não apartada do coração – é o máximo do ideal do desenvolvimento intelectual da mesma. Os logros que derivariam disso, creio, são demasiadamente evidentes como para tecer algum comentário em sua defesa. Em verdade, por ser uma sociedade erudita, mais próxima ela estará, consequentemente, do Amor, do espírito, desde que aliado à erudição estejam certos valores morais e a indispensável aspiração pelo autoconhecimento; do contrário todo desejo de erudição e toda erudição será vazia.

   Digo isto e proponho este ideal não só pelo primeiro ponto de vista citado acima, quando mencionei Sócrates, ponto de vista esse genuinamente verdadeiro, e fácil de ser aceito, mas também porque, quando trata-se de lutar por alguma mudança no mundo, creio que seja o dever daqueles que o fazem conhecerem o máximo possível o seu mundo e todas as culturas que nele existem. Disso resulta uma abrangência de conhecimentos que possibilita uma análise, síntese e analogias que em muito podem transformar a visão de um indivíduo que, do contrário, estaria suscetível a concluir diversos pensamentos errôneos ou parciais, produzindo meias–verdades e, involuntariamente, afirmando coisas improcedentes. Tudo isto pode ser evitado quanto maior for o leque de nossos conhecimentos, e quanto maior for a nossa humildade. Quanto maior a riqueza de referências de todos os gêneros, maior a capacidade e a lucidez de ação de um indivíduo – como disse, desde que a isso estejam aliados certos valores morais e a indispensável aspiração à Sabedoria. 

   Tal ideal é perfeito, no que se refere unicamente ao conhecimento, para a formação de um grande homem. Por isso também é necessário o apelo e a primazia do altruísmo, que tudo sacrifica em nome do próximo, para que o conhecimento não seja apenas pelo conhecimento, mas que seja uma coluna inseparável do espírito. Pois, como venho dizendo, do contrário o conhecimento será vão, tal como ele é nos dias de hoje, já que desvencilhado da retidão de caráter e da humildade. Esse é o grande problema de nossos intelectuais, pois vivem descuidados de sua espiritualidade e enfurnados no orgulho trivial de suas “conquistas” acadêmicas, quando nada mais fazem, uns com outros, do que exibir-se e procurar, como se fossem pessoas sem riqueza interior, o enaltecimento alheio; são como crianças em busca de brinquedos. Não é essa a erudição que deve ser buscada, mas só a erudição oriunda da Sabedoria e do Amor.

   O jovem, para tornar-se grande, deve aspirar grandes princípios, grandes ideais; deve cultivar as virtudes, a alta moralidade cívica e interior, para que não se torne vil, orgulhoso e arrogante – por isso mesmo um ser medíocre e comum –, e, deste modo, deve nutrir-se e apoderar-se de todo conhecimento do mundo quanto possível.

   Todo jovem erudito está em vantagem com relação aos seus e em posição de respeito perante os mais velhos. Quem possui autoridade desde moço, dificilmente poderá ser oprimido. A liberdade é um bem dos que utilizam o cérebro, dos que sabem manejar o pensamento e dos que aspiram grandes ideais, fazendo de tudo para concretizá-los, ao menos, em si próprios.

   O jovem deve aspirar à erudição enquanto qualidade de seu aprimoramento intelectual e auxílio ao seu desenvolvimento espiritual. Quanto mais sabe um homem, mais ele vê. E quanto maior a sua visão, maiores são as suas possibilidades de agir sobre o mundo de maneira profunda e sábia, como disse anteriormente.

   A “lúcida revolução”, portanto, tem de vir do coração – do coração dos humanistas – e do conhecimento. Se forem sábios, lutarão – além de qualquer tipo de sistema –, por uma sociedade amorosa e erudita. Pois, enquanto as pessoas continuarem estúpidas e ignorantes, por mais instruídas que sejam, jamais nosso mundo alcançará nenhum grande ideal de paz e felicidade.

    

VII – Crítica aos jovens e às gerações

   Retomarei um tema já de alguma forma tratado anteriormente, mas como novas palavras.

   Há, como sabemos, uma verdadeira crise na educação. Mas também há uma verdadeira crise de maturidade intelectual e espiritual demonstrada tanto pelos jovens quanto pelos velhos e pelos que não são nem jovens nem velhos, e isso é pertinente a todos que possuem algum credo ou alguma concepção filosófica, seja qual for. Em minhas próprias palavras, gostaria de dizer que, fato geral, é a ausência de nobreza de espírito que predomina em nosso país e por entre todas as gerações e por entre todas as nações. Nosso mundo é construído pela mediocridade. E, como tudo é carente de sólidos princípios fraternos, e como a aspiração à sabedoria, de maneira firme e genuína, é rara, tudo se torna falso e uma ferida exposta. E todos que querem sarar os males do mundo, sem terem tais qualidades, de início a término de seus esforços só auxiliam a humanidade a ainda mais afundar-se no abismo de lodo que cavou com seus próprios pés.

   Gerações novas e velhas se encontram carcomidas, infantilizadas; neste país a erudição é um bem escasso, e também a humildade; pois os pobres são humildes apenas em relação a não terem dinheiro, mas não com relação ao espírito; os pobres são desunidos e apáticos ao futuro do país, porque não pensam, e tudo que desejam é ser como os ricos frívolos que invejam, aspirando serem como eles; e os intelectuais são demasiadamente fracos, também desunidos e desorganizados – como disse noutro momento deste trabalho – e incompetentes. 

   Na ala dos jovens, aparentemente a geração dos vinte até os trinta e cinco anos é formada por pessoas pouco produtivas, nem de muito destaque, pelo mérito e profundidade de suas obras, e ainda mal organizada, e isso quando muito! E a geração mais velha, já bem estabelecida socialmente, tributada com respeito, na realidade, pouco produz, pouco pensa e pouco faz em relação a uma transformação radical de seu meio – pois o ganha pão é superior à honra e aos ideais superiores… –, particularmente naquele em que exerce seu ofício, além de produzirem obras pouco profundas, ou melhor, obras superficiais.

   Ambos os troncos, portanto, estão podres. Árvore infeliz! Que frutos poderão nascer de uma árvore sem vigor? Logo, que esperança ter em alguma transformação revolucionária, se por um lado os jovens humanistas, apesar dos discursos, são praticamente estéreis, pela pouca organização, pela imaturidade, pela falta de amizade ideal, e pelas ideologias comuns transformadas em fetiche filosófico – tal como acontecera com as religiões de todo mundo, e tal como sempre acontece com as filosofias?

   Já os professores, em geral, são conservadores – como frisei anteriormente – e os alunos, em geral, são mentecaptos – porque não pensam por si mesmos, mas só através do espelho da ideologia a que aderem sem, ao mesmo tempo, ansiarem serem eruditos, para tudo poderem conhecer e assim ampliar ao máximo a visão – e naturalmente re-modificá-la –, porque, para melhor entender a realidade histórica, social, filosófica e espiritual da humanidade, é necessário ter um espírito sincretista, harmonista e analogista, e só o espírito erudito e sábio pode realizar tais apreensões de maneira profunda, de modo que sua visão não se torne fechada e superficial. 

   Porém, a ideologia – em sentido restrito – comumente substitui a reflexão e o espírito de pesquisa – a reflexão se torna o apêndice de velhas ou novas filosofias, e nunca uma qualidade em si mesma. Quer dizer, é como se o pensamento se tornasse servo de um amo cego e que tudo que este amo dissesse se tornasse verdadeiro e, por isso – mesmo sem ser verdadeiro -, não precisasse refletir e buscar por si mesmo a Verdade ou o Reto Caminho.

   Aderir juvenilmente a uma ideologia, qualquer que seja, pode ser útil e oportuno na evolução pessoal de cada indivíduo, fazendo parte de futuras conquistas mais evoluídas, mas atar-se a esse espírito juvenil é sempre uma contradição para quem almeja o amadurecimento e muito mais para aqueles que almejam a Iluminação.

   O jovem deve ansiar possuir um espírito velho o mais breve possível, pois aí reside o seu pronto amadurecimento e a abreviação de sua jornada em direção à sabedoria e “ao mundo dos vivos”. Mentes juvenis não produzirão a concretização de nenhuma utopia nem de nenhum grande ideal. Só o espírito velho pode ajudar a humanidade em seu crescimento.

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Crítica e ideais práticos sobre a Educação

   Acima expus ideias gerais sobre a Educação; ideais capazes de modificar a natureza de nossa sociedade, produzindo o bem comum e a prática, no presente, do que seriam coisas visionárias. Voltassem-se nossos olhos à prática, e ao desafio que é o amadurecimento pessoal, vislumbraríamos tão bem os mesmos desafios que ora se apresentam fora de nós.

   A seguir mencionarei algumas das mudanças simples que tenho em mente, a bem dizer, quase utópicas, porque muito exigem daqueles que pouco fazem. Mas, caso passássemos a pensar mais e nos organizarmos mais; a pormos em prática ao menos um ou dois dos ideais expostos ao longo deste trabalho, muito sobreviria à sociedade e aos indivíduos em termos de aprimoramento. É necessário nutrir um longo esforço para se consumar os anseios que desejamos para a humanidade em nós mesmos.

  • Sempre me pareceu colorida a ideia de que, ao invés de salas fechadas, em edifícios padronizados, monótonos, por que não ambientes naturais, como os velhos anfiteatros gregos, as velhas academias filosóficas ou os velhos hábitos dos sábios de ensinarem seus discípulos e pupilos nos prados e arvoredos?

   Não há dúvida que o ar livre inspira poesia, tendo ao redor a natureza verdejante, com os cabelos de Gaia soltos ao vento perfumado; assim também contribuiu com o estado de ânimo de um espírito “solto”, o que certamente estimula mais o aprendizado, o torna mais ameno e nos faz sentir mais alegres e vivos. Não há dúvida de que é mais aprazível ao espírito o aroma das flores do que as mórbidas tinturas das salas de aula.

   Recordo-me desde cedo, neste exato sentido que agora exponho, dos gregos e das suas maravilhosas ideias a respeito do homem e da beleza. Quão esplêndida não deveria ser – e quão esplêndida não é – uma aula com um verdadeiro mestre, ao caminhar ele e seus alunos pelas praças, pelas ruas de uma cidade, pelos floridos jardins de um lugar campestre, pelos antros que conduzem a lugares ermos e místicos e, se assim fosse possível, divinos!…

   Todavia, isto se perdeu, ou nunca existiu, no Ocidente. Lembro-me agora de Thoreau e Rousseau, que bem exemplificam o retorno e o amor à natureza e a aversão à crueza social. Esse sentimento muito nos ajudaria a dignificar a sociedade e a torná-la mais branda e festiva. Por isso, é necessário apelar aos jovens estudantes e professores, e pessoas de poder e pessoas lúcidas, de que a educação deve aproximar-se novamente deste ideal que, em outros tempos, era tão comum! Naqueles tempos antigos, ditos primitivos, onde o espírito e o intelecto eram tão férteis e ricos, e a sociedade superdesenvolvida!…

   Assim, sugiro que as aulas, sejam escolas ou universidades, se deem o máximo possível em espaços abertos, sobretudo parques, jardins e lugares afins, além de todo e qualquer lugar que tenha a ver com o propósito da aula de cada professor ou mestre. Também com relação a esta ideia os alunos deveriam lutar. É na mudança de hábitos como este que se verifica realmente a mudança de hábitos mentais.

  • Também premente em minha memória, e em minhas angústias, é a questão do corpo. Novamente citarei os gregos, que precisam ser citados inúmeras vezes, pois como se sabe, davam muito valor à ginástica, às artes físicas, aos jogos esportivos – embora positivamente tivessem um caráter religioso – e à união ou o cultivo do corpo em paralelo com a mente – e, além disso, do cultivo dos Mistérios. Logo, foi uma civilização que uniu aqueles três pontos ou pilares dos quais falei ao início da obra, embora a tônica maior desses três pilares fosse a da razão ou do intelecto, sendo a beleza “a nota musical que a caracteriza”.

 

   Não é de estranhar que toda civilização culta cultive o corpo em suas aptidões variadas, e que inclua o corpo como um dos fatores fundamentais e idiossincráticos de uma boa educação, ou de um ideal completo ou integral de formação humana. Eis, com efeito, um tipo de mentalidade capaz de elevar o homem à felicidade.

   Consequentemente, sempre pareceu-me arrojada tal ideia, embora tão básica!… Novamente nossas escolas não correspondem a tal ideal. Em tudo quanto é possível imaginar, estão atrasadas. Em comparação ao mundo, são reles, mas mesmo as melhores escolas do mundo estão longe dos mais altos ideais. A humanidade atual, em si, está longe de sua máxima evolução – e talvez por isso mesmo mais próxima dela do que “jamais”… 

   Os gregos, que outrora foram gigantes, hoje nem sequer são prestigiados pelos nossos intelectuais. Só o que resta deles é uma imagem fugidia e o alento perdido de sonhos titânicos!…

   Não é surpresa que as experiências tão profundas quanto a dos gregos, ou de outras nações antigas e sábias, como a dos egípcios e dos babilônios, se foram parcial e progressivamente revividas e alentadas na Europa, no início da Modernidade, na América e no Brasil, porém, ainda desfrutasse de um passado e de um presente majoritariamente medieval, quer do ponto de vista material quer do ponto de vista moral.  

   Assim, sobre o corpo na educação – sustentáculo de uma alma saudável -, tenho algumas coisas a dizer, para depois avançarmos nos dois outros pilares.

 

Parte I

(continuação no Número 6)

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