Entrevista a Hugo Martins – Por Javier Alberto Prendes Morejón

  1.    Caríssimo Hugo, como introito, poderia falar-nos um pouco de sua vida, a começar por onde nasceu, em que região mais tem vivido, sua ascendência familiar, se cursou alguma disciplina acadêmica, em que trabalha e, especialmente, como tem sido o seu contato e busca pela Iniciação?

   Em primeiro lugar desejo agradecer à Ganso Primordial, a oportunidade que me deu desde cedo para expor os meus estudos e artigos de caracter hermético e teosófico, bem como poder colaborar mais uma vez através deste meu simples e singular testemunho.

    

   Eu sou natural da área da grande Lisboa, Portugal, mais especificamente do Barreiro terra de cultura fabril e operária, e caracterizada por ser um reduto de várias gentes oriundas do interior, norte e sul do país em busca de melhores condições de vida no século passado. Desde cedo, fui educado dentro daquela mentalidade trabalhadora e de sacrificio na busca de alguma condição de vida e cedo percebi que o centro laboral e cultural estava em Lisboa, o que me levou a fazer a minha formação académica aos 18 anos na Faculdade de Motricidade Humana – Ciências do Desporto, que cedo me apaixonaram pelo o fascinio que sempre gerou o corpo humano na sua beleza, “arquitectura” e fisiologia que sempre me elevou aos pincaros da curiosidade e mistério e questão de como algo tão bem composto poderia ser apenas fruto do acaso ou de uma inteligencia superior que ultrapassava a minha visão?

    

   No entanto, as respostas que buscava através de disciplinas como Anatomia, Fisiologia, Bioquimica, etc, nunca me foram respondidas, e todo o meu percurso foi sempre cinzento, vazio e meramanete prático-utilitário para exercer uma profissão num mercado de trabalho. No entanto, o “despertar” deu-se exactamente no final dessa formação. Ao iniciar a minha defesa de tese final de curso, a minha pesquisa da temática levou-me a visitar várias bibliotecas da universidade mas ao mesmo tempo a vaguear pelas sete colinas de Lisboa nos velhos alfarrabistas com a exploração de livros antigos ou velhos para encontrar o que buscava. O mais interessante, é que mesmo neste modo tradicional  de divulgar sabedoria e conhecimento, por vezes, chegam-nos às mãos  determinados livros que fazem a sua função de despertar aquilo que está adormecido em nós. E foi o caso. Um dia, num desses vagueios pelos alfarrabistas de Lisboa, ao pegar num livro chamado Dossieres Secretos da Alquimia, da extinta editora Litexa, levou-me pela primeira vez ao meu contacto superficial com o hermetismo. No entanto, toda aquela linguagem mística, com os simbolos e velhos conceitos filosóficos e ciêntificos que mais tarde vieram dar a quimica dos século XIX, mexeram comigo visto o meu mundo interno encontrava-se, na altura, sedento do sagrado, do simbólico e do imaginário que tão importante é para o alento animico do ser humano, e que a partir daí, levou-me a uma busca espiritual constante que perdura até aos dias de hoje.

    

       
  1. Como luso que és, e homem muito bem informado a respeito de sua cultura pátria, pediria que, por gentileza, nos desse a sua opinião sobre quais seriam, a seu ver, os principais espíritos dentro da Mística Portuguesa no mundo contemporâneo, que de certo é tema de muita valia.

    

   Ao falarmos sobre a Mística Portuguesa, ou Tradição Espiritual Portuguesa, é impossível não debruçar-nos sobre a sua coluna espinhal que é o Quinto Império. No entanto, pretendo desde já deixar salvaguardado que o Quinto Império, não se trata de uma apologia ao nacionalismo português mas sim ao mito identitário e profundo da alma lusa. E tal como afirmava o poeta português Fernando Pessoa, “o Mito é tudo e não é nada”, e acrescentamos, “tudo” para quem o entende, e “nada” para quem não o entende na sua origem e função. Em primeiro lugar, temos de esclarecer que o Quinto Império é um mito espiritual e não temporal, logo apolitico e apartidário, o que o demarca à partida de outros mitos patrióticos, justificado pelas palavras de Vieira: “O Mundo do nosso prometido império não é Mundo neste sentido: não prometo mundos, nem impérios titulares (…)”. Inclusive, a consciente tentativa de o utilizar como tal, redundará em fracasso e polarização como aconteceu na Itália e Alemanha no século passado. Em segundo lugar, trata da visão meta-histórica, ou se preferir, profética-messiânica da TRANSLATIO IMPERII, ou seja, a “Trasladação (cíclica) dos Impérios”, segundo o Padre António Vieira, no seguimento de Manasseh Ben Israel, de Anselmo Caetano Munhoz de Abreu, de Isaac Abarnavel, de Nicolau de Oliveira e recuando até Joaquim de Flora, tendo assento no sonho bíblico de Nabucodonosor descrito pelo profeta Daniel. E em terceiro lugar, na missão que Portugal tem para o mundo e que falta cumprir, aliando-se brilhantemente à mística patriótica-messiânica do Sebastianismo, o Enconberto, o “rei”, o “Supremo Monarca”, que há-de vir para estabelecer, não a indepêndencia de Portugal dos Filipes, mas sim o advento da nova Era (Aquários), a verdadeira Sinarquia, ou melhor dito, a Concórdia Universal entre os Povos, onde Todos os reinos se unirão em um centro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas se rematarão em uma só diadema, e esta será a peanha da cruz de Cristo (História do Futuro). E parafraseando novamente o poeta na sua Mensagem, “fizeram-se os Mares, Senhor falta cumprir-se Portugal”, e na visão do Padre António Vieira, na sua História do Futuro (ou também “Esperanças de Portugal” como o próprio indica na mesma obra), essa missão só podia estar incubida a Portugal, não por ser a primeira ou a mais antiga Pátria do Mundo mas porque também foi tocada por Deus ainda antes do seu nascimento através do aparecimento de Cristo a el-Rei, D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, no famoso Milagre de Ourique. No entanto, este V Império já não será Portugal no Mundo mas sim o Mundo em Portugal, não será mais um império como os anteriores (Persa, Assirio-Babiblónico, Grego e Romano) mas sim o Império Eterno, o Paraíso Terreal, a Jerusalém Terrestre.

   Toda esta tradição, constituiu digamos uma Mens lusitani, propagada ao longo dos tempos e caracterizada por nomes impares da cultura portuguesa como os já citados Padre António Vieira e Fernando Pessoa, mas também muitos outros como Teixeira de Pascoais, Sampaio Bruno, António Quadros, António Telmo, Agostinho da Silva, Dalila Pereira da Costa e mais recentemente, podemos citar Pinharanda Gomes, António Macedo, Manuel J. Gandra, José Manuel Anes, Vitor Manuel Adrião, entre outros.

  1. Sintra é de longe muito comentada aquando referimo-nos a Portugal. Espécie de Paraíso Terrenal onde Céu e Terra confluem, enaltecendo a pátria com uma mística toda única, Sintra parece comover os poetas, as pedras, os artistas, os iniciados e os intelectuais, afora toda gente lusa e do mundo afora. Poderia dar-nos o gosto de tecer algum comentário sobre lugar tão encantador quão misterioso?

   Falar de Sintra, é falar não só de um dos maiores tesouros naturais e patrimoniais de Portugal, mas principalmente de um dos lugares mais sagrados, espirituais e misteriosos de toda a Europa. Sem dúvida que esta Serra sempre foi procurada e povoada desde a mais profunda noite dos tempos por místicos, escritores, poetas e reis acrescendo nesta sua riqueza humana, cultural e espiritual de que subjaze o testemunho grandioso até dias de hoje, como um verdadeiro “Paraíso Terreal”, “Locus Amoenus”, “Arcádia Primaveril”, “Tebaida Deífica”. O próprio Luís Vaz de Camões, não deixou de parte esta Serra na sua obra magna dos Lusíadas com os seguintes versos:

    

   Já a vista, pouco e pouco, se desterra

   Daqueles pátrios montes, que ficavam;

   Ficava o caro Tejo e a fresca serra

   De Sintra, e nela os olhos se alongavam.

   Ficava-nos também na amada terra

   O coração, que as mágoas lá deixavam.

   E já despois que toda se escondeu,

   Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

    

   Canto Quinto, III estância

    

   No entanto, o fascínio e atracção que esta serra sempre deteve ao longo dos tempos não pode ser descriminada pelo verdadeiro espiritualista e ao investigar-mos as suas causas deparamo-nos com razões ocultas, ou que pelo menos vão além do aparente dos sentidos, e que podem ser aferidas num olhar mais metódico pelas descrições iniciais deste lugar, como reflexo genuíno das suas raízes e influência místico-religiosa. Como ponto mais ocidental da Europa, Sintra sempre foi descrita como “Serra ou Monte da Lua”, como atesta o testemunho de Damião de Góis na sua Descrição da Cidade de Lisboa (Évora, 1554), e também Ptolomeu como “Serra da Lua” e ao seu extremo cabo-mar “Promontório da Lua”, “Cabo da Lua” ou Capum Lunarum. Ou também “Promontório da Serpente”, mais especificamente “Promontório de Ofiúsa” como descreve o geógrafo Rufo Festo Avieno em sua Ora Marítima (“Orla Marítima”, obra escrita no século IV da era cristã), esta última palavra significando exactamente “serpente”, portanto, “Promontório da Serpente”. Óbvio que podemos relacionar aos velhos cultos matriarcais da Deusa-Mãe[1] e ctónicos que tomaram lugar nestas terras, contudo, o símbolo de tal animal enigmático é indicativo de Segredos e Mistérios Iniciáticos. Muitos desses segredos, que não podemos revelar por completo aqui, relacionam-se com os Mistérios Subterrâneos que esta serra abarca e que se podem aferir mais superficialmente no próprio centro histórico da vila de Sintra através de muitos dos seus subterrâneos que ainda se mantêm passíveis de visita, nomeadamente na cave do actual Café Paris onde uma galeria subterrânea leva ao Palácio Real vizinho e chega a subir até ao Castelo dos Mouros, passagens que foram dadas a conhecer pela primeira vez em 1834 na obra Cintra Pinturesca, do Visconde de Juromenha, e comprovadas e divulgadas ao público pelo espeleólogo Augusto Morgado em notícia publicada publicação no jornal Época, de 12 de Agosto de 1972. Os túneis e outras grandes galerias foram construídos, ao que se diz, pelos mouros e pelos templários há cerca de oito séculos, posto os monges-cavaleiros da Ordem do Templo terem estado acantonados no lugar das Murtas e sido os primeiros a reformar o primitivo alcácer árabe dando-lhe feição ocidental, românica originalmente (século XII), e depois gótica já pela mão da Ordem de Cristo (século XIV). Sustenta-se a lenda do misterioso desaparecimento dos mouros aquando da invasão e tomada de Sintra pelas forças cristãs, afirmando-se que eles fugiram subterraneamente por um túnel até Rio de Mouro. A verdade é que o Rio de Mouro (antes, Rio dos Mouros) existe, e o túnel ou gruta também, precisamente em Colaride, no limite Este do Cacém e que antanho pertencia à freguesia do Algueirão – Rio de Mouro, denominada como Gruta dos Mouros, Fojo dos Mouros e Algar dos Mouros. Ainda na vila de Sintra, tem-se o conjunto de galerias subterrâneas ocultadas nas traseiras do edifício oitocentista do Café da Avó, defronte para o palácio antigo paço real.

   No cimo da serra, por debaixo do Castelo dos Mouros há uma imensa gruta natural que está vedada por uma porta de ferro, e por motivos que só a lenda explica a vox populi afirma que constitui uma das portas de entrada no Paraíso Terreal, a mítica Agharta, que em 1888 a viajante russa Helena Petrovna Blavatsky divulgou e posteriormente também foi descrita pelo escritor francês Saint-Yves d´Alveydre. Mergulhando na natureza ventral, íntima de Sintra, as galerias do seu interior afloradas à superfície tomam formas esquivas, contornos sibilinos trescalando a segredo e secreto, por exemplo, no Parque da Pena, onde estão identificadas nos recantos mais discretos, quase secretos, várias anfractuosidades como a “Gruta da Fada”, a “Gruta da Serpente”, a “Gruta do Monge” e a “Gruta da Princesa”, dentre outras. Todas elas vêm a ser despidas de qualquer mistério transcendente por sua associação a comuns minas de águas, apesar de maioria nada ter de minas de água e tampouco de extracção de saibro; contudo e a despeito da razão profana eterna temerosa do desconhecido que é o entendimento iniciático, na perspectiva deste tais lugares subterrâneos são entendidos como referenciais geográficos de sacralidade ocultada por consequente espiritualidade profunda, inerente tanto à intimidade humana como à da própria Serra Sagrada que a foi e é por a Mística ter nela império como nota dominante. Exemplo disso mesmo foi o caso do misterioso frei Honório, que segundo os registos e data de morte apurados, viveu dentro de uma gruta da cerca do Convento dos Capuchos, em reclusão absoluta durante 30 anos, e após a sua morte o seu corpo desapareceu e nunca mais foi encontrado, até hoje desconhecendo-se o paradeiro das suas ossadas.

   Muitos mais locais subterrâneos constituídos de túneis, galerias, etc., e todos envoltos em histórias inquietantes que mal assombram ou perturbam a monotonia diária das gentes comuns, existem no Parque da Pena e noutros recantos da serra, contudo e como disse anteriormente, não irei desenvolvê-los nesta pequena entrevista por serem tão extensos ao assunto. Temos só ainda a apontar o magnífico imóvel, junto a Seteais, da Quinta da Regaleira, que pertenceu ao Dr. António Augusto Carvalho Monteiro e actualmente é propriedade da Câmara Municipal de Sintra, onde foi fundida sob a sua construção original um complexo de enormes galerias subterrâneas ligadas por vários túneis a uma torre invertida, com escadaria espiralada que prolonga-se a cerca de 30 metros de profundidade por 6 de largura.

    

   Além disso, o próprio microclima que alimenta a flora envolvente de Sintra e a transforma numa “floresta encantada”, acaba induzindo um abraço hermético à natureza interior do homem que caminha, peregrina pelos trilhos sintrianos volvido sobre si mesmo em solilóquio noético, divino, assim intuitivamente como pura inteligência espiritual encaminha-o, numa argótica natural e silenciosa, verdadeira Fala dos Pássaros, ao ventre fecundo da Mãe Primordial, a Mãe-Terra (Mater-Rhea), logo, à sua condição pré-existencial, o Mundo Causal, e assim lavado, purificado pelas Águas do Pardes ou Paraíso Terreal, as akáshicas ou etéricas, renasce novamente para a vida dotado de uma nova e mais ampla luz da Consciência. É o Dwija, ou seja, o “duas vezes nascido”, pelo Corpo e pela Iniciação ou Espírito: de simples “filho de Mulher” (Vida) fez-se também “Filho de Homem” (Consciência). A partitura projecta-se em todo o imóvel e móvel presentes nesta serra de foro espiritual por declarar as presenças e vivências dos povos com as suas culturas e tradições de tempos e épocas diversos que a habitaram e espiritualmente a tomaram, e assim a todas as sinergias particulares que a geografia sagrada desenha na tela paisagística de Sintra, tornando a simbiótica entre homem e serra um dinamismo constante e vivo, independente das vontades e credos de cada um.

    

   Ora tudo isto, constituí o espaço como um verdadeiro templo-vivo, ou “retorta alquímica” de transformação espiritual definida numa verdadeira geografia sacra ou sagrada diferente da maioria das serras. Portanto, considera-se Sintra como Serra Mãe da Espiritualidade Portuguesa e a própria Capital Espiritual da Europa toda como Áxis-Mundi da mesma, Centro Vital ou Chakra Planetário único no continente cujas energias marcam o biorritmo nacional e cujo fim supremo é levar à redenção e integração de todo o homem, tal como todo o homem deve respeitar e se possível integrar a noção de que “está pisando chão sagrado”, como disse o Eterno a Moisés no Monte Sinai, mas aqui a Montanha Sagrada dos Lusos. É neste sentido que consideramos as iniciais do nome S.I.N.T.R.A. como as de Serviço Intenso No Trabalho de Redenção da Alma.

    

  1. Pertencendo à Comunidade Teúrgica Portuguesa, fundada pelo Sr. Vitor Manuel Adrião -historiador e teósofo-teurgo, e, até onde vislumbro, um dos maiores baluartes da Mística Lusa e Sintriana, a quem ajudou a dar forma-, poderia falar-nos de seu vínculo com tal Ordem Iniciática e mais do que tudo sobre seu patrono espiritual, o Mestre Henrique José de Souza? E, em complemento, como vê o atual panorama de Ordens ou Escolas Iniciáticas em Portugal? Há, afora a Comunidade Teúrgica Portuguesa, outra(s) que veja com bons olhos e tenha inclusive algum contato mais direto?

   O meu contacto com a Comunidade Teúrgica Portuguesa, deu-se exctamente pela minha investigação e busca espiritual que encetei após o meu despertar interior aquando do termino da minha formação académica, como descrevi anteriormente, e os meus interesses misticos sobre alquimia e hermetismo em geral conduziram-me, como era de esperar, à nossa Serra de Sintra. Na altura, ao ler os livros de Fulcanelli, nomeadamente Mistérios das Catedrais e As Mansões Filosofais, fez-me reeducar a minha visão sobre arte, simbólica e arquitectura e levou-me a querer compreender mais sobre essa fascinante linguagem. A dado momento, descubro que existia um imóvel em Sintra pertencente a um antigo monárquico e milionário de nome António Augusto Carvalho Monteiro, que havia deixado uma quinta enorme com vários símbolos de caracter hermético. Confesso que iniciamente não compreendi nada do que ali estava exposto quando a visitei pela primeira vez, por esta simbólica possuir muitos mais elementos que até ao momento havia estudado, o que me levou à busca de mais informação sobre o imóvel. A dada altura da minha pesquisa, encontro uma obra que o título sobresaltou-me à vista e levou-me a consultá-lo de imediato. A obra intitulava-se, Quinta da Regaleira – Mansão Filosofal do autor Vitor Manuel Adrião, ou seja, possuia no seu subtitulo uma referência ao livro de Fulcanelli, ou seja, As Mansões Filosofais, o que achei intrigante e apelativa sobre o que procurava.  Escusado será dizer que não li o livro, eu simplesmente o devorei e compreendi que a lacuna espiritual, bem como a minha cultura lusófona, era mediocre e que estava disposto a mudá-la e vivê-la significativamente. Foi algo muito pessoal e considero que se não fosse esse livro talvez o meu percurso tivesse sido muito diferente do que foi. Por sua vez, o contacto com o autor foi imediato, inicialmente a receio por não saber que resposta viria do outro lado, mas posteriormente foi muito natural e amistoso não só pelos objectivos que me mobilizavam mas também pelo à vontade que o autor me deixou nascendo daí uma amizade que se mantém até aos dias de hoje. Perto da canonização do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira, tomei a minha decisão efectiva de me alistar como membro efectivo da Comunidade Teúrgica Portuguesa, por ser a única instituição, na altura, que me oferecia uma via espiritual de voação lusa e iniciática e que estava de acordo com as minhas ideossincrasias, tendências e objectivos pessoais. Além disso, nessa altura o hermetismo teosófico começava a despertar um forte interesse em mim, devido à fascinante personalidade e vasta sabedoria da grande ocultista Madme Blavatsky e a sua famosa Doutrina Secreta. No entanto, compreendi perfeitamente que estudar Teosofia a fundo, e principalmente, a colocar em prática é algo dificil e exige muita dedicação, gosto, bem como necessidade de orientação. Por conseguinte, sem uma escola que pudesse orientar, toda a tarefa ficaria mais complicada, para não dizer impossível. E é esse o conselho que dou a toda a pessoa que pretenda estudar teosofia, que ingresse numa escola confiável para puder desenvolver os seus estudos e prática de modo sensato e esclarecedor com vista a uma verdadeira realização espiritual. Neste caso, a  Comunidade Teúrgica Portuguesa é uma Instituição completamente independente e autónoma, constituída de livres-pensadores, visto o termo Teúrgico, “Obreiro do Eterno”, implica o de Teósofo, “Estudioso da Sabedoria Divina”, inclui também o de Eclético ou Sincretista, por seu espírito de análise e crítica, de Harmonista, por buscar a suprema síntese filosófica, de Analogista, por aplicar a chave hermética de “o que está em cima é como o que está em baixo”, e assim mesmo Teósofo, enfim, por buscar para o homem vulgar a Suprema Ciência da Superação, que há-de fazer dele um Super-Homem, um Titã, um Prometeu, um Herói do Espírito como Obreiro de Deus na Face da Terra. Fundada espiritualmente em 1978 e materialmente em 1980, através da pessoa do prof. Vitor Manuel Adrião, em Portugal, e tendo por fim a difusão do seu vasto programa em prol do engrandecimento físico, moral e intelectual da Humanidade, as suas ideias têm por base a obra do grande teósofo e iniciado do século XX, o profesor Henrique José de Souza, baiano de descendência luso-brasileira, e conhecido por diversos teosófos e teúrgicos como Mestre JHS, os seus ensinamentos, além de esclarecerem os antigos mistérios do passado, promovem toda uma via sapiencial e espiritual orientada para o futuro através da denominada Sabedoria Iniciática das Idades. Este deixou um vasto património cultural, institucional e espiritual, na forma de revistas, revelações e templos que continuam até aos días de hoje a fazer a sua acção. Além disso, toda a sua visão e saber não entram em contradição nenhuma, nem com o ideal universalista teosófico, a transladação dos valores do oriente para o ocidente (ex occidens lux), nem com a visão mística ou mentalidade portuguesa do V Império e a Idade do Espirito Santo, permitindo inclusive, um fortalecimento da já existente ligação cultural, história e acima de tudo espiritual entre Portugal e o Brasil, recolocando estes dois países irmãos na frente dos destinos da humanidade. A sua Iniciação Teúrgica além da Transformação, Superação e Metástase Avatária do discípulo, não se propõe apenas a um sentido exclusivista e fechado, mas sim a um ideal aberto e humanista que todas as religiões e visões profético-messiânicas apelam, ou seja, na instauração do Novo Pramantha, o Ciclo Evolucional do Terceiro Milénio trazendo em seu bojo a Satya-Yuga, a Idade de Ouro, acarretando a vinda do Senhor Maitreya, o Supremo Instrutor dos Homens e dos Anjos, o Cristo de Aquarius como o mesmo Budha Branco do Ocidente, e consequente instauração de novas e justas relações humanas, da Fraternidade Universal e da Sinarquia Universal.

   No que toca às instituições de caracter iniciático em geral, como já havia citado num dos artigos da Ganso Primordial, a Espiritualidade sem Tradição é como a criança sem educação. Será sempre desgovernada, caótica e destituída de valores sólidos. No entanto, parte da Tradição Espiritual também hoje não se encontra em pleno. Por mais que valorizemos e tenhamos amor à Tradição Iniciática das Idades, a verdade é que a crise de valores espirituais reina ao nível institucional, vítima dos efeitos funestos da Kali-Yuga ou Idade Sombria por que atravessa o Mundo. A “especulação simbologista”, que adentrou o Ocultismo ocidental no século XVIII, conduziu as antigas tradições a um folklore ou “conheceres populares” destituído de verdadeiro significado iniciático, limitando-se à indologia moral e ética educativa da Alma mas não do Espírito. Além disso, as teses filosóficas (Rousseau e Lock, por exemplo) conducentes às diversas políticas de carácter social visando transformar a “pedra bruta”, função inicialmente ao encargo de Adeptos e de Iniciados, na “pedra polida” do Estado Social, deram origem ao Poder Social e com este, não raro por ausência humana do valor espiritual, decaindo em anárquicas ditaduras totalitárias, completamente avessas a qualquer Estado Social justo e perfeito para governantes e governados nos puros paradigmas da Sinarquia. Por outro lado, vemos os “mitos de fundação” irrompendo em larga escala nos séculos XIX-XX, que além da auto-justificativa descendência da Tradição Primordial, a maioria das vezes sustentam-se em Egrégoras ou “Sinergias Colectivas” de um Passado remoto desadequadíssimas às necessidades presentes do Ciclo ou Era ora vigente, ou que pelo menos se avizinha o seu despontar consciencial (Aquário). Tal procedimento e resultado vêm a ser análogos aos mesmos que praticou D. Sebastião na violação dos túmulos dos seus antepassados – corpos mortos! Toda essa “especulação simbologista”, “folklores” e “mitos de fundação” não contribuíram nem contribuem em nada à Tradição Iniciática, tornando-a mesmo contra-iniciática, pelo menos aparentemente numa inversão própria de diabolismo sinistro, assim reflectindo à saciedade ignorância atroz das verdadeiras origens tradicionais do Homem Psicossocial, bem como das suas chaves iniciáticas.

    

  1. Como o caro amigo vê Portugal? Tem em mente quais seriam seus defeitos e suas virtudes?

   Vejo Portugal como uma das nações mais antigas da europa e com uma história fenomenal mas nem sempre consciencializada pelo português. No entanto, isso não implica que seja um país adiado ou adormecido mas apenas esquecido da sua identidade e missão que tem a dar ao mundo. Seja como for, por estes anos todos que vivo em Portugal e tenho estudado as suas tradições, usos e customes tenho a concluir que Portugal tem muito a dar ao mundo e não deve minorizar-se em relação aos outros países. A força de um país não está apenas no seu poder bélico e económico mas sim no valor humano, ético e espiritual que pode influir positivamente na própria história. Quem diria que seria este extremo ocidental da Europa um povo praticamente pastor tivesse feito tremer Roma apenas pela intervenção de um Viriato? Quem diria que seria um pais surgido de um sonho de um rei que se desentendeu com a sua familia gerar um país com as fronteiras mais estáveis e antigas da história? Quem diria que em plena reconquista cristã seria este pequeno povo que faria a Europa respirar de alivio das invasões mulculmanas após a conquista da praça de Ceuta? Quem diria que um país em finais da idade média práticamente isolado da Europa conseguiria reunir das melhores mentes cientificas da altura e desenvolver o projecto dos Descobrimentos e chegar ao ponto de ter que dividir o mundo com Espanha e criado um Império? Quem diria que seria este pequeno povo que conseguiria ter uma das línguas mais faladas do mundo? Enfim, todas estas e outras questões não podem deixar de ser feitas para que todo o passado não seja por e simplesmente esquecido e apagado, ao ponto de inclusivé existir hoje determinadas elites politicas a defender a destruição de alguns monumentos históricos. E porque seria isso errado? Simplesmente, porque um país sem História é um país sem Memória.

    

   Os portugueses tem sem sombra para dúvidas as suas virtudes, caso contrário, o país não teria sobrevivido a estes 9 séculos de história com inúmeras crises de identidade e independência ameaçadas, e mesmo assim, conseguiu sempre levantar-se e recompor-se mantendo a sua identidade intacta. No entanto, os defeitos também surgem e consequentemente verificamos as referidas crises históricas a surgirem do ponto de vista social, económico e até espiritual. No meu simples e humilde crer o português caracteriza-se por ser um idealista por excelência, no entanto, o idealismo tem sempre duas fases da moeda que o conduzem a absorver ou a construir algo diferente e inovador mas ao mesmo tempo esquece as consequências que daí advêm. D. Afonso Henriques foi idealista em sonhar um país mas esqueceu as consequências que daí acarretaram na dura defesa de fronteiras que durariam até à batalha de Aljubarrota. Portugal foi idealista na epopeia dos Descobrimentos mas esqueceu-se das dividas brutais que o estado acarretou para manter uma economia de especiarias e levou um império a cair falido. Todos estes exemplos e outros que poderiamos citar, não podem, nem devem ser esquecidos para que os erros do passado não se voltem a repetir no presente dentro das caracteristicas do mundo presente.

    

   Não deixa de ser irónico que hoje Portugal, tendo sido o pioneiro da própria globalização, esteja hoje a sofrer de uma crise de valores e de identidade pelo excesso de difusão multicultural que acaba por empobrecer ainda mais a própria globalização e ao mesmo tempo de dissolver ou pelo menos enfraquecer as identidades nacionais.

   Mais uma vez, na minha humilde opinião, considero que Portugal, dentro da antiga e tradicional geografia sagrada da Europa, pode ser perfeitamente colocado como a cabeça da Europa (e não a cauda como muitos apregoam) e ser o condutor ou pelo menos um dos país condutores do mundo, e não apenas olhar-se como um pequeno país pertencente à comunidade europeia, que tem que receber umas pequenas esmolas que ela dá, em lugar de pagar o frete que consistiu em transportar a Europa ao mundo nos navios Portugueses!

    

    

  1. A quais projetos se dedica atualmente que deseje citar? Sabe-se que estás por detrás da Editora Espiral, em Lisboa, junto a um sócio seu. Gostaria de falar um pouco sobre ela? Aproveitando o ensejo, tem alguma opinião formada sobre o mercado editorial em Portugal relacionado às questões iniciáticas?

   Dentro da minha vida prático-utilitária, considero-me um empreendedor com diversos projectos em marcha, não por uma mera questão de necessidade economico-financeira, mas na realidade porque me enriquecem como ser humano. Um desses projectos empreendedores de carcter cultural, é de facto a Espiral Editora criada como o meu amigo pessoal e sócio fundador António Paiva. No entanto, antes desta existir todo um periplo de histórias e projectos fantásticos e alguns até insólitos e muito divertidos ocorreram até amadurecer a ideia da editora. Foram anos extremamente enriquecedores e intensos e sem eles esta paixão que tenho pelos livros não ganharia vida. No entanto, podemos afirmar que a Espiral Editora nasceu de uma confluência de esforços ao nível gráfico, editorial e de divulgação pública com a missão de oferecer um serviço de excelência a todo o autor que deseja ver à luz as suas obras, escritos ou investigações pessoais, com a melhor qualidade e rigor que o mercado editorial de hoje exige. Prezamos os valores de competência, honestidade, transparência e fraternidade no trabalho desenvolvido com os autores, oferecendo toda a nossa dedicação desde a ideia embrião até à consumação da obra. Além disso, foi criada sob minha direcção uma colecção hermética, designada a Colecção Ourobouros, que tem como objectivo editar obras em lingua portuguesa de qualidade e/ou com conteúdo inédito, ou por outro lado edição de obras do mesmo caratcer hermético que estejam esgotadas dentro do mercado livreiro português. O projecto tem corrido muito bem, e em 2 anos de trabalho temos práticamente 30 obras editadas numa indústria extremamente competitiva e de dificil sobrevivência para projectos menores ou exclusivos como é o nosso.

  1. Por último, quais são os seus maiores sonhos nesta existência? O que mais deseja alcançar como ser humano? Crês que estas pedras no caminho ainda serão transpostas por pés fortes, e ainda com elas faremos um castelo, tal como dizia Pessoa? Há hoje um extenso e claro pessimismo em voga, querendo dizer que a Humanidade é apenas um vírus e não tem solução alguma. Pois, acreditas que há solução de continuidade para os problemas humanos? É a seu ver a Utopia, no dizer dos pessimistas, apenas um sonho belo, mas irrealizável?

   Entre a enorme colecção de sonhos que tenho para realizar em vida aquele que mais procuro atingir é puder impactar o maior número de pessoas, ajudando-as a desenvolver todo o seu potencial adormecido e ajudar a viver o grande ideal que o Mestre JHS nos deixou, ou seja, a “Vivência do Bem, do Bom e do Belo” (EUBIOSE).

   No entanto, toda a nossa transformação interior é necessária, e faz parte do processo. E creio que o discípulo que ingressa na escola de JHS, não significa que seja à partida mais evoluído que ninguém mas está concerteza munido de um método e ferramentas que permite uma aceleração espiritual, e por conseguinte, evolução de acordo com as leis universais mais profícua. Contudo, como já dizia Cristo, a quem muito é dado muito é exigido, e nesta via as pedras no caminho são ou serão mais que muitas. No entanto, é aquele que mais cai e aprende-se a levantar que tem a verdadeira autoridade e “poder” para conseguir levantar e ajudar o outro.   

   Considero mesmo que as três maiores doenças (sim arrisco mesmo a chamá-las assim) do nosso século, são o materialismo, o cepticismo e o ateísmo que nos dilaceram o coração e a mente em dois, provocando uma clivagem entre o humano e o animal, entre o falso e o errado, o bem e o mal, polarizando o individuo destabilizando-o interiormente. O mais interessante é que a Sabedoria Eterna dos antigos já nos falava disso à muito tempo, como por exemplo, os próprios textos védicos são disso prova quando nos falam da Kali-Yuga, onde a escuridão espiritual dominará sobre a humanidade até ressurgir novamente a Satya-Yuga (Idade de Ouro). De modo, que hoje a Teosofia e mesmo os ensinamentos de JHS, ou até de outros Mestres e/ou espiritualistas sinceros e verdadeiros, são mais que necessários para fazer frente a estes tempos de obscurimento espiritual que domina os corações e as mentes da humanidade de forma critica. O próprio Mestre, enalteceu isso quando apeleva à criação da Frente Única Espiritualista como meio de promover a Fraternidade Universal e de combater as trevas ou a linha negra…

   Portanto, toda a Humanidade tem salvação sim, por que a mesma reside no seu interior, ou  seja, na sua centelha divina que está adormecida ou ocultada na consciência de cada um. Esse é o Deus interior, Cristo Interior ou Augoeides que buscar libertar-se das amarras da animalidade e voar nas verdadeira e sublimes virtudes humanas. E que cada um faça o seu trabalho interior com devoção, verdade e fraternidade que a Utopia de hoje, que muitos tanto ridicularizam e pretendem destruir, será a realidade de amanhã!

   [1] O Culto da Deusa-Mãe, o que na geografia sagrada torna-a emblemática do Eterno Feminino, consequentemente, associada à fecundidade e fertilidade materna, facto comprovado, por exemplo, nos lúnulos, objectos arqueológicos do tipo iconológico em formato de chifre ou cornucópia com insculturas da Lua descobertos nesta serra, que retratam deuses(as) dos cultos lunares pré-históricos aqui celebrados, prova cabal da tradição recuar à mais alta antiguidade. Também sobre o culto lunar ou matriártico, tem-se nesta serra a presença de Eufêmia, santa cristã mas de origem moçárabe, parecendo andar associada à pessoa da primitiva Deusa-Mãe celtíbera Cynthia, em cuja capela no alto da serra está ao lado de Nossa Senhora do Ó (a mesma Deusa Primordial), esta que também tinha a sua imagem (hoje desaparecida) numa capela no bosque da Quinta da Trindade, mas nesta de Eufêmia até hoje presente como Boa Fêmea (Eu+Fêmea) ou Mulher representada nas suas boas águas, miraculosas ou santas brotando do seio da serra e que curam os enfermos de “corpos chagados”, purgando-os dos males do corpo e da alma. Onde hoje está a capela de Santa Eufêmia da Serra de Sintra houve outrora um templo de vestais consagradas à deusa Lua que também era rainha dos Infernos, Ínferos, Inferiores ou Interiores Lugares. Depois, para as bandas de São Saturnino de Sintra, por sobre o Cabo da Roca, os greco-romanos elevariam um outro templo, desta feita consagrado a Cronos ou Saturno e a Hécate, deuses do Mundo Subterrâneo.

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