Simbolismo psicológico da Mitologia Grega (Paul Diel) – João Gabriel Simões

Virtude X Banalidade & Nervosidade

Não foi por acaso que Freud, Jung, Diel, entre outros psicólogos, se debruçaram na mitologia para extrair insights e haurir inspirações para as suas teorias. Aliás, os grandes sábios da humanidade têm dito que os mitos abarcam conhecimentos psicológicos valiosíssimos — e eu diria — indispensáveis para os verdadeiros “desbravadores” da alma humana, aqueles dispostos a ousar ir além do que, normalmente, se conhece.

Mitos, o que são?

De acordo com Paul Diel (1991), os mitos não são fabulações arbitrárias e ultrapassadas, contadas por uma humanidade infantil, pouco desenvolvida. Não, os mitos são “imagens guia” de alcance sempre atual, cujo objetivo é orientar o pensar, sentir e agir humanos, tanto para a virtude, como para a realização dos potenciais mais elevados.

Mas, o que é a virtude?

A partir de Aristóteles (1999), podemos entender a virtude como a justa medida entre o excesso e a carência de um traço. Por exemplo, a virtude da coragem é a justa medida entre a covardia (carência de coragem) e a imprudência (excesso de coragem). É como a afinação de um violão: se, por um lado, não apertamos bem às cordas o som sai distorcido; se, por outro, apertamos em excesso, as cordas podem arrebentar. Nem frouxo, nem apertado, mas sim adequado, na medida certa — isso é virtude.

Como se tornar virtuoso?

Diferente dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) que já nascem prontos para serem utilizados pelo ser humano, as virtudes são adquiridas pelo exercício. Ou seja, nos tornamos corajosos praticando atos de coragem, prudentes praticando ações prudentes e assim com todas as outras virtudes. Felizmente, está dentro da nossa zona de controle nos tornarmos virtuosos. Ou seja, decidir se tornar virtuoso é uma decisão que está ao alcance de cada um de nós, independente de nossa constituição fisiológica, situação socioeconômica etc. O que a virtude demanda é o exercício, a sua prática constante.

“Quanto à virtude, não basta conhecê-la, devemos colocá-la em prática”. — Aristóteles

Como vimos até o momento, é uma das funções do mito conduzir o ser humano a ações virtuosas, isto é, ações adequadas, proporcionais ao que nos é demandado pela vida. De acordo como a hermenêutica simbólica de Diel (1991), no mito de Ícaro temos um ótimo exemplo do que acontece quando a justa medida da ação virtuosa é perdida pelo excesso. Ícaro foge do labirinto do minotauro, graças às asas de cera confeccionadas por seu pai, que lhe aconselha a não voar muito perto do mar, nem muito próximo do sol. Ícaro ignora o conselho e se exalta ao voar muito perto do sol, que derrete suas asas e ocasiona a sua trágica queda no mar. Em síntese, a sabedoria desse mito nos revela como a exaltação, a ambição desmedida pode nos levar à ruína.

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Artista: Jacob Peter Gouwy

A sabedoria psicológica dos mitos

Ao nos mostrar o caminho da virtude, o mito nos revela uma sabedoria psicológica riquíssima, pois expressa todo o espectro das paixões humanas e o que acontece quando elas são exaltadas, reprimidas e vivenciadas de forma virtuosa. Ademais, os mitos compreendem o funcionamento evolutivo e involutivo da psique (alma).

Evolução

A evolução da alma humana é impulsionada pelo desejo essencial que jaz em cada um de nós, ou seja, o impulso evolutivo que nos orienta em direção ao “chamado dos deuses”, à virtude e aos valores transcendentes, tais como a tríade platônica do verdadeiro-bom-belo.

Hércules para os latinos ou Héracles para os gregos, conhecido comumente por sua força sobre-humana, é o símbolo da vitória da alma sobre suas fraquezas. Filho de Zeus com uma mortal, depois de passar por poucas e boas e finalmente concluir os 12 trabalhos, que lhe foram impostos para a remissão de seus atos nada virtuosos, Hércules supera todos os obstáculos e conquista seu lugar no olimpo, na morada dos deuses. Em outras palavras, o mito de Hércules nos presenteia com um final feliz, daquele que mesmo diante das dificuldades inerentes à vida, realiza seu impulso evolutivo e se eleva ao nível “divino”.

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Estátua de Hércules (Romana)

Involução

A via da involução é representada por dois desvios do impulso evolutivo. Paul Diel (1991) os chama de banalidade e nervosidade. Hércules, por exemplo, antes de se divinizar, provocado por Hera, a esposa de seu pai (Zeus), sucumbe a um surto de loucura e assassina, por incrível que pareça, sua mulher e seus filhos. Além disso, ao longo de sua vida ele cai, algumas vezes, na devassidão, ou seja, na via da banalidade, que é representada pelo esquecimento do espírito e a dispersão na multiplicidade dos desejos.

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Peter Paul Rubens – Hércules bêbado

Por outro lado, diferente da história de Hércules e seu final feliz, o mito de Ícaro, como vimos acima, tem um desfecho trágico, pois ao se aproximar do sol, ao ponto de perder as suas asas, Ícaro cai nas águas do mar e perece. Tal é o destino da exaltação doentia do impulso evolutivo, chamada de nervosidade por Paul Diel, daquele que, por exemplo, quer se elevar “espiritualmente” apenas com seu intelecto — vaidosamente exaltado — negligenciando o próprio corpo e os conselhos de sua intuição.

Banalização e nervosidade: os dois perigos da vida virtuosa

A vida humana é como caminhar no fio da navalha, evitando sucumbir a banalização, por um lado, e a nervosidade pelo outro. O lado da banalidade é o território da frouxidão, da imoralidade, da depravação, da letargia. Já o da nervosidade é o lado da tensão, da repressão moral, do recalque da culpa e da obsessão (DIEL, 1987). A banalidade representa o adormecimento para o lado espiritual da vida e a alienação no “material” (ex: o mergulho na luxúria e na avareza), ao passo que a nervosidade é, em um de seus vários sentidos, o recalque do “material” (ex: da própria sexualidade) e a busca vaidosa de elevação intelectual/espiritual.

Na mitologia grega, a banalidade é bem encenada na figura de Tifeu, o mais temível de todos os monstros, símbolo da queda na animalidade e da oposição ao espírito (Zeus). Já a nervosidade, é muito bem representada por sua esposa, Equidna, símbolo do desejo terrestre exaltado em relação ao espírito. Não é por acaso que da união de Tifeu (banalidade) e Equidna (nervosidade) nasce toda sorte de monstros, os verdadeiros opositores dos heróis mitológicos, os obstáculos em seus caminhos, tais como a Medusa, a Esfinge, o Cérbero etc. (DIEL, 1991).

Virtude e harmonização

Caminhar no fio da navalha de forma virtuosa é ter vigilância dos sentidos. Ou seja, desenvolver a lucidez para não ser aprisionado em nenhum desses mata-burros. É a justa medida, a harmonização dos opostos que nos permite realizar o impulso evolutivo, cuja meta é o olimpo — a morada dos deuses, o mundo fora da caverna do Platão, no qual “residem” a verdade, a beleza e a bondade.

A propósito, é a harmonização do pensamento que nos leva à verdade; a harmonização do sentimento a beleza; e a harmonização das ações a bondade. E é justamente esse trabalho de harmonização que cabe a cada um de nós, a cada “herói” em sua jornada de autoconhecimento e realização de sentidos de vida (DIEL, 1987).

Banalização e nervosidade hoje em dia

Transpondo esses conceitos para os dias atuais, podemos dizer que a banalidade pode ser representada pelo modus operandi daquele que Ortega y Gasset (2002) chamou de homem massa. Tal sujeito não está interessado em virtude, cultura, autoconhecimento e evolução espiritual. Ele exige muito pouco de si mesmo, não estranha a sociedade na qual vive e se sente muito confortável em fazer o que todos fazem. Não está nem um pouco preocupado com questões sociais e existenciais, ele quer mais é curtir e satisfazer seus desejos na “festinha” do final de semana!

“As massas nunca tiveram sede de verdade. Elas querem ilusões e não vivem sem elas”. — Sigmund Freud

Já a nervosidade é muito bem representada, atualmente, pelo metido a espiritualista, que não quer saber de trabalhar as suas emoções e se relacionar melhor com os outros, mas somente praticar técnicas de meditação para alcançar o que ele chama de iluminação espiritual. Ou seja, ele recalca seus problemas psicológicos e se dedica unicamente a seus exercícios espirituais. É como ítalo, pois tenta se aproximar do “sol espiritual”, sem antes ter trabalhado as suas “asas emocionais”.

Conclusão — o caminho do(a) Heroí(na)

Em cada mito, o herói representa o impulso evolutivo, ou seja, o desejo essencial que nos põe na estrada da virtude, em direção à autorrealização. Nesse contexto, o combate contra os monstros e inimigos do herói representa a luta contra a banalidade e a nervosidade, isto é, contra os obstáculos ao impulso evolutivo. Entretanto, é graças a esses obstáculos que o herói pode expandir a sua consciência. Sem oposições ele não se tornaria consciente de suas fraquezas, nem de seus poderes. Quando, por exemplo, Hera envia 2 serpentes, a fim de matar Hércules ainda no berço, ele descobre o seu poder ao estrangulá-las e, ainda por cima, salva seu irmão que dormia perto dele. São as oposições de Hera, enciumada por Zeus tê-la traído com uma humana, mãe de Hércules, que ajudam o nosso herói a lapidar sua alma e alcançar o patamar dos Deuses.

O que não me mata, me torna mais forte. — Nietzsche

Enfim, diferente de uma mentalidade moralista e perfeccionista, a sabedoria psicológica dos mitos nos mostra que a jornada do herói é feita de erros e acertos. Viver é estar em risco, viver é caminhar no fio da navalha, viver é se permitir errar, mas acima de tudo, saber extrair do erro força e experiência para continuar desbravando a estrada da virtude, cujo destino é a realização dos nossos potenciais mais elevados.

João Gabriel Simões

 

Referências

ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury 3ª ed. Brasília, 1999.

DIEL, Paul. O simbolismo na mitologia grega. Trad. Roberto Cacuro e Marcos Martinhos dos Santos. São Paulo: Attar, 1991.

DIEL, Paul. Psychology of Re-Education. Boston & London: Shambhala Publications, 1987.

ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Trad. Marylene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

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Link abaixo para o Curso de:

Simbolismo Psicológico na Mitologia Grega – Paul Diel

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Ministrado por: João Gabriel Simões

Neste curso você terá contato com a riquíssima sabedoria psicológica oculta na mitologia grega e entenderá porque os conflitos e desafios enfrentados pelos heróis mitológicos representam, simbolicamente falando, os conflitos que cada um de nós enfrenta, diariamente, em sua própria alma. Além disso, graças às contribuições de grandes pensadores, tais como Platão, Mircea Eliade, Gilbert Durand, Joseph Campbell e, especialmente, Paul Diel, compreenderá porque o conhecimento do simbolismo mítico é essencial para aquele que quer ampliar a sua visão de mundo, “abrir os olhos” para a influência subliminar dos mitos na vida cotidiana, avançar em alto nível no autoconhecimento e, finalmente, ter uma vida mais virtuosa e satisfatória.

Sobre o professor:

João Gabriel Simões é Psicólogo, pós graduando em psicologia cognitivo-comportamental. Também é formado em Leadership e Management no Greenwich College (Austrália) e autodidata no estudo comparado das psicologias, filosofias, mitologias e sistemas “espirituais”.

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