António de Macedo – Biografia Síntese – Por Hugo Martins

António de Macedo nasceu em Lisboa em 1931. Frequentou a Faculdade de Letras da Universidade Clássica e a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde se formou em Arquitectura em 1958. Exerceu durante alguns anos a profissão de arquitecto, que abandonou em 1964 para se dedicar à actividade de cineasta, escritor e professor. Foi um dos fundadores, em 1970, do Centro Português de Cinema, e editou “A Evolução Estética do Cinema”, um dos primeiros livros sobre Teoria de Cinema em Portugal.

Cineasta intimamente ligado ao Cinema Novo (nome dado pela própria critica da altura), movimento surgido nos anos 60 e que revelou as carreiras de nomes como Paulo Rocha, José Fonseca e Costa, António-Pedro Vasconcelos, ou João César Monteiro, António de Macedo foi um dos poucos realizadores, em Portugal, a explorar os mecanismos narrativos e sensibilidades estéticas do chamado cinema de género. Inclui na sua extensa filmatografia documentários, programas televisivos, filmes de intervenção e longas-metragens de ficção. Da sua filmografia, destacam-se as experiências do realizador no cinema vanguardista com “Domingo à Tarde” (1966), a espionagem em “Sete Balas para Selma” (1967), a adaptação da obra teatral de Bernardo Santareno “A Promessa” (1972, exibido no Festival de Cannes de 1973), o simbolismo anti-religioso no controverso “As Horas de Maria” (1976), a ficção-científica em “Os Abismos da Meia-Noite” (1984) e a fantasia medieval em “A Maldição de Marialva” (1991).

Talvez por sempre ter fugido aos motivos e temas dominantes na produção cinematográfica nacional, a carreira de António de Macedo foi tanto marcada pela censura oficial que vigorava antes do 25 de Abril de 1974, como posteriormente pela própria sociedade portuguesa. São exemplos disso os filmes “Nojo aos Cães” (1970) e, sobretudo, “As Horas de Maria”, cujo teor foi considerado blasfemo por setores conservadores do país, os quais chegaram a insultar e agredir os espectadores presentes na estreia do filme, no cinema Nimas, em Lisboa.

Fruto destas polémicas, após o seu último filme em 1993, “Chá Forte com Limão”, apelidado pelo próprio cineasta como uma ghost story, António de Macedo foi votado ao esquecimento durante largos anos. Teve ainda uma década de tentativas frustradas para obter subsídios e voltar a realizar, mas segundo o próprio, os membros dos júris eram os mesmos críticos que arrasavam os seus filmes. Inclusive, chegou a fazer queixa ao Provedor de Justiça, denunciando esta situação e apresentou provas desta forma de censura mas sem resultado. Acabou por desistir, visto ser muito caro concorrer para além de já saber de antemão que o esperava. No entanto, apesar de ter sido afastado da realização cinematográfica não ficou totalmente esquecido e em 2017 foi homenageado pela Cinemateca Portuguesa e pelo MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror nos últimos anos, tornando a carreira de António de Macedo alvo de redescoberta e reconhecimento. A sua vida e obra acabaram por ter os temas do documentário “Nos Interstícios da Realidade”, realizados pelo jovem realizador João Monteiro.

Apesar de António Macedo, ter ficado afastado da realização cinematográfica, a sua veia criativa continuava pulsante e sem forma de terminar. O próprio afirmava: ” Para não ficar a bater com a cabeça num muro, abriu um novo canal: “Sempre tive muita versatilidade, deixei de fazer cinema, passei logo a escrever livros. Até dizia: eles têm de levar comigo pela cabeça abaixo, se não me apanham de uma maneira, apanham de outra.” Apesar de escrever parte dos seus guiões, e inclusive na década de 80 peças teatrais (ver no índice de obras), é nesta década de 90 até ao ano de 2000 que escreve inúmeros romances como O Limite de Rudzky (1992), Contos do Androthélys (1993), Sulphira & Lucyphur (1995), A Sonata de Cristal (1996), Erotosofia (1998) e O Cipreste Apaixonado (2000). De uma escrita excitante, versátil, misteriosa e atractiva os seus livros são verdadeiras obras primas que revelam o génio e universo imaginário do autor bem como a sua vastíssima cultura e erudição.

Contudo, este micro-universo que é António Macedo, também navegou pelos terrenos do desconhecido, enigmático e estigmatizado universo do Hermetismo. António Macedo foi um convicto Rosacruz (pertencente à Fraternidade Rosacruz Max-Heindel) que deixou escritos de grande qualidade ao longo do seu caminho no denominado “cristianismo esotérico”. Frutos de uma vivência de largos anos de estudo bíblico, contemplação, oração e uma busca incessante pela verdade, deixaram um marco impar no rosacrucianismo moderno português. As Instruções Iniciáticas (1999), Laboratório Mágico (2002), O Neoprofetismo e a Nova Gnose (2003) e o Esoterismo da Bíblia (2006) foram as obras de enorme projecção do seu pensamento místico e investigação espiritual, acompanhadas por inúmeros outros escritos satélites.

Além do seu contributo espiritual, o génio de Macedo também não deixou de estar ligado ao meio académico e desde os anos 70 havia lecionado em diversas instituições de ensino como: IADE, Universidade Lusófona, Universidade Moderna e na Universidade Nova de Lisboa, regendo cadeiras como Teoria e Prática do Cinema, Análise de Imagem, Arte Narrativa e Esoterismo Bíblico. Deste percurso académico, especializou-se no estudo das religiões comparadas, esoterologia, do qual ressaltamos a magnânime obra (e tese de doutoramento) o Cristianismo Iniciático (2011) o qual comprova a existência de um esoterismo bíblico e um cristianismo iniciático quer nos primórdios do cristianismo, quer ao longo da História e até à Modernidade, nos mais diversos domínios das sociedades ocidentais. Na continuidade da sua especialização também temos a história da filosofia, estética audiovisual e formas literárias e fílmicas de ficção especulativa.

Mesmo afastado das salas, nunca foi esquecido e colecionou vários reconhecimentos no meio literário e cinematográfico. Contou no currículo com o «Prémio Consagração de Carreira 2007» da Sociedade Portuguesa de Autores, o «Prémio de Carreira Sophia 2012» da Academia Portuguesa de Cinema, o «Prémio de Carreira 2013» do Fantasporto e, pelo livro Lovesenda, ou Enigmas das Oito Portas de Cristal, o «Prémio Escolha do Ano» no Fórum Fantástico de 2017.

Falece a 5 de Outubro de 2017, deixando uma obra literária e cinematográfica impar na cultura portuguesa, destacando-se pela sua independência, inovação, controvérsia, nem sempre bem entendida e reconhecia na época, mas que foi feliz no seu conjunto e merecedora do reconhecimento ainda em final de vida, constituído sem sombra para dúvidas um optimo “património” alimentador da prosperidade das gerações futuras.

Hugo Martins

06.08.2021

NDICE DAS OBRAS DE ANTÓNIO DE MACEDO

 

  1. Principais filmes:

1962 – VERÃO COINCIDENTE, curta-metragem

1963 – NICOTIANA, curta-metragem

1965 – DOMINGO À TARDE, longa-metragem

1967 – SETE BALAS PARA SELMA, longa-metragem

1969 – ALMADA-NEGREIROS VIVO HOJE, curta-metragem

1970 – NOJO AOS CÃES, longa-metragem

1972 – A PROMESSA, longa-metragem

1975 – O PRINCÍPIO DA SABEDORIA, longa-metragem

1975 – FATIMA STORY, telefilme

1976 – AS HORAS DE MARIA, longa-metragem

1976 – O OUTRO TEATRO, telefilme

1978 – O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, longa-metragem

1983 – OS ABISMOS DA MEIA-NOITE, longa-metragem

1987 – OS EMISSÁRIOS DE KHALÔM, longa-metragem

1988 – FERNANDO LANHAS – OS 7 ROSTOS, telefilme

1989 – A MALDIÇÃO DE MARIALVA, longa-metragem

1992 – O ALTAR DOS HOLOCAUSTOS, série-TV

1993 – CHÁ FORTE COM LIMÃO, longa-metragem

1996 – SANTO ANTÓNIO DE TODO O MUNDO, telefilme

 

 

  1. Ensaio:

A EVOLUÇÃO ESTÉTICA DO CINEMA, vol. 1 1959, vol. 2 1960

DA ESSÊNCIA DA LIBERTAÇÃO, 1961, 2.ª ed. 2002

INSTRUÇÕES INICIÁTICAS, 1999, 2.ª ed. 2000, Ed. HUGIN

LABORATÓRIO MÁGICO, 2002, Ed. HUGIN

 NEOPROFETISMO E A NOVA GNOSE, 2003, Ed. HUGIN

ESOTERISMO DA BÍBLIA, 2006, Ed. ESQUILO

 

  1. Teatro:

A POMBA, 1983

A NOVA ILUSÃO, 1984

O OSSO DE MAFOMA, 1989

 

  1. Ficção:

O LIMITE DE RUDZKY, contos 1992

CONTOS DO ANDROTHÉLYS, romance 1993

SULPHIRA & LUCYPHUR, romance 1995

A SONATA DE CRISTAL, romance 1996

EROTOSOFIA, romance 1998

O CIPRESTE APAIXONADO, romance 2000

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