Estórias e Lendas dos índios Tembé – 1. O Incêndio Universal e o Dilúvio – 2. O Roubo do Fogo – 3. Os Gaviões e o Dilúvio

Extraído de “Estórias e Lendas dos Índios”, Editora Iracema

O INCÊNDIO UNIVERSAL E O DILÚVIO

Mapa – Lemúria, continente destruído pelo fogo segundo a Tradição Universal

Em tempos mui distantes, certo homem aproximou-se de uma criança que brincava sozinha. Deu-lhe uma tocha acesa e ordenou-lhe que a apagasse na água do rio, desaparecendo em seguida.

                A criança mergulhou a tocha no rio e este começou logo a arder. A princípio incendiou-se a água, depois a terra também começou a levantar altas chamas. O fogo meteu-se por baixo do chão e foi irromper no terreiro de uma aldeia. Então a terra desabou nesse local.

                Uma mulher grávida escondeu-se com um menino no bananal, que não podia ser destruído pelo fogo. O incêndio aniquilou toda a humanidade. E depois que o fogaréu se extinguiu os dois saíram de seu esconderijo. Na imensa coivara encontraram cinco raízes de mandioca, que guardaram cuidadosamente.

Então choveu durante muitos dias e muitas noites, sem parar. Ambos sofreram muita fome. Por fim, a água foi baixando vagarosamente e quando a terra ficou descoberta, plantaram as raízes de mandioca.

A mulher deu à luz uma menina; desta e do menino, ressurgiu a humanidade.

Índios Tembé

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O ROUBO DO FOGO

Em priscas eras o urubu-rei foi dono do fogo. Por isso, os Tembé secavam a carne expondo-a ao calor do sol. Então resolveram roubar o fogo do urubu-rei. Começaram por matar uma anta. Deixaram-na estendida no chão e, depois de três dias, o bicho estava podre, bulindo de vermes.

Vendo a carniça lá embaixo, o urubu-rei desceu acompanhado de seus parentes. Para melhor se baquetearem, despiram a vestimenta de penas, assumindo a forma de gente. Tinham trazido um tição acesso e com ele fizeram grande fogueira. Cataram os vermes, os envolveram em folhas de mato e assaram.

Os Tembé que se mantinham escondidos, à espreita, tocaram para lá. Mas os urubus bateram as asas e levaram consigo o fogo para lugar seguro. Assim, os índios perderam o trabalho de tantos dias. A seguir, fizeram uma tocaia ao pé da carniça e um velho pajé aí se escondeu.

Os urubus voltaram àquele lugar e fizeram seu fogo, desta vez bem próximo da tocaia.

– Quando eu fugir, levarei comigo um tição acesso! – disse o pajé consigo mesmo.

Quando os urubus despiram sua vestimenta de penas, viraram homens e se puseram a assar os vermes, ele deu um pulo para a frente e os bichos ficaram espavoridos. Correram para suas vestes de penas e começaram a vestir-se, atabalhoadamente. O velho aproveitou-se da confusão, pegou num tição acesso e fugiu. Os pássaros juntaram o resto do fogo e voaram, levando-o consigo.

Então, o pajé ateou fogo em todas as árvores com as quais hoje se faz fogo e que são: urucuiva, cuatipuruiva, ivira e muitas outras.

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Os Gaviões e o Dilúvio

Certo homem encontrou na copa de uma árvore muito alta o ninho do gavião Uiruuetê e foi buscar o irmão para ajudar a desaninhá-lo. Fizeram um mutá e o mais velho subiu pela árvore, enquanto o mais novo lhe levava as varas. Durante o trabalho, caiu da árvore alguma coisa na cabeça do rapaz que ficara embaixo e este pediu à cunhada que a tirasse de seus cabelos. Quando o outro irmão, lá do alto do mutá, viu essa confiança, ficou enciumado. Como faltassem ainda alguns degraus para alcançar o ninho, ele desceu e convidou o irmão para ajudá-lo a fazer os que ainda faltavam. E, quando o mais moço acabou a escada, o mais velho subiu e cortou todos os cipós que amarravam as varas. Depois, voltou com a mulher para casa e deixou o irmão no alto da árvore, junto do ninho, de onde ele não podia descer sem o mutá.

No ninho havia apenas um filhote. Passado algum tempo voltou a mulher do gavião e perguntou ao homem o que ele queria lá em cima. Este confessou que tinha subido para apanhar o filhote do Uiruuetê e como o irmão o abandonou naquele lugar.

– Queres criar minha filha? – perguntou ela.

Como o homem dissesse que sim, ela entregou-lhe um macaco que matara, a fim de que ele o pelasse para o filhote. Depois de um tempo, chegou o gavião-pai, voando com um bugio nas garras. O índio contou-lhe igualmente sua estória e a ave de rapina ensinou-lhe como devia pelar o bugio, pois o coitado fazia isso muito devagar.

Então o gavião, perguntou-lhe se desejava transformar-se num uiruuetê e ele aceitou. O gavião foi-se embora voando e voltou logo depois, com alguns companheiros. A seguir, em grupos de dois e de três, vieram muitos gaviões de toda espécie, até que se formou um grande bando. Pousaram ao redor do índio e se puseram a cantar. Penas e garras começaram a crescer no seu corpo e ele transformou-se em uiruuetê. Tentou voar. A princípio não se saiu bem, mas os gaviões ajudaram-no com paciência e ele aprendeu.

As aves de rapina decidiram matar o irmão perverso e o disseram ao rapaz, isto é, ao novo gavião. Acontece que na aldeia havia uma festa e o irmão velho estava sentado na frente da cabana, a pintar-se para as danças. O mais moço apareceu voando sob a forma de um gaviãozinho e pousou perto dele. A gente da aldeia chamou o seu irmão para que atirasse na ave, pois ele era tido como o melhor atirador de flechas da tribo.

Foi buscar suas armas na cabana e atirou em flechaço no gaviãozinho, mas ele levantou voo e a flecha passou por o gaviãozinho, por pirraça, veia sentar bem pertinho do atirador. Furioso, este atirou pela terceira vez, e como a flecha passasse ao lado, a ave voou e agarrou-o pelos cabelos. No mesmo instante transformou-se em um uiruuetê gigantesco e com as garras carregou o irmão pelos ares. Imediatamente, este foi atacado por enorme bando de aves de rapina e comido com tal voracidade que só os ossos caíram na terra.

O irmão mais jovem podia, a seu bel-prazer, transformar-se quer em homem quer em uiruuetê. Então, os gaviões mandaram-no buscar seus pais. Tomando a forma humana, ele se dirigiu à aldeia e quando os habitantes o viram aparecer depois de tanto tempo, assustaram-se e disseram que ele tinha vindo pelo caminho do Azã. Convidou os pais para o acompanharem a uma casa onde havia danças. Fez o mesmo convite a outras pessoas da aldeia. Elas, porém, com medo, não quiseram ir. E, enquanto dançavam, a casa soltou-se do chão e subiu com todos pelos ares. Diante disso, os habitantes da aldeia correram para deter a casa que voava levando os dançadores. Os pajés acenderam seus charutos e sopraram a fumaça para o alto, mas nada conseguiram.

Então começou uma grande chuva e a água subiu tanto que muita gente pereceu. Um certo número de pessoas subiu nas palmeiras açaí. Como na escuridão nada podiam distinguir, de vez em quando atiravam para baixo os coquinhos de açaí para saberem, pelo ruído que faziam, a que altura estava a água. Mas, ao caírem na enchente os coquinhos faziam sempre pluc, pluc. Então os homens começaram a imitar os sapos, chamando-se mutuamente no escuro. E fizeram isso tanto tempo que acabaram se transformando em sapos.

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Os Tembé constituem o ramo ocidental dos Tenetehara. O grupo oriental é conhecido por Guajajara. Sua autodenominação é Tenetehara, que significa gente, índios em geral ou, mais especificamente, Tembé e Guajajara. Tembé, ou sua variante Timbé, constitui um nome que provavelmente lhes foi atribuído pelos regionais. De acordo com o lingüista Max Boudin, timbeb significaria “nariz chato”.

Os Tembé, tal como os Guajajara, falam a mesma língua, o Tenetehara, da família lingüística Tupi-Guarani. Sobre o dialeto Tembé há um dicionário em dois volumes elaborado por Max Boudin. Os Tembé que vivem próximos ao rio Guamá já não falam a língua indígena. Já alguns dos que se localizam numa e noutra margem do rio Gurupi, além de sua própria língua e do português, conhecem também a língua dos Ka’apor.

De um modo geral, pode-se afirmar que os Guajajara, ramo oriental dos Tenetehara, se localizam no Estado do Maranhão, enquanto os Tembé, o ramo ocidental, no Estado do Pará. Entretanto, uma parte dos Tembé vive na margem direita do rio Gurupi, no estado maranhense.

(Texto extraído do site: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Temb%C3%A9)

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