Pensamento Criativo e Pensamento Reflexivo — o trabalho de Prometeu e Epimeteu — Rudolf Steiner – Por João Gabriel

Lembro-me de quando tinha de ler pilhas e mais pilhas de textos na faculdade e de como aquilo, às vezes, me cansava; me sentia refém das leituras demandadas, principalmente, daquelas enfadonhas e inférteis, que não traziam nada de novo, mas apenas reciclavam ideias já conhecidas. Eu via nelas a “cópia da cópia da cópia” e aquela impessoalidade forçada, costumeira na escrita acadêmica.

Ao ter de encarar tais leituras, sobremaneira, a de artigos, não me era difícil perceber alguns pensamentos insólitos pipocando na minha mente: como o de que cada “estilo” de escrita (em conjunto com o encadeamento e o teor das ideias apresentado nele) corresponde a determinadas formas simbólicas e sentimentos na alma humana. Os artigos que me eram mais entediantes, muitas vezes, evocavam na minha mente formas quadradas, linhas bem definidas, mas desconexas, como se faltasse ao texto elementos de unificação, vitalidade e fluidez. Além disso, no âmbito do sentimento, era notável a “frieza”, a secura afetiva e uma sensação de fragmentação mental. Era como se eu estivesse lidando com “cadáveres“ de pensamentos; “pedaços” de ideias inertes entrelaçados com um “fio dental”.

Foi só alguns anos depois, que percebi com clareza o que estava acontecendo na minha alma ao ler tais artigos. É Rudolf Steiner quem nos ajuda a entender a causa dessas percepções e sensações, que como pude ver, não são nada raras em estudantes e acadêmicos.

Rudolf Steiner, pai da antroposofia, da pedagogia Waldorf, da medicina antroposófica, da agricultura biodinâmica, da Euritmia, entre outros empreendimentos, foi um filósofo, educador, artista e esoterista austro-húngaro, que viveu entre 1861 e 1925. Dentre suas várias contribuições irei abordar aqui a sua caracterização de pensamento reflexivo e pensamento criativo — o que tem tudo a ver com a minha experiência relatada acima — e a relação dessas duas formas de pensar com as figuras mitológicas de Prometeu e Epimeteu.

Sem mais delongas, de acordo com Steiner (1983), essas duas formas de pensar nos ajudam a descobrir, desvelar 2 formas de verdade:

  1. Verdade alcançada pelo pensamento reflexivo.Aquela oriunda da observação da Natureza ao nosso redor e da investigação de suas constantes, por exemplo, a de que a água ferve a 100 graus Celsius (se a pressão for de uma atmosfera). Tal modo de pensar é o que predomina na humanidade.
  2. Verdade alcançada pelo pensamento criativo.É obtida quando pensamos em algo que não se encontra na natureza ao nosso redor. Por exemplo, ninguém poderia aprender com o mundo exterior como construir um relógio mecânico, pois as “leis da Natureza” não estão arranjadas de modo a permitir o aparecimento de relógios como um produto natural.

As invenções nunca poderiam ter sido feitas se só existisse o pensamento reflexivo. Uma invenção ocorre quando um ser humano cria (ou capta) algo que não “existia” antes. Ele tem uma ideia inédita e a converte em realidade, a materializa (ex: relógio mecânico).

Mas, e aqui cabe uma objeção, se tais “verdades” (alcançadas pelo pensamento criativo) não se encontram dadas, pelos menos de forma explícita na realidade concreta, então, como verificá-las? Como diferenciá-las de fantasias e “viagens na maionese? Simples, realizando elas na realidade concreta; o inventor do relógio só precisa demonstrar que o relógio, engendrado em sua mente, faz o que ele espera na realidade que ele percebe e atua. Qualquer verdade obtida pelo pensamento criativo deve provar-se na prática, isto é, deve produzir resultados que possam ser reconhecidos na nossa vida diária.

No pensar criativo, o próprio ser humano é produtivo. Ele trabalha segundo o exemplo da própria natureza, ele é fértil. Ele não está meramente observando a natureza e classificando aquilo que observa — Não! Ele vai além da mera observação e do pensamento reflexivo, de modo a permitir que algo não ganho com a observação surja em sua alma. Algo “novo” se manifesta na sua alma, algo que pode ser expresso em uma nova visão de mundo, materializado em um equipamento, traduzido em uma técnica, uma obra de arte, um insight, um conhecimento espiritual etc.

Ao passo que o passado é a morada do pensamento reflexivo, dado que a sua função é refletir e “desdobrar” o que já existe, o futuro é o território do pensamento criativo, pois este dá vida e abre novos caminhos, ao produzir novas “dobras”.

De acordo com Steiner (1983), por um lado, qualquer um que seja ativo na busca da verdade logo descobrirá como ela é empobrecida pelo mero pensamento reflexivo. Ele compreenderá como o desenvolvimento unilateral do pensamento reflexivo sobrecarrega a alma com ideias-mortas e abstrações inférteis. A sensação de estar lendo algo estéril, pesado, abstrato demais, distante da realidade é a marca do excesso de pensamento reflexivo em um texto, artigo, livro.

Por outro lado, aquele que experimenta uma verdade adquirida pelo pensamento criativo descobrirá que ela nutre, aquece a alma e intensifica suas forças. É o que muita gente experiência ao ler Nietzsche. Diferente da atmosfera “despotencializadora” de artigos completamente impregnados de pensamento reflexivo, a atmosfera de Nietzsche é vibrante, intensa e abundante de pensamentos criativos, dotados do poder de despertar em seus leitores “forças” correspondentes. É difícil não ter sido estimulado a criar e sentido um ganho de potência após o ter lido com afinco.

E é exatamente esse impulso criativo, iluminador, encontrado não só em Nietzsche, mas também em Platão, Leonardo da Vinci, Goethe, Nikola Tesla (só para citar alguns), que tem na figura de Prometeu o seu grande arquétipo. Isso mesmo, o Prometeu da mitologia grega, aquele que foi acorrentado por Zeus em um rochedo, como punição por ter roubado o fogo dos deuses e dado a humanidade.

Pintura de Heinrich Friedrich Füger

Para Steiner (1983), Prometeu representa o pensamento criativo, ao passo que seu irmão Epimeteu, o pensamento reflexivo. Sua caracterização desses 2 arquétipos se fundamenta, principalmente:

  1. Nos fragmentos sobre Prometeu, escritos por Goethe no século XVIII.
  2. Na obra inacabada intitulada: Pandora, também escrita por Goethe.
  3. E no livro de Ésquilo (1993): Prometeu acorrentado.

No lado de Prometeu nós temos o poder criador, vivo, intenso, todavia, inacabado, bruto e assimétrico. E no de Epimeteu simetria, harmonia e conclusão. Epimeteu reúne e organiza aquilo que a natureza já produziu. Embora, Prometeu não possa modelar suas criações com a mesma perfeição da natureza, ele — diferente de Epimeteu que não cria — é criador, seus produtos resultam de seus próprios poderes e ferramentas.

O pensamento criativo de Prometeu está relacionado aos ferreiros, cujo ofício é transformar os produtos da Natureza com o fogo. Já o pensamento reflexivo de Epimeteu, pode ser representado pelo trabalho dos pastores, que apenas laboram com o que a natureza lhes oferece. Embora o ofício do primeiro tenha um “q” de brutalidade e aspereza, ele envolve a produção de algo novo, graças ao “fogo” que cria e transforma; já o segundo, apesar de pastorear lindas paisagens e de colher os frutos de belas árvores, não cria nada, pois só trabalha com aquilo que já está dado.

Portanto, Prometeu tem sua face voltada ao futuro, ao porvir, a produção do novo, ao passo que Epimeteu tem ela voltada ao passado, ao que já foi criado.

Seguindo a versão do mito de Pandora contado por Goethe, Epimeteu se casa com Pandora e desta união nascem duas filhas: Elpore (a esperança) e Epimeleia (o cuidado). Elpore é a personificação da esperança daquele que não participa na modelagem do futuro, isto é, daquele que espera que as coisas aconteçam, que outros façam por ele, pois não tem o poder de antever e influenciar o futuro. A esperança (Elpore) é uma decorrência do pensamento reflexivo (Epimeteu), diametralmente oposta ao pensamento criativo (Prometeu). Enquanto Eplore diz: “tenho esperança que as coisas aconteçam”, Prometeu objeta: “não espero nada, pois vou fazer acontecer, irei moldar o futuro”.

Epimeleia, a outra filha do pensamento reflexivo, simboliza o cuidado, a preocupação com coisas existentes. Ela coloca tudo em ordem, mas não tem poder de acrescentar nada. Ela pesa, mede e conta, mas nada cria nem transforma.

Portanto, temos nas duas filhas de Epimeteu e Pandora os dois traços marcantes do pensamento reflexivo. Como ele é um pensar que reflete o passado, por um lado ele cuida e organiza aquilo que já existe (Epimeleia) e por outro espera, tem esperança (Eplore) que novas coisas sejam criadas para ele poder “refleti-las”. Pode-se dizer, em certo sentido, que o pensamento reflexivo é a contraparte “passiva” do pensamento. É a “lua” que reflete a luz do “sol” que, por sua vez, é outro símbolo do pensamento criativo.

Em síntese, tanto para Goethe como para Steiner, é imprescindível trabalhar de forma equilibrada com essas duas forças complementares da alma humana. Os dois irmãos precisam cooperar e evitar desenvolvimentos unilaterais. O excesso de pensamento reflexivo leva a infertilidade mental, a secura, a uma visão de mundo fria e sem sentido — a uma “cópia da cópia da cópia”. O niilismo negativo, relativamente comum atualmente, é uma decorrência disso. Por outro lado, o excesso de pensamento criativo pode levar a exaltação e a falta de cuidado (Epimeleia) de si e dos outros. Portanto, essas duas forças devem ser trabalhadas e equilibradas na alma de cada um de nós.

A respeito dessa necessidade de equilíbrio, o diagnóstico de Steiner, nas duas primeiras décadas do século XX, foi o de que o lado prometéico (pensamento criativo) precisava ser mais desenvolvido. O pensamento reflexivo, hipertrofiado em grande parte das pessoas, em razão da educação entre outros fatores, estava contribuindo para uma atmosfera social materialista, obsessivamente ligada a quantificação de tudo e cada vez mais seca “espiritualmente”. Apesar das contribuições de muitos gênios do pensamento criativo nesse século, a influência de Epimeteu estava muito mais presente, desenvolvendo-se freneticamente.

Saltando para os dias atuais, pode-se observar que a situação está ainda pior. Como “pastores” e “ovelhas”, muita gente está satisfeita em consumir e replicar aquilo que a natureza e a tecnologia oferecem. Se na superfície parece que a criatividade abunda, vide as redes sociais, nas profundezas não há quase nada de novo no horizonte, mas principalmente, a “cópia da cópia da cópia”, a decorrência imediata da primazia do pensamento reflexivo, que apenas rearranja e reedita aquilo que já está dado.

Por: Giuseppe Baldrighi

Nem pessimismo, nem otimismo, mas sim: realismo, realismo para diagnosticar o momento atual e compreender a necessidade do pensamento criativo, isto é, a necessidade de libertar das correntes o Prometeu que jaz dentro cada um de nós. Como relata a mitologia grega, é Hércules quem liberta Prometeu de seu sofrimento, após completar seus 12 trabalhos, ou seja, após passar pelas doze etapas do processo de “autoconhecimento” e elevação “espiritual”. Mas, isso já é outra história…

 

Referências:

ÉSQUILO. Prometeu acorrentado. Tradução de Mário da Gama Kury. Jorge Zahar Ed. Rio de Janeiro, 1993.

STEINER, Rudolf. Metamorphoses Of The Soul: Paths Of Experience, Vol. 1, 1983.

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