Reforma Integral da Educação Pública Brasileira (parte II) – Por Javier Alberto Prendes Morejón

Sobremodo, a escola deve ser o lugar para que cada criança se forme naquilo que desejar aprender além de algumas poucas matérias obrigatórias universais, tais como matemática, língua portuguesa, história etc. Em relação ao corpo, deve estar à sua disposição o máximo de possibilidades de artes físicas. Este, portanto, é outro ideal. Sua premissa se baseia no fato de que, quanto mais flexível for o currículo e maiores forem as oportunidades de disciplinas e saberes que a escola puder oferecer, maior será o interesse e melhores serão os resultados intelectuais, morais e físicos dos alunos.

 

 

Nunca deve-se esquecer de que a escola é, modo geral, um tipo de cárcere para os jovens, e não um trampolim para o paraíso. E que cabe, portanto, modificá-la até o ponto em que produza felicidade e bem-estar espiritual entre as pessoas, e que, para além disso, produza cultura e eventos culturais de ano em ano, como já citei noutra instância de meu discurso e que mais tarde retomarei ao tratar de uma visão sobre como os alunos poderiam ganhar dinheiro com seus eventos culturais.

Ora, seguindo a premissa de tal ideal, deve ser da escolha pessoal, segundo o que mais agradar, a escolha de uma determinada atividade, neste caso, física – mas também noutras esferas, que abordarei mais adiante. E deveria poder experimentar quantas quisesse, e se aprofundar nas que bem desejasse. Isso é felicidade! Isso é dar a oportunidade à criança e ao jovem de ser feliz, e de ter, eventualmente, carreiras ligadas ao corpo que pudesse seguir.

Uma criança ou jovem que sabe que irá à escola e que irá se divertir, pois que teve o direito de poder escolher o que mais lhe apraz, e que tem uma escola que foi criada em vista de oferecer uma gama vasta de atividades para seus alunos, e que, para tanto, fomenta a educação como núcleo da vida social e do bom futuro da mesma, certamente se inundará seu coração com alegria e paz. Mas não é o acontece com as nossas escolas. No Brasil, sabe-se quão deprimente é a tal Educação Física. Esta disciplina, tal como é administrada, é um descaso para com o corpo e prova da falta de reflexão sobre o lugar do mesmo na formação humana.

Segundo minha própria experiência, mesmo as escolas cêntricas quase nada oferecem em termos de corpo. A Educação Física é um recreio antecipado ou posterior, e basicamente três modalidades (Futebol, Vôlei e Basquete, em ordem de importância) são dadas, e além disso raramente há algo diferente, o que depende basicamente do professor em questão. Isto sobre “a casca” do corpo, porque quase nunca ou nunca se ensina algo sobre a própria anatomia do corpo, seu estudo detalhado, e coisas afins. Ao final dos anos escolares, ninguém sabe nada sobre a sua própria constituição física, nem sai da escola com hábitos distintos pela conscientização resultante do conhecimento adquirido com o estudo corporal. Além disso, para decretar de vez a falência de nossa didática física e da ausência de projeto sobre a mesma, onde estão os campeonatos e jogos físicos em cada escola brasileira, entre as escolas de uma mesma cidade, de um mesmo estado, dos estados entre si e das nações entre si, a nível escolar? No Brasil isso também não existe.

É uma vergonha que este país possua já há tantos anos uma educação formal e pública e que ainda não exista semelhante realidade. E é mais vergonhoso ainda para aqueles que são professores de educação física, porque tal ausência só demonstra a inércia dos mesmos para lutarem por um destino distinto do atual.

A educação física depende, hoje, de cada professor, e creio que isso é um erro. Não deveria ela estar à regalia da “grandeza” moral e intelectual de cada indivíduo, pois então sua falência está decretada, pela própria ausência de seres assim. Deveria, sim, haver uma discussão nacional, entre os profissionais dessa área e entre todos os profissionais da educação, sobre a reformulação das concepções sobre a educação física, tendo em vista, claro, algum grande ideal.

Na ausência de uma diretriz comum que sirva como norte conceitual e prático à prática educativa da educação física, cada professor dá sua aula como bem entende, e não há nenhuma forma de controle para aprovar o mérito de suas aulas – o que também é um erro -, pois muitos professores são agressivos com seus alunos, além destes com aqueles; logo, tudo fica à critério pessoal, segundo o que a cada um lhe é mais conveniente ou aparentemente mais inteligente.

Os alunos, se quiserem revolucionar sua educação, devem exigir que tudo isto mude. Dou agora um passo adiante e irei expor uma série de ideias que poderiam ser adotadas.

Para que o ideal de diversas atividades físicas pudesse ser realizável, logo, deve existir um projeto, como este, mas muito mais detalhado, que proponha tal ideal e que, assim, exija a contratação dos profissionais relacionados ao corpo, em diversos segmentos, e isto tendo eles título de formação universitária ou não, pois em absoluto não é esse o problema. Neste quesito, a única coisa que deve ser verificada é a competência, o profissionalismo e a moralidade de cada indivíduo, pois o conhecimento não se comprova, nem a sabedoria, por títulos acadêmicos…

Assim, deve-se exigir – papel da juventude – que sejam contratados diversos professores para ministrarem diversos tipos de aulas relacionadas ao corpo – como mais adiante darei exemplos, mas fácil de imaginar – e também que exijam que a matéria Educação Física seja extinta, dada a nulidade que passaria a ter uma vez implantado este ideal que, como se vê, não produzirá nada de maléfico aos profissionais dessa área; ao contrário, aumentará a sua dignidade e aumentará a contratação daqueles que são formados em Educação Física e também, o que é melhor ainda, daqueles que possuem conhecimento em suas respectivas artes ligadas ao corpo, mas que não possuem título acadêmico algum, como é tão comum no Brasil. Por isso, não há razão para opor-se a tal erradicação. É preciso erradicar certas coisas em pró do nascimento de outras para que vicejem verdadeiros frutos de ouro.

Logo, para substituí-la, em pró de um leque enorme de possibilidades físicas, cada aluno deve escolher, obrigatoriamente, uma única atividade física – pois todos precisam se exercitar no corpo, pelo menos numa única atividade, mesmo aqueles que não sentem prazer em atividades físicas; porém, se este ideal for bem implantado, certamente haverá alguma atividade que irá atrair mesmo o mais avesso dos gostos às atividades físicas -, feita durante o período de aulas ou depois das aulas, como um programa à parte dos estudos obrigatórios da escola.

Essa atividade escolhida, nem nenhuma outra relacionada ao corpo, deve ser como as outras, em que se dá 10 até 0 ao aluno. Isso é ultrapassado. Pelo contrário, deve ser uma atividade extracurricular, com uma única atividade obrigatória, outras tantas opcionais, e o desempenho só dirá respeito ao prazer e à felicidade do aluno, e não nenhum outro critério; ou seja, não haverá avaliação, pois não se brinca para ser avaliado. Agora, tratando-se de equipes formadas para jogos e campeonatos, obviamente que cada um deverá apresentar rendimento e ser avaliado em sua performance. Mas isto é a encargo de cada professor e só para aqueles que têm o ímpeto de levarem as atividades mais a sério.

Agora, sobre os exemplos que disse que daria, eis alguns: a dança, por exemplo, deveria, ao lado da luta, ser uma grande cativadora de discípulos e praticantes. No Brasil há um verdadeiro apelo e admiração pelas Artes Marciais de todos os gêneros, inclusive nossa amada Capoeira Angola e Regional, e este é um país de pessoas e jovens muito robustos e com naturezas muito ligadas ao corpo e à guerra. A dança, por outro lado, é menos valorizada, porque mais sensível. Logo, poucos frutos despencam dessa árvore. Mas a dança também possui um grande potencial neste país – na verdade, as coisas ligadas ao corpo, no Brasil, têm muito a oferecer. A dança é uma ótima alternativa aos que preferem coisas menos “brutas”, como as artes marciais, e que necessita ser desenvolvida para que a nação não se converta numa espécie de Esparta moderna degenerada, tal como os EUA. O Brasil deve ser a síntese entre àquela e Atenas, e ainda junto à Delfos, para assim formar aquela tríade fundamental da qual falei no início desta obra.

A exemplo da dança, gostaria de citar cinco modalidades, que seriam facilmente incorporadas pela população, sobretudo as das periferias: 1) o balé (pela sua forte influência na cultura ocidental, pela disciplina, pela elegância e tantas outras virtudes que condensa); 2) a capoeira (pelo valor inerente que possui enquanto tesouro cultural negro, nacional e autenticamente afro-brasileiro); 3) danças regionais e afro-brasileiras (lembremo-nos que o Brasil é uma nação majoritariamente negra e mestiça e que a cultura brasileira é, de certa forma, prostituta dos Estados Unidos e da Europa, sendo necessário valorizar os ritmos e expressões culturais do litoral e interior brasileiro, pois constituem a riqueza desta nação, e isto além dos valores e virtudes inerentes às danças regionais e afro-brasileiras, que não cabe citar nesta ocasião); 4) o hip-hop ou subvariantes (de origem cultural norte-americana, nascida dos negros, como boa parte da cultura daquele país e da riqueza cultural de nosso mundo, sobretudo no âmbito da música, e muito popular nas classes mais baixas; sua virtude é evidente e acrescesse a ela o mesmo motivo ressaltado nas danças afro-brasileiras e da capoeira); e 5) a dança contemporânea (porque é um “gênero sem estilo”, ou seja, faz-se e cria-se dança contemporânea usando-se muitas técnicas diferentes, e como é um “gênero aberto” ou “sem estilo”, pode-se criar ou usar livremente diversas linguagens que incorporem, por sua vez, diferentes estilos e técnicas).

Obviamente, outros quaisquer estilos podem ser e devem ser inseridos dentro do catálogo de atividades de dança. Na verdade, este ideal que aqui exponho é, antes de tudo, universalista. Gostaria também que a cultura indu, chinesa e japonesa estivessem contempladas em nossos programas, assim como toda a cultura do Oriente e tudo mais que existir de significativo no Ocidente. O Brasil, creio, necessita permanecer aberto como se fosse uma nova grande Roma.

A respeito dos governantes e autoridades responsáveis por gerir o dinheiro público, vale ressaltar, embora não devesse ser para nada necessário, que este modelo aqui traçado, estas ideias e ideais, não constituem “déficit” para a sociedade, mas “superávit”, porque será um investimento inteligentemente aplicado no próprio aperfeiçoamento social, o que, por conseguinte, também gerará lucro – para o Estado e para os indivíduos -, trabalho, cultura, lazer e felicidade, além de formar um novo tipo de ser humano, uma nova mentalidade cultural, tão importante de ser construída no Brasil, já que este é tão cheio de vícios e de hábitos e modos sociais daninhos.

Para todos os efeitos, sem a existência de uma geração nova com uma consciência nova, por conseguinte, progressista, de caráter humanista, de apreço ao corpo, à alma e ao espírito, não se alcançará uma nova meta social de progresso, nem a sociedade irá desfrutar dos anseios, em geral inativos e inconscientes, que ela própria tanto reclama e deseja ver implantados.

É premente, peremptório, que, em nome dessa árdua tarefa social, em relação ao espírito, cada um, em seu discurso, em suas ideias e em suas práticas, desvele as suas próprias incongruências, seus erros, porque do contrário viveremos sempre na perene contradição entre falarmos e fazermos, entre afirmarmos e sermos incoerentes. Essa lógica aplicada, ainda mais às nações e aos povos, é sobretudo imprescindível, pois a mesma natureza contraditória se encontra do micro ao macro, já que, em síntese, cada cidade e cada nação, assim como cada indivíduo e assim como o próprio planeta nada mais são do que entidades vivas, com uma verdadeira “identidade pulsante” (ou karma), para o bem ou para o mal. Logo, cabe a cada povo e nação a busca pela coerência, a busca pela sensatez, a busca pela sabedoria e pelo amor.

 

Quão comum não é encontrar, entre as nações do mundo, e entre os povos do mundo, pensamentos coletivos similares, quintessenciados, como inconsciente coletivo, que traçam mais ou menos uma meta por meio de um desejo um tanto quanto lacunar, abstrato, mas suficiente como para ser uma “força” animadora nalguma direção, ainda que dirigida cegamente, enquanto, ao mesmo tempo, essas mesmas nações e povos, pelas contradições que não chegam a superar em si mesmas, tornam-se presas de discursos falsos, porque a ação que lhes segue às palavras são tão cegas ou opressoras quanto aqueles pensamentos que buscam negar e separar de si próprios, quando na verdade não há distância alguma entre um e outro – entre a palavra e ação, entre o dizer e o fazer.

Desse modo é que os povos sofrem em vão. Sofrem porque anseiam e criticam aquilo que eles próprios, a generalidade dos indivíduos, pratica e é. Logo, que evolução real pode haver?

Por exemplo, o povo brasileiro, que reclama de seus governantes, da opressão e do descaso destes, porém, como se sabe, seus governantes vieram, em boa parte, do próprio seio do povo, e o próprio povo, que é infeliz, que sente-se explorado, que não possui tempo para si, que vive apenas para sobreviver e, quando muito, para entreter-se um pouco, e para descansar um dédalo que seja – que vive para poder manter a sua nãovida, melhor dito – é, na prática, tão preconceituoso, arrogante, mal educado e pouco altruísta quanto aqueles que criticam e condenam com todo tipo de injúria – e a língua do povo é cheia de veneno e sarcasmo…

Ora, esse tipo de contradição é inaceitável, prova indelével da estupidez geral, fato sintomático, e o é ainda mais quando percebe-se que ninguém ou quase ninguém faz o esforço em não só criticar, mas em ser essa própria pessoa uma exceção às próprias críticas que faz, verdadeiramente, ou que, apesar de suas contradições, esforça-se para superar-se. O primeiro caso, na verdade, só se dá em vista do último caso – daquele que põe-se a trilhar a marcha da autossuperação, a marcha do crescimento interior ou do caminho ou da senda à Maturidade.

Encerro com isto, a título do corpo, meu discurso, após breve digressão.

 

  • – Tratarei agora dos três aspectos de inovação da educação em seu sentido integral, isto é, a já muito citada união entre corpo, alma e espírito. Estes três aspectos são, além do corpo, a Arte e o Pensamento, e o terceiro aspecto é a Religião, a Teosofia ou ainda a Meditação ou a Espiritualidade (ou ainda diversos outros nomes que podem ser dados, embora tais diferenças sejam todas secundárias).

Sobre este segundo aspecto passível de ser introduzido na prática e infraestrutura educacional, também serve o mesmíssimo raciocínio anterior: oferecer de tudo quanto há de melhor na arte humana e no pensamento filosófico, seja de quais culturas forem. Creio, de fato, que seria melhor desta maneira, em relação a todos os aspectos: se cada criança escolhesse, como disciplina obrigatória, uma da área física, da área artística e intelectual e outra da área espiritual, e somente uma disciplina obrigatória em cada uma dessas áreas a escolher a gosto.

Por exemplo, alguém escolherá kung fu como prática física, aula de desenho como prática artística, um curso sobre filosofia platônica como disciplina intelectual ou sobre a teoria geral da relatividade, e uma aula de meditação “x”, como prática espiritual. Assim completar-se-ia tal tríade de que venho considerando como o ideal supremo a que deve aspirar a educação.

 

 

Tais exemplos são aleatórios. Convém, se tal ideal é vasto, que os exemplos sejam praticamente infindos. Assim, na “área da alma”, que a escola contrate profissionais de todas as artes e que sejam arranjados espaços e meios para se efetuarem as práticas e estudos. A mesma coisa com a espiritualidade.

Assim, devem ser oferecidas disciplinas, cursos, palestras, formações, etc., sobre temas diversos e, sobre a espiritualidade, por que não oferecer diversos tipos de iniciações – ao menos até certo nível – de diversas escolas, credos ou filosofias iniciáticas, além das práticas espirituais? Tal deveria ser, no quesito espiritual e filosófico, um dos objetivos a buscar. Sobre isto em específico, cabe apenas ressaltar que deve existir controle por parte dos responsáveis pela escola sobre todas as atividades, no sentido único de observarem a honestidade de seus professores e expoentes. Demais aspectos, muito detalhados, não cabem nesta ocasião. O ideal lançado é suficiente por ora.

Não cabe, de fato, a um homem só fazer tudo pelos demais; cabe-lhe sim lançar luz sobre os mesmos e ajudá-los a edificarem por si só o restante das grandes construções a serem feitas – em outras palavras, cabe ao grande homem lançar as pedras angulares da edificação de grandes monumentos sociais.

Naturalmente, tendo em vista tudo que já foi tratado, a escola já não mais seria uma escola, mas “um palácio do saber”, um verdadeiro reino da sabedoria. Volto a ressaltar que, se as escolas brasileiras vierem um dia a implementar alguns dos meus ideias sobre a educação; se, em particular, implementarem todos, mesmo que diminutamente, o Brasil também deixará de ser Brasil, para se converter “num país das estrelas” ou melhor, numa “nação cósmica”! Deixará de ser a Terra, unicamente, e será também o Sol e a Lua! Será um berço do corpo, da alma e do espírito, e será, por isso, à imagem do sufrágio e da liberdade a toda humanidade, exemplo de perfeição!

 

  • A quarta sugestão ou ideal refere-se ao tipo de ambiente escolar. Se é de todo necessário infundir um novo sentimento sobre a escola, esta fundamentando-se finalmente na luz da ciência – ciência no sentido de tudo que é certo, profundo e verdadeiro -, logo, faz-se imprescindível também, além da modificação das aulas em espaços extraescolares, a modificação dos espaços intraescolares.

Sobre isto, a ideia é simples: de que a escola torne-se o mais informal e intimista possível, portanto, o mais familiar possível. Logo, a escola deve ser como uma casa, em sentido moral; deve ser um lugar acolhedor e confortável, um lugar de afeto e troca; deve ser um lugar despojado, nãofrio; deve haver calidez. Além disso, deve-se tomar cuidado com outros aspectos igualmente importantes, como as cores, símbolos, luzes, números, etc.

Para tanto, as salas de aula deveriam deixar de ser padronizadas como são, tal como são organizadas em fileiras de cadeiras voltadas todas para frente da lousa. Tal formato é muito mecânico – parece que os alunos estão numa fábrica de produção, não num espaço humano. Tal critério é errôneo. As escolas devem inovar, e a única inovação é aquela que traz ao mundo mais humanidade. O resto é estupor, aflição, opressão…

As salas, para criarem calidez, relaxamento, despojamento, tranquilidade, suavidade, enfim… devem ser “aparatadas” de outro jeito: devem ser organizadas sim com objetos que sejam úteis e adequados às atividades de estudo, mas não há necessidade da padronização existente. Mais vale que existam objetos de suporte para escrever, etc., e para se sentar, mas que não aja nenhuma ordem de fileiras nem de quem deve sentar aqui e quem deve sentar ali. Cada um que fique onde bem entender e que as salas sejam mais bem “quartos” do que qualquer outra coisa. Ou seja, que possam, nas salas, existir travesseiros espalhados pelos cantos, mantas sobre o chão, belas pinturas nas paredes, flores, perfumes no ar, palavras desenhadas, cartazes, quadros, decoração qualquer – sobretudo feita pelos próprios alunos, como se a sala fosse parte de sua casa, logo que, com a aplicação deste ideal, seria uma!

Vejam vocês como isto que é proposto é absolutamente distinto da realidade e que de nenhum modo é algo novo de se pensar. Por isso – na verdade nenhuma ideia é nova, por mais “nova” que seja – é que a dificuldade está sempre, para além das boas ideias, na coragem e na renúncia necessárias ao agir – porque coragem para enfrentar e renúncia para desfazer-se do que não convém ou do que é necessário deixar para seguir adiante.

Portanto, não só as salas de aula, mas toda a escola deve seguir este mesmo ideal; a escola deve ser esse ideal. Assim ela começará a se tornar também ideal – ou seja, verdadeiramente humana, ou melhor, semidivina.

 

  • Um quinto aspecto também importante refere-se à infraestrutura da escola e à organização dos horários, número de aulas por dia, etc.

Sobre a infraestrutura, creio que a escola deve ser à imagem de um lar, como ressaltado, para assim seus “habitantes” serem como uma família, sendo os professores “seus pais”, “seus preto-velhos”, “suas mãe de santo”, em sentido positivo… Pensando assim, que existam, se possível – embora isso que é dito agora seja secundário – armários para que cada aluno guarde seus pertences, banheiros com chuveiros para os alunos se limparem ou relaxarem, e que existam espaços de descanso na escola, para poderem se deitar e dormir. Além disso, a escola toda deve ser artística, decorada pelos alunos e aqueles que eles convidarem. A escola passará a ser uma casa, e não apenas mais um ponto de passagem. E, se as escolas obedecerem ao ideal que expus no começo da obra, tratando-se sobre os alunos gerirem eventos nas escolas, junto aos professores, naturalmente a escola, mesmo que não haja eventos ou atividades oficias, deve estar aberta aos finais de semana, para dar a oportunidade de lazer aos alunos. Isto é muito importante, sobretudo para aqueles que vivem em grandes centros, porque possuem menos lugares gratuitos para poderem ter lazer. Por último, a escola, naturalmente, deve dar comida aos alunos, nos períodos respectivos do dia. Assim, completa-se minha abordagem sobre a questão da infraestrutura.

Agora, sobre aspectos de organização, a respeito do número de aulas, da duração, etc., creio que, em primeiro lugar, devemos partir da reflexão de que, se temos em vista o ideal de uma nova educação, como educação integral – que resulta na reforma da escola em todos os níveis -, só necessitaremos de um número restrito de disciplinas obrigatórias, a saber, por exemplo: língua (uma nacional e uma universal – a dominante no mundo, como o inglês), matemática, biologia, química, física, história, geografia, filosofia, etc. ou mesmo outras mais, nunca antes incluídas, como astronomia ou astrologia, etc.

Essas poderiam ser as disciplinas obrigatórias (ou mais ou menos, posto que este assunto, por demais complexo, deve ser discutido a parte, em assembleia). Todas têm o dever de tornar esclarecidos os estudantes nessas áreas, mas não tem o dever de torná-los especialistas nem deveriam – enquanto disciplinas obrigatórias -, aprofundar-se em detalhes. Por exemplo, com relação à matemática, não há porque ensinar mil e uma fórmulas para aqueles que nada querem saber daquilo nem que lhes será útil em suas vidas, porque determinantemente desejam seguir vidas que, em relação à matemática, só o fundamental lhes será útil. Assim aplica-se a mesma lógica a todas as disciplinas. Creio que isto evita ensino e tempo perdidos em vão, além de focar mais utilmente a produção, a assimilação e o contentamento por parte do estudante.

Não é da minha alçada, nesta obra, elaborar uma proposta mais detalhada sobre esta questão de quantas disciplinas obrigatórias devem ser dadas. Isto pode muito bem ser discutido doravante pelos professores e estudantes… e que seja escolhido o projeto mais sábio!

Sobre a duração das aulas, creio que é conveniente que por dia se dê apenas uma disciplina obrigatória; por isso, deve ter duração de três a no máximo quatro horas; quatro horas por dia é suficiente para aprofundar-se num tema, ou em vários temas, fazer diversos exercícios, propor diversas discussões, experimentos, etc., e realizar tudo isto com tempo, com folga, o que daria tempo também de fazer pequenos intervalos de descanso e de levar os alunos para fora do espaço escolar.

As aulas deveriam ser, assim, de segunda à sexta, e após estas – no máximo -, quatro horas, os alunos poderiam levar a cabo as outras três atividades obrigatórias da área do corpo, da mente e do espírito, e quantas outras quisessem, conforme a disponibilidade.

Sobre isto, é preciso argumentar a favor desta ideia, porque naturalmente será mal-encarada. Somente uma disciplina por dia para que a mente do aluno possa se focar estritamente no objeto de estudo em questão, o que certamente permite mais concentração, menos estresse e, logo, melhores rendimentos. Além disso, torna o próprio estudo da disciplina menos superficial e permite mais debates sobre a mesma.

Outra opção ao número de aulas por dia, é que ao invés de apenas uma disciplina por dia, sejam dadas duas, e correlacionadas (humanas com humanas, exatas com exatas), mas mesmo isto, se correlacionas, é um aspecto secundário. Outra opção ainda é que, ao invés de uma ou duas disciplinas por dia, se estude uma única disciplina por semana. Tudo isto, creio, também poderia ser feito levando em conta as fases da lua, mas não me cabe aqui falar sobre isto, por complexo que é este tema.

Todas estas são opções disponíveis à educação. Cabe aos alunos e professores, e intelectuais da sociedade, discutirem sobre elas ou outras mais, aprimorando-as, de modo a reformar a educação para melhor.

Ainda a respeito da ideia de uma só ou duas disciplinas por dia, e das poucas horas de estudo (se fossem duas disciplinas por dia, duas horas para cada, em média), digo que a atual corrida “armamentista” do estudante para poder se formar numa universidade é tola e doentia. O número excessivo de aulas, ao mesmo tempo que o pouco tempo de duração delas (em geral apenas uma hora), não produz nada senão estresse, depressão e infelicidade, além de superficialidade dos temas e, consequentemente, o rápido esquecimento. Sobre esta questão, vale citar o exemplo da Finlândia, uma das nações mais cultas do mundo e que, em seu sistema educacional, por dia, dá apenas, senão me equivoco, uma só disciplina, durante mais ou menos 4 horas por dia, e ainda assim seus estudantes são ou estão entre os melhores classificados do mundo. Portanto, não há porque discutir-se – em vão – sobre se isto é realmente producente – já está provado que sim! Como os finlandeses dizem, de que vale estudar neuroticamente se não há tempo para lazer e para ser feliz?

Em suma, tudo que podemos verificar num propósito de reforma educacional dirige-se à ideia de câmbio de paradigmas. Há ainda diversas metodologias e filosofias educacionais que deveriam ser estudadas analiticamente pelos estudantes e professores, e de todo esse estudo deveria ser extraído o “húmus” de um novo alicerce educativo. Daí a importância de assembleia entre os mesmos.

 

  • Este sexto ponto tratará rapidamente de duas ideias: a da ciência e das práticas ou “viagens ao interior”.

Naturalmente, cada escola, em termos de infraestrutura, deve ter ao menos um laboratório, e as aulas de ciências devem ser feitas tanto neste quanto na sala comum. Também, para se estudar ciência, dever-se-ia levar os alunos a museus científicos, universidades, laboratórios de grandes institutos, etc., e, tal como a exemplo do corpo, a ciência deve também estar organizada em volta de concursos, festivais e jogos intraescolares e interescolares. Se tal fosse feito, obviamente nasceriam futuros gênios dessa área e através dessas atividades.

Em relação ao que disse como “viagens ao interior”, refiro-me a que cada escola, todo o ano, deveria levar seus alunos ao interior para lá realizarem tarefas do campo; para lá terem aulas e desfrutarem de um belo passeio. As razões são várias. Primeira de todas, é proporcionar o estudo prático e a observação direta de certos temas de estudo. Em segundo lugar, propiciar o contato com a terra, e com o trabalho braçal que envolve a terra. Em terceiro lugar, gozar da experiência, conhecer novos lugares, fazer trilhas, ir a cachoeiras, descansar, realizar festivais de artes, fazer experimentos, etc.

Demais questões sobre esta última ideia deve ficar a encargo das assembleias de estudantes e professores.

Estes são os seis principais pontos que tenho a sugerir como ideais importantíssimos à educação brasileira, e ao mundo. Gostaria de ressaltar, por último, que, como disse, pouco importa a riqueza do Estado para patrocinar essas mudanças; importa que o mesmo esteja consciente e engajado nessas transformações. Porém, tal não quer dizer que, o professor, por exemplo, não tenha o justo direito de receber um melhor salário. De fato, o salário do professor deve ser, no mínimo, igual ao salário de um juiz. Uma sociedade justa aceitará essa igualdade como natural, e a discrepância como crime de responsabilidade moral. Portanto, o salário de um soldado, um médico, um juiz e um professor devem ter um piso médio comum e elevado, a princípio para ao menos ser suficiente para morar-se sozinho numa cidade como São Paulo (portanto, em torno de 3000,00 reais mensais, e não menos). Porém, para ser realmente dignificante, o salário deveria chegar a 8000,00 reais mensais.

Crítica ao Conhecimento e sobre o Humanismo

I – História e Mitologia

Se para tanto o ideal que proponho é o de integralidade da educação humana, é necessário, logo, que todas as velhas separações – há poucos séculos introduzidas na história moderna -, se dissipem no diapasão da totalidade, único viés que pode reconectar o homem e o conhecimento às suas raízes perpétuas e originais, e dar-lhe um sentido de felicidade e de sabedoria. Isto, porém, vai em contra de todas as estruturas presentes. Daí a sua máxima urgência.

Uma das reconexões necessárias de se fazer refere-se àquela que este tópico já explicita: História e Mitologia.

O grande pai da História, Heródoto, não escreve exaustivamente sobre os costumes, tradições e crenças dos antigos povos, tendo grande interesse também pelos Mistérios e lendas envolvendo diversos e grandes personagens, muitos dos quais reis, príncipes e filósofos? Ora, isto está mais próximo do ideal que deve existir atualmente, não a separação entre o místico e o dito “científico”. É cansativa a arrogância que o homem quer dar-se ao considerar-se progressivamente mais “científico”, “verdadeiro”, “factual”… coisa esta já em decadência. Isto só atesta a ignorância do homem e dos intelectuais de nossa era.

Dos Mistérios é que nasce toda verdadeira ciência, e a ciência atual é somente um grão daquela. As ciências humanas têm tudo a aprender com as fontes ocultas, e também as ciências exatas. Esta separação é prejudicial à própria humanidade. Como ideal titânico, as humanidades dever-se-iam reunir, definitivamente, ao redor do estudo da Teosofia, ou da Tradição Iniciática das Idades, verdadeira fonte de saberes ancestrais. Enquanto existir tal separação, o homem não desvelará a verdadeira ciência, nem a sua real natureza. Viverá, ao contrário, à margem da realidade, fosco em sua loucura, preso à obscuridade, à paixão de seu orgulho vão… enfim, à sua enaltecida ignorância!

Quantas vezes será necessário repetir que os grandes filósofos, literatos, artistas e cientistas de antigamente, de séculos distantes a séculos próximos, e aos de hoje mesmo, não estiveram ou estão vinculados aos Mistérios? Quantas provas não há, nos próprios registros históricos, que, ao menos, especulam sobre este ou aquele ter pertencido a um colégio iniciático? Não era Pitágoras um místico, um iniciado? Não era Newton um ocultista e amante da Bíblia? Não era Einstein homem de grande espiritualidade, praticamente um místico? Não foi um Nietzsche que, a final, não desejava passar ele próprio por um Zaratustra? Não progrediu a ciência setecentista, oitocentista e novecentista, até este século, graças aos estudos alquímicos e esotéricos, inicialmente? Ora, por que negar e por que não discutir isto amplamente, de modo público, e defender aquilo que sempre foi natural, até bem recentemente? Não é evidente que o progresso se baseia no Mistério, e que o Mistério é a Realidade? Que o Mistério é a Natureza, o natural?

Da negação da naturalidade surge a tristeza; da desunião do integral surge o caos; mas da emanação da compreensão surge a beleza, a maturidade, a harmonia e a perfeição!

Sobre o tema deste tópico, tudo gira em torno da morte do mito e da mitologia como fontes de saber, e a necessidade intrínseca para a educação e a compreensão humana da mitologia e dos mistérios. Como se sabe, que é o homem sem uma explicação de sua origem? Que é ele se não possui referência alguma? Como localizar-se-ia? Como deslocar-se-ia? Com que propósito, com que razão, com que planos, com que reflexão? Que é ele, sem orientação? E como, então, evitaria a loucura?

A ciência é árida; o mito é artístico (e simbólico). Ao coração satisfaz a poesia; à mente a lógica. Somente a lógica destrói o coração; somente a poesia destrói a alma. Tudo, em nós, é união. Garante-se assim o princípio da saúde; garante-se assim a harmonia. O mito dá chão; a ciência razões. Não basta razões sem chão, nem chão sem razões… tudo é união!

É empobrecer às universidades, como à Universidade de São Paulo, por exemplo, a ausência de uma disciplina, ou de algumas disciplinas, que ensinem, comparativamente, a história universal dos mitos – e também das religiões -, na grade curricular de suas disciplinas obrigatórias ou optativas. Qual é a razão disso? Certamente ignorância, superficialidade, pseudociência, pseudocientificismo, pseudointelectualidade. Existe, claramente, um preconceito conservador, irracional, que, por não considerar-se o mito científico, sob a luz fátua dos “fatos”, logo, não é “verdadeiro”, portanto, não é válido e nada tem a ensinar, o que acaba por excluí-lo da educação – o que exclui assim o “chão”, o sentido, e com isto a poesia da vida, afora o imenso significado simbólico, diga-se, oculto, dos mesmos -, o que é um equívoco gigantesco; tão gigantesco quanto a soberba dos doutos medíocres; tão infantil quanto eles em sua inconsciente estupidez, em sua imaturidade intelectual, prova maciça de uma “estupidez bem instruída”, de uma “polida ignorância”.

Ora, os mitos enriquecem em muito nossa cultura e nossa percepção de mundo, nossa percepção civilizacional, nossa percepção interior – pois que eles falam de verdades interiores e universais, em verdade -, nosso sentido poético trágico-romântico do viver! Portanto, o mito serve também como reflexão acerca de nós próprios, de nossas naturezas particulares e gerais; logo, de nossas ações, fazendo-nos enxergar o que é comum e problemático a todos os seres humanos – nossos perenes idílios existenciais -, auxiliando-nos, assim, à Superação.

Há algo no mito, portanto, que é extremamente filosófico, metafísico, existencial, que nos é necessário explorar e conhecer para autocompreender-nos. Seu estudo deveria fazer parte de nosso engrandecimento intelectual e moral. E não é a escola, ou a universidade, ou qualquer espaço cultural, um lugar por excelência para tal engrandecimento? Não é a “ciência da vida” uma mística união ou superação entre os opostos aparentes? Não nasce daí a “pureza”, a “virgindade”, a Compreensão, a Verdade?

Contudo, o ensino de mitos não tem correlação com o ensino de religião. A proposta é simplesmente que a informação a respeito dos mitos de todo mundo seja estudada pelos estudantes em geral, pois, como disse, o mito fala-nos de nós mesmos, e das leis da natureza, ensinando-nos muito, também, sobre a civilização humana. Sob um ponto de vista lógico, como poderíamos crescer em escolas e universidades sem conhecermos as grandes obras mitológicas e epopeicas já produzidas pelo homem – através das iniciativas da própria escola -, nem estarmos minimamente conscientes das nações e povos que as produziram – seus hábitos, sua moral, seus costumes, etc. – nem o mundo que então existia e que pormenorizadamente só pode ser compreendido com relação ao conhecimento dos próprios mitos e lendas?

Não faz o menor sentido não estudá-los, porque somos fruto, direta ou indiretamente, de cada uma dessas obras, de cada um desses mitos, e de cada uma dessas grandes nações que os produziram, pois toda a civilização humana foi fundada e veio a crescer e se superdesenvolver a partir dos mitos, já que toda sociedade necessita indelevelmente de uma cosmogênese e de uma antropogênese; portanto, de seus heróis, gênios e semideuses, e de seu começo, meio e fim – ou ressurgimento. Hoje, porém, o mito da ciência (o Big Bang), suplanta as demais visões míticas a respeito da formação do mundo – embora cada vez mais a ciência se torne mística -, transvertendo os valores sem ao mesmo tempo possuir uma base moral com que substituí-los. Daí um enorme vazio, “a queda no abismo” e, portanto, a esquizofrenia, a loucura, a doença…

Em suma, história e mitologia devem ser encaradas como irmãs, filhas de uma mesma mãe: a Tradição Iniciática das Idades.

II – Humanismo na Sociedade e na Educação

Por uma sociedade letrada, sábia;

por uma sociedade justa, pacífica;

por uma sociedade sacra, perfeita;

 

 

Todos desejamos o bem, mas quase todos diferimos quanto ao que seja o bem – notória observação filosófica. De modo sintético, o bem é o que desejamos para nós mesmos, e o mal o que não desejamos para nós mesmos – ou seja, aquilo que nos é prejudicial não deve ser aplicado aos outros. Logo, o bem é o que é benéfico a todos os seres humanos, e o mal o que causa prejuízos a todo humano. Por isso, todo mal se faz contra si mesmo; por isso, também, é involuntário, porque irrefletido. Com efeito, na irreflexão das causas e efeitos nasce todo tipo de reações contrárias ao que desejamos para nosso próprio bem. Daí, pode-se dizer, a cegueira constituinte do “homo sapiens”. Ao que se segue, deste princípio, o de que a liberdade de um termina na liberdade de outro e de que a ordem, além da lei, se mantém por meio da consciência justa e perfeita. Com efeito, para quê mandamentos se já existisse, na ampla maioria, a Consciência?

Como princípio básico, portanto, ninguém deseja a dor, o sofrimento. Quem quer o mal para si? Embora muitos o queiram para os demais… Logo, deve-se pensar na educação como a formação do caráter, além dos aspectos intelectuais, como aquilo que, em seu bojo, leva a cabo, filosoficamente, esta mesma premissa, e a partir daí a escolha das atitudes e dos ensinos morais que sejam condizentes. Ora, a melhor opção neste momento é a educação humanista. E por duas simples razões: (1) o humanismo é a liberdade absoluta, porque não admite distinções de nenhum gênero, sejam quais forem; e (2) não exige nenhum credo religioso, político ou filosófico, apenas que se acredite no amor e na união. Por isso o humanismo está mais próximo do ideal de fraternidade, porque não é sectário e reúne em torno de um ideal universal todas as distinções; e esse ideal universal é o máximo ao que o ser humano pode aspirar.

Não há, na terra, forma de pensamento, pública, tão elevada quanto o humanismo – em relação a essas duas características apontadas -, já que é tão parecido às próprias formas de pensamento de seres e tradições iluminadas. Aliás, o próprio humanismo está alicerçado senão no melhor da reflexão filosófica e religiosa de todos os tempos, sem com isso pertencer a uma linha filosófica, política, cultural ou religiosa específica e, por isso mesmo, aí está a sua grande abundância. Por tudo isso, que não é pouco, o humanismo se traduz numa vertente de pensamento concorde com o progresso espiritual da humanidade (ou, ao invés de progresso, redenção) e com o tempo presente. Porque o humanismo, baseado no amor e, portanto, sem realizar acepção de pessoas, é, de certo modo, a própria pedra triangular da religião – porque sem o humanismo de nada vale uma religião – e é a forma de pensamento que pode humanizar, além de qualquer conflito étnico, político, filosófico e religioso, a medievalidade ainda predominante em diversos países, como o Brasil. Além disso, as religiões estão decrépitas: logo, é a hora propícia a uma linha de pensamento com uma filosofia tão universalista e tão amorosa e tolerante quanto o melhor do pensamento espiritualista.

Em termos práticos, citemos o seguinte a favor do humanismo, tornando evidente o quanto ele é necessário no presente, como o tem sido, também, através de pelo menos o Iluminismo: é o pensamento humanista defensor dos negros, das mulheres, dos homossexuais e LGBTs, dos índios (ou qualquer pessoa de qualquer cor ou de qualquer raça), dos pobres e dos miseráveis, dos estrangeiros e dos refugiados, da cultura nacional e regional – sem a qual um país fica às cegas, sem referências -, etc.

O humanismo defende tais lugares-comuns. Ora, há no Brasil algo mais elevado, mais consciente, mais justo, e que possa ser dado a público? Assim sendo, parto também da premissa de que a educação inicial deva ser humanista, porque em benefício de todos esses aspectos; aspectos esses genuinamente progressistas e, portanto, necessários à evolução do mundo. Naturalmente, devem também ser as pessoas progressistas (que, atualmente, no Brasil, e também nos Estados Unidos, são de esquerda) as que devem administrar uma escola, reformá-la em seus princípios e geri-la; e tem que ser através delas, de seus exemplos morais, que deve advir a elucidação de uma consciência positiva, nãosectária, a ser infundida no restante da população; devem elucidar os demais a respeito de um comportamento respeitoso e realmente humano. Logo, a generalidade dos professores deve ser de humanistas, ou deve haver uma maioria ou mesmo uma minoria humanista que lidere as reformas necessárias – não os conservadores de direita, muito mais ligados ao racismo, ao machismo, ao branqueamento, à exploração do operário, à corrupção das instituições políticas, jurídicas, econômicas, sociais e educacionais, etc.

III – Heróis, Semideuses e Deuses

Dentro da ótica humanista – com alto teor idealista -, mencionarei uma visão particular que muito tem ocupado minha mente desde a adolescência, embora antes compreendesse esta ideia de modo menos amplo. Hoje, porém, encontro-me apto a expandir este ideal e levá-lo às suas máximas consequências, o que se refere sempre à tríade de que venho falando.

Assim, como tipo de escola a ser criada – a melhor possível, segundo o ideal ou a virtude mais alta, que é, naturalmente, aquela que conduz o indivíduo à Perfeição -, pensando, logo, em que tipo de indivíduo queremos criar para um novo mundo, já que este está corrompido – um novo homem, nesse sentido, renascido do caos, ressuscitado em sua humanidade, elevado à divindade -, acho, pois, dadivosa a seguinte ideia: de que a escola devia existir para formar heróis, semideuses e deuses, ou simplesmente seres humanos “excepcionais” (ou melhor, de seres humanos “normais”, pois aquele termo é, em verdade, uma adulteração da natureza…), isto é, seres humanos altamente evoluídos moral e intelectualmente, além de fisicamente.

Este ideal, porém, historicamente – ao menos neste ciclo da evolução na Face da Terra -, é privilégio de alguns poucos colégios iniciáticos, escolas filosóficas, e não de uma educação pública, universal, que, aliás, é algo recente na humanidade. Mas, em vistas da elevação da educação universal é que cito este ideal como o máximo a que podemos aspirar, e segundo o humanismo. Para todos os efeitos, essa seria a real glória da educação pública, ou de qualquer educação. Contudo, este mesmo ideal, por alto que é, e por distante que está a sociedade das condições psíquicas e espirituais para a sua realização, logo, é evidente que isto que é sugerido é, sobretudo, uma semente lançada com a esperança que um dia se ramifique, dando origem a outras sementes, e para que não digam que no Brasil, na América Latina, ao menos, não há seres que estão em sintonia com grandes ideais filosóficos, especialmente entre a juventude, e para que não digam que este não é o futuro berço de uma nova raça!

Quisera eu, claro, que tamanha ambição não estivesse restrita à “aleatoriedade do destino”, que forja, naturalmente, seus heróis, semideuses e deuses, por meio da lapidação que vem das provas iniciáticas, quer sejam em escolas “especiais” quer seja no mundo externo; nem tampouco restrita a alguns poucos e respeitáveis núcleos esotéricos, os quais raríssimos de se encontrar – aqueles genuinamente férteis e verdadeiros – nem a qualquer outra organização que, em suma, não é popular e universal – como o é uma escola pública. 

Portanto, dentro de uma visão idealista, a escola deve ser criada em vista da formação de indivíduos excepcionais, partindo dos três princípios que defendo. Se o privilégio que existe nos colégios esotéricos fosse privilégio ou bem comum de todos – e se todos os colégios esotéricos fossem amparados por Mestres de verdade -, na escola comum, desde cedo, gradualmente seria dada a conhecer a majestade do aprimoramento humano e, assim, nós, ainda muito jovens, e mesmo desde tenra infância, teríamos uma esplêndida formação humanista, científica, clássica, pós-moderna e mística! Isso certamente seria uma imensa vantagem à nossa educação e à evolução célere de nossa consciência individual e coletiva, ao nosso amadurecimento e às nossas competências – às nossas raízes! Ou seja, todos deveriam ser educados a fim de se tornarem grandes instrutores espirituais de seu tempo, além do domínio de diferentes ofícios e ciências. 

IV – A verdadeira educação é Moral

Por exemplo, na proposta que fiz em noutra instância deste livro, no primeiro capítulo, sugeri criar uma agenda de aulas à parte das disciplinas obrigatórias. Nesta agenda à parte poderia muito bem incluir-se cursos, palestras, experimentos e até mesmo iniciações. Todavia, não creio que deveria haver nenhum apelo religioso nessas atividades. Cada pessoa, se quiser cultuar algum deus, deve fazê-lo no seu devido templo ou deve fazê-lo publicamente sempre que de modo tolerante e respeitoso para com as demais divindades e religiões ou crenças, e com discrição. A escola não deve tornar-se religiosamente demagógica. Respeitado isso (e isso rigorosamente observado), essa seria uma alternativa simples de como começar a introduzir o ideal que expus acima, em relação à parte mística ou esotérica (Espírito). Ou melhor, deveria haver, em cada escola, um lugar, sagrado, dedicado a todas as religiões do mundo e à origem única do Mundo. 

Obviamente, só me ocupo de traçar aqui alguns esboços gerais do que significa este ideal e de alternativas ou modos de como efetivá-lo. Novamente digo: não cabe a um só homem fazer tudo, mas cabe compartir funções e responsabilidades, respeitando a liberdade individual – só assim se evita a opressão e as formas de totalitarismo, o que, consequentemente, só advém através de uma boa educação; educação esta que resumo por integral e de caráter humanista.

Em razão de tudo isto, é natural que a escola deva mudar seu foco tecnicista, estritamente voltado para a formação de uma massa de consumidores – educação voltada para o mercado e para a formação de profissionais, não de espíritos pensantes, muito menos de gênios heroicos, semidivinos e divinos, ou mesmo de simples humanistas… Este enfoque se dá em detrimento, obviamente, de uma formação “integral”, o que é extremamente daninho à evolução humana e, portanto, empobrecedor sob todos os pontos de vista. Sem o cultivo do espírito, com efeito, tudo mais é vão.

Em verdade, nas atuais escolas, quase sem exceções, formam-se mais máquinas, mais ou menos bem adestradas – no geral pessimamente adestradas -, e esquece-se, incrivelmente, de tudo quanto é vivo e tenha coração, como a Arte e a Filosofia, como o coração e a alma! As humanidades, por isso mesmo, sofrem amargamente seu desfalecimento em nosso país, dado que este é um país de incultos, incautos e mal-intencionados. Como é profundamente verdadeiro, um país de gente desunida, sem importar diferenças de classe ou graus de instrução. Permanece sendo, ainda que cada vez mais universalizado o acesso à educação e ao conhecimento, uma nação de desunidos. Por tal razão, o grande mal do mundo, segundo vejo, é apenas um: moral.

É, com efeito, na falência da moral, na sua mediocridade, na ausência de famílias com instrutores sábios, que as nações viverão sempre à base da desunião, da anti-yoga, da anti-fraternidade; porque todos, ao cabo, são mal-educados – não do ponto de vista educacional, não em termos de diploma ou diplomacia, mas em termos morais, espirituais, de caráter -, posto que nunca ninguém anseia a Sabedoria, mas sim a coroação do êxito social. Daí, conclusivamente, a perfídia, o ódio, a ignorância, a competição ilimitada, a falta de pudor, etc. etc.

Mais importante, neste mundo, é a sobrevivência e o “ser forte” e “bem-sucedido” do que o altruísmo de quem se sacrifica em prol da humanidade. A ênfase no indivíduo, se por um lado necessária, por outro, concorre ao risco de apartar os seres humanos uns dos outros, ainda mais sob a forma exacerbada de um capitalismo ferrenho e sovina – o que, em si, não é culpa do próprio capitalismo, mas antes da educação decrépita que existe no mundo, do enfoque materialista e não-espiritual que predomina, bastando com humanizar ou espiritualizar o mesmo sistema para prontamente ser benéfico e justo a todos.

Sem a evolução moral, sem a retidão de caráter, sem os bons modos sociais, sem a gentileza mútua: não poderá existir felicidade nem verdadeira riqueza nos corações. É da união que nasce a fraternidade, nunca do apego às coisas do mundo.     

 

 

Pois bem, uma formação técnica é necessária, mas apenas uma formação técnica significa ruína, mediocridade, vazio. Um país, se quer investir em seu desenvolvimento, deve ater-se à cultura, e a cultura deve ser sempre seu grande objetivo; o objetivo motor do povo, dos governantes, para assim atingir-se uma certa excelência civilizacional, uma certa excelência espiritual, uma verdadeira grandeza moral! Logo, que não seja mais o conhecimento pelo conhecimento, o poder pelo poder, a riqueza pela riqueza, mas cada coisa na terra pelo altruísmo, pela irmandade. Não mais o mercado financeiro, a economia como o principal a ocupar a mente dos seres humanos, e sobretudo dos peixes graúdos, mas de fato o valor moral. Por isso, todo bem se faz contra as paredes, porque elas são como diques que impedem o transcuro das fontes.   

Finalmente, de uma vez por todas, para desfazer-se deste ciclo negro que compõe a odisseia do Brasil no ápice das grandes civilizações da humanidade – destino ao qual está prenunciado desde milênios -, deve a nação perceber e esforçar-se por exigir incansavelmente a predominância da cultura como chave real do desenvolvimento, da nação e de cada indivíduo per se, mais além da retórica – que é o que reina, não a seriedade -, pois o conhecimento enriquece a consciência e nos torna sábios junto à experiência verdadeiramente amorosa, e um povo obstruído pela ignorância jamais desobstruirá as farpas de seus próprios anseios.

Enfim, a escola que queremos criar deve ter como premissa fundamental os mesmos critérios instauradores do progresso moderno, ou seja: o zelo inalienável pela democracia e suas instituições; o secularismo que as definem, ao mesmo tempo que uma alta espiritualidade; o resgate da nobreza, no sentido interior ou, noutras palavras, do humanismo; o cultivo da erudição, como parte do ideário renascentista (“polímatas universais”, se assim posso dizer); a união entre as humanidades e as ciências junto à teosofia ou à religião; a defesa da liberdade e dos direitos civis soberanos e sagrados a cada indivíduo; e o amor e o respeito à diversidade existente na terra, seja em qual forma se expressar e independente de quaisquer condições. Além do mais, a escola deve ser exatamente isto, como já vastamente frisado: a união entre ciência e arte, entre intelecto e corpo, entre alma e coração; deve ser a união e o zelo inalienável pela tríade: corpo, alma e espírito (ou terra, lua e sol).

A escola que consiga algum dia criar o que expus até agora, celebrará naturalmente um Novo Homem, alicerçado senão no bem comum, no altruísmo – no espírito, no corpo e na alma!… Será o ser humano do futuro, dos tempos vindouros carregados de Luz e abonança; serão os filhos dos que hoje lutam pelo bem de seu querido mundo, mesmo por este sendo desprezados e relegados ao anonimato… mas que, ainda assim, obram assiduamente em vista do bem do próximo e das futuras gerações de jovens, nada mais do que em pró do engrandecimento espiritual da civilização humana, e isto, desde já, como um contributo de um trabalho verdadeiramente religioso…

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