Garapocaia – Por Martins Fontes

Jamais hei de esquecer, Garapocaia,

Teu aspecto selvático e reinol,

Quando ouvia os fonolitos na praia,

As itatengas badalando ao sol!

                As pedras cantam nas areias de ouro,

Aos embates dos verdes vagalhões:

Há sons de tintinábulos, em coro,

Redobrar de brontéus e carrilhões!

Não se repinta a sensação de espanto

Dessas litofonias ao luar:

A miragem, ao longe, é um campo-santo,

Onde soluça o cantochão do mar!

                Velhas casas, ruínas avoengas,

                Moitas de brejaúva e craguatá…

                E, em perequê perene, as itatengas

                Troando desde o Zabumba ao Mangaguá!

Tem o sabor da bárbara beleza,

Do caju, do café, do cambuci,

Degustada na língua portuguesa,

A acidez do vocábulo tupi.

                Para impedir, em desespero horrendo,

                A horda estrangeira, cada vez maior,

Nessas rochas os íncolas batendo,

Convocam as tribos de em redor!

Sagrada sejas tu, praia selvagem,

Cheia de orgulho, de pudor hostil,

Em que os calhaus sinfônicos reagem

Contra a invasão nos templos do Brasil!

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José Martins Fontes (Santos, 23 de junho de 1884 — Santos, 25 de junho de 1937) foi um médicopoeta e tradutor brasileiro.

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