A Finalidade do Mundo I (Capítulo I, A Moral e a Filosofia) – Por Farias Brito

PRIMEIRA PARTE

A FILOSOFIA COMO ATIVIDADE PERMANENTE DO ESPÍRITO HUMANO

Quando uma era nova deve começar e uma era antiga desaparecer, é preciso que duas grandes cousas se combinem: uma ideia moral capaz de inflamar o mundo e uma direção social bastante poderosa para elevar de um grau considerável as massas oprimidas. Isto não se opera com o frio entendimento, com sistemas artificiais. A vitória sobre o egoísmo que quebra e isola, e sobre o gelo dos corações que mata, não será alcançada senão por um grande ideal que aparecerá como um “estrangeiro vindo de outro mundo”, o qual, exigindo o impossível, fará sair a realidade fora de seus eixos.

(LANGE, História do materialismo, vol. II, parte IV, cap. IV.)

Capítulo I

A MORAL E A FILOSOFIA

I

As duas manifestações fundamentais do espírito humano na marcha geral da sociedade são a política e a filosofia. A política dá em resultado o direito; a filosofia dá em resultado a moral; e o direito e a moral são as duas alavancas, os dois eixos centrais do grande mecanismo social. Assim, quem tivesse em vista apresentar o plano de uma concepção geral da sociedade deveria abraçar, em seu conjunto, não somente a ação da política, mas também a ação da filosofia, estudando, de um lado, o corpo social propriamente dito, isto é, a máquina; e, de outro lado, as produções do espírito, isto é, a força motora dessa máquina. Mas, neste estudo que para seu inteiro desenvolvimento demandaria não somente um conhecimento completo do homem, mas também um conhecimento completo da natureza, o que mais importaria esclarecer e precisar era isto: a questão política, isto é, o problema do direito, e a questão filosófica, isto é, o problema da moral.

Eu não pretendo nem posso dedicar-me ao desenvolvimento desse vasto programa. Meu fim é mais simples. O que quero é apenas apresentar algumas ideias em relação ao problema filosófico, tendo principalmente em vista indagar se as novas tendências do pensamento estão em harmonia com as necessidades do coração e do espírito.

A filosofia dá em resultado a moral, do mesmo modo que a política dá em resultado o direito. Isto quer dizer em outros termos e mais claramente que a filosofia é o princípio gerador da moral, do mesmo modo que a política é o princípio gerador do direito, ou, ainda, que a moral é o fim da filosofia, do mesmo modo que o direito é o fim da política. É certo que aqui tem-se em vista unicamente o fim prático, isto é, o resultado da filosofia quanto à influência que exerce sobre o governo da sociedade. Tomando, porém, em consideração somente a teoria, a função da filosofia é, como veremos depois, criar a ciência. Mas disto o que resulta é que a função da filosofia é dupla: teoricamente, criar a ciência; praticamente, criar a moral.

Considerando, por enquanto, somente o fim prático, não há dúvida de que este é a moral. Com efeito, a moral é o conjunto dos princípios pelos quais deve o homem regular sua conduta. De dois modos pode o homem proceder na sociedade: de conformidade com suas convicções ou de conformidade com suas conveniências. Nem se compreende que possa proceder de outro modo, a menos que não se ache em seu estado normal. Pode-se, pois, estabelecer como regra que o grau da moralidade está na razão inversa do sacrifício das convicções a conveniências. Assim aquele que nunca sacrifica suas convicções a conveniências é um homem perfeito.

Às vezes sucede que as nossas convicções coincidem com as nossas conveniências. Neste caso o homem é feliz, mas não tem grande mérito; falta aquilo que constitui o verdadeiro merecimento: a luta, o esforço individual.

Temos, pois, uma regra segura para julgar os atos humanos e sabemos como é que se deve proceder, tendo em vista a moralidade. Tudo reduz-se a este único princípio: devemos proceder sempre e em todas as cousas de conformidade com as nossas convicções[1]. Mas as nossas convicções variam e estamos a todo o instante sujeitos ao erro. Onde poderemos neste caso encontrar convicções verdadeiras? Na filosofia. Daí a ideia que defendo: a moral é o fim da filosofia.

[1] Esta doutrina será desenvolvida em lugar apropriado quando for ocasião de expor a teoria da ação, no segundo volume. Então demonstrarei o princípio de que a liberdade é a consciência da ação, sendo que é da noção do conhecimento que resulta o conceito da liberdade. Assim, ver-se-á que não é procedente a velha doutrina do livre-arbítrio, mas também ver-se-á que não é aceitável o determinismo, sendo que deve haver uma lei geral e fundamental para o mundo moral – a lei de motivação e finalidade, do mesmo modo que há a lei de causalidade para o mundo físico.

Note-se que esta ideia não é nova. Já Sócrates fazia da filosofia um sistema de moral. Seus discípulos Platão e Aristóteles tornaram mais amplo o objeto da filosofia, e, estendendo-a a todos os ramos do conhecimento humano, elevaram-na à altura de uma concepção geral do universo; mas em resultado deram mais vigor e mais força à moral socrática.

Platão deixou de parte o testemunho de nossos sentidos, que não se dirigem senão ao que é variável; deixou de parte o entendimento e o raciocínio, e só considerou como fonte de nossos conhecimentos a razão que tem por objeto o absoluto, o ser em si. Para ele, existem certas noções que, sendo n’alma anteriores a toda a percepção, são, entretanto, a base de todo o pensamento, e não dependem da experiência. Estas noções, próprias exclusivamente da razão, são as chamadas ideias, eternos tipos ou modelos de cousas. Os conhecimentos não são o produto da experiência, nascem por desenvolvimento espontâneo das ideias de que a alma se vai recordando à proporção que se põe em contato com as cousas. Deve haver, porém, um princípio que seja comum aos objetos e à alma; esse princípio é Deus. Nisto estava a filosofia geral. Daí a transição para a psicologia era fácil e desta o corolário necessário é a moral. Também foi partindo daí que Platão deu lugar à interessantíssima busca em que explorou com profundeza a questão do soberano bem e da virtude.

Aristóteles foi mais um sábio do que um filósofo. Grande físico e sobretudo grande naturalista, abraçou em seu vasto espírito a totalidade dos conhecimentos humanos, ao tempo em que viveu. Mas obedece a duas tendências opostas. É assim que, segundo observa Lefèvre em sua Filosofia, há dois homens distintos em Aristóteles: o continuador de Demócrito e o discípulo dissidente de Platão. “Tudo é contraditório na metafísica de Aristóteles”, continua Lefèvre. “Ele admite a necessidade da experiência nascida da sensação, e proclama a existência superior de uma razão reta, de um intelecto estranho à experiência e à sensação, que obra por abstração sobre os elementos fornecidos pela experiência e pelos sentidos. Não crê na imortalidade da pessoa humana, mas reconhece uma alma particular a cada indivíduo, imortal por essência. Não crê na providência e admite as causas finais; não crê na ação de um deus em ato sobre o mundo sublunar e aceita um deus em ato que não é em poder. Enfim, acredita que o movimento é eterno e admite um primeiro motor imóvel.”[1] Daí os defeitos de seu método pelos quais não pode passar indiferente a crítica de Lange em sua monumental História do materialismo. Foi, entretanto, um grande homem, o maior da antiguidade grega, nem podia deixar de sê-lo, aquele que durante séculos constituiu-se o árbitro do pensamento.

Ele elevou-se à concepção de uma cosmologia. Estudou o movimento contínuo que se observa na natureza e, depois de haver concebido a ideia de um primeiro motor imóvel, Deus, como princípio gerador de todas as cousas, voltou-se para a sociedade e aplicou-se ao estudo da moral e da política. Seus trabalhos sobre política fizeram considerá-lo um dos precursores da sociologia, e sua moral foi uma das mais sábias que nos legou a antiguidade clássica, tendo sobre todas as outras tentativas a vantagem de que é inteiramente baseada sobre a experiência. E tendo de lançar as bases de uma filosofia prática, o que em última análise reduz-se a uma teoria moral da felicidade, encontrou no estudo da sociedade elementos para reconhecer que o homem tem em si mesmo os meios de promover seu engrandecimento, e terminou estabelecendo que a virtude se adquire pela vontade, pela paciência e sobretudo pela razão. E de tudo é fácil deduzir que a virtude é o fim que o homem deve ter sempre em vista em todas as vicissitudes da vida, o ideal a que se deve aplicar o filósofo.

E não são somente Sócrates, Platão e Aristóteles que pensam deste modo. Ao contrário, todos os sistemas filosóficos, mesmo os mais opostos, se esforçam em estabelecer sobre bases sólidas os princípios da moral. O próprio cepticismo faz disto sua preocupação constante. Pirro, um dos representantes de cepticismo, entre os antigos, ao mesmo tempo que punha em dúvida os alicerces do conhecimento, estabelecia com Sócrates que só a virtude é preciosa. Tal era o único princípio seguro que ele supunha poder deduzir da observação imparcial da natureza.

Epicuro e Zenão, os dois grandes nomes, os dois grandes vultos da filosofia independente, na frase de Lefèvre, foram também moralistas. Sabe-se quais são as escolas filosóficas a que ligaram seus nomes, esses dois grandes pensadores da Antiguidade: o materialismo e o panteísmo (o estoicismo é uma concepção panteísta). A moral do materialismo é a moral da atividade; a moral do estoicismo é a moral da coragem, da firmeza e do esforço do homem sobre si mesmo. O materialista, colocado em face do mundo, nega Deus, mas admite a eternidade da matéria. Daí o reconhecimento de um fundo de grandeza no homem, constituído pela matéria eterna, e a obrigação para todos de concorrer para o próprio engrandecimento, promovendo o engrandecimento da sociedade. O estoico diz: tudo é Deus. Daí a obrigação para o homem de colocar-se acima da dor, de receber com indiferença e sem queixas os mais fundos golpes, em uma palavra, de mostrar nas maiores dificuldades da vida a coragem divina.

A filosofia é, pois, para todos os pensadores uma concepção do universo; mas cada um deduz dessa concepção do universo a norma de sua conduta, conforme o seu modo de compreender a significação da natureza.

Essa grande verdade, já reconhecida e aceita pela antiguidade clássica, veio a ter sua legítima e completa consagração nos tempos modernos, depois de haver atravessado a civilização romana, sendo que em Roma dominavam a filosofia epicurista e a filosofia estoica quando apareceu o cristianismo. Mas as duas escolas tinham um defeito comum: a aristocracia, o privilégio. O cristianismo, nascido do povo e propagado por pessoas do povo, dirigia-se às massas. Daí o seu triunfo; e os padres da Igreja constituíram-se exclusivamente os legisladores do mundo. E durante dezoito séculos a humanidade considerou como supremo ideal da virtude a moral do Evangelho. Mas hoje um movimento excepcional e tempestuoso abraça e revoluciona tudo. A concepção teológica dos padres é abalada em seus fundamentos e de um momento para outro começa-se a dar uma direção inteiramente nova à marcha geral da civilização. O experimentalismo na Inglaterra, o monismo na Alemanha, o positivismo na França se disputam, na época que atravessamos, a direção dos espíritos; e de todos os lados ouve-se esse grito que é recebido por uns como o sinal precursor de uma nova regeneração, e por outros como o último arranco do espírito revolucionário e a suprema manifestação da anarquia: o cristianismo está morto.

De qualquer modo, porém, que compreendamos as cousas, seja qual for a escola filosófica que tenhamos de adotar, o que não se poderá contestar é que todas as concepções do universo, do passado, como da época contemporânea, materialista ou estoica, dualista ou monista, todas elas se propõem a um mesmo fim: a moral. E é preciso observar que a razão disto está no objeto mesmo de que a filosofia se ocupa, porque a filosofia tem por objeto o conhecimento do universo, o estudo da natureza, e é somente na compreensão da verdadeira significação do universo, na concepção do fim a que se encaminha a natureza em sua evolução indefinida, que se poderá encontrar o segredo dos destinos humanos. Ora, o homem, no estado atual das ideias, só poderá encontrar uma explicação natural de sua existência no seio do mundo zoológico. Os trabalhos de Copérnico, Kepler, Galileu e Newton destruíram o erro geocêntrico; e os trabalhos de Goethe, Lamarck, Liell, Darwin, Haeckel e outros destruíram o erro antropocêntrico, de modo que hoje acham-se completamente destruídas as ideias teológicas em virtude das quais tudo acerca do homem se achava envolvido nas brumas tenebrosas das velhas concepções metafísicas. Chegou-se a compreender que o homem está intimamante ligado ao universo e não pode ser separado dele. Conheceu-se que é uma simples partícula da natureza e que, como ela, está sujeito a leis imutáveis e eternas, encontrando-se a explicação de sua existência no seio do mundo zoológico, o qual por sua vez tem seu fundamento nas evoluções e nas complicações infinitas do movimento cósmico. É, pois, somente na filosofia, nas altas questões que envolvem a totalidade das cousas, e sobretudo em face da majestade da natureza, que poderemos estudar os mistérios da organização humana, elevando-nos à compreensão de nosso destino moral.


[1] Lefèvre, La philosophie.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.