A Raça Cósmica – Missão da Raça Ibero-Americana – Por José Vasconcelos (Parte II)

A primeira edição da Raça Cósmica: missão da raça ibero-americana apareceu em 1925 em Barcelona. Esta edição segue a segunda edição (Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1948), corrigida por Vasconcelos, em que se incorpora o “prólogo”.

 

II – Origem e Objeto do Continente


Depois de examinar as potencialidades remotas e próximas da raça mista que habita o Continente ibero-americano e o destino que a leva a converter-se na primeira raça síntese do globo, faz-se necessário investigar se o meio físico em que se desenvolve dita estirpe corresponde aos fins que lhe marca sua biótica. A extensão de que já dispõe é enorme; não há, certamente, problema de superfície. A circunstância de que seu litoral não tem muitos portos de primeira classe quase não tem importância dados os adiantamentos crescentes da engenharia. Em contrapartida, o que é fundamental abunda em quantidade superior, sem dúvida, a qualquer outra região da terra; recursos naturais, superfície cultivável e fértil, água e clima. Sobre este último fator adiantar-se-á, certamente, uma objeção: o clima, dir-se-á, é adverso à nova raça, porque a maior parte das terras disponíveis está situada na região mais cálida do globo.  Entretanto, tal é, precisamente, a vantagem e o segredo de seu futuro. As grandes civilizações iniciaram-se entre os trópicos e a civilização final voltará para os trópicos. A nova raça começará a cumprir seu destino à medida que se inventem os novos meios de combater o calor no que ele tem de hostil para o homem, mas deixando-lhe todo seu poderio benéfico para a produção da vida.  O triunfo do branco iniciou-se com a conquista da neve e do frio. A base da civilização branca é o combustível. Serve primeiro de amparo nos longos invernos; depois se advertiu que tinha uma força capaz de ser utilizada não só no abrigo, mas também no trabalho; então nasceu o motor, e desta forma, do fogão e da estufa precede todo o maquinismo que está transformando ao mundo.  Uma invenção semelhante seria impossível no quente Egito, e com efeito não ocorreu lá, apesar do fato que aquela raça superava à raça inglesa imensamente em capacidade intelectual. Para comprovar esta última afirmação basta comparar a metafísica sublime do Livro dos Mortos dos sacerdotes egípcios com as grosserias do darwinismo spenceriano. Nem em outros mil anos de adestramento e seleção o dolicocéfalo loiro irá superar o abismo que separa Spencer de Hermes Trimegisto. 

Em contrapartida, o navio inglês, essa máquina maravilhosa que procede dos tiritantes do Norte, não o sonharam sequer os egípcios. A luta rude contra o meio obrigou o branco a dedicar suas forças à conquista da natureza temporária – e precisamente nisto constitui a contribuição do branco à civilização do futuro. O branco ensinou o domínio do material. Em algum momento, a ciência dos brancos reverterá os métodos que empregou para alcançar o domínio do fogo, e usará neves condensadas, correntes eletroquímicas ou gases quase de magia sutil para destruir moscas a insetos, para dissipar o calor abafado e a febre. Então, a Humanidade inteira derramar-se-á sobre o trópico e, na imensidão solene de suas paisagens, as almas conquistarão a plenitude.  

Os brancos tentarão, ao princípio, aproveitar suas invenções em benefício próprio. Mas, como a ciência já não é esotérica, não será fácil que o obtenham. Serão absorvidos pela avalanche de todos outros povos e, finalmente depondo seu orgulho, entrarão com outros a compor a nova raça síntese, a quinta raça futura.  

A conquista do trópico transformará todos os aspectos da vida. A arquitetura abandonará a ogiva, a abóbada, e o teto, que responde à necessidade de procurar abrigo. Desenvolver-se-á outra vez a pirâmide. Levantar-se-ão colunatas em inúteis alardes de beleza e, possivelmente, construções em caracol – porque a nova estética tratará de amoldar-se à curva sem fim da espiral, que representa o desejo livre; o triunfo do ser na conquista do infinito. A paisagem plena de cores e ritmos comunicará sua riqueza à emoção. A realidade será como a fantasia. A estética dos nublados e dos cinzas ver-se-á como uma arte doentia do passado. Uma civilização refinada e intensa responderá aos esplendores de uma Natureza cheia de potências, generosa de hábito, reluzente de claridades. O panorama do Rio de Janeiro atual ou de Santos com a cidade e sua baía podem nos dar uma ideia do que será esse empório futuro da raça cabal, que está por vir.  

 Suposta, pois, a conquista do trópico por meio dos recursos científicos, virá um período no qual a humanidade inteira estabelecer-se-á nas regiões cálidas do planeta. A terra de promissão estará então na zona que hoje compreende o Brasil inteiro, mais a Colômbia, Venezuela, Equador, parte do Peru, parte da Bolívia e a região superior da Argentina. 

Existe o perigo de que a ciência se adiante ao processo étnico de forma que a invasão do trópico ocorra antes que a quinta raça acabe de formar-se. Se assim acontecer, pela posse do Amazonas liberar-se-ão batalhas que decidirão o destino do mundo e a sorte da raça definitiva. Se o Amazonas dominarem os ingleses das ilhas ou do Continente, que são ambos os campeões do branco puro, a aparição da quinta raça será retardada. Mas tal desenlace resultaria absurdo: a História não torce seus caminhos. Os mesmos ingleses, no novo clima, tornar-se-iam maleáveis, tornar-se-iam mestiços, mas com eles o processo de integração e de superação seria mais lento.  Convém, pois, que o Amazonas seja brasileiro, seja ibérico, junto com o Orinoco e Madalena.  Com os recursos de semelhante zona, a mais rica do globo em tesouros de todo gênero, a raça síntese poderá consolidar sua cultura. O mundo futuro será de quem conquistar a região amazônica. Per to do grande rio se levantará Universópolis e dali sairão as predicações, os esquadros e os aviões de propaganda de boas novas. Se o Amazonas se fizesse inglês, a metrópole do mundo já não se chamaria Universópolis, a não ser Anglotown, e as armadas Valquírias sairiam dali para impor em outros continentes a lei severa do predomínio do branco de cabelos loiros e do extermínio de seus rivais escuros. Em contrapartida, se a quinta raça apropria se do eixo do mundo futuro, então aviões e exércitos irão por todo o planeta, educando às pessoas para seu ingresso na sabedoria. A vida fundada no amor chegará a expressar-se em formas de beleza.  

Naturalmente, a quinta raça não pretenderá excluir aos brancos como não se propõe excluir a nenhum de outros povos; precisamente, a norma de sua formação é o aproveitamento de todas as capacidades para maior integração de poder. Não é a guerra contra o branco nosso objetivo, mas sim uma guerra contra toda classe de predomínio violento, mesmo o do branco que em seu caso o do amarelo, se o Japão chegar a converter-se em ameaça continental. Por isso faz ao branco e a sua cultura, a quinta raça conta já com eles e ainda espera benefícios de seu gênio. A América Latina deve ser o que é ao europeu branco e não o renegará: ao próprio norte americano deve-lhe grande parte de suas ferrovias e pontes e empresas. E de igual forma precisa de todas as outras raças. Sem embargo, aceitamos os ideais superiores do branco, mas não sua arrogância. Queremos brindar-lhe, quão mesmo a todas as pessoas, uma pátria livre, em que encontre lar e refúgio, mas não uma prolongação de suas conquistas. Os mesmos brancos, descontentes do materialismo e da injustiça social em que decaiu sua raça, a quarta raça, virão a nós para ajudar na conquista da liberdade.  

Possivelmente entre todas as características da quinta raça preponderem as características do branco. Mas tal supremacia deve ser fruto de eleição livre do gosto e não resultado da violência ou da pressão econômica. Os caracteres superiores da cultura e da natureza terão que triunfar, mas esse triunfo só será firme se tiver como fundamento a aceitação voluntária da consciência e na eleição livre da fantasia. Até a data, a vida recebeu seu caráter das potências baixas do homem; a quinta raça será o fruto das potências superiores. A quinta raça não exclui, monopoliza vida; por isso a exclusão do ianque como a exclusão de qualquer outro tipo humano equivaleria a uma mutilação antecipada, mais funesta até que um corte posterior.  Senão queremos excluir nem às raças que pudessem ser consideradas como inferiores, muito menos cordato seria apartar de nossa empresa a uma raça cheia de impulso e de firmes virtudes sociais. 

Exposta já a teoria da formação da raça futura ibero-americana e a maneira como poderá aproveitar o meio em que vive, falta só considerar o terceiro fator da transformação que se verifica no novo Continente; o fator espiritual que tem que dirigir e consumar a extraordinária empresa.  Pensar-se-á, talvez, que a fusão das distintas raças contemporâneas em uma nova que complete e supere a todas, será um processo repugnante de anárquico hibridismo, diante do qual, a prática inglesa de celebrar matrimônios só dentro da própria estirpe ver-se-á como um ideal de refinamento e de pureza. Os arianos primitivos do Industão ensaiaram precisamente este sistema inglês, para defender-se da mescla com as raças de cor, mas como essas raças escuras possuíam a sabedoria necessária para completar a dos invasores loiros, a verdadeira cultura Industani não se produziu a não ser depois de que os séculos consumaram a mescla, apesar de todas as proibições escritas. E a mescla fatal foi útil não só por razões de cultura, mas também porque o mesmo indivíduo físico precisa renovar-se em seus semelhantes. Os norte-americanos sustentam-se muito firmes em sua resolução de manter pura sua estirpe, mas isso depende do que têm diante ao negro, que é como o outro polo, como o contrário dos elementos que podem mesclar-se. No mundo ibero-americano, o problema não se apresenta com caracteres tão rigorosos; temos pouquíssimos negros e a maior parte deles foram se transformando já em populações mulatas. O índio é boa ponte de mestiçagem. Além disso, o clima quente é propício ao trato e reunião de todas as pessoas. Por outra parte, e isto é fundamental, o cruzamento das distintas raças não obedecerá às razões de simples proximidade, como acontecia ao princípio, quando o colono branco tomava a mulher indígena ou negra porque não havia outra a mão. No futuro, à medida que as condições sociais melhorem, o cruzamento de sangue será cada vez mais espontâneo, a tal ponto que não estará já sujeito à necessidade, mas ao gosto; em último caso; à curiosidade. O motivo espiritual sobrepor-se-á desta forma às contingências do físico. Por motivo espiritual tem que entender-se, mas bem que a reflexão, o gosto que dirige o mistério da eleição de uma pessoa entre uma multidão. 

 

III

Dita lei do gosto, como norma das relações humanas, a enunciamos em diversas ocasiões com o nome da lei dos três estados sociais, definidos, não à maneira comptiana, a não ser com uma compreensão mais vasta. Os três estados que esta lei assinala são: o material ou guerreiro, o intelectual ou político e o espiritual ou estético. Os três estados representam um processo que gradualmente liberta-se do império da necessidade, e pouco a pouco submetendo a vida inteira às normas superiores do sentimento e da fantasia. No primeiro estágio manda só a matéria. Os povos, ao encontrar-se, combatem ou se juntam sem mais lei que a violência e o poderio relativo.  Exterminam-se umas vezes ou celebram acordos atendendo à conveniência ou à necessidade.  Assim vivem a horda e a tribo de todas as raças. Em semelhante situação a mescla de sangues impôs-se também pela força material, único elemento de coesão de um grupo. Não pode haver escolha onde o forte toma ou rechaça, conforme seu capricho, a fêmea submetida.  

É óbvio que já desde esse período pulsa no fundo das relações humanas o instinto de simpatia que atrai ou repele conforme a esse mistério que chamamos o gosto, mistério que é a secreta razão de toda estética; mas a sugestão do gosto não constitui o móvel predominante do primeiro período, como não o é tampouco do segundo, submetido a inflexível normatização da razão. Também a razão está contida no primeiro período, como origem de conduta e de ação humana, mas é uma razão débil, como o gosto oprimido; não é isso quem decide, a não ser a força, e a essa força, usualmente brutal, submete-se o julgamento, convertido em escravo da vontade primitiva. Corrompido assim o julgamento em astúcia, envilece-se para servir a injustiça.  No primeiro período não é possível trabalhar pela a fusão cordial das raças, tanto porque a mesma lei da violência a que está submetido exclui as possibilidades de coesão espontânea, quanto porque nem sequer as condições geográficas permitiam a comunicação constante de todos os povos do planeta.  

No segundo período tende a prevalecer a razão, que artificiosamente aproveita as vantagens conquistadas pela força e corrige seus enganos. As fronteiras definem-se em tratados e os costumes organizam-se conforme às leis derivadas das conveniências recíprocas e a lógica:  a romanização é o mais acabado modelo deste sistema social racional, embora, na realidade, começou antes de Roma e prolonga-se ainda nesta época das nacionalidades. Neste regime, a mescla das raças obedece, em parte, ao capricho de um instinto livre que se exerce por debaixo dos rigores da norma social, e obedece especialmente às conveniências éticas ou políticas do momento. Em nome da moral, por exemplo, impõem-se ligações matrimoniais difíceis de romper entre pessoas que não se amam. Em nome da política, restringem-se liberdades interiores e exteriores. Em nome da religião, que deveria ser a inspiração sublime, impõem-se dogmas e tiranias. Mas cada caso se justifica com o ditado da razão, reconhecido como supremo dos assuntos humanos. Procede também conforme a lógica superficial e o saber equívoco quem condena a mescla de raças em nome de uma eugenia que, por fundar-se em dados científicos incompletos e falsos, não pôde dar resultados válidos. A característica deste segundo período é a fé na fórmula. Por isso, em todos sentidos não faz outra coisa que dar norma à inteligência, limites à ação, fronteiras à pátria e freios ao sentimento. Regra, norma e tirania, tal é a lei do segundo período em que estamos presos, e do qual é necessário sair.  

No terceiro período, cujo advento se anuncia já de mil formas, a orientação da conduta não se buscará na pobre razão, que explica mas não descobre; buscar-se-á no sentimento criador e na beleza que convence. As normas dar-se-ão à faculdade suprema, à fantasia; quer dizer, viver-se-á sem norma, em um estado em que tudo quanto nasce do sentimento é um acerto. Em vez de regras, inspiração constante. E não se buscará o mérito de uma ação em seu resultado imediato e evidente, como ocorre no primeiro período. Nem tampouco atender-se-á a que se adapte à determinadas regras de razão pura. O mesmo imperativo ético será sobrepujado e mais à frente do bem e do mal, no mundo do pathos estético. Só importará que o ato, por ser belo, produza o bem-estar. Fazer nosso desejo, não nosso dever; seguir o caminho do gosto, não o do apetite nem o do silogismo; viver o júbilo baseado em amor, essa é a terceira etapa.  

Desgraçadamente, somos tão imperfeitos que para obter semelhante vida de deuses será necessário que passemos antes por todos os caminhos, pelo caminho do dever, onde se depuram e superam os apetites baixos, e pelo caminho da ilusão, que estimula as aspirações mais altas. Virá em seguida a paixão que redime da baixa sensualidade. Viver em pathos, sentir por tudo uma emoção tão intensa, que o movimento das coisas adote ritmos de sorte, eis aí um traço do terceiro período. A ele chega-se soltando o desejo divino para que alcance, sem pontes de moral e de lógica, de um só ágil salto, as zonas de revelação. Dom artístico é essa intuição imediata que salta sobre a cadeia dos sorites. E, por ser paixão, supera do princípio o dever, e o substitui com o amor exaltado. Dever e lógica, já se entende que um e outro são andaimes e mecânica da construção. Mas a alma da arquitetura é ritmo que transcende o mecanismo, e não conhece mais lei que o mistério da beleza divina.  

Que papel desempenha neste processo, esse nervo dos destinos humanos, a vontade que esta quarta raça chegou a deificar no instante de embriaguez de seu triunfo? A vontade é força, a força cega que corre detrás de fins confusos. No primeiro período, a dirige o apetite, que se serve dela para todos seus caprichos – prende depois sua luz a razão e a vontade se refreia no dever e se dá forma no refinamento lógico. No terceiro período, a vontade se faz livre, sobrepuja o finito e estala e se alaga em uma espécie de realidade infinita. Enche-se de rumores e de propósitos remotos. Não o basta a lógica e fica as asas da fantasia. Afunda-se no mais profundo e vislumbra o mais alto. Alarga-se na harmonia e sobe no mistério criador da melodia. Satisfaz-se, dissolve-se na emoção, e confunde-se com a alegria do Universo: se faz paixão de beleza.  

Se reconhecermos que a Humanidade gradualmente aproxima-se do terceiro período de seu destino, compreenderemos que a obra de fusão das raças verificar-se-á no continente ibero americano conforme a uma lei derivada do gozo das funções mais altas. As leis da emoção, da beleza e da alegria regerão a eleição de casais com um resultado imensamente superior ao dessa eugenia fundada na razão científica, que nunca olha mais que a porção menos importante do sucesso amoroso. Por cima da eugenia científica prevalecerá a eugenia misteriosa do prazer estético. Onde manda a paixão iluminada não é necessário nenhum corretivo. Os muito feios não procriarão, não desejarão procriar, o que importa então que todas as raças se mesclem se a fealdade não encontrará berço? A pobreza, a educação defeituosa, a escassez de tipos belos, a miséria que volta às pessoas feias, todas estas calamidades desaparecerão do estado social futuro. Ver-se-á então repugnante, parecerá um crime o fato hoje cotidiano de que um casal medíocre vanglorie-se de multiplicar miséria. O matrimônio deixará de ser consolo de desventuras, que não há por que perpetuar, e converter-se-á em uma obra de arte.  

Logo que a educação e o bem-estar difundam-se, já não haverá perigo de que se mesclem os mais opostos tipos. As uniões efetuar-se-ão conforme a lei singular do terceiro período, a lei de simpatia, refinada pelo sentido da beleza. Uma simpatia verdadeira e não quão falsa hoje nos impõem a necessidade e a ignorância. As uniões sinceramente apaixonadas e facilmente desfeitas em caso de engano, produzirão vergônteas limpas e formosos. A espécie inteira mudará de tipo físico e de temperamento, prevalecerão os instintos superiores, e perdurarão, como em síntese feliz, os elementos de formosura, que hoje estão repartidos nos distintos povos.  

Atualmente, em parte por hipocrisia e em parte porque as uniões verificam-se entre pessoas miseráveis dentro de um meio desventurado, vemos com profundo horror o casamento de uma negra com um branco. Não sentiríamos repugnância alguma se se tratasse do enlace de um Apolo negro com uma Vênus loira, o que prova que tudo santifica a beleza. Em contrapartida, é repugnante olhar esses casais de casados que saem diariamente dos tribunais ou dos templos, feias em uma proporção, mais ou menos, de noventa por cento dos casados. O mundo está assim cheio de fealdade por causa de nossos vícios, nossos preconceitos e nossa miséria. A procriação por amor é já um bom antecedente de origem viçosa. Mas faz falta que o amor seja em si mesmo uma obra de arte e não um recurso de desesperados. Se o que vai se transmitir é estupidez, então o que liga aos pais não é amor, a não ser instinto oprobioso e ruim.  

Uma mescla de raças consumadas de acordo com as leis da comodidade social, da simpatia e da beleza, conduzirá à formação de um tipo imensamente superior a todos os que existiram. O cruzamento de contrários conforme à lei mendeliana da herança produzirá variações descontínuas e extremamente complexas, como são múltiplos e diversos os elementos da raça humana. Mas isto mesmo é garantia das possibilidades sem limites que um instinto bem orientado oferece para a perfeição gradual da espécie. Se até hoje não melhorou grande coisa é porque viveu em condições de aglomeração e de miséria nas quais não foi possível que funcionasse o instinto livre da beleza; a reprodução feita à maneira das bestas, sem limite de quantidade e sem aspiração de melhoramento. Não interveio nela o espírito, a não ser o apetite, que se satisfaz como pode. Assim é que não estamos em condições nem de imaginar as modalidades e os efeitos de uma série de cruzamentos verdadeiramente inspirados. Uniões fundadas na capacidade e na beleza dos tipos, teriam que produzir um grande número de indivíduos dotados com as qualidades dominantes. Escolhendo em seguida, não com a reflexão, mas com o gosto, as qualidades que desejamos fazer preponderar, os tipos de seleção multiplicar-se-ão à medida que os recessivos tenderão a desaparecer. As vergônteas recessivas já não se uniriam entre si, mas iriam, em busca de melhoramento rápido ou extinguiriam voluntariamente todo desejo de reprodução física. A própria consciência da espécie desenvolverá um mendelismo ardiloso, assim que se veja livre do apresso físico, da ignorância e da miséria, e desta forma, em muito poucas gerações desaparecerão as monstruosidades. O que hoje é normal chegará a parecer abominável. Os tipos baixos da espécie serão absorvidos pelo tipo superior. Desta forma poderia redimir-se, por exemplo, o negro, e pouco a pouco, por extinção voluntária, as estirpes mais feias cederão o passo às mais formosas. As raças inferiores, ao educar-se, far-se-iam menos prolíficas, e os melhores espécimes subirão em uma escala de melhoramento étnico, cujo tipo máximo não é precisamente o branco, a não ser essa nova raça, a que o mesmo branco terá que aspirar com o propósito de conquistar a síntese. O índio, por meio do enxerto na raça afim, daria o salto dos  milhares de anos intermediários da Atlântida a nossa época e em umas quantas décadas de  eugenia estética poderia desaparecer o negro junto com os tipos que o livre instinto de formosura  assinale como fundamentalmente recessivos e indignos, pelo mesmo, de perpetuação; operar-se ia desta forma uma seleção pelo gosto, muito mais eficaz que a brutal seleção darwiniana, que só  é válida, se acaso, para as espécies inferiores, mas já não para o homem.  

Nenhuma raça contemporânea pode apresentar-se por si só como um modelo acabado que todas as outras tenham que imitar. O mestiço e o índio, até o negro, superam ao branco em uma infinidade de capacidades propriamente espirituais. Nem na antiguidade, nem no presente, deu-se jamais o caso de uma raça que se baste a si mesma para forjar civilização. As épocas mais ilustres da Humanidade têm sido, precisamente, aquelas em que vários povos diferentes ficam em contato e se mesclam. A Índia, Grécia, Alexandria, Roma não são a não ser exemplos de que só uma universalidade geográfica e étnica é capaz de dar frutos de civilização. Na época contemporânea, quando o orgulho dos atuais amos do mundo afirmam pela boca de seus homens de ciência a superioridade étnica e mental do branco do Norte, qualquer professor pode comprovar que os grupos de meninos e de jovens descendentes de escandinavos, holandeses e ingleses das universidades norte-americanas são muito mais lentos, quase torpes, comparados com os meninos e jovens mestiços do Sul. Talvez se explique esta vantagem por efeito de um mendelismo espiritual benéfico, por causa de uma combinação de elementos contrários. O certo é que o vigor se renova com os enxertos e que a alma mesma busca o diferente para enriquecer a monotonia de seu próprio conteúdo. Só uma prolongada experiência poderá pôr de manifesto os resultados de uma mescla realizada já não pela violência nem por efeito da necessidade mas sim por eleição, fundada no deslumbramento que produz a beleza, e confirmada pelo pathos do amor.  

Nos períodos primeiro e segundo em que vivemos, a espécie humana vive em certo sentido conforme às leis darwinianas. Isso por causa do isolamento e da guerra. Os ingleses, que só veem o presente do mundo externo, não vacilaram em aplicar teorias zoológicas ao campo da sociologia humana. Se a falsa translação da lei fisiológica à zona do espírito fosse aceitável, então falar da incorporação étnica do negro seria tanto como defender o retrocesso. A teoria inglesa supõe, implícita ou francamente, que o negro é uma espécie de elo que está mais perto do macaco que do homem loiro. Não fica, pelo mesmo, outro recurso que fazê-lo desaparecer. Em contrapartida, o branco, particularmente o branco de fala inglesa, é apresentado como o término sublime da evolução humana; cruzá-lo com outra raça equivaleria a sujar sua estirpe. Mas semelhante maneira de ver não é mais que a ilusão de cada povo afortunado no período de seu poderio. Cada um dos grandes povos da História acreditou-se o final e o eleito. Quando se comparam umas com outras estas infantis soberbas, vê-se que a missão que cada povo se atribui não é no fundo outra coisa que afã de roubo e desejo de exterminar à potência rival. A mesma ciência oficial é em cada época um reflexo dessa soberba da raça dominante. Os hebreus fundaram a crença de sua superioridade em oráculos e promessas divinas. Os ingleses radicam às suas em observações relativas aos animais domésticos. Da observação de cruzamentos e variedades hereditárias de ditos animais foi saindo o darwinismo, primeiro como uma modesta teoria zoológica, depois como biologia social que outorga a preponderância definitiva ao inglês sobre todas as demais raças. Todo imperialismo necessita de uma filosofia que o justifique; o Império romano pregava a ordem, quer dizer, a hierarquia; primeiro o romano, depois seus aliados, e o bárbaro na escravidão. Os britânicos pregam a seleção natural, com a consequência tácita de que o reino do mundo corresponde por direito natural e divino ao dolicocéfalo das Ilhas e seus descendentes. Mas esta ciência que chegou a nos invadir junto com os artefatos do comércio conquistador combate-se como se combate todo imperialismo: pondo-lhe frente uma ciência superior, uma civilização mais ampla e vigorosa. O certo é que nenhuma raça basta-se a si sozinha e que a Humanidade perderia e perde cada vez que uma raça desaparece por meios violentos. Ótimo que cada uma se transforme segundo seu arbítrio, mas dentro de sua própria visão de beleza, e sem romper o desenvolvimento harmônico dos elementos humanos.  

Cada raça que se levanta precisa constituir sua própria filosofia, o deus ex-machina de seu êxito. Educamo-nos sob a influência humilhante de uma filosofia idealizada por nossos inimigos, se se quiser de uma maneira sincera, mas com o propósito de exaltar seus próprios fins e anular os nossos. Desta forma nós mesmos chegamos a acreditar na inferioridade do mestiço, na não redenção do índio, na condenação do negro, na decadência irreparável do oriental. A rebelião das armas não foi seguida da rebelião das consciências. Rebelamo-nos contra o poder político da Espanha, e não advertimos que, junto com a Espanha, caímos na dominação econômica e moral da raça que foi senhora do mundo desde que terminou a grandeza da Espanha. Sacudimos um jugo para cair embaixo de outro novo. O movimento de deslocamento de que fomos vítimas não pudesse evitar embora o tivéssemos compreendido a tempo. Há certa fatalidade no destino dos povos quão mesmo no destino dos indivíduos; mas agora que se inicia uma nova fase da História, faz-se necessário reconstituir nossa ideologia e organizar conforme a uma nova doutrina étnica toda nossa vida continental. Comecemos então fazendo vida própria e ciência própria. Se não se liberta primeiro o espírito, jamais conseguiremos redimir a matéria.  

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Temos o dever de formular as bases de uma nova civilização; e por isso mesmo é necessário que tenhamos presente que as civilizações não se repetem nem na forma nem no fundo. A teoria da superioridade étnica foi simplesmente um recurso de combate comum a todos os povos batalhadores; mas a batalha que nós devemos liberar é tão importante que não admite nenhum ardil falso. Nós não sustentamos que somos nem que chegaremos a ser a primeira raça do mundo, a mais ilustrada, a mais forte e a mais formosa; nosso propósito é ainda mais alto e mais difícil que obter uma seleção temporária. Nossos valores estão em potência a tal ponto, que nada somos ainda. Entretanto, a raça hebréia não era para os egípcios arrogantes outra coisa que uma ruim casta de escravos e dela nasceu Jesus Cristo, o autor do maior movimento da História; que anunciou o amor de todos os homens. Este amor será um dos dogmas fundamentais da quinta raça, que tem que produzir-se na América. O cristianismo liberta e engendra vida, porque contém revelação universal, não nacional; por isso tiveram que rechaçar os próprios judeus, que não se decidiram a comungar com gentis. Mas a América é a pátria da gentileza, a verdadeira terra de promissão cristã. Se nossa raça mostrar-se indigna deste chão consagrado, se chegar a faltar-lhe o amor, ver-se-á suplantada por povos mais capazes de realizar a missão fatal daquelas terras; a missão de servir de assento a uma humanidade feita de todas as nações e todas as estirpes. Quão biótica o progresso do mundo impõe à América de origem hispânica não é um credo rival que, frente ao adversário, diz: supero-te, ou me basto, a não ser uma ânsia infinita de integração e de Totalidade que pelo mesmo invoca ao Universo. A infinitude de seu desejo assegura-lhe força para combater o credo exclusivista do bando inimigo e confiança na vitória que sempre corresponde aos gentis. O perigo melhor está em que nos ocorra o que à maioria dos hebreus, que por não se fazerem gentis perderam a graça originada em seu seio. Assim ocorreria senão soubermos oferecer lar e fraternidade a todos os homens; então outro povo servirá de eixo, alguma outra língua será o veículo; mas já ninguém pode conter a fusão das pessoas, a aparição da quinta era do mundo, a era da universalidade e do sentimento cósmico.  

A doutrina de formação sociológica, de formação biológica que nestas páginas enunciamos, não é um simples esforço ideológico para levantar o ânimo de uma raça deprimida, oferecendo-lhe uma tese que contradiz a doutrina com que queriam condená-la seus rivais. O que acontece é que à medida que descobre a falsidade da premissa científica em que descansa a dominação das potências contemporâneas, vislumbram-se também, na ciência experimental mesma, orientações que assinalam um caminho já não para o triunfo de uma raça sozinha, a não ser para a redenção de todos os homens. Acontece como se a palingenesia anunciada pelo cristianismo com uma antecipação de milhares de anos, visse-se confirmada atualmente nos distintos ramos do conhecimento científico. O cristianismo pregou o amor como base das relações humanas, e agora começa a ver-se que só o amor é capaz de produzir uma Humanidade excelsa.  A política dos Estados e a ciência dos positivistas, influenciada de uma maneira direta por essa política, disseram que não era o amor a lei, a não ser o antagonismo, a luta e o triunfo do apto, sem outro critério para julgar a aptidão que a curiosa petição de princípio contida na mesma tese, uma vez que o apto é o que trunfa e só triunfa o apto. E assim, as fórmulas verbais e viciosas desta índole reduz-se todo o saber pequeno que quis desentender-se das revelações geniais para as substituir com generalizações fundadas na mera soma dos detalhes.  

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O descrédito de semelhantes doutrinas agrava-se com os descobrimentos e observações que hoje revolucionam as ciências. Não era possível combater a teoria da História como um processo de frivolidades, quando se acreditava que a vida individual estava também desprovida de fim metafísico e de plano providencial. Mas se a matemática vacila e reforma suas conclusões  para nos dar o conceito de um mundo mutável cujo mistério muda, de acordo com nossa posição  relativa, e a natureza de nossos conceitos; se a física e a química não se atrevem já a declarar  que nos processos do átomo não há outra coisa que ação de massas e forças; se a biologia  também em sua novas hipótese afirma, por exemplo, com o Uexkull que no curso da vida “as  células se movem como se obrassem dentro de um organismo acabado cujos órgãos harmonizam  conforme um plano e trabalham em comum, isto é, possui um plano de função”, “havendo uma  engrenagem de fatores vitais na roda motriz físico-química” -o que contraria o darwinismo, pelo  menos, na interpretação dos darwinistas que negam que a Natureza obedeça a um plano-; se  também o mendelismo demonstra, conforme às palavras de Uexkull, que o protoplasma é uma  mescla de substâncias das quais pode ser feito tudo, sobre pouco mais ou menos; diante de todas  estas mudanças de conceitos da ciência, é preciso reconhecer que se derrubou também o edifício  da dominação de uma só raça. Isto há de ser, um presságio de que não demorará para cair também o podre material de quem tem construído toda essa falsa ciência de opressão e de conquista.  

A lei de Mendel, particularmente quando confirma “a intervenção de fatores vitais na roda motriz físico-química”, deve formar parte de nosso novo patriotismo. Pois de seu texto pode derivar a conclusão de que as distintas faculdades do espírito tomam parte nos processos do destino.  

O que importa que o materialismo spenceriano condenássemos, se hoje resulta que podemos nos julgar como uma espécie de reserva da Humanidade, como uma promessa de um futuro que sobrepujasse a todo tempo anterior? Achamo-nos então em uma dessas épocas de palingenesia, e no centro do malström universal, e urge chamar consciência todas as nossas faculdades, para que, alertas e ativas, intervenham desde já, como dizem os argentinos, nos processos da redenção coletiva. Esplende a aurora de uma época sem par. Dir-se-ia que é o cristianismo o que se consumará, mas já não só nas almas, a não ser na raiz dos seres. Como instrumento da transcendental transformação formou-se no Continente ibérico uma raça cheia de vícios e defeitos, mas dotada de maleabilidade, compreensão rápida e emoção fácil, fecundos elementos para o plasma germinal da espécie futura. Reunidos estão já em abundância os materiais biológicos, as predisposições, os caracteres, os genes de que falam os mendelistas, e só falta o impulso organizador, o plano de formação da espécie nova. Quais deverão ser os traços desse impulso criador?  

Se procedêssemos conforme à lei de pura energia confusa do primeiro período, conforme ao primitivo darwinismo biológico, então, a força cega, por imposição quase mecânica dos elementos mais vigorosos, decidiria de uma maneira singela e brutal, exterminando aos fracos, mas benditos, aos quais não se acomodam ao plano da raça nova. Mas na nova ordem, por sua mesma lei, os elementos perduráveis não se apoiarão na violência, a não ser no prazer, e, pelo mesmo, a seleção far-se-á espontânea, como o faz o pintor quando de todas as cores toma só as que convêm a sua obra.  

Se para constituir a quinta raça se procedesse conforme à lei do segundo período, então viria um conflito de astúcias, no qual os preparados e sem escrúpulos ganhariam a partida aos sonhadores e aos bondosos. Provavelmente então a nova Humanidade seria predominantemente malaia, pois se assegura que ninguém ganha em cautela e habilidade, e até, se for necessário, em perfídia. Pelo caminho da inteligência poder-se-ia chegar, ainda se se quer a uma Humanidade de estóicos, que adotasse como norma suprema o dever. O mundo voltar-se-ia como um vasto povo de quaisquer, aonde o plano do espírito acabaria por sentir-se estrangulado e contrafeito pela regra. Pois a razão, a pura razão, pode reconhecer as vantagens da lei moral, mas não é capaz de imprimir à ação o ardor combativo que a volta fecunda. Em mudança, a verdadeira potência criadora de júbilo está contida na lei do terceiro período, que é emoção de beleza e um amor tão depurado que se confunde com a revelação divina. Propriedade de antigo assinalada à beleza, por exemplo, em Fredo, é a de ser patética; seu dinamismo contagia e move os ânimos, transforma as coisas e o mesmo destino. A raça mais apta para adivinhar e para impor semelhante lei na vida e nas coisas, essa será a raça matriz da nova era de civilização. Por fortuna, tal dom, necessário à quinta raça, possui-o em grau elevado a gente mestiça do Continente ibero-americano; gente para quem a beleza é a razão maior de toda coisa. Uma fina sensibilidade estética e um amor de beleza profunda, alheios a todo interesse bastardo e livre de travas formais, tudo isso é necessário ao terceiro período impregnado de esteticismo cristão que sobre a mesma fealdade põe o toque redentor da piedade que acende um halo ao redor de todo o criado.  

Temos, pois, no Continente todos os elementos da nova Humanidade; uma lei que irá selecionando fatores para a criação de tipos predominantes, lei que operará não conforme o critério nacional, como teria que fazê-lo uma só raça conquistadora, a não ser com critério de universalidade e beleza; e temos também o território e os recursos naturais. Nenhum povo da Europa poderia substituir ao ibero-americano nesta missão, por bem-dotado que esteja, pois todos têm sua cultura já feita e uma tradição que para obras semelhantes constitui um peso. Não poderia nos substituir uma raça conquistadora, porque fatalmente imporia seus próprios traços, embora só seja pela necessidade de exercer a violência para manter sua conquista. Não podem encher esta missão universal tampouco os povos da Ásia, que estão exaustos ou, pelo menos, faltosos do arrojo necessário às empresas novas.  

As pessoas que estão formando a América hispânica, um pouco desbaratadas, mas livres de espírito e com o desejo em tensão a causa das grandes regiões inexploradas, podem ainda repetir as proezas dos conquistadores castelhanos e portugueses. A raça hispânica em geral tem ainda por diante esta missão de descobrir novas zonas no espírito agora que todas as terras estão exploradas.  

Somente a parte ibérica do Continente dispõe dos fatores espirituais, a raça e o território que são necessário s para a grande empresa de iniciar a era universal da Humanidade. Estão ali  todas as raças que têm que dar sua contribuição; o homem nórdico, que hoje é professor de ação,  mas que teve começo humilde e parecia inferior, em uma época em que já tinham aparecido e  decaído várias grandes culturas; o negro, como uma reserva de potencialidades que arrancam  dos dias remotos da Lemúria; o índio, que viu perecer a Atlântida, mas guarda um quieto mistério  na consciência; temos todos os povos e todas as aptidões, e só faz falta que o amor verdadeiro  organize e ponha em marcha a lei da História.  

Muitos obstáculos opõem-se ao plano do espírito, mas são obstáculos comuns a todo progresso. Certamente ocorre objetar que como vão se unir em concórdia as distintas raças se nem sequer os filhos de uma mesma estirpe podem viver em paz e alegria dentro do regime econômico e social que hoje oprime aos homens? Mas tal estado dos ânimos terá que mudar rapidamente. As tendências todas do futuro entrelaçam-se na atualidade: mendelismo em biologia, socialismo no governo, simpatia crescente nas almas, progresso generalizado e aparição da quinta raça que encherá o planeta, com os triunfos da primeira cultura verdadeiramente universal, verdadeiramente cósmica.  

Se contemplarmos o processo em panorama, encontrar-nos-emos com as três etapas da lei dos três estados da sociedade, vivificadas, cada uma, com a contribuição das quatro raças fundamentais que consumam sua missão, e em seguida desaparecem para criar um quinto tipo étnico superior. O que dá cinco raças e três estados, ou seja, o número oito, que na gnosis pitagórica representa o ideal da igualdade de todos os homens. Semelhantes coincidências ou acertos surpreendem quando lhes descobre, embora depois pareçam corriqueiros.  

Para expressar todas estas ideias que hoje procuro expor em rápida síntese, faz alguns anos, quando ainda não se achavam bem definidas, procurei dar-lhes símbolos no novo Palácio da Educação Pública do México. Sem elementos muitos para fazer exatamente o que desejava, tive que me conformar com uma construção renascentista espanhola, de dois pátios, com arquerias e passarelas, que têm algo da impressão de uma asa. Nos tabuleiros dos quatro ângulos do pátio anterior fiz lavrar alegorias da Espanha, do México, Grécia e a Índia, as quatro civilizações particulares que mais têm que contribuir à formação da América Latina. Em seguida, debaixo destas quatro alegorias, deverão levantar-se quatro grandes estátuas de pedra das quatro grandes raças contemporâneas: a Branca, a Vermelha, a Negra e a Amarela, para indicar que a América é lar de todas, e de todas necessita. Finalmente, no centro devia erigir um monumento que em alguma forma simbolizasse a lei dos três estados: o material, o intelectual e o estético. Tudo para indicar que, mediante o exercício da tripla lei, chegaremos na América, antes que em parte alguma do globo, à criação de uma raça feita com o tesouro de todas as anteriores, a raça final, a raça cósmica.


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