Arte “Tradicional”, A ponte entre o Humano e o Divino – Por João Gabriel Simões

O que a Arte Tradicional não é

A arte tradicional não diz respeito ao conservadorismo, nem a uma visão romantizada e saudosista do passado e nem a um período histórico conceituado na história da arte acadêmica. Ela também não é moralizante, sexista, nem burguesa como alguns podem pensar. E por fim, ela não se reduz a preferências individuais, nem prioriza o gozo estético de quem a contemple. Mas, o que é a arte tradicional, afinal?

O que ela é

A arte tradicional é aquela que transmite, ensina e simboliza a tradição. Mas, o que é essa tradição? Tradição é o que os intelectuais tradicionalistas chamam de sabedoria primordial, sabedoria perene, que é a essência incriada, eterna que toma corpo, de tempos e tempos, em um quadro de referência metafísico, religioso e “mitológico”. Joseph Campbell, que foi um mitólogo e pesquisador das religiões disse que, em certo sentido, as grandes narrativas mitológicas (a maioria delas) falam das mesmas verdades sob vestes diferentes. Há uma “verdade” que atravessa todas elas. Essa verdade que permeia todos os mitos, e que também está na origem de todas religiões e artes sacras é chamada de “Tradição”.

No século passado, metafísicos e pensadores, tais como: René Guénon; Mircea Eliade; Henry Corbin; Rudolf Steiner; Joseph Campbell, entre outros, chegaram, de uma forma ou de outra, a essa mesma conclusão. Ou seja, não estamos falando de uma opinião isolada, mas sim de uma constatação feita por uma série de Pensadores influentes no último século que, no final das contas, recuperaram e atualizaram aquilo que filósofos como Plotino já mencionava no século III da era comum.

Agora que já sabemos o que é “tradição”, podemos entrar no tema do artigo.

Via simbólica

A arte tradicional é a expressão criativa do gênero humano, a serviço da tradição. Ela é, eminentemente, uma via simbólica. A grosso modo, a ideia tradicional de símbolo se refere a duas metades: o símbolo e o simbolizado. A entidade sensível, que nós podemos ver, tocar, escutar e sentir; e a sua contraparte inteligível, aquilo que nossos sentidos não alcançam, que são os níveis da realidade suprassensível que o símbolo, a partir de sua contraparte sensível, aponta, simboliza. Vejamos como exemplo o símbolo da cruz.

  1. Parte sensível (visível). Cruz de madeira ou de pedra.
  1. Parte inteligível. As “forças” e ideias que a cruz representa: união do espírito com a matéria; a manifestação de dois princípios cósmicos (masculino e feminino); o quaternário e os 4 elementos etc.

O propósito da arte tradicional é nos conduzir do sensível até o inteligível, do físico ao espiritual, do humano ao divino. Ela é a expressão material de princípios metafísicos, ou seja, de verdades sempre presentes, passíveis de serem contempladas por aqueles que têm “olhos” para ver.

Anonimato X Exibicionismo

A arte tradicional é, em grande medida, anônima, não é um meio para a promoção de egos: — “Eu fiz isso com meu próprio talento e originalidade” — diz aquele que utiliza a arte como suplemento para seu ego. “A arte se fez através de mim, o bamboo pintou a si mesmo através de mim” — diz aquele cuja arte é tradicional. A criação artística tradicional surge, em muitos casos, de uma experiência não dual, que é, por exemplo, a experiência Zen por excelência (leia meu Artigo sobre zen budismo para mais informações), daquele que se fez um com o objeto da sua arte. É o que Kitaro Nishida, filósofo japonês chama de experiência pura, no seu livro Ensaio sobre o bem.

Arte em Civilizações Tradicionais

Em civilizações tradicionais, como a Islâmica e a Cristã da idade média, ou a chinesa e japonesa de outros períodos, as produções artísticas são, acima de tudo, destinadas a servirem como:

  1. Expressão da criatividade humana.
  2. Suportes para meditação e mediação entre o sensível e o inteligível (ou seja, a via simbólica que falei anteriormente);
  3. Base para um profundo e extenso entendimento da realidade, uma vez que os símbolos são livros abertos para quem é capaz de lê-los. Por exemplo, no simbolismo da cruz existe em potência (latência) inúmeras informações. A cruz simboliza os pontos cardeais, a cosmogênese, o equilíbrio entre masculino e feminino, a polaridade universal, entre muitas outras ideias. Ou seja, cada símbolo possibilita inúmeras transposições analógicas. Cada símbolo é como um link para inúmeras ideias.

Numa civilização fundamentada na tradição, de acordo com o conceito de tradição que foi trabalhado aqui, tudo, até mesmo os menores detalhes, são subordinados ao “religare”: a (re)ligação do humano com o divino, a integração do microcosmo (ser humano) no macrocosmos (ordem cósmica). Ou seja, tudo tem sentido e razão de ser, tudo é ponte para o “sagrado”.

Pintura — Michelangelo

Arte Tradicional e Ciência dos Ritmos

De acordo com René Guénon, o que está na base, o que está no coração de todas as artes (no sentido tradicional) é principalmente a aplicação da ciência do ritmo, sob diferentes formas. O ritmo está na fonética, na poesia, nas formas, na dança, na música. Na arquitetura, por exemplo, o ritmo está expresso nas proporções existentes entre as várias partes de um todo, bem como, pelas formas geométricas — que são expressões dos números e de suas relações na espacialidade.

Catedral de Chartres

Números, cores, sons e formas são os elementos da ciência do ritmo, utilizados na arte tradicional para dar cadência e movimento as nossas almas. Ritmo, melodia e harmonia são os pilares da arte Tradicional. Essa ideia não é nova, esse conhecimento era amplamente abordado pelos gregos antigos, tanto que a concepção de deus geômetra de Platão estava identificada a Apolo que, simbolicamente falando, além de representar a harmonia era o deus que presidia todas as artes.

Conclusão

A arte tradicional, além de trazer beleza e harmonia onde quer que seja exercida, nos proporciona pontes, sinalizações para aquilo que nos transcende, assim como, alimento para nosso desejo de conhecer e ir além (o que eu chamo de impulso de autotranscendência). Ela nos mostra que não estamos perdidos em um universo materialista e sem sentido, como muitos têm propagandeado por aí, mas que pelo contrário, que vivemos num cosmos que possui múltiplas dimensões, ou planos de manifestação da consciência, organizadas hierarquicamente, no qual todas as coisas estão interligadas por rigorosas correspondências e interrelações.


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