Sonhos e Símbolos – Por Javier Alberto Prendes Morejón

I – Considerações iniciais

Os sonhos são o agente intermediário entre o plano físico e o espiritual por onde fluem as correntes eletromagnéticas do alto ao baixo, agindo diretamente na fisiologia oculta dos Chakras e Nadis, reverberando igualmente nas glândulas e no sistema nervoso, assim manifestando-se seus efeitos ora como premonições, como visões do passado[1], como arroubos de encantamento por encontrar-se, por ventura, em corpo astral[2], em regiões sublimes, como mundos divinos estranhos à humanidade aqui mesmo patentes no orbe terrestre (o Orco ou os Mundos Intraterrenos[3]), ou já seja no Devakan[4] e até mesmo em outro astro do sistema solar, como a lua, marte e vênus, o que só o logram com alguma constância os Egos mais avançados entre nós.   

Os sonhos andam de mãos dadas com os poetas, impingindo inusuais descargas elétricas em sua substância cerebral através de sua forte e pungente imaginação, e seu acirrado sentimento, premonitório, pelo não visto, mas desde sempre pressentido. Tal não poderia ser distinto, pois, sendo o poeta a personificação da sensibilidade, desde que não traia esse mesmo arquétipo ou essa mesma sensibilidade em si inerente, a respeito do Desconhecido, ou esse fulgor que o separa dos demais apenas para voltar a unir-se ao Todo. Não raro o pensador e o artista divisam neles o fulgor de uma elevada aspiração, a resolução a algum magno problema e a feitura inspirada de uma obra, por vezes fazendo-se vibrar neles os eflúvios mentais e búdicos de Adeptos humanos (Jivas) e de outras Hierarquias (Jinas). Não poucas obras devem ter sido escritas assim ao longo da História humana, comumente sem o conhecimento de quem escreve daquele que inspira à distância e sutilmente, enganando-se ora ao acreditar que a obra é realmente de sua autoria. E isso não faz do homem necessariamente um médium no sentido vulgar, abandonado às interferências parasitárias de entidades astrais ou encarnadas, padecendo física e psiquicamente em consequência, mas sim um mediador[5], sobretudo se sabedor dos seres que atrai e lhe influenciam.  

É o mar próprio do simbolismo universal, onde a mente estabelece consciência com todas as Eras passadas, e até mesmo vindouras. O rico manancial simbólico dos sonhos mostra-nos como são os símbolos a linguagem primitiva[6], eterna e superior à que a mente humana pode ter acesso e tratar de devassar afim à compreensão dos mistérios da Vida e do Universo. Raros, logo, são os capazes de compreendê-los em detalhes e corretamente, pois a sua compreensão faz-se em especial pela faculdade intuitiva ou búdica em nosso Ser. Daí o auxílio buscado por muitos, através dos séculos, dos videntes de todas as culturas e povos do mundo, únicos capazes de desvelar certos símbolos muitas vezes intrincados, ilógicos e incompreensíveis à razão puramente humana, em todo inferior à Razão Iluminada, espiritual, divina e direta, instantânea, que é a da Intuição pura. Nem sempre se está, no entanto, em condições de interpretar corretamente as próprias intuições, nem de nelas acreditar, portanto, sendo necessária uma predisposição para que sejam de alguma valia. Muitos destes fenômenos são considerados devaneio e acessos de loucura pela Ciência, ou de inspirações diabólicas pelo populacho e as religiões dogmáticas. Tais considerações não passam de verdadeira loucura.

A interpretação dos sonhos pode ser considerada, ora, como a arte de pensar e perceber com as faculdades superiores do Espírito, só logrando a perfeição nessa arte os verdadeiramente sábios. Algo deles, apesar disso, pode compreender nosso intelecto humano, tarefa a que se dá a moderna psicologia. Mas ela jamais poderá entender certos sonhos em seu real e profundo sentido, se continuar a desconhecer as sete chaves da interpretação dos símbolos, que só é capaz de ministrar a Sabedoria Divina (Teosofia ou Sabedoria Iniciática das Idades) em sua completude, possuindo-as todas, outrora, o Ocultismo oriental, e talvez nem mesmo este completamente. Tais chaves, sim, estarão encerradas na Agharta. Por isso, a psicologia atual, acadêmica, nascida da psiquiatria, deve incorporar-se à psicologia esotérica, fruto dos antigos terapeutas, em tudo enraizados nas doutrinas herméticas, e muito mais antiga e superior em todas as esferas possíveis. Daí que os médicos futuros serão Iniciados e bastar-lhes-á o domínio das correntes magnéticas e o conhecimento profundo dos Grandes Arcanos para tratar os males do corpo começando pelos da alma, para lograr-se então a cura perfeita. Por isso a afirmação de Paracelso (aquele que está “além de Celso” ou é “superior à Celso”, médico romano que escreveu a obra Da Medicina, uma das primeiras a serem publicadas com a invenção da imprensa, porém pouco prezado em sua época, segundo se diz, e redescoberto pelo Papa Nicolau V, 1397-1455) num tirocínio profético:

Dia virá, médicos impostores! em que o céu na sua altíssima bondade, há de permitir a aparição na terra de verdadeiros médicos, sim, teurgos, capazes de curar a todos os males sem necessidade de medicamentos, usando apenas do prodígio e mistério dos Arcanos Maiores.

Outro tanto ele diz:

Quem melhor do que o médico pode conhecer o homem e reconhecer também quão enorme Deus o criou? O médico é quem melhor pode fazer conhecer a obra divina, a nobreza do mundo e aquela maior ainda do homem. Quem tal ignorar, não deverá pretender tornar-se médico.

Paracelso

E Teurgia significa, literalmente, Obra Divina, e teúrgico é o obreiro de um edifício ideado pelo Grande Arquiteto e levado a efeito pelos seus Filhos Maiores, isto é, os Anjos e Arcanjos, entronizados em sua cúspide os Sete Auto-Gerados, os Sete Luzeiros que presidem aos Mundos. Não é, pois, Deus quem cria o mundo, mas as Hostes de Anjos e Deuses, tendo Ele apenas elaborado em Sua divina mente o plano para a construção universal, tal qual o faz um arquiteto, incumbindo-lhe às Legiões Divinas o árduo e contínuo laborar de Seu pensamento. E em obediência à Sua vontade, os Exércitos Dhyan-Chohânicos (Deuses) erguem as pedras basilares, equiláteras, da grande construção cósmica através do que apreendem por meio da Anima Mundi, a expressão imediata “Daquilo”, sendo por isso os Senhores e Guardiões de cada planeta do Sistema Solar, pelo qual são responsáveis, estando divididos em suas 7 diferentes classes ou linhas, e velando pela evolução de tudo e todos.

            Como dito anteriormente, os sonhos fazem a mediação entre o plano físico e o espiritual. Por isso à noite o homem voa, enquanto de dia rasteja miseramente. “Águas flutuáveis”, poder-se-ia dizer, são os sonhos, por serem uma expressão gradativa do éter ou do akasha, no qual a alma navega desprendida de sua carapaça mortal, tal qual o molusco que abandona a sua concha, abrindo-se ao escrutínio da mente as modalidades profundas de sua própria potência, pois todo pensar e sentir, por automáticos e inconscientes que sejam, necessariamente traduzem-se por imagens com suas devidas cores, números e sons próprios de sua frequência vibracional.

II – O símbolo

            A importância do símbolo é tal, que enquanto as palavras se corrompem com os anos, e os livros definhem sob as prateleiras ou sob fogos ditatoriais de uma nova inquisição ou regime político, ou ainda por alguma intervenção das forças da natureza ou antes desgraça cataclísmica – dessas tão frequentes na História conhecida e mais ainda na História Oculta -, por outro lado, o símbolo – gravado na pedra, no bronze, no ferro ou no ouro, ou em qualquer outro metal, ou quer seja na madeira, na argila, no vegetal ou sob a terra – perdura milagrosamente através dos séculos sem conta, e a ideia(s) que representa(m), ancorando em cada mente desde a tenra infância, sobretudo através dos contos, subsiste ainda mais do que os seus veículos materiais, pois pertencem ao Mundo das Ideias, como diria o divino Platão, esse reservatório incomensurável de todas as coisas passadas, presentes e futuras.

Se as interpretações são desvirtuadas, o símbolo, porém, permanece inalterado em sua pureza prístina, pela grandeza das mãos de artista de quem o concebeu, ou melhor, de quem o pariu, pois não há ideia que já não esteja contida na Mente Divina, sendo o homem apenas um veículo de algo maior e transcendente em suas formas arquetipais. Daí que os seres humanos sejam verdadeiros pedreiros ou maçons da Natureza, pois tendo evoluído a tal Reino (o Hominal), por todos os outros abaixo de si se faz responsável (o Animal, o Vegetal, o Mineral e o Elemental), trabalhando na Natureza circundante ao mesmo tempo que aperfeiçoando-a.  

            O que uma verdade, para ser descrita, poderia demandar todo um parágrafo, capítulo, livro ou volumes, o símbolo o faz com mais facilidade e sinteticamente, indo afetar o agudo de nossa consciência. Na escala da linguagem escrita ou falada, somente os dizeres aforísticos podem tratar de equiparar-se (espécie de emblemas verbais), mas ainda assim ficam abaixo do poder científico, instantâneo e subjetivo do símbolo. Além disso, o símbolo transcende as diferenças de línguas – associadas ao mito da ruína da Torre de Babel -, enunciando verdades universais, que tanto o selvagem quanto o homem civilizado, culto, entenderão de imediato[7]. É a linguagem por excelência dos Mistérios e o meio ideal para se comunicar com seres de planos superiores que não compreendem as línguas humanas – exceto alguns de Hierarquias mais avançadas e com alguma função relacionada ao nosso plano físico -, junto a outros fatores combinados, como as cores, os sons, os números e os aromas. Em verdade, bê-á-bá da Iniciação.

            Toda História Universal está velada em símbolos, particularmente quanto mais se refira ao remotíssimo passado, pois diversas “humanidades” têm existido na superfície da terra. O mesmo se referirá ao conhecimento cosmogônico e às leis do Universo. Todas se apresentam sob o disfarce do símbolo e soam a terríveis e impenetráveis mistérios. As lendas e fábulas encerram sob o véu da poesia e da fantasia verdades adormecidas no imo da cultura e do profundo da consciência humana. Devemo-nos lembrar de que as artes e ciências mais de uma vez foram perdidas, como o afirma Aristóteles, e assim também devemos presumir que venham a ser retomadas. Encerram em si fatos – as lendas e fábulas – por detrás de uma máscara que apela mais à intuição do que ao intelecto, e por isso são rechaçadas pelo positivismo científico imperante, incapaz de desbravá-las, já que a Ciência estanca no Mental Concreto. E como não aceita o conhecimento esotérico, não pode também compreendê-los nem sequer intelectualmente, senão para catalogá-los como aberração. Assim, para a Ciência, constitui apenas Arte, no máximo, e de resto algo tal como esquizofrenia coletiva muito bem elaborada ao longo dos séculos e mais do que tudo charlatanismo e superstição popular indo afetar as pessoas mais cultas e mesmo eruditas.

            Tal visão, de todo errônea e preconceituosa, típica dos intelectuais de hoje, impede o mito de ser desbravado, pois ele é um oceano incógnito só passível de ser conquistado, em sua totalidade, por aquele timoneiro que possuir, como dito acima, as sete chaves que desvelam os símbolos. Tal mister compete tão-só aos sábios, e aos maiores dentre eles. Não pode a humanidade, em seu estado atual de evolução, querer pretender conhecer a complexidade escondida nos mitos e nas diversas tradições religiosas do mundo, que para a mesma ainda há de ser um mistério e fonte de confusões. Ambos possuem, os mitos e as Escrituras Sagradas de todo orbe, a sua conotação popular, exotérica, e aquela outra bem distinta e distante, a esotérica, que só a adquire a elite, ou seja, a qualidade versus a quantidade.

            Veja-se a este exemplo o Tarô (ou, anagramaticamente, “Rota”, rota dos 22 Arcanos Maiores, rota ou itinerário das civilizações e do aprimoramento humano até a sua síntese final, que é a criação da Pedra Filosofal, ou a Iluminação Espiritual, na linguagem alquímica), verdadeira síntese gráfica do saber humano e universal, unindo sábia e precisamente a ideia com a imagem, e estas com as cores e números correspondentes. Ali está tudo sob a alegoria do símbolo a ser decifrado. É assim um manancial precioso da mais elevada metafísica, e como todas as coisas belas e profundas na Face da Terra, deve ter sua origem, necessariamente, num mundo divino e inacessível ao comum dos mortais. Espólio e espólios do Eterno, por meio dos Deuses (Jinas, Super-Homens), à esta sua criação ainda absolutamente falível e imperfeita. Há inúmeras coisas presentes na vida do homem para mostrar-lhe que nunca esteve a sós no Universo; de que muitas coisas têm origem em mundos divinos, e não obrigatoriamente em outro planeta ou galáxia, mas talvez mais perto do que aparente… 

            E quando nisso pensamos, lembremos que assim o é com relação às filosofias transcendentais que serviram de base às religiões do mundo – embora os Iluminados jamais tenham criado seita ou religião alguma eles mesmos, senão seus discípulos ou os que assim se diziam -, também às mais diversas obras de arte, avanços científicos, e à própria Teurgia e ao Raja-Yoga (que equivalem-se mutuamente), sem falarmos nos destinos sócio-políticos da humanidade. Quer seja diretamente, por presença carnal de grandes Adeptos ou Mestres de Sabedoria, quer seja indiretamente, através da inspiração à distância, nunca esteve desamparada a civilização humana, a atual Raça Ariana, de seus Protetores, Progenitores e Guardiões. Caso contrário, há muito a mesma teria sucumbido na feroz atrocidade do autoextermínio, mais moral do que físico, ou numa idade sempre prolongada e fixa de progresso algum. E ainda que os avanços tardem, material, intelectual e moralmente, a Evolução, que não dá saltos, faz-se sempre, de ciclo em ciclo, em espiral ascendente, lenta, mas em direção a uma finalidade superior e por nós incompreendida.

            Conclui-se, de tudo o dito até agora, que as grandes verdades da vida e do universo estão encerradas em símbolos, e que toda e qualquer obra religiosa, mitológica, lendária ou mistérica, não deve ser lida em termos literais; e de que a Arte, os métodos anagramáticos e as fábulas e máximas são seus véus prediletos. Desse modo algo é dito, ainda que veladamente, incumbindo ao esforço particular de cada um levar a cabo o seu exato entendimento. Que cada um faça por si o que só a si compete é verdade eterna e ineludível. Daí que a sua hermenêutica deve ser feita por meio de livros, pela intuição sobretudo, por colóquios com sábios e, enfim, através da Iniciação e da experiência prática.

            Logo, sendo o Simbolismo a linguagem dos Mistérios e divina por excelência, natural é que seja negligenciado seu estudo pela humanidade. Nem mesmo os modernos curadores de arte sabem apreciá-lo e compreendê-lo minimamente que seja – por serem apenas profanos -, nem a maioria dos artistas do mundo, que tem sensibilidade, mas não entendimento. Para todos eles e para quase todos, fica o que aparenta ser: um enigma, uma espécie de esfinge intraduzível, e algo sem importância factual nem relevância para a vida prática e intelectual, no pior dos casos.       

            Certeira foi a consideração de Manly P. Hall, a respeito de tudo quanto tem sido enunciado até o momento, quando diz:

Hoje em dia, os homens olham com admiração e reverência para os poderosos templos que estão sozinhos nas areias do Egito, ou para as belas pirâmides de terraços da Mesoamérica. Testemunhos mudos são das artes e ciências perdidas da antiguidade; e oculta esta sabedoria deve permanecer até que a raça humana tenha aprendido a ler a Linguagem Universal – SIMBOLISMO. O Grande Arcano sempre foi escondido em Símbolo e Alegoria; aqueles que hoje podem descobrir as suas Chaves Perdidas podem abrir com elas um tesouro de verdades filosóficas, científicas e espirituais.

III – O símbolo e o emblema

            Qual, pois, a diferença entre um e outro? Baseio-me aqui nos ensinamentos contidos na Doutrina Secreta, escrita por H.P.B.[8], no tomo Simbolismo Arcaico Universal[9]. Ela transcreve, citando o maçom e teósofo Kenneth Mackenzie, uma passagem da sua obra Royal Masonic Cyclopoedia:

Compreende [o emblema] uma série de pensamentos maior que a do símbolo, o qual se deve antes considerar como destinado a esclarecer uma só ideia especial. […] é uma pintura ou signo visível, que representa princípios ou uma série de princípios, compreensíveis para aqueles que receberam certas instruções (Iniciados).

Ao que complementa H.P.B.:

Daí resulta que os símbolos –lunares ou solares, por exemplo- de vários países, compreendendo cada qual uma ideia ou série de ideias especiais, formam coletivamente um emblema esotérico. […] Para dizer ainda com maior clareza, um emblema se compõe geralmente de uma série de pinturas gráficas, consideradas e explicadas alegoricamente e que desenvolvem um ideia em vistas panorâmicas, apresentadas umas depois das outras. Assim, os Purânas são emblemas escritos. Igualmente o são os dois Testamentos, o Antigo ou Mosaico e o Novo ou Cristão, ou a Bíblia, e todas as demais Escrituras exotéricas.

Diz ainda Kenneth Mackenzie:

Todas as sociedades esotéricas fizeram uso de emblemas e símbolos – como a Sociedade Pitagórica, a dos Eleusinos, as Confrarias Herméticas do Egito, os Rosa-Cruzes e os Francomações. Muitos desses emblemas não convém que sejam divulgados; e uma diferença muito pequena pode modificar consideravelmente a significação do emblema. Os selos mágicos, fundados em certos princípios dos números, incluem-se entre eles, e, ainda que pareçam monstruosos e ridículos aos olhos dos ignorantes, transmitem todo um corpo de doutrina aos que souberem reconhecê-los.

Símbolo – Bem e Mal, Lei da Polaridade
Emblema – A da esquerda criado por Helena Petrovna Blavatsky em 1875, e a da direita criado por Henrique José de Souza em 1924

IV – As sete chaves dos símbolos

Doutrina Secreta, Tomo II[10]:

            Afirma-se que a Índia, não a dos limites atuais, mas compreendendo suas antigas fronteiras, é o único país do mundo que ainda conta, entre seus filhos, Adeptos que possuem o conhecimento de todos os sete subsistemas, e a chave do sistema completo. Desde a queda de Menfis, o Egito começou a perder as suas chaves, uma após outra, e a Caldéia não possuía mais de três na época de Berose. Quanto aos hebreus, não demonstram em todos os seus escritos senão um conhecimento completo dos sistemas astronômico, geométrico e numérico, que utilizavam para simbolizar as funções humanas e especialmente as fisiológicas. Nunca possuíram as chaves superiores.

As sete chaves mencionadas dispõem-se da seguinte maneira, de acordo com a Teosofia Eubiótica lavrada pelas mãos do iminente Professor Henrique José de Souza, e corroboradas pelo seu discípulo Sebastião Vieira Vidal, quem no seu manuscrito AKBEL, NOVO PRAMANTHA A LUZIR (NOVO PALUZ), na página 121, denomina de CHAVES DO CONHECIMENTO SUPERIOR ou INICIÁTICO:

  1. Numérica
  2. Geométrica
  3. Astrológica
  4. Alquímica
  5. Histórica
  6. Biológica
  7. Metafísica

V – Hipnos, Morfeu, Netuno – Deuses gregos das profundezas

O sono, pode-se dizer, é a morte da percepção da vida física – embora não morte do ponto de vista orgânico -, e, por conseguinte, o renascimento à vida hiperfísica. Logo, o dia está para os sentidos como o sono para o espírito. Na verdade, espírito aqui compreendido como as suas faculdades superiores ou, como seja, os dois últimos sentidos a serem desenvolvidos pela humanidade: a clarividência e clariaudiência, os sexto e sétimo sentidos ocultos e latentes em todo homem. O dia espiritual, nesse sentido, começa à noite, e o dia físico ao alvorecer. Daí que a meia-noite, especialmente em momentos de lua-cheia, é tão importante para a Magia – não obstante o reservatório de Prana ser menor durante a noite do que de dia, dada a influência vitalizante do Sol.

O que para a Ciência é inconsciente, para o ocultista é pura consciência. O único fato realmente donoso na vida é descarecermos da consciência real daquilo que vislumbramos como trevas, quando em verdade é assim tão-só pela fechadura de nossos olhos não atinarem ao que há de mais excelso, em nós como fora de nós, por assim dizer desta maneira imperfeita, pois a luz do homem é a quinta-essência da luz de Deus, norte e farol de tudo quanto existe e respira e Nele se move; e sendo um reflexo “Daquele” ou “Daquilo”, não pode ser um e outro coisas distintas e separadas, mas uma só coisa. A Lei de Unidade é imperiosa. Tudo há de voltar ao Um e o Um ao Zero.

Podemos resumir a experiência humana em quatro compassos. Nisto ponho o teúrgico Hugo Martins, da Comunidade Teúrgica Portuguesa, a esclarecer-nos, segundo o que está dito no GRAU KARUNA de tal escola teosófica, na monografia 7:

  1. CADEIA DE SATURNO – “sono profundo”
  2. CADEIA DE SOLAR – “sono sem sonhos”
  3. CADEIA DE LUNAR – “sono com sonhos”
  4. CADEIA DE TERRESTRE – “vigília”

Os sonhos podem referir-se a múltiplos fatores, como por exemplo:

  1. Fatos da rotina diária (presente).
  2. Medos, apreensões, fobias, ansiedades (estados emocionais aflitivos e confusos, muitos de caráter patológico, nisso o karma pretérito se manifestando psicofisicamente na vida hodierna), assim como estados de exaltação, alegria, furor (sonhos fruto do mundo astral humano).
  3. Fatos passados, de décadas atrás indo até o período fetal e mais ainda em direção às vidas passadas (aqui, quanto maior o desenvolvimento espiritual humano, mais pode-se remar em direção ao pretérito da própria existência individual, perpassando e revendo as vidas no Reino Animal, Vegetal e Mineral, nos quais todo ser humano, em ordem sucessiva, obrigatoriamente, tem de passar, e nisso igualmente os Anjos), tanto quanto fatos históricos de eras passadas perdendo-se nos éons da Eternidade.
  4. Visões proféticas.
  5. Visões ocasionadas pela influência de outrem, conscientemente ou não.
  6. Sonhos que revelam-nos conhecimentos a respeito de algum problema qualquer que desejamos fortemente desvendar (sonhos relacionados, assim, ao mundo mental humano).

Certas vezes há ocasiões que presumimos termos tido um sonho, quando em verdade o que retivemos foi a memória de uma vivência real em Mundos ou Planos Superiores, o mais baixo dos quais é o Plano Astral, de predileção dos Animistas, mas não dos maiores ocultistas e Adeptos, que a esse Plano não dão demasiada importância, nem nele estão muito presentes, a não ser para certas tarefas, geralmente para auxílio e instrução de almas que lá se encontram perturbadas, erráticas, tal como em vida.

Hipnos

Hipnos ou Hypnos (em grego transliterado, significa literalmente “sono”) é uma divindade cuja progenitora é Nix (literalmente “noite”), esta que se diz originária do Caos, sendo a segunda das criaturas criadas, ao lado de seu irmão gêmeo Érebo (outra versão afirma ser Érebo seu progenitor), logo vindo à existência Gaia, a Terra, etc. Em Roma, era denominado de Somno. Hipnos e Tânato (literalmente “morte”) estiveram sempre intimamente associados, sendo antigamente representados um ao lado do outro, como o faziam em Esparta, pois eram também irmãos gêmeos, num total de nove irmãos. O sono é, de fato, uma espécie de morte, ao menos no que diz respeito aos sentidos físicos e logo à percepção ordinária da vida. De seu nome provém o termo “hipnose”, sendo esta uma técnica explorada largamente no século XIX, aquando do começo da psiquiatria e da psicanálise, sobretudo por doutores como Charcot, o seu principal defensor e utilizador. Este método, embora semelhante, difere grandemente do Mesmerismo ou Magnetismo Animal, uma vez que este não necessita pôr o paciente em estado de inconsciência para operar seus efeitos terapêuticos, nem necessita recorrer necessariamente à autossugestão para fins medicinais, senão da manipulação, pela forte vontade do operador, do fluído magnético, vital, presente no ambiente circundante e do próprio mesmerista, que assim “tira” de sua saúde para “doá-la” ao enfermo, com a precaução de não se exaurir e morrer ele mesmo, ou ficar adoentado no mesmo estado, ou pior, daquele que pretendeu curar. Freud a princípio usava a hipnose como método, já celebrizado em seu meio e catalogado como real e científico, porém, abandona-o posteriormente. Enquanto o hipnotismo é aceito, o mesmerismo ainda é tido, modo geral, como pseudociência, não obstante a existência da respeitabilíssima Sociedade de Magnetismo de Paris. É interessante notar que há quem afirme que o próprio Mesmer fora instruído pelo célebre Saint Germain, para que pudesse polir seus conhecimentos a respeito das correntes vitais e assim fazer avançar no mundo este antigo segredo tão notoriamente velado através dos séculos, desde os recessos dos templos Hindus aos do Egito e da Grécia.

Hipnos e Tânato – Por John William Waterhouse

É propícia a ocasião, neste estudo, para transcrever um fragmento do artigo do ilustre Professor Henrique José de Souza, fundador da Sociedade Teosófica Brasileira, num artigo intitulado “Tratamento Mental”, em que se discorre sobre temas acima mencionados:

O Tratamento Mental é a arte de aplicar o conhecimento metafísico das Leis do Ser e da Natureza em direção aos movimentos automáticos e involuntários da alma inferior ou animal (kama-manas), também chamada de subconsciente, corpo astral. Foi a ciência da direção sistemática da vida humana que formou a base da Ciência da Antiga Magia.

O Tratamento Mental é diferente, quer do Magnetismo, como da Sugestão, do Hipnotismo, da Psicanálise etc., pois inclui na sua prática um fator metafísico de forma elevada: tal fator se baseia na União do Homem com o seu Criador, que é o mesmo objeto da Ioga oriental. Donde a tradicional frase sânscrita do Iogue no momento de entrar em transe ou Samádhi: Tat twan Asi (Eu sou Ele. Eu sou Brahmá, o Eterno Onisciente, Onipotente e Onipresente).

Estes três atributos não são aqui empregados arbitrariamente, pois correspondem às três emanações sucessivas do Infinito: o Pensamento (Manas), a Força (Jiva) e a Matéria (Prákriti).

O emprego do Magnetismo – tal como do Hipnotismo, da Sugestão e da Psicanálise – não necessita do estudo aprofundado da relação existente entre o Homem e Deus (a Unidade Imperecível donde tudo e todos procedem), enquanto o Tratamento Mental exige o indispensável conhecimento metafísico da parte puramente espiritual do homem, que também se poderia chamar de fisiologia oculta ou de hiper-biologia humana.

O Magnetismo limita-se, com efeito, a determinar, mecanicamente, por assim dizer, certos movimentos mais ou menos extraordinários do Fluído Vital enquanto a Sugestão age sobre o comando psicomental de nossos atos, conscientes ou inconscientes, sem se preocupar com os resultados que do mesmo se derivam.

Não queremos dizer com isto que na prática, esses três métodos de curar estejam isolados uns dos outros; porém, não é menos verdade que, teoricamente, eles são completamente distintos. O Tratamento Mental pelo seu mecanismo de ação exige, certamente, que se ponha em jogo a Autossugestão ou Ideação. A Sugestão, ou Psicoterapia, concorre para os movimentos fluídicos que representam a mola principal do Magnetismo, mas com isto, seria absurdo querer confundir o Magnetismo com a Sugestão.

            Hipnos é retratado como um jovem nu empunhando uma flauta. Também é mostrado num leito, adormecido, envolto por cortinas negras. Tem como atributos um chifre contendo ópio, um talo de papoula, uma tocha invertida e um ramo escorrendo água do Rio Leto (rio do Esquecimento). Se diz que vivia num grande palácio dentro de uma caverna no oeste longínquo onde o sol nunca dava, e ali vivia em paz e tranquilidade. Também é retratado usando trajes dourados, ao contrário de seu irmão Tânatos, que costumava vestir-se com peças prateadas.

            A Ciência, atualmente, divide o sono em quatro fases. São elas:

Estágio 1: É o estágio do adormecimento.

Estágio 2: É o estágio de um sono mais leve.

Estágio 3: É o estágio onde o corpo já começa a entrar em um sono profundo, no qual a atividade cerebral começa a diminuir.

Estágio 4: É o estágio do sono profundo, no qual corpo repõe as energias do desgaste diário.

               Note-se como a própria Ciência, sem o saber, corrobora os ensinos teosóficos a respeito do Quaternário (a Tetraktys pitagórica) como número regente de nosso mundo (a Terra, o 4º Globo na 4ª Ronda, etc.)

 

                        Morfeu

            Filho de Hipnos, é o Deus dos Sonhos. Morfeu significa literalmente “moldador, forma”, com isso assinalando a sua capacidade de assumir as mais diversas formas durante os sonhos, e através deles influindo nos mortais. Quando tais sonhos tornam-se onerosos, negativos, é a Ícelo, Deus dos Pesadelos, a quem se lhes atribui. “Cair nos braços de Morfeu”, expressão tradicional, logo, significa cair nos braços dos sonhos, e de sonhos belos e tranquilos. Vê-se como em toda teogonia há uma hierarquização perfeita das inúmeras atribuições divinas ou naturais dentro de uma mesma esfera maior. De Morfeu, ou Morphéus transliterado, é que provém o termo morfina, por esta substância agir como anestesiante levando à sonolência ou inconsciência se usada em doses elevadas (droga usada largamente na guerra para fins de aumento da adrenalina e por motivos de ferimentos, além de usada em pacientes em tratamento medicinal e igualmente na cultural juvenil para o excitamento dos sentidos).  É retratado como um ser alado, como tantos outros na mitologia grega e universal, e por Ovídio, em sua obra Metamorfoses, foi descrito como vivendo numa escura caverna rodeada de flores e sob uma cama feita de ébano (ébano cuja cor característica é o negro). É também muito significativo relembrar-nos que no culto de Esculápio ou Asclépio (Deus da Medicina) usava-se dos sonhos como meio de cura e de revelações, bastando para isso com que o indivíduo se retirasse a um templo ou lugar sagrado destinado à tal prática, assim conseguindo, eventualmente, o resultado almejado. A tal rito é que refere-se o termo incubação, ou seja, quando se é incubado ou penetrado pelos manes oudeuses, quem propiciarão a melhora do estado de saúde e/ou as revelações almejadas. 

Outras divindades ligadas ao sono e aos sonhos são:

Fântaso – criador dos objetos inanimados, monstros, quimeras e devaneios que aparecem nos sonhos e ficam na memória.

FantasiaDeusa do Delírio e da fantasia.

É particularmente interessante notar como nos sonhos a vida adquire uma magnitude inusitada, em tantos sentidos, especialmente em relação ao tempo, ao espaço e à concretização dos desejos e pensamentos. Evola-se a sensação temporal, que na terra é praticamente uma cruz, ainda mais com tantas rotinas e deveres diários, sobretudo quando estamos tristes e realizando tarefas repetitivas e desgostosas, para naquela outra dimensão ter-se a sensação de uma duração atemporal, algo como um presente contínuo, inesgotável, sem divisões de horas e minutos. Tratar-se-á de uma sensação de infinitude. E como isto explicar é questão assaz valiosa. O tempo, de fato, no mundo astral ou mental, diverge do tempo sentido na terra, onde tudo parece esvair-se com celeridade. Daí a menção de um dia astral poder equivaler a semanas na terra, uma semana a meses e meses a anos e anos a séculos, e assim por diante. Algo disso remete-nos à vida no espaço sideral, onde o tempo parece transcorrer de outra maneira, isto é, muito mais lentamente do que na terra, segundo a própria ciência.

Também o espaço não parece obedecer às leis daqui de baixo, nesta densidade tão abrumadora que tão limitantes possibilidades nos impõem, sobretudo com tecnologia ainda tão precária (pese o ufanismo contemporâneo sobre a sua própria elevação material) e mais que tudo com os entraves sócio-políticos e econômicos que embargam o passo à realização verdadeira da Fraternidade e da conseguinte supressão das barreiras geográficas, aduaneiras e culturais – barreiras que hão de ser, antes de tudo, barreiras conscienciais, recalcadas em preconceitos e beligerâncias egoístas visando interesses particulares ou de grupos, tão incipiente ainda é a nossa evolução. Que impedimento haveria, em sonhos, ou no mundo astral, se não há carne nem ossos? se os órgãos e os sentidos libertam-se da massa corpórea, esse invólucro rude que nos oprime? As distâncias, nessa outra condição, respondem mais que tudo às vontades ou desejos que nutrimos, deslocando-nos rápida e imediatamente até o ponto onde queremos. Assim, nem a Lua estará tão longe do contato humano, nem o Everest de quem habita algum extremo do mundo. Quantas vezes não nos vemos voar em sonhos, até mesmo por entre os prédios de nossa cidade, e de repente estamos já em outra latitude do globo? Quantas vezes isso já não nos fez sentir-nos deuses, e em tudo maiores do que somos ao acordarmos? 

E igualmente o que desejamos ou pensamos, nessa dimensão fluídica, se vê materializado ante nossos olhos com incrível rapidez. Não será estranho que os homens cheguem a enamorar-se da vida aquando em sonhos, reais ou não, e de que também as almas, nos subplanos superiores do Astral, tomem o Paraíso que ali existe como a etapa final da vida humana, dali não querendo sair, embora o Astral quanto o Mental sejam ambos impermanentes e, no fim, ilusórios, como tudo que tem de deixar de ser. Só o espírito há de ser imperecível e eterno, e coeterno ao Divino.

Que os homens na Face da Terra vivam inconscientes, é o mesmo que dizer que estão sonhando, e neste caso sonhos terríveis e sem verniz. Não é o bom sonho de Morfeu, mas o indesejável brindado pelas Eríneas e Ícelo.

Pierre-Narcisse Guérin

Netuno

            Netuno, Poseidon ou Posídon, é o filho de Saturno e irmão de Júpiter (Zeus, Deus do Céu, Pai dos Deuses Olímpicos) e Plutão (Hades, Deus do Inframundo onde estão localizados tanto o Tártaro quanto os Campos Elíseos). Deus dos mares, logo ligado está às sereias, ninfas e tritões (elementais da água, femininos e masculinos). Os mares anunciam as profundezas e, portanto, Poseidon (também metáfora do Sétimo Princípio humano, Atmâ) referir-se-á aos abismos e ao inconsciente. O sono há de ser uma espécie de vão, de abismo, de ruptura com as coisas dadas no mundo fictício e irreal dos homens, em tudo destoantes às verdades superiores da vida. Pois os sonhos são pórticos invisíveis em que as almas transpõem as efemérides cotidianas, para verem e extrapolarem o efêmero dos sentidos, em direções várias, boas ou ruins. Poseidon é um arquétipo do fluídico, tal como essa teia a que damos o nome de sonhos. Se Zeus ou Júpiter está com o Céu em sua posse, Netuno ou Poseidon possui o mar ou antes a terra, e, como dito antes, os ínferos pertencem ao seu outro irmão Plutão ou Hades, assim conformando-se a tríade Mundo-Submundo-Inframundo ou Céu-Terra-Inferno.    

Netuno na cidade de Nuremberg, Alemanha
Netuno representado numa fonte, na cidade italiana de Florença

VI – Algumas frases e poemas em menção aos sonhos

SONHO DENTRO DE UM SONHO

Receba este beijo sobre a testa!
E, te deixando a partir de agora,
Então, deixe-me te contar:
Você não está errado, você que considera
Que meus dias foram um sonho;
Mesmo que a Esperança tenha sumido
Em uma noite, ou em um dia,
Numa visão ou em nada mais,
É, portanto, o que menos se perdeu?
Tudo o que vemos ou transparecemos
É nada além de um sonho dentro de um sonho.

Permaneço no meio do rugido
De uma onda agitada a “quebrar”,
E seguro dentro de minha mão
Grãos da areia dourada –
Quão poucos! Ainda, enquanto eles escorrem
Por entre meus dedos, lá para o fundo [da água],
Como eu lamento, como eu lamento!!
Ó, Deus! Não posso agarrá-los
Com um cinto apertado?
Ó, Deus! Não posso guardar nenhum deles
Da onda impiedosa [do Tempo]?
Tudo que vemos ou transparecemos,
Não é mais que um sonho dentro de um sonho?

In “Histórias Extraordinárias” de Edgar Allan Poe

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A VIDA É SONHO

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

Calderón de La Barca

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O homem pensa.
A mulher sonha.

Pensar é ter cérebro.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano.
A mulher é um lago.

O oceano tem a pérola que embeleza.
O lago tem a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa.
A mulher, o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.

O homem tem um farol: a consciência.
A mulher tem uma estrela: a esperança.

O farol guia.
A esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.
A mulher, onde começa o céu!

Victor Hugo

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Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa

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A esperança é o sonho do homem acordado.

Aristóteles

Sonhar é acordar-se para dentro.

Mario Quintana

Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor.

Johann Goethe

Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã.

Victor Hugo

Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.

Fernando Pessoa

De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.

Fernando Pessoa

Abandonar a vida por um sonho é estimá-la exatamente por quanto ela vale.

Michel de Montaigne

VII – Sobre o bem que a alma experimenta nos sonhos e os empecilhos ou as angústias ao abrir dos olhos

Existem alguns sonhos que trazem-nos o amargo gosto de relembrar-nos o mundo vil – em quase tudo baixo – em que vivemos, ou mais bem sobrevivemos, ou mais bem ainda tão-só existimos… em detrimento a eventuais sonhos com paisagens, aromas, experiências e seres encantados e encantadores. Neles, por vezes, vivemos as idealizações – conscientes ou não – e os desejos que mais nos movem na vida e que ora não estão realizados neste plano de misérias e aflições. Daí, naturalmente, uma enorme discrepância entre o sonho com suas fantasias e seus mundos nuvemoventes e o mundo “real” ou concreto – que de real só possui o nome, pois é todo ele ilusão. E assim, não raro, o homem se deprime, e a renúncia à vida é o resultado de seu fatídico desalento, ainda que a confusão mental que o aflija não se esvaia, de fato, tão-só pela morte do corpo físico, logo da existência ou perpetuidade dos maus sentimentos e a tribulação mental afetar ainda o homem no plano astral ou no post-mortem. Vai o homem, para aquele plano, com tudo que reteve de bom ou nocivo em sua vida. Ilusão, desde logo, a fuga dos tormentos da vida terrena por meio do suicídio. Pelo contrário, tal ato só acarretará maiores males, garante-nos o ocultismo.

            Se a memória dos outros mundos acima deste – dentre todos o mais material e sempre em ambivalência – nos fosse facultada desde o berço, ora sofreríamos de terrível nostalgia que nos embargaria o passo à frente neste plano, tornando a vida terrena ainda mais insuportável e deprimente. Logo, nossa cegueira dos mundos celestes, tanto de suas partes boas quanto más, por um lado, é em realidade uma proteção contra uma decepção que poderia nos afastar de nossos trabalhos terrenos e o esquecimento mesmo do sentido de aqui encarnarmos, pois, se aqui estamos, é porque faz parte da Vontade Divina. Chegará a hora, aquando da morte de nossa carapaça carnal, em que vislumbraremos atônitos as realidades que ora são, para a generalidade dos mortais, apenas crendices ou critérios obscuros perpetuados por almas demasiadamente fantasiosas, ou que assim acredita-se serem. Ora, sendo assim, não acharemos abrigo na Verdade enquanto vivos, mas somente a veremos – em parte e em muito maior grau – no solene abrir dos olhos no fluídico mundo a nós reservado após a morte: o Plano-Dimensão Astral, o Encantado Reino de Maya. Sobre isto as religiões não falam, e para esclarecê-las posta-se o ocultismo à vanguarda.

            É, portanto, imperioso que o homem mantenha bem presos os pés no chão, embora deva sempre elevar o olhar a mundos distantes, ou aparentemente distantes, embora interligados e entrecruzados. Se não o faz, por exemplo, vivendo apenas concretamente ou horizontalmente, deixará de atinar às luzes reais e, se apenas atinar a estas, só poderá sentir saudosismo e, no pior dos casos, angústia profunda e mesmo revolta contra a Divindade.

            Pouquíssimos, neste mundo, andam de mãos dadas com o sol e a lua em ambas as mãos, sendo assim harmoniosos no que há de lunissolar na natureza humana, ou antes no Espírito imortal, portador de todas as luzes sanadoras. Pois ao não fazê-lo incorremos em erro, e assim lavrando nossos anos damos margem às infelicidades que ora se veem em toda extensão do orbe terráqueo e põe em dúvida a própria Vida, Deus, e a grandiosidade do Homem, este que é a magna criação do Eterno, a mais bela das criaturas criadas e a mais inteligente de todas. É, por assim dizer, um itinerário que cabe ao homem superar, para de fato ser o pivô deste plano, e fazer jus a si próprio como a coroa de Deus.     

VIII – Palavras necessárias, imprescindíveis, de Helena Petrovna Blavatksy

            Tudo quanto não fora dito pelo autor pretende ser arrematado – em parte, pois que o assunto é de longe esgotável com um mero estudo como este – com o texto a seguir[11], onde copiosamente a erudição de Blavatsky é vertida, como raros seriam capazes:

Pergunta: Quais são os “princípios” que estão ativos durante o sono?

Resposta: Os “princípios” ativos durante os sonhos comuns – que devem ser diferenciados dos sonhos reais, e devem ser qualificados como visões aleatórias – são Kama e Manas inferior. Kama, a sede do Ego pessoal e do desejo, desperta para uma atividade caótica devido às reminiscências sonolentas de Manas inferior.

P: O que é Manas inferior?

R: É normalmente chamado de alma animal (o nephesh dos cabalistas hebreus). É o raio que emana do Manas superior ou Ego permanente, e é aquele “princípio” que forma a mente humana, e nos animais forma o instinto, porque os animais também sonham. A ação combinada de Kama e da “alma animal”, no entanto, é puramente mecânica. É o instinto, não a razão, que está ativo neles. Durante o sono do corpo, esses dois princípios trocam mecanicamente impulsos elétricos com vários centros nervosos. O cérebro dificilmente recebe impressões deles, e a memória os guarda naturalmente sem ordem ou sequência. Ao despertar, essas impressões desaparecem gradualmente, assim como acontece com qualquer sombra passageira que não tem em si uma realidade básica e substancial. A função retentiva do cérebro, no entanto, pode registrar e preservar essas impressões se elas forem impressas com força suficiente. Mas, em geral, a nossa memória registra apenas as impressões passageiras e distorcidas que o cérebro recebe no momento de despertar. Esse aspecto dos “sonhos”, no entanto, tem sido suficientemente observado e é descrito de modo bastante correto em obras modernas de Fisiologia e Biologia, já que esses sonhos humanos não diferem muito dos sonhos dos animais. O que é inteiramente terra incógnita para a ciência são os sonhos reais e as experiências do Ego superior, que também são chamados de sonhos, mas não deveriam ser qualificados assim, ou então o termo usado para as outras “visões” durante o sono deveria ser mudado.

P: Qual é a diferença entre eles?

R: A natureza e a função dos sonhos reais não podem ser compreendidas, a menos que nós admitamos a existência de um Ego imortal no homem mortal, independente do corpo físico, porque o assunto se torna completamente incompreensível se acreditarmos – um fato verdadeiro – que durante o sono permanece apenas uma forma animada de barro, cujos poderes de raciocínio independente estão completamente paralisados.

Mas se admitirmos a existência de um Ego mais elevado ou permanente em nós – um Ego que não deve ser confundido com o que nós chamamos de “Eu Superior” – poderemos compreender que aquelas experiências que frequentemente consideramos como sonhos, e que são geralmente vistas como fantasias aleatórias, são, na verdade, páginas avulsas arrancadas da vida e das experiências do homem interno, cuja pálida lembrança, no momento do despertar, se torna mais ou menos distorcida pela nossa memória física.  Essa lembrança capta mecanicamente algumas impressões de pensamentos, dos fatos testemunhados e dos atos realizados pelo homem interno durante as suas horas de completa liberdade. Porque o nosso Ego vive a sua própria vida, independente da vida que há dentro da sua prisão de barro, sempre que ele fica livre dos impedimentos da matéria, isto é, durante o sono do homem físico. É esse Ego que é o ator, o homem real, o verdadeiro eu humano. Mas o homem físico não pode sentir nem estar consciente durante os sonhos; porque a personalidade, o homem externo, com seu cérebro e aparelho pensante, está paralisado de modo mais ou menos completo.  Nós poderíamos comparar corretamente o verdadeiro Ego a um prisioneiro, e a personalidade física ao carcereiro da prisão. Se o carcereiro adormece, o prisioneiro escapa, ou, pelo menos, passa pelos muros da prisão. O carcereiro está meio adormecido, e faz sinais com a cabeça através de uma janela através da qual ele pode captar apenas algumas imagens ocasionais do seu prisioneiro, do mesmo modo como ele veria uma sombra que se movimentasse em frente à janela. Mas o que ele pode perceber, e o que ele pode saber sobre as reais ações, e especialmente sobre os pensamentos do prisioneiro?

P: Os pensamentos de um deles não ficam impressos na consciência do outro?

R: Não durante o sono, pelo menos; porque o Ego real não pensa do mesmo modo que a sua personalidade temporária e passageira. Durante as horas de vigília os pensamentos e a Voz do Eu Superior podem chegar ou não ao seu carcereiro, o homem físico, porque eles são a Voz da sua Consciência; mas durante o sono dele eles são absolutamente “a Voz no deserto”. Nos pensamentos do homem real, ou da “Individualidade” imortal, as imagens e visões do passado e do futuro são como o Presente; e os seus pensamentos também não são como os nossos, umas imagens subjetivas em nosso processo cerebral, mas são ações e atos vivos, são fatos do tempo presente. São realidades, assim como já eram quando não havia a fala expressa através de sons; quando os pensamentos eram coisas, e os homens não necessitavam expressá-los através da fala, porque eles próprios os transformavam imediatamente em ação através do poder de Kriya Shakti, aquela força misteriosa que transforma de modo instantâneo ideias em formas visíveis, e isso era algo tão objetivo para o “homem” do início da terceira Raça quanto os objetos visíveis são objetivos agora para nós.

P: Como, então, a filosofia esotérica explica a transmissão mesmo de uns poucos fragmentos dos pensamentos do Ego para a nossa memória física, e que ela é capaz de reter?

R: Todos esses pensamentos são refletidos no cérebro de quem dorme, do mesmo modo como as sombras externas se refletem sobre as paredes de tela de uma barraca, e o ocupante da barraca as vê quando acorda.  Então o homem pensa que sonhou tudo aquilo, e sente como se ele tivesse vivido algo, quando na verdade são os pensamentos-ações do verdadeiro Ego que ele percebeu palidamente. À medida que ele fica completamente desperto, a cada minuto as suas lembranças se tornam distorcidas e se misturam com as imagens projetadas do seu cérebro físico, sob a ação do mesmo estímulo que faz acordar aquele que dorme. Essas lembranças, através do poder da associação, colocam em ação várias sequências de ideias.

P: É difícil compreender como o Ego pode estar ativo durante a noite realizando coisas que ocorreram muito tempo atrás. Não foi afirmado que os sonhos não são subjetivos?

R: Como pode ser subjetivo quando o próprio estado de sonho é para nós, e no nosso plano, pelo menos, um estado subjetivo?  Para aquele que sonha (o Ego), no seu próprio plano, as coisas daquele plano são tão objetivas para ele quanto as nossas ações são para nós.

P: Quais são os sentidos que agem durante os sonhos?

R: Os sentidos de quem dorme recebem choques ocasionais e são levados a ações mecânicas; o que ele ouve e vê é, como já foi dito, um reflexo distorcido dos pensamentos do Ego. Esse último é altamente espiritual, e está associado estreitamente com os princípios mais elevados, Buddhi e Atma. Esses princípios mais elevados são inteiramente inativos no nosso plano, e o próprio Ego superior (Manas) fica mais ou menos adormecido durante o período em que o homem físico está desperto. Esse é o caso, especialmente, das pessoas cuja mente é muito materialista. As funções espirituais estão tão paralisadas, devido ao fato de que o Ego está muito limitado pela matéria, que Ele dificilmente pode dar toda sua atenção às ações do homem, mesmo que esse último cometa pecados pelos quais aquele Ego – quando reunificado com seu Manas inferior – tenha que sofrer conjuntamente no futuro. São, como eu disse, as impressões projetadas no homem físico por esse Ego que constituem o que nós chamamos de “consciência”; e na medida em que a personalidade, a Alma inferior (ou Manas inferior) se unifica com sua consciência ou Ego superior, a ação deste último sobre a vida do homem mortal se torna mais nítida.

P: Esse Ego, então, é o “Eu superior”?

R: Sim; é Manas superior iluminado por Buddhi; o princípio da autoconsciência, o “eu-sou-eu”, em suma. É o Karana-sharira, o homem imortal, que passa de uma encarnação para a outra.

P: O “registrador” ou o “bloco de memória” do estado de sonho verdadeiro é diferente do bloco de memória da vida em estado desperto?

R: Como os sonhos são na realidade as ações do Ego durante o sono físico, eles são, naturalmente, registrados em seu próprio plano e produzem os seus efeitos apropriados nesse plano. Mas devemos lembrar sempre que os sonhos em geral, tal como os conhecemos, são apenas as lembranças nebulosas que temos dos fatos dos sonhos no nosso estado de vigília.  

Acontece frequentemente, na verdade, que nem temos lembrança de haver sonhado, mas mais tarde, durante o dia, a lembrança do sonho surge de repente sobre nós.  Isso tem muitas causas.  É algo análogo ao que às vezes acontece a todos nós. Frequentemente uma sensação, um cheiro, até um ruído casual, um som, traz instantaneamente à nossa mente cenas, pessoas e acontecimentos esquecidos há muito tempo. Alguma coisa do que foi visto, feito, ou pensado pelo “ser que atua à noite”, o Ego, foi impresso naquele momento anterior no cérebro físico, mas não foi trazido à memória consciente, desperta, devido a alguma condição ou algum obstáculo físico. Essa impressão é registrada no cérebro na sua célula ou centro nervoso adequado, mas, devido a alguma circunstância acidental ele “suspende o fogo”, digamos, até que algo lhe dá o impulso necessário.  Então o cérebro descarrega a impressão imediatamente sobre a memória consciente do homem desperto; porque assim que as condições requeridas ocorrem, aquele centro específico entra em atividade e realiza o trabalho que tinha por fazer, mas que era impedido de realizar.

P: Como ocorre esse processo?

R: Há uma espécie de comunicação telegráfica consciente que ocorre incessantemente, dia e noite, entre o cérebro físico e o homem interno. O cérebro é uma coisa tão complexa, tanto física como metafisicamente, que ele é como uma árvore cuja casca você pode retirar camada por camada, e cada camada é diferente de todas as outras. Cada camada tem seu próprio trabalho especial, sua função e suas características.

            P: O que distingue a memória e a imaginação durante o sonho da memória e a imaginação da consciência desperta?

R: Durante o sono, a memória e a imaginação físicas estão naturalmente passivas, porque aquele que sonha estás adormecido: o seu cérebro está adormecido, e todas as suas funções também estão descansando. É só quando elas são estimuladas, como eu disse, que elas despertam.  Assim, a consciência daquele que dorme não está ativa, mas passiva. O homem interior, no entanto, o verdadeiro Ego, atua independentemente durante o sono do corpo; mas é duvidoso que qualquer um de nós – a menos que conheça profundamente a fisiologia do ocultismo – possa compreender a natureza da sua ação.

P: Que relação a luz astral e o akasha têm com a memória?

R: A luz astral é o “bloco de memória” do homem animal, e o Akasha é o “bloco de memória” do Ego espiritual. Os “sonhos” do Ego, assim como os atos do homem físico, são todos registrados, já que ambos são ações baseadas em causas e produzem resultados. Os nossos “sonhos” são simplesmente o estado de vigília e as ações do nosso verdadeiro Eu, e devem, naturalmente, ser registrados em algum lugar.  Vejam o texto “Visões Cármicas” na revista Lúcifer, reparem na descrição do verdadeiro Ego, sentado como um espectador da vida do herói, e talvez uma percepção chegue até vocês.

 P: O que é, na realidade, a luz astral?  

R: Segundo a filosofia esotérica nos ensina, a luz astral é simplesmente o conjunto de sedimentos ou detritos do Akasha ou Ideação Universal no seu sentido metafísico. Embora invisível, ela é, digamos assim, a radiação fosforescente do Akasha, e constitui o meio intermediário entre o Akasha e as funções pensantes do homem. São essas funções que poluem a luz astral e fazem dela o que é, o reservatório de todas as injustiças humanas, especialmente injustiças psíquicas. Na sua origem primordial, a luz astral como uma radiação é completamente pura, embora quanto mais baixo ela desça, aproximando-se da nossa esfera terrestre, mais ela se diferencie e se torne, consequentemente, impura em sua própria constituição. Mas o homem ajuda consideravelmente nessa poluição, e deixa a sua essência em uma situação bem pior do que estava quando a recebeu.

P: Você pode explicar para nós como a luz astral se relaciona com o homem e com a ação dele na vida-de-sonho?

R: A diferenciação no mundo físico é infinita. A Ideação Universal – ou Mahat, se preferirem – manda a sua radiação homogênea para o mundo heterogêneo, e ela alcança as mentes humanas ou pessoais através da luz astral.  

P: Mas as nossas mentes não recebem a sua luz diretamente de Manas superior, através de Manas inferior? E Manas superior não é a emanação pura da Ideação divina – os “Manasa-Putras” que encarnam nos homens?

R: Sim. Os Manasa-Putras individuais ou Kumaras são radiações diretas da Ideação divina. São “individuais” no sentido de que são diferenciações tardias, devido a inumeráveis encarnações. Em suma, são a agregação coletiva daquela Ideação, que se transforma em nosso plano, ou do nosso ponto de vista, em Mahat, assim como os Dhyan Chohans são no seu conjunto a PALAVRA ou “Logos” na formação do mundo. Se as personalidades (Manas inferior e mentes físicas) fossem inspiradas e iluminadas apenas pelos seus alter Egos superiores, haveria poucos pecados nesse mundo. Mas isso não ocorre; e ao ficar enredadas nas malhas da luz astral, as personalidades se separam mais e mais dos seus pais, os Egos. Leiam e estudem o que Eliphas Levi diz sobre a luz astral, o que ele chama de Satã e de Grande Serpente.  A luz astral tem sido considerada muito literalmente como se o seu significado fosse o de um segundo céu azul. Esse espaço imaginário, no entanto, no qual são impressas as incontáveis imagens de tudo o que já existiu, tudo o que existe e tudo o que existirá, é apenas uma realidade muito triste. Ele se torna, no homem e para ele, se ele for psiquicamente sensitivo em alguma medida – e quem não é? –, um Demônio tentador, o seu “anjo do mal” e o inspirador de todos os seus piores atos. Ele influencia até a vontade do homem que dorme, através das visões registradas no seu cérebro adormecido (visões que não devem ser confundidas com os “sonhos”), e esses germes produzem seus frutos quando ele acorda.

P: Que papel cumpre a Vontade durante os sonhos?

R: A vontade do homem externo, a nossa volição, está naturalmente adormecida e inativa durante os sonhos; mas uma certa inclinação pode ser dada à vontade adormecida durante a sua inatividade, e certos resultados posteriores podem ocorrer pela interação mútua – produzida quase mecanicamente – através da união entre dois ou mais “princípios”, de modo que eles atuam em perfeita harmonia, sem qualquer atrito e sem uma só nota falsa, após o despertar. Mas este é um dos ardis da “magia negra”, e quando usado para propósitos bons faz parte do treinamento de um Ocultista. A pessoa precisa estar muito avançada no “caminho” para ter uma vontade que pode atuar conscientemente durante seu sono físico, ou para influenciar a vontade de outra pessoa durante o sono dela, isto é, para controlar os sonhos do outro, e assim controlar suas ações quando desperta.

P: Nos é ensinado que um homem pode unir todos os seus “princípios” em um só – o que significa isso?

R: Quando um adepto consegue fazer isso ele é um Jivanmukta: ele não pertence mais a essa terra, virtualmente, e se torna um habitante do Nirvana, que pode entrar em Samadhi sempre que quiser. Os adeptos são classificados geralmente pelo número de “princípios” que eles têm sob seu perfeito controle, porque aquilo que nós chamamos de vontade tem sua sede no EGO superior, e esse EGO, quando está livre da sua personalidade cheia de pecados, é divino e puro.

P: Que papel cumpre o Carma nos sonhos? Os indianos dizem que cada ser humano recebe o prêmio ou castigo de todos os seus atos, tanto no estado de vigília como no estado de sonho.

R: Se eles dizem isso, é porque eles lembram as tradições dos seus ancestrais e as preservam em toda sua pureza.  Eles sabem que o ser é o Ego verdadeiro, e que ele vive e atua, embora em um plano diferente.  A vida externa é um “sonho” para esse Ego, enquanto que a vida interna, a vida no que nós chamamos de plano do sonho, é a vida real para ele. Assim, os hindus (os profanos, é claro), dizem que o Carma é generoso, e recompensa o homem real em sonhos assim como faz com a falsa personalidade na vida física.

P: Qual é a diferença, carmicamente, entre os dois?

R: O homem físico e animal é tão escassamente responsável como um cachorro ou um camundongo. Para a forma corporal, tudo termina com a morte do corpo. Mas o verdadeiro SER, aquilo que fez com que emanasse a sua própria sombra, a personalidade inferior pensante, e que dirigiu e puxou os fios durante a vida do autômato físico, esse terá de sofrer conjuntamente com o seu factotum e alter ego na próxima encarnação.

P: Mas os dois Manas, o superior e o inferior, são um só, não é?

R: Eles são um só, e, no entanto, não são, e esse é o grande mistério. O Manas superior ou EGO é essencialmente divino, e, portanto, puro; nenhuma mancha pode poluí-lo, assim como nenhuma punição pode alcançá-lo, em si, tanto mais que ele é inocente de, e não participa de nenhuma ação do seu Ego inferior. No entanto, pelo próprio fato de que, embora seja dual e durante a vida haja uma distinção entre o Inferior e o Superior, “o Pai e o Filho” são um, e, devido a isso, ao reunir-se com o Ego-pai, a Alma inferior se prende a ele e imprime nele todas as ações boas e más. Ambos têm de sofrer; o Ego Superior, embora seja inocente e sem manchas, tem de suportar junto com o Eu inferior na próxima encarnação o castigo dos erros cometidos por ele.  Toda a doutrina da salvação vicária é construída sobre esse velho princípio esotérico; porque o Ego Superior é o anti-tipo daquilo que nesta terra é o tipo, isto é, a personalidade. Para aqueles que entendem, é a velha história védica de Visvakarman, contada de novo e demonstrada praticamente. Visvakarman, o Pai-Deus que tudo vê, e que está além da compreensão dos mortais, termina, como filho de Bhuvana, o Espírito santo, sacrificando a si mesmo pelo bem de si mesmo, para salvar os mundos. O nome místico do “Ego Superior” é, na filosofia indiana, Kshetrajña ou “Espírito corporificado”, aquilo que conhece ou que dá informações a Kshetra, “o corpo”.  Vejam a etimologia do nome, e vocês descobrirão nele o termo aja “primogênito”, e também “cordeiro”.  Tudo isso é muito sugestivo, e poderiam ser escritos vários volumes sobre o desenvolvimento pré-genético e pós-genético do tipo e do anti-tipo – do Cristo-Kshetrajña, o “Deus-Homem”, o primogênito, simbolizado pelo “cordeiro”. A Doutrina Secreta mostra que os Manasa-Putras ou EGOS reencarnantes assumem como seus, voluntária e conscientemente, todos os futuros pecados das suas futuras personalidades. Por isso é fácil compreender que não é nem o sr. A. nem o sr. B., nem qualquer uma das personalidades que periodicamente vestem um EGO em seu processo de autossacrifício, que são os verdadeiros Sofredores, mas na verdade o inocente Christos dentro de nós. Por isso os místicos hindus dizem que o Eu Eterno, ou o Ego (o que é três em um e um em três), é o “cocheiro” ou condutor; as personalidades são os passageiros temporários e evanescentes; enquanto que os cavalos são as paixões animais do homem. Assim, é correto dizer que, quando permanecemos surdos à Voz da nossa Consciência, nós crucificamos o Christos dentro de nós. Mas voltemos aos sonhos.

P: Os chamados sonhos proféticos são um sinal de que aquele que sonha tem fortes habilidades clarividentes?

R:  Pode-se dizer, no caso das pessoas que têm sonhos verdadeiramente proféticos, que isso ocorre porque os cérebros físicos e as memórias delas estão mais sintonizadas e em relação mais estreita com o seu “Ego Superior” que na média das pessoas.  O Ego-Ser tem mais facilidade para imprimir na casca e na memória física aquilo que é importante para essas pessoas do que no caso de outros que não têm o mesmo dom. Lembrem que o único Deus com que o homem entra em contato é o seu próprio Deus, chamado de Espírito, Alma e Mente, ou Consciência, e esses três são um.  

Mas há ervas daninhas que devem ser destruídas para que uma planta possa crescer.  Nós devemos morrer, diz São Paulo, para que possamos viver de novo. É através da destruição que nós podemos progredir, e todos os três poderes, de preservar, de criar e de destruir, são só alguns dos muitos aspectos da centelha divina dentro do homem.  

P: Os Adeptos sonham?

R: Nenhum Adepto avançado sonha. O Adepto é alguém que obteve controle sobre os seus quatro veículos inferiores, inclusive seu corpo, e, portanto, não deixa a carne ter existência independente. Ele simplesmente paralisa o seu Eu inferior durante o sono, e se torna inteiramente livre. Um sonho, tal como nós o entendemos, é uma ilusão. Irá então um adepto sonhar, quando ele se libertou de todas as outras ilusões?  Durante o seu sono ele simplesmente vive em outro plano mais real.  

P: Há pessoas que nunca sonharam?

R: Não existe uma pessoa assim no mundo, até onde eu sei. Todos sonham, mais ou menos; só que, na maior parte dos casos, o sonho se desvanece subitamente no momento do despertar. Isso depende da situação mais receptiva ou menos receptiva dos gânglios do cérebro. As pessoas não-espirituais, e aqueles que não exercitam suas funções imaginativas, ou os que ficaram exaustos devido a um excesso de trabalho manual, de modo que os gânglios não atuam nem mesmo mecanicamente durante o descanso, sonham raramente ou nunca com alguma coerência.

P: Qual é a diferença entre os sonhos dos seres humanos e os sonhos dos animais?

R: O estado de sonho é comum não só a todos os seres humanos mas a todos os animais, naturalmente, desde os mamíferos mais desenvolvidos até os menores pássaros e até mesmo os insetos. Todo ser que possui um cérebro físico, ou um órgão semelhante a um cérebro, deve sonhar. Todo animal, grande ou pequeno, tem sentidos físicos mais ou menos ativos; e embora esses sentidos estejam amortecidos durante o sono, a memória ainda atuará, digamos, mecanicamente, reproduzindo sensações passadas. Todos sabemos que cachorros, cavalos e gado bovino sonham, como também sonham os canários, mas esses sonhos são penso eu, meramente fisiológicos.  Assim como as últimas brasas de uma fogueira que se extingue, com suas fagulhas e chamas ocasionais, desse modo age o cérebro ao adormecer.  Os sonhos não são, como diz Dryden, “intervalos feitos pela fantasia”, porque isso só pode dizer respeito a sonhos fisiológicos criados por indigestão, ou por alguma ideia ou acontecimento que tenha causado uma impressão sobre o cérebro ativo durante as horas de vigília.

P: O que, então, é o processo de ir dormir?

R: O fato é parcialmente explicado pela Fisiologia. O Ocultismo afirma que é a exaustão periódica e regular dos centros nervosos, e especialmente dos gânglios sensoriais do cérebro, que se recusam a agir mais tempo nesse plano, e, para não tornarem-se incapazes de trabalhar, são compelidos a recuperar a sua força em outro plano ou Upadhi.

Primeiro vem o Svapna ou estado de sonho, e esse leva ao estado de Sushupti. Mas devemos lembrar que os nossos sentidos são todos duais, e atuam de acordo com o plano de consciência em que a entidade pensante tem sua energia. O sono físico permite uma facilidade maior para a sua ação nos vários planos; ao mesmo tempo se trata de uma necessidade, para que todos os sentidos possam obter uma nova quantidade de vida para o estado de Jagrata, ou estado de vigília, a partir de Svapna e Sushupti. De acordo com a Raja Ioga, Turya é o estado mais elevado. Assim como um homem exausto por um estado do fluido da vida busca outro estado; assim como, por exemplo, quando exausto pelo ar quente ele se refresca na água fria, assim também o sono é o refúgio sombreado que há no vale ensolarado da vida. O sono é um sinal de que a vida em estado de vigília se tornou demasiado forte para o organismo físico, e que a força da corrente vital deve ser quebrada pela troca do estado de vigília pelo estado do sono.  Peça a um bom clarividente [4] que descreva a aura de uma pessoa recém-descansada pelo sono, e que descreva a aura de outra pessoa pouco antes de ela ir dormir. A primeira será vista como estando banhada em vibrações rítmicas de correntes vitais – de cor amarela, azul e rosada –; essas são as ondas elétricas da vida.  A pessoa que está necessitando dormir está, digamos, em uma nuvem de uma intensa cor dourado-laranja, composta de átomos que giram em uma rapidez quase incrível, espasmódica, o que mostra que o indivíduo começa a estar demasiado saturado de Vida; a essência vital é demasiado forte para os seus órgãos físicos, e ele deve buscar alívio no lado da sombra daquela essência, lado esse que é o elemento do sonho, ou o sono físico – um dos estados de consciência.

P: Mas o que é um sonho?  

R: Isso depende do significado do termo. Você pode “sonhar” ou, como nós dizemos, ter visões de sono, estando acordado ou adormecido. Se a Luz Astral é reunida em uma taça ou um recipiente de metal pelo poder da vontade, e se os olhos são fixados em determinado ponto neste recipiente com uma forte vontade de ver, o resultado é uma visão ou “sonho” em estado desperto, se a pessoa tiver algum grau de sensitividade. Os reflexos na Luz Astral são vistos melhor com os olhos fechados, e, durante o sono, são vistos com ainda mais clareza. A partir de um estado lúcido, a visão se torna translúcida; a partir de uma consciência orgânica normal, surge um estado transcendental de consciência.

P: A que causas se devem os sonhos, principalmente?

R: Há muitos tipos de sonhos, como todos nós sabemos. Deixando de lado o “sonho digestivo”, há sonhos cerebrais e sonhos de memória, e visões mecânicas, e visões conscientes. Sonhos de advertência e premonição requerem a cooperação ativa do Ego interior. Eles também são frequentemente provocados pela cooperação consciente ou inconsciente dos cérebros de duas pessoas vivas, ou de seus Egos.  

P: O que é que sonha, então?

R: Geralmente é o cérebro físico do Ego pessoal, a sede da memória.  Ele irradia e lança fagulhas como as brasas de uma fogueira que se extingue. A memória daquele que dorme é como uma harpa eólica de sete cordas; e o seu estado mental pode ser comparado ao vento que assopra sobre as cordas. A corda correspondente da harpa responderá a um dos sete estados de atividade mental; aquele estado em que a mente de quem dorme estava, antes de adormecer.  Se for uma brisa calma, a harpa será pouco afetada; se for um furacão, as vibrações serão proporcionalmente fortes. Se o Ego pessoal estiver em contato com os seus princípios mais elevados e os véus dos planos mais elevados forem postos de lado, tudo ficará bem; se, ao contrário, o Ego pessoal for de uma natureza materialista, animal, provavelmente não haverá sonhos; ou, se a memória por acaso captar o sopro de um “vento” de um plano superior, vendo que ele será impresso através dos gânglios sensórios do cerebelo, e não pela ação direta do Ego espiritual, ele receberá imagens e sons tão distorcidos e desarmoniosos que até mesmo uma visão devachânica parecerá um pesadelo ou uma caricatura grotesca. Portanto, não há uma resposta simples à pergunta sobre “o que é que sonha”, porque a questão de qual princípio será o principal motor durante os sonhos, como a questão de se os sonhos serão lembrados ou esquecidos, depende inteiramente de cada indivíduo. 

P: A aparente objetividade de um sonho é realmente objetiva ou subjetiva?

R: Se admitimos que ela é aparente, então é claro que ela é subjetiva. A pergunta deveria ser, na verdade, para quem, ou para quê, as imagens ou representações nos sonhos são objetivas ou subjetivas? Para o homem físico, o sonhador, tudo o que ele vê com os seus olhos fechados, na sua mente ou através dela, é naturalmente subjetivo. Mas para Aquele Que Vê, dentro do sonhador físico – e Aquele Que Vê é, ele próprio, subjetivo para os nossos sentidos materiais –, para ele tudo o que ele enxerga é tão objetivo quanto a sua própria existência é objetiva para si mesmo e para outros como ele. Os materialistas provavelmente rirão, dizendo que nós transformamos um único ser humano em toda uma família de entidades, mas isso não é verdade. O ocultismo ensina que o homem físico é um, mas que o homem pensante é setenário, e que ele pensa, atua, sente e vive em sete diferentes estados ou planos de consciência, e que para cada um desses estados e planos o Ego permanente (não a falsa personalidade) tem um conjunto diferente de sentidos.

P: É possível distinguir esses diferentes estados?

R: Não, a menos que você seja um Adepto ou um Chela altamente treinado e completamente familiarizado com esses diferentes estados. As ciências, como a Biologia, a Fisiologia, e mesmo a Psicologia (das escolas de Maudsley, Bain e Herbert Spencer) não tocam nesse assunto. A Ciência nos ensina sobre os fenômenos da volição, da sensação, do intelecto e do instinto, e diz que todos eles se manifestam através dos centros nervosos, dos quais o mais importante é o nosso cérebro. Ela fala do agente ou da substância peculiar através do qual esses fenômenos ocorrem como os tecidos vasculares e fibrosos, e explica a sua relação mútua, dividindo os centros de gânglios em centros motores, sensórios e simpáticos mas jamais dirá uma palavra sobre a misteriosa função do próprio intelecto, ou sobre a mente e suas funções.

Bem, acontece frequentemente que nós estamos conscientes e sabemos que estamos sonhando; esta é uma prova muito boa de que o homem é um ser múltiplo no plano do pensamento; de modo que não só o Ego, ou homem pensante, é um Proteu, uma entidade multiforme e sempre em mutação, mas ele também é, digamos, capaz de se separar no plano da mente ou do sonho em duas ou mais entidades, e no plano da ilusão que nos segue até o limiar do Nirvana, ele é como Ain-Soph falando para Ain-Soph, tendo um diálogo com ele mesmo, e falando através de si mesmo, sobre si mesmo e para si mesmo. E esse é o mistério da insondável divindade no Zohar, assim como nas filosofias hindus; é o mesmo da Cabala, dos Puranas, da metafísica Vedanta, e também o chamado mistério cristão da divindade e da trindade. O homem é o microcosmo do macrocosmo; o deus na terra é construído sobre o padrão do deus na natureza. Mas a consciência universal do verdadeiro Ego transcende um milhão de vezes a autoconsciência do Ego pessoal ou falso.

P: Aquilo que é chamado de “ideação inconsciente” durante o sono constitui um processo mecânico do cérebro físico, ou se trata de uma operação consciente do Ego, mas apenas o resultado dela é que fica impresso na consciência comum?

R: É o segundo caso; porque, seria possível lembrar em nosso estado consciente o que ocorreu enquanto nosso cérebro estava trabalhando inconscientemente? Essa é, aparentemente, uma contradição em termos.

P: Como acontece que pessoas que nunca viram montanhas na natureza frequentemente as veem com nitidez durante o sono e são capazes de reparar nas suas características?

R: A hipótese mais provável é que essas pessoas tenham visto fotos ou desenhos de montanhas; caso contrário, trata-se de alguém ou de algo em nós que as viu previamente.

P: Qual é a causa daquela experiência em sonhos na qual o sonhador parece estar sempre se esforçando por alguma coisa, mas nunca a consegue?

R: É porque o eu físico e a sua memória não têm possibilidade de saber o que o verdadeiro Ego faz. O sonhador capta apenas pálidos vislumbres das atividades do Ego, cujas ações produzem o chamado sonho no homem físico, mas ele não é capaz de acompanhá-lo consecutivamente. Um paciente delirante, ao recuperar-se, assume em relação à enfermeira que o atendia e que cuidava dele durante a sua doença a mesma atitude que o homem físico tem diante do seu verdadeiro Ego. O Ego age tão conscientemente dentro e fora do homem físico quanto a enfermeira age, ao atender e cuidar do homem doente. Mas nem o paciente, depois de deixar sua cama de hospital, nem o sonhador, depois de acordar, serão capazes de lembrar qualquer coisa, exceto em fragmentos e vislumbres.

P: Até onde vai a diferença entre o sono e a morte?

R: Há, certamente, uma analogia, mas a diferença entre os dois estados é muito grande. Durante o sono há uma ligação, embora ela seja tênue, entre a mente inferior e a mente superior do homem, por mais que os seus raios possam estar distorcidos. Mas uma vez que o corpo esteja morto, o corpo da ilusão, Mayavi Rupa, se torna Kama Rupa, ou alma animal, e é deixado a cargo dos seus próprios mecanismos. Portanto, há tanta diferença entre o fantasma e o homem quanto há entre um homem grosseiro, animal, material, mas sóbrio, e um homem completamente bêbado e incapaz de distinguir as coisas mais básicas ao seu redor; entre uma pessoa encerrada em um quarto totalmente escuro e outra pessoa em um quarto iluminado, ainda que imperfeitamente, por uma ou outra luz.

Os princípios inferiores são como animais selvagens, e o Manas superior é o homem racional que os doma ou os submete com êxito maior ou menor. Mas uma vez que o animal se vê livre do dono que o mantinha sob controle, no momento que ele deixa de ouvir a voz do dono e de vê-lo, ele toma de novo o rumo da floresta e da sua antiga toca. É necessário algum tempo para que um animal retorne ao seu estado original e natural, mas esses princípios inferiores, ou esse “fantasma”, retornam instantaneamente, e logo que a tríade superior entra no estado devachânico a tríade inferior retorna àquilo que era desde o início, um princípio dotado de puro instinto animal, e que se torna ainda mais feliz pela grande mudança.

P: Qual é a condição de Linga-sharira, ou corpo plástico, durante os sonhos?

R: A situação da forma plástica é ficar adormecida com seu corpo, a menos que seja projetada por algum poderoso desejo gerado em Manas superior. Ela não cumpre papel ativo nos sonhos, mas, ao contrário, é inteiramente passiva, constituindo uma testemunha involuntária e semiadormecida das experiências vivenciadas pelos princípios superiores.

P: Em que circunstâncias esse fantasma é visto?

R: Às vezes, em casos de doença ou de paixão muito forte da parte da pessoa vista ou da pessoa que vê; a possibilidade é mútua. Uma pessoa doente, especialmente pouco antes da morte, tem grande probabilidade de ver em sonhos, ou em visões, aqueles a quem ela ama e em quem está continuamente pensando, e assim também uma pessoa acordada que pense intensamente em uma pessoa adormecida naquele momento.

P: Um mago pode evocar essa entidade adormecida e dialogar com ela?

R: Em magia negra não é algo raro evocar o “espírito” de uma pessoa que dorme; o feiticeiro pode então saber da aparição qualquer segredo que ele queira, e o indivíduo adormecido continua sem saber o que está ocorrendo. Em tais circunstâncias o que aparece é o Mayavi rupa; mas sempre há um perigo de que a memória do homem vivo preserve as lembranças da evocação e lembre dela como um sonho vívido. Por outro lado, o duplo ou Linga-sharira pode ser evocado, se isso não ocorrer a uma grande distância. Mas o Linga-sharira não pode falar nem dar informações, e sempre há a possibilidade de que o indivíduo adormecido morra devido a essa separação forçada. Muitas mortes súbitas durante o sono têm ocorrido assim, e o mundo não fica mais sábio por causa disso.

P: Pode haver algum contato entre alguém que sonha e uma entidade que está no Kama-loka?

R: Aquele que sonha com uma entidade que está no Kama-loka provavelmente experimentará um pesadelo, ou correrá o risco de ficar “possuído” pelo “fantasma” atraído desta forma, se ele for um médium, ou se for alguém que tenha se tornado tão passivo, durante as suas horas de vigília, que até mesmo seu Eu superior é agora incapaz de protegê-lo. É por isso que o estado de passividade mediúnica é tão perigoso, e com o tempo torna o Eu Superior completamente incapacitado para proteger ou mesmo para alertar a pessoa adormecida ou em transe. A passividade paralisa a conexão entre os princípios superiores e inferiores. Só muito raramente são encontrados exemplos de médiuns que, enquanto permanecem passivos por vontade própria, com o objetivo de comunicar-se com alguma inteligência mais elevada, algum espírito extraterreno (não-desencarnado), preservam, no entanto, suficiente vontade pessoal para não cortar toda ligação com o Eu superior.

P: Um sonhador pode entrar em contato com uma entidade que esteja no Devachan?

R: Os únicos meios possíveis de comunicação com um habitante do devachan são durante o sono através de um sonho ou visão, ou em estado de transe. Nenhum habitante do devachan pode descer até o nosso plano; nós – ou melhor, nosso Eu interior – é que devemos subir até ele.

P: Qual é o estado mental de um bêbado, durante o sono?

R: Não se trata realmente de um sono, mas de uma letargia pesada; não há um descanso físico, mas algo pior que a insônia, que destrói o bêbado com igual velocidade. Durante essa letargia, assim como durante o estado de vigília do bêbado, tudo gira e se revolve no cérebro, produzindo formas horríveis na imaginação e na fantasia, em contínuo movimento e evoluções circulares.

P: Qual é a causa dos pesadelos, e como é que os sonhos de pessoas que sofrem de doenças graves são frequentemente agradáveis?

R: A causa dos pesadelos é simplesmente fisiológica. Um pesadelo surge de uma opressão e dificuldade de respirar; e a dificuldade de respirar sempre criará um tal sentimento de opressão e produzirá uma sensação de calamidade iminente. No segundo caso, os sonhos se tornam agradáveis porque o doente fica cada dia mais afastado do seu corpo material, e mais clarividente na mesma medida. Na proporção em que a morte se aproxima, o corpo se desgasta e deixa de ser um impedimento ou uma barreira entre o cérebro do homem físico e o seu Eu Superior.

P: É bom cultivar a vida de sonho?

R: É cultivando o poder do que é chamado “sonhar” que a clarividência é desenvolvida.

P: Há quaisquer meios de interpretar sonhos – por exemplo, as interpretações dadas em livros sobre sonhos?

R: Nenhum meio, exceto a função clarividente e a intuição do “intérprete”. Cada Ego sonhador é diferente de todos os outros, como são diferentes os nossos corpos físicos.  Se tudo no universo tem sete chaves para o seu simbolismo no plano físico, quantas chaves não pode haver nos planos mais elevados?

P: Há algum meio pelo qual se possa classificar os sonhos?

R: Nós podemos dividir grosseiramente os sonhos também em sete tipos, e subdividir esses tipos, por sua vez. Assim, nós teríamos a seguinte classificação:

1) Sonhos proféticos. Esses sonhos são impressos em nossa memória pelo Eu Superior, e são geralmente claros e diretos: ou uma voz é ouvida, ou o acontecimento futuro é visto.

2) Sonhos alegóricos, são pálidos vislumbres de realidades captadas pelo cérebro e distorcidas pela nossa fantasia. Esses sonhos são em geral apenas parcialmente verdadeiros.

3) Sonhos mandados por adeptos, bons ou maus, ou por mesmerizadores, ou pelos pensamentos de mentes muito poderosas que desejam fazer com que obedeçamos à sua vontade.

4) Sonhos retrospectivos; sonhos com acontecimentos que pertencem a encarnações anteriores.

5) Sonhos de advertência para outros que são incapazes de receber, eles próprios, as impressões.

6) Sonhos confusos, cujas causas já foram discutidas acima.

7) Sonhos que são meras fantasias e imagens caóticas, devido ao processo digestivo, a alguma preocupação mental, ou alguma outra causa externa semelhante.

            Com isto encerra-se este efêmero estudo sobre tema tão precioso quanto misterioso, ainda pouco divisado com exatidão e profundidade pela ciência, e deixa-se à parte os critérios e opiniões da moderna psicologia europeia, com seus Freuds, Jungs e Lacans, para dar passo e voz à verdadeira psicologia, em si reflexo e emanação da Sabedoria Infinita das Idades, por outra TEOSOFIA, professada desde sempre nos recessos dos verdadeiros templos e colégios iniciáticos.  

AT NIAT NIATAT!

BIJAM!


[1] A memória, enigma da Ciência, tanto quanto a visão profética. À memória comum, física, cotidiana, opõe-se a memória espiritual, neste caso a reminiscência da qual nos fala Platão. 

[2] O terceiro princípio humano depois do corpo vital ou etérico, ou o quinto princípio depois do corpo mental inferior, na escala setenária. 

[3] Os chamados Mundos de Duat, Badagas, Agartha e Samballa, isto é, a morada dos heróis, semideuses e deuses, segundo a classificação grega e antiga. A humanidade comum, de parca evolução mental e coracional, só pode estar presente na Face da Terra, e nunca no Seio da mesma – por serem de naturezas absolutamente incompatíveis -, desde tempos imemoriais tal região sendo assinalada como Sanctum Sanctorum da Verdade, como Terra das Primícias Eternas, como Laboratório Alquímico das Raças, e inviolável à vã curiosidade, às desgraças naturais e ao poderio armado dos homens belicosos e egoístas, os barões da guerra, insurgidos contra o Eterno, que não cansam de tratar de devassar seu âmbito para apropriar-se de seus segredos.  

[4] Devakan ou Devachan: o mesmo que o Paraíso judaico-cristão, os Campos Elíseos dos gregos, o Campo de Juncos egípcio e de quantos Paraísos existam nas doutrinas religiosas, filosóficas e esotéricas de todos os povos, pese o ceticismo geral que paira nos dias atuais, ao lado do fanatismo da “letra que mata” que tudo falseia e camufla com cores falsas. Significa “Morada dos Deuses”, donde encontra-se a mais baixa das Hierarquias Angélicas, com vaga consciência do mundo terrestre. Trata-se do Plano Astral Superior, onde as almas – para além do qual encontra-se o Plano Mental Superior, uma vez despossuídos de nosso corpo astral e do mental inferior que caracterizam a Personalidade humana – vem habitar por tempo relativo, segundo as condições evolucionais de cada Ego. Os Egos mais avançados reencarnam quase imediatamente após o abandono da vestidura externa do corpo material, assim acelerando o seu progresso físico, psíquico, mental e espiritual no plano da experiência humana. Tanto o Devachan quanto o fatídico Baixo Astral, o Avichi ou Tártaro, o Inferno, são denominados de “O Encantado Reino de Maya”, por nele tudo tratar-se de ilusão e espelhismo. Assevera a Filosofia Esotérica que tais condições post-mortem não são regiões, e sim estados mentais pelos quais deve passar-se para logo dar-se seguimento ao ciclo de reencarnações na forma humana, a Roda de Samsara, até que o Ego atinja maturidade espiritual suficiente como para poder optar, conquistado o Samadhi, por um dos sete caminhos que se apresentam àqueles que alcançaram a dignidade de BUDAS ou Iluminados. Infernos e Paraísos os há, no entanto, tanto no Plano Astral, a Quarta Dimensão, quanto na Terra, em vigília ou em sono. O Inferno representa uma retribuição negativa, da Lei neutra, àqueles que em vida tornaram-se infratores das Leis divinas, conduzindo-se pelo egoísmo e o vício: lá terão um castigo correspondente à qualidade dos atos praticados quando encarnados, até que depurem-se as emoções por completo. O Paraíso, na razão oposta, é a recompensa aos sofrimentos da vida mortal, e um merecido descanso ao Ego onde este goza das delícias do Nirvana e de uma existência idílica segundo as aspirações mais elevadas auferidas pelo próprio indivíduo. Assim reza a Tradição Iniciática das Idades.

[5] Veja-se a este respeito o que tem a dizer a insigne Helena Petrovna Blavatsky sobre um e outro na obra Ísis sem Véu, da qual extraímos um trecho: “Estes nimbos celestiais circundavam a homens tais como Apolónio, Jâmblico, Plotino e Porfírio cujas almas, em perfeita identidade com os seus Espíritos por efeito da santidade de vida, atraíam as influências benéficas e irradiavam eflúvios de bondade que repeliam as malignas. Não só se asfixiavam as entidades inferiores na aura de um taumaturgo como nas de quantos recebiam a influência dele, seja por proximidade eventual ou por vontade deliberada. Isto é mediação e não mediunidade. Tal homem não é um médium mas um mediador e templo de Deus Vivo; porém, se a paixão ou os maus pensamentos e desejos profanam o templo, o mediador converte-se em necromante, porque então retiram-se as entidades puras e acorrem as malignas. Também neste caso, sem dúvida, há mediação e não mediunidade, pois tanto o mago negro como o mago branco determinam conscientemente a sua aura e por seu próprio ensejo atraem as entidades afins”.

[6] O termo primitivo refere-se, por um lado, tão-só ao que surgiu no passado remoto, e não à falta de elevação e refinamento quer seja cultural como material das antigas civilizações, que jamais deveriam ser descontextualizadas ao analisarmo-las retrospectivamente; do contrário, os homens só teriam tido conhecimento preciso dos astros (afora a Lua), das constelações e do movimento heliocêntrico com a Revolução Copernicana, e nunca haveriam de ter sido construídas as Pirâmides e outros monumentos que ainda desafiam a compreensão dos modernos arqueólogos e arquitetos. Ao contrário, se Platão está correto, devemos considerar segundo suas palavras: “Os antigos estavam mais próximos dos Deuses”, e isto referindo-se ele a uma antiguidade muito mais vetusta da que hoje enquadramos como 1000 ou 4000 anos A.C. A humanidade primitiva, nesse quesito, para o Iniciado, não era selvagem, mas de estirpe divina. Não é o homem que surge da barbárie: esta que é uma condição post-civilizada. 

[7] Veja-se nesse sentido o símbolo da Cruz, do Lótus ou outra flor substituta com o mesmo conceito; da Serpente, do Pentagrama e da Swástika (rotação da esquerda para a direita, note-se bem, que do contrário trata-se da Cruz Jaina em sentido invertido, à la nazismo) presentes em todo mundo.

[8] Helena Petrovna Blavatsky.

[9] Seção I – Simbolismo e Ideografia.

[10] Seção II – A Linguagem do Mistério e Suas Chaves

[11] Série de perguntas e respostas durante as reuniões realizadas em Londres em 20 e 27 de dezembro de 1888. O texto foi publicado inicialmente no volume Transactions of the Blavatsky Lodge, The Theosophy Company, Los Angeles, Califórnia, EUA, 1923, pp. 59-79, e mais tarde em “Collected Writings”, H.P.  Blavatsky, TPH, Índia, volume 10, pp. 246-264. Título original: “Dreams”. Tradução de Carlos Cardoso Aveline. 


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