Reflexões sobre Maya, Realidade e o caminho da iniciação – Por João Paulo Miranda

Na obra “Glossário Teosófico”, Helena Petrovna Blavatsky nos ensina que maya significa “ilusão. O poder cósmico que torna possível a existência fenomenal e as percepções da mesma. Segundo a filosofia hindu, somente aquilo que é imutável e eterno merece o nome de realidade; tudo aquilo que está sujeito a transformações por decaimento e diferenciação e que, portanto, tem princípio e fim, é considerado como maya: ilusão. [Maya: Arte, poder ou virtude mágica extraordinária ou prodigiosa; prestígio, magia, ilusão, ficção; poder de ilusão que origina a aparição ilusória das coisas do mundo. A ilusão personificada como um ser de origem celeste; a personificação da irrealidade das coisas mundanas; o universo objetivo ou a natureza considerada como uma ilusão. O poder ilusório, a mágica potência do pensamento, capaz de criar formas passageiras ou ilusórias, e pelo qual tem existência o mundo fenomenal. A potência criadora através da qual o universo chega à manifestação. Segundo a filosofia vedanta, todo o universo visível é apenas uma grande ilusão (maha-maya), pois tem princípio e fim e está sujeito a transformações incessantes; assim como a única realidade é o Espírito, por ser eterno e imutável.”

De fato. Conforme o ensinamento de H.P.B. e a filosofia Vedanta, esta realidade que conhecemos e na qual vivemos é uma “maya”, uma “ilusão”, uma “matrix”, embora esta ideia possa parecer uma loucura para a maioria das pessoas.

 Afinal, esta “matrix” foi preparada especialmente pararobotizar todos nós. E robôs não são projetados para pensar, questionar, refletir e, sobretudo, para ousar e buscar saber.

Somos condicionados para aceitar resignadamente tudo o que status quo estabelece como correto e verdadeiro.  E assim os humanos vêm caminhando através de eras, aceitando como verdades tudo o que a ciência oficial, as escolas, as universidades, os meios de comunicação, etc., estabeleceram como tais.

A noção que temos de realidade é ilusória, é uma maya, mas isto não significa, também, que essa afirmação seja absoluta, mesmo porque nada no mundo manifestado é absoluto, é eterno.

Assim, proponho, por ora, estas simples reflexões, a respeito do que entendemos acerca das mayas, da polaridade entre ilusão e realidade, aparência e essência, e suas relevâncias com relação ao caminho da iniciação, contudo abertas a diferentes interpretações, e sem a pretensão de dar conclusões definitivas.

 Sugiro que comecemos estas reflexões, portanto, partindo da seguinte ideia: mesmo que você não acredite ou duvide, suponha que o que afirmei logo ali atrás seja verdade, que esta realidade em que vivemos seja uma maya, uma matrix, uma ilusão.

 Superada esta primeira etapa, que tal se cogitarmos que esta maya onde vivemos seja apenas uma dentre várias outras mayas, que existam infinitas noções de realidades (mayas) possíveis de captar por nossos sentidos e percepções.

Você já deve ter ouvido dizer de realidades paralelas e concomitantes, a própria ciência oficial já as admite. E o que serão realidades paralelas senão mayas entre mayas, mayas ao lado de mayas, mayas sobre e sob mayas, mayas subjacentes a mayas, mayas dentro de mayas, etc?   

Agora parece que complicou, hein?

Se já não estava muito fácil aceitar que vivemos dentro de uma realidade ilusória, “maya”, como aceitar agora que essa “maya” não é apenas uma, mas uma conjugação de infindáveis realidades “mayávicas”?

Mas se mesmo assim, diante dessa aparente dificuldade, nós não nos fecharmos a essa possibilidade, dando uma chance, o benefício da dúvida, e supormos que seja verdade, que nós não vivamos dentro de uma maya, pura e simplesmente, mas de realidades mayávicas simultâneas, concomitantes, paralelas, subjacentes, etc.?

Pois bem.  Agora que as premissas estão lançadas, vamos tentar destrinchá-las um pouco para começarmos a perceber que essa dificuldade é apenas aparente.

Entendo que refletir e procurar se aprofundar e compreender os mistérios que envolvem as mayas, é uma das principais (e quiçá a principal) provas que o postulante ao caminho da iniciação (que outro não é senão o do autoconhecimento) deverá se defrontar, experimentar e vivenciar para poder avançar na senda.

São provações diuturnas e paulatinas, que normalmente não terminam ao fim de uma única existência, e aqui fica, desde já, uma advertência aos que postulam trilhar a senda iniciática: não adianta querer dar um passo maior que suas pernas, pulando etapas, avançando antes do tempo propício etc., pois pode ter certeza de que, se assim você proceder, sua queda será certa, e a ferida por ela causada, dolorosa, e de cura lenta e penosa.  

Iniciação é um caminho glorioso, mas também árduo, trabalhoso, que implica grande responsabilidade e é repleto de testes, ciladas, armadilhas, tentações e, como você já deve estar imaginando, também de mayas.  

O processo iniciático é gradual e progressivo, um passo por vez, e nisto está a sua beleza e a sabedoria que ele resguarda.

A beleza está na jornada e não na finalidade em si.  

E a sabedoria é a luz da intuição, que muitas vezes te fará voltar um passo atrás em vez de avançar um adiante no caminho, sem que isto signifique qualquer demérito ou retrocesso na sua evolução.

Sabedoria é saber o momento certo, o momento certo de querer, de ousar, ou de calar.  

Dar um passo para trás pode significar um “pulo do gato”, um sinal de grande sapiência na sua jornada na senda da iniciação, já que, embora seja glorioso e fascinante, também possui suas mayas e armadilhas, e isto nunca é demasiado enfatizar.

Costumamos julgar praticamente tudo, pessoas, fatos, situações, e até nós mesmos, e se prestarmos atenção, fazemos nossos julgamentos baseados tão somente segundo a nossa visão, a nossa percepção e as nossas experiências particulares de vida.  

Julgamos, portanto, segundo nossos preconceitos, condicionamentos, aprisionamentos e amarras psíquicas, mentais e emocionais.

Julgamos conforme as aparências que, normalmente nos conduzem a enganos, como, aliás, nos alerta o sábio provérbio popular, “as aparências enganam”.

E o que são as aparências que nos levam a enganos senão puras mayas, não é verdade? 

Tal questão tem relevância para qualquer pessoa, pois qualquer indivíduo, mesmo que viva na superfície, muito mais na vida-energia do que na Vida-Consciência, também está no processo de iniciação, por mais lento e inconsciente que seja.

 E para aqueles que estão buscando despertar, trilhando a senda do autoconhecimento, da iniciação, refletir sobre maya é fundamental, é essencial, pois no decifrar das mayas e seus enigmas encontram-se os principais aprendizados dos postulantes do árduo e, ao mesmo tempo, glorioso caminho da iniciação.

Chegando agora a esta aparente (com o perdão do trocadilho) encruzilhada, nós nos perguntamos, para onde seguir agora?

Como conseguiremos desvendar as mayas, para que possamos chegar cada vez mais perto da realidade e da verdade, avançando conscientemente na senda da iniciação?

Não há receitas prontas nem respostas fáceis e definitivas para tais proposições, e isto se dá por inúmeras razões, mas, por ora, prefiro me restringir ao objeto principal destas nossas reflexões, que é a ideia e a noção de realidade e das mayas.  

 Pois bem.

Além de vivermos num mundo de mayas, desde que nascemos vamos criando diuturnamente novas e particulares realidades mayávicas, geradas desde as nossas primeiras infâncias, por intermédio de nossos pais, avós, irmãos, amigos, professores, e também através dos meios de comunicação, como televisão, rádio, cinema, novelas, gibis, livros, etc.

As mayas que vamos criando e alimentando no decorrer de nossas vidas também se originam do processo kármico (Lei das Causas e Efeitos), que traz, ao iniciarmos a nova experiência dentro da Roda de Samsara (a Roda dos Nascimentos e Mortes), as tendências intrínsceas e inatas de nossas almas, tanto as positivas (skandas) como as negativas (nidhânas).

As skandas e as nidhânas vêm como resultados do arsenal de experiências acumuladas nos ciclos de vidas pretéritas e que chegam à nossa nova existência como potenciais e tendências que devemos procurar conscientizar, sublimar e equilibrar durante a nossa jornada na vida física.

Como não somos ensinados a conhecer, compreender e trabalhar nesse processo de evolução os nossos verdadeiros EUS (Ego Superior, Essência), essas “mayas” que vamos criando, acumulando e alimentando desde crianças, normalmente acabam por nos aprisionar, e por nos manter cativos nelas próprias, ou seja, na ilusão da nossa personalidade transitória (Eu inferior). 

Durante nossas existências no mundo físico, a regra é que nós não despertarmos, é que nós permanecemos “dormindo” durante toda a nossa vida, não é mesmo?

E conforme não despertarmos, nós vamos ficando cada vez mais aprisionados nessa intrincada teia de condicionamentos, preconceitos, medos, e noções equivocadas de quem somos verdadeiramente.

Destes todos, é provável que o medo seja o nosso principal adversário, o que mais busca nos afastar da senda do autoconhecimento.

 E também é bastante provável que ele, o medo, seja a maior de todas as mayas, o que, inclusive, faz eu me lembrar de um pensamento de que gosto muito, do filósofo Sêneca, que diz o seguinte: “as coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais”.

Essa teia parece intrincada, embaraçada e, num primeiro momento, podemos julgar ser impossível nos libertarmos dela.  

Mas não é.  E aqui há duas chaves simples, mas muito importantes, e que se conectam diretamente com ideia que mencionei agora há pouco.

A primeira é que essa teia nos parece intrincada. Parecer não se conecta a aparência? E sempre julgamos algo por sua aparência, não é mesmo? E para onde nos levam os julgamentos segundo as aparências, senão a ilusões (mayas).

Portanto, uma questão de fundamental importância no avanço na senda da iniciação é tomar muito cuidado com os nossos julgamentos. Julgamos conforme as aparências quando a verdade está na essência e não na aparência.

E mesmo que consigamos cada vez mais nos aproximar da essência, como ainda não alcançamos a condição de “adeptos” da Boa Lei e, portanto, não temos Consciência das complexas questões que envolvem o karma (os resgates, os trabalhos que temos de fazer, A Lei da Causa e Efeito), seja individual ou coletivo, como nos arrogamos o direito de julgar qualquer pessoa, fato, circunstância ou situação? 

Existe um aforismo iniciático que diz que apenas compreende o karma aquele que o transcende. 

Transcender o karma é libertar-se do aprisionamento contínuo nos ciclos reencarnatórios, na roda dos nascimentos e mortes, que é a Roda de Samsara das tradições orientais.

Aquele que se liberta da Roda da Samsara é o que se iluminou, o que se tornou imortal, o “Adepto da Boa Lei”.  Se quiserem se aprofundar e refletir melhor a respeito desses Mistérios, recomendo que meditem nos Arcanos 9 (O Eremita, O Adepto), e 10 (A Roda da Fortuna, A Roda de Samsara), do Tarot Maior.

E se nos propusermos a realizar alguns exercícios?

Se antes de julgar qualquer pessoa, fato ou situação, nós dermos aquele “passo para trás”, procurando nos distanciar emocional e mentalmente do objeto desse julgamento?

E, em vez de julgar, nós procuremos observar, prestar atenção nos sinais, e procurar visualizar a situação específica dentro de um contexto mais geral?

Não é algo que está ao nosso alcance, e que podemos praticar em nosso dia-a-dia? Por que não tentar?

A segunda das chaves que proponho é o exercício da vigilância dos sentidos, um formidável auxiliar nesse processo.

Por que não buscarmos observar, cada vez com maior atenção, às impressões, sensações, emoções e pensamentos que normalmente nos ocorrem através dos nossos sentidos?

 Ou seja, por que não experimentar focar nossas consciências nos sentidos da audição, do tato, da visão, do paladar e do olfato, a fim de torná-los cada vez mais treinados no sentido do não-julgamento, da observação e da visualização de toda e qualquer situação dentro de um contexto cada vez maior, buscando sair da dualidade bem e mal, bom e ruim?

Quanto mais nos distanciarmos daquilo que nosso “ego inferior” (corporificado no que o nosso corpo psíquico considera como real e verdadeiro) e de todas as mayas que nos mantêm amarrados a ele (preconceitos, condicionamentos, impressões, etc.), mais o nosso “Ego Superior” (Espírito, Tríade Superior), que é a nossa “verdade” vai se assenhorar dos nossos veículos mental, astral (psique), vital e físico (o quaternário inferior), revelando as Verdades de forma gradual, conforme evoluímos na senda e tornamo-nos dignos de que a Realidade nos vá sendo revelada.

Neste ponto também vejo a importância crucial do estudo aprofundado dos simbolismos por todos os que estejam na trilha iniciática ou que estejam almejando adentrá-la.

E esta necessidade se dá porque o nosso Ego Superior (Tríade Superior, Consciência, etc.) conecta-se e conversa conosco (quaternário inferior, manifestado) através de linguagem simbólica.

A linguagem simbólica, embora abstrata, é a que resguarda a essência e a verdade. 

Os conceitos transmitidos pela linguagem comum costumam estar impregnados de mayas e, portanto, podem ser e efetivamente são facilmente pervertidos e objetos dos mais diversos sofismas e falácias.

A linguagem da iniciação é toda simbólica. 

Quanto mais o postulante mergulhar no universo dos símbolos, mais apto estará para decifrar as mayas, em suas mais diversas acepções e formas de se mostrar, revelar, velar ou ocultar: mayas entre mayas, mayas ao lado de mayas, mayas dentro de mayas, etc. 

É o processo contínuo e incessante das retiradas “dos véus das ilusões”, dos infinitos “Véus de Ísis” de que tanto nos fala a Sabedoria Iniciática das Idades. 

Mas de qualquer modo, é importante que permaneçamos atentos, em constante vigilância dos nossos sentidos, sempre buscando nos conhecer internamente, para percebermos e compreendermos as realidades “mayas” que estamos alimentando, perpetuando e/ou criando para nós mesmos.

E não podemos nos esquecer de que as realidades externas, ainda que sejam mayas, são fundamentais e imprescindíveis nesse processo, pois elas são as nossas referências.

Não podemos e não devemos, contudo, nos aprisionar nelas, que é o que normalmente ocorre.  Devemos buscar utilizá-las meramente como referências, fazendo com que sejam úteis para o processo de autoconhecimento (iniciação), que é interno.

Devemos fazer, assim, com que nossas referências externas sirvam como “pontes” ao recinto interno, que é onde está a nossa essência, nosso Cristo interno, nossa Centelha Divina, nossas “VERDADES”.  

E, para finalizarmos, por ora, estas ideias, deixo como reflexão o seguinte ensinamento do Professor Henrique José de Souza, teósofo e iniciado brasileiro, ao tratar do tema maya e realidade: “O mistério está em – na sua aparência – não SER, mas em realidade – SER”. 

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