Poemas – Por Rabindranath Tagore

Seleção de poemas retirada do Gitanjali (oferenda lírica), obra-maestra do autor e pela qual recebeu o Nobel de Literatura, em 1913, sendo o primeiro asiático a receber o prêmio.

I

As algemas são tenazes, e meu coração dói quando tento quebrá-las.

Libertação é tudo que desejo, mas eu me envergonho de esperar por ela.

Tenho certeza de que há em ti um tesouro sem preço, e que és meu melhor amigo. Mas não tenho coragem de varrer as quinquilharias que entulham meu quarto. O cobertor que me envolve é manto de pó e de morte. Eu o odeio, mas abraço-o com amor.

Minhas dívidas são grandes, minhas falhas são enormes e minha vergonha é secreta e pesada. Porém, quando venho pedir um benefício, tremo de medo que minha súplica seja atendida.

II

Fizeste-me sem fim, pois esse é teu prazer. Esvazias continuamente este frágil vaso, e de novo sempre o enches de vida fresca.

Levaste por montes e vales esta pequena flauta de bambu, e nela sopraste melodias eternamente novas.

Ao toque imortal de tuas mãos, meu pequeno coração perde seus limites na alegria, e faz nascer inefáveis expressões.

Teus dons infinitos vêm a mim apenas sobre estas minhas tão pequenas mãos. Passa o tempo, continuas derramando, e sempre há lugar a preencher.

III

Aquele que aprisiono com meu nome fica gemendo nesta prisão. Vivo ocupado em construir este muro à minha volta; e, dia a dia, à medida que o muro sobe até o céu, vou perdendo de vista meu verdadeiro ser na escuridão de sua sombra.

Orgulho-me deste muro e o revisto com terra e areia, para que não se veja nenhuma rachadura neste nome. E, com os cuidados todos que tomo, vou perdendo de vista meu verdadeiro ser.

IV

Minha canção despiu-se de seus adornos e não tem mais o luxo das roupas e enfeites. Os ornamentos atrapalhariam nossa união, pois ficariam entre mim e ti, e seu tilintar abafaria teus suspiros.

Minha vaidade de poeta enche-se de vergonha diante de teu olhar. Ó Mestre poeta, eis-me aqui sentado a teus pés! Permite apenas que eu torne simples e reta minha vida, como a flauta de bambu, para que tu a enchas de música.

V

Quando me ordenas cantar, meu coração parece que vai explodir de orgulho. Então contemplo tua face e as lágrimas me vê aos olhos.

Tudo o que é amargo e dissonante em minha vida se dissolve em única e doce harmonia, e minha adoração abre as asas, como pássaro alegre voando sobre o mar.

Sei que tens prazer em meu canto. Sei que posso chegar à tua presença apenas como cantor.

Com a ponta da asa imensamente aberta de meu canto eu roço teus pés, que eu jamais poderia ter a pretensão de alcançar.

Embriagado pela alegria de cantar, esqueço a mim mesmo e te chamo amigo, tu que és meu Senhor.

VI

Pai,

onde o espírito revela-se destemido e a fronte permanece erguida;

onde o conhecimento é livre;

onde o mundo não foi dividido em fragmentos pelas estreitas paredes domésticas;

onde as palavras brotam da mais pura verdade;

onde a luta incansável estende os braços para a perfeição;

onde a torrente clara da razão não se perdeu no deserto arenoso e monótono de hábitos mortos;

onde o espírito é guiado por ti a pensamentos e ações sempre mais elevados;

– dentro desse céu de liberdade, meu Pai, permite que a minha pátria desperte.

VII

Senhor, esta é a súplica que dirijo a ti: fere, fere pela raiz a avareza em meu coração.

Dá-me forças para suportar alegremente minhas alegrias e tristezas.

Dá-me foras para que meu amor frutifique em serviço.

Dá-me forças para que eu nunca despreze o pobre, nem dobre meus joelhos diante do poder insolente.

Dá-me forças para elevar minha mente muito acima da pequenez do dia-a-dia.

E dá-me forças, finalmente, para entregar com amor minha força à tua vontade.

VIII

Deixa esse cantochão, essas cantilenas e repetições de rosários! A quem adoras tu nesse canto escuro e solitário de um templo com portas fechadas? Abre teus olhos e vê que teu Deus não está diante de ti!

Ele está lá onde o lavrador está cavando a terra dura e onde aquele que abre os caminhos está quebrado pedras. Está com eles ao sol e à chuva, com a roupa coberta de pó. Despe teu manto ritual e desce como ele ao chão poeirento.

Libertação? Onde encontrar a libertação? Nosso mestre tomou alegremente sobre si os encargos da criação. Ele está ligado a todos nós para sempre.

Sai de tuas meditações e deixa de lado tuas flores e teu incenso! Que importa se tuas roupas se rasgam e se mancham? Vai encontrá-lo e fica com ele na fadiga e no suor de tua fronte.

IX

Luz? Onde está a luz? Acende-a com o ardente fogo do desejo!

Aí está a lamparina, mas nunca o tremor de uma chama… Este é teu destino, meu coração? Sim, melhor seria morrer do que ficar longe de ti!

A miséria bate à tua porta, com a mensagem de que teu Senhor está acordado e te chama para o encontro amoroso em meio à escuridão da noite.

As nuvens escuras cobrem a noite, e a chuva não para de cair. Não sei o que é que se agita em mim… Não sei o que significa.

O clarão repentino do relâmpago deixa meus olhos mergulhados em uma treva ainda mais profunda, e meu coração tateia, procurando o caminho que leva ao lugar de onde a música da noite chama por mim.

Luz? Onde está a luz? Acende-a com o ardente fogo do desejo! Troveja, e o vento se precipita, uivando no vazio. A noite está escura como pedra negra. Não deixes que a noite se vá, em total escuridão. Acende a lamparina do amor com tua vida.

X

Ó meu Deus, em saudação a ti, permite que todos os meus sentidos se estendam e toquem este mundo a teus pés.

Assim como a nuvem chuvosa de julho se inclina sob o peso de aguaceiros contidos, permite que meu espírito se prostre à tua porta, em saudação a ti.

Permite que todas as minhas canções reúnam seus diversos timbres numa só torrente e deslizem para o mar do silêncio, em derradeira saudação a ti.

Assim como as cegonhas em bando voam noite e dia, voltando para seus ninhos na montanha, ó meu Deus, permite que minha vida inteira continue sua viagem para seu eterno lar, em derradeira saudação a ti.

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