Prosas – Por Javier Alberto Prendes Morejón

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Dizem ter muitos instrumentos, recursos sem fim, mas todos são abjetos! São almas numênicas, contáveis e sem essência, corrompidas pelo corpo. Na vã ciência, afastada do espírito, esqueceu-se o amor, por conseguinte; e a religião, esquecida da Verdade, afastou-se da razão.

Que dizer sobre isto: sobre este mundo caduco e frágil, incapaz de sustentar a si mesmo, fraco como é? Afinal, por que discute-se tanto, se não amamo-nos tanto? Para quê tanta discussão vã? Não é o coração, o amor, a única valia da existência, ao lado da justiça e da sabedoria? Por que, ora, são tão faladores os humanos, tão pertinazes em mentir, mas tão poucos se amam entre si? Por que há tantas palavras efêmeras e tão poucos abraços sinceros? Tudo é discurso!…

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Dulcíssimo amigo, como estranho tuas belas palavras, emaranhadas de doçura e acalanto, de beleza e sabedoria! E como anseio teus olhos embuçados de sofrer! A tua paixão é um raio vívido de luz e esperança. Tu és um Titã entre seres medianos…

Ajuda-me a acender em mim mesmo o mesmo farol que alumina teu coração. Ajuda-me a ser correto e a caminhar pela Justiça e pelo Amor – consignes riquezas do Espírito! Ajuda-me, se para tanto for merecedor, a ser como tu, que és perfeito, e que caminhas a sós pelo mundo, com teu único escudo, que é o Amor, a Justiça! Ajuda-me, pois que não há sábios num povo adormecido, nem numa era de gente troglodita. Onde encontrar a Sabedoria? Já nos bastam os livros adulterados…

Quanta tristeza não se encarcerou em meus olhos, como flechas rutilantes e mortíferas, a solapar a alma de um mísero humano, pois que tanto desejei, praticamente em vão, durante tantos anos seguidos e sofridos, ter alguém justo como tu ao meu lado, fiel companheiro e sábio para todos os dias, e, contudo, na mais densa melancolia – pois que sem luz a brilhar – naturalmente um coração sente-se exasperado, por completo ausente de paz, mas recheado, pelo contrário, de esperanças inférteis e de pensamentos confusos!

Agora desejo escrever-te, para firmar que hoje apareces como um daqueles cavaleiros errantes de contos medievais… pois que finalmente estás aqui, à minha frente! Por isso adeja de meu peito uma linda harmonia do espírito! Por isso os que se entregam em braços sinceros, estão a cantar e produzir frutos que são a própria beleza das idades! Pois a amizade é o testemunho de um concreto Paraíso, e a distância o reflexo do Inferno na face da Terra.

Tu, amigo, és a razão simplória de minha existência, assim predisposta pelo Desconhecido, cujos braços jogou-me em tua busca, por que sem ti, que valor eu teria, e para quem eu dedicaria meus dias e minhas noites de angústia?

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Sou eu uma estrela sonolenta nos infinitos braços da existência; sou eu o sopro fugaz e sinuoso que, embasbacado com a carne, preso aos sentidos, é feito de uma alma insone; sou eu o sopro de ares vazios e hábitos monótonos, raramente enternecido ou tocado por uma comoção superior!; sou eu uma triste canção, produzida por tantos e inumeráveis males sobre a face da terra; sou eu o desejo límpido e fantasioso de tudo que é rico e exuberante, acima dos homens e da discórdia; sou eu a glória adormecida em sua ainda incipiente maturidade; sou eu o filho triunfal acorrentado às sombras de seus pensamentos; sou eu o espírito aprisionado ao seu reflexo, que tanto me faz confundir meu corpo com a verdade invisível; sou eu o frontispício de uma luz miúda sobre a aurora de tantas vidas!

Vem e acolhe-me em teus braços! Juntos enriqueceremos nossos dias com o ouro da amizade! Vem e afaga-me! Tua afeição por mim, a atenção que dedicam teus ouvidos, e o teu olhar sempre cuidadoso: eis que por isso eu te amo, e por isso quero escrever-te! Quantos amigos ouvem, de fato? Quem, também, ouve a si mesmo? E como ouvir o outro, sem ouvir-se a si próprio?

Por que sofreria tanto, como outrora, se agora tenho aquele que é ideal aos meus sonhos? Com que razão meu coração vacilaria, sentindo-se desolado, permeado de dor, se ao me olhares, se ao me abraçares, se ao me censurares… se em tudo isso resplandece em ti a doçura por mim, e em mim o amor e o respeito por ti? Não é este carinho aquele sonho feliz de uma humanidade sadia? Não é a verdadeira amizade, perfeita, superior a todas as épocas e tão infinita quanto a eternidade?

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Um grande homem passou por nós e não o pudemos perceber. Um grande ser esteve ao nosso lado e não o pudemos ver. Passaram grandes almas à nossa frente e, em nossa esbranquiçada cegueira, não soubemos ver o mais nítido, pois vivemos contraídos em nossa ignorância, e submetidos a todo tipo de ilusão. 

E assim, quando vamos em nossas jornadas de trabalho, nem sequer intuímos o encontro perdido, e ainda por cima divagamos pensando em que algum dia encontraríamos aqueles seres tão sonhados… Somos assim enquanto indivíduos e sociedades.

Pois como um tamanho querer, uma tamanha necessidade, se quando estão à nossa frente não os vemos, eles, emissários de Deus?

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Apieda-te de mim, vida misteriosa – apieda-te de nós -, e dá-me meu tão sonhado palácio de amigos!…

Que vitória poderia eu atingir, maior do que essa, que fosse mais simples e mais profunda, paulatinamente? Que vitória lograr, no mundo terreno, semelhante à essa, tão celeste?

Na vida, algo se equipara a tal brilho? Pois de que vale a riqueza, todos os bens, se são malditos e não geram amor nem respeito? Que legado deixa então um homem após sua morte?

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Amado amigo, faz como se eu fosse um bebê: embala-me em teus braços, sacode-me com a mirra de teu espírito, tu que és a fonte da doçura dos dias de qualquer humano! Coroa-me com tua simples presença. Além de tua sincera amizade, prístina e amorosa, pedir-te algo seria loucura. Te quero tal como és. Só de mim espero alguma coisa… Mas, para aproveitarmos a vida, falemos, dancemos, cantemos, olhemo-nos, abracemo-nos, choremos, sorriamos e fiquemos em silencio… Teu olhar, então, será um pórtico, e tua alma… um porto! Tal como o sol, que irradia sobre a superfície a vida, tu, amigo, irradias em mim a aspiração mais tenra de um pelicano, e o desejo mais latente no coração; tens o poder de fazer, assim, de minha vida, uma canção feliz!

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Menino, vem ensinar-me a ser criança, pois já atingi a maturidade e percebi que tal estação peca pela amargura.

Menino, vem dar-me de tua doçura, pois aos grandes falta-lhes amor! Vem saciar-me de vida; vem comprazer-me com tua doçura!

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Eternidade, que fizestes de mim, acocorado nas noites como uma criança, aturdido no seio das madrugadas, como um vão ou como um relento a trepidar…? De que estrela proveio minha alma, e para que lugar eu irei? Canto-te, mas não me ouves; imploro, mas nada… São tristes os dias e as noites; são letárgicos e abrumadores. Não há canto nem paixão – Cristo já se foi… De que valem as minhas canções, se no teor das noites elas se extinguem ao luar?

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Ah, esses que anseiam o sentido das coisas… são como fontes borbulhantes em contínua peregrinação!

Como é belo o anseio da vida, muralha contra a morte; como floresce aquele que busca a si mesmo sem esquecer-se dos outros!

É pertinaz, para o incrédulo, acreditar no fim? É pertinaz não acreditar na volta?

Meu coração, de tua parte, tu bem sabes que do pó fostes criado, ou de uma coisa qualquer, do pó de qualquer estrela, até mesmo de um átomo, e sabes, tu bem sabes, que no fim só haverá o recomeço, e no recomeço, um novo fim.

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Estrelas, acordem a minha alma, que jaz a dormir por vidas sem fim! Estrelas de todas as constelações, despertem a minha alma opaca, pois ela já está cansada de dormir!

Infinitos sóis ladeiam a minha vida, assim como infinitas auroras e infinitas sombras. Entre rasgos maciços de luz, monólitos escuros se entravam em minha vida; e entre veredas das mais coloridas, infinitas e amargas silhuetas e infâmias sem fim.

A vida jaz escurecida pelo torpor… Nossos corações já não se entregam, nem nossos desejos são grandiosos.

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Teci com meus próprios pensamentos meu caminho e vi no horizonte nada mais do que via em mim mesmo, como seu reflexo opaco. Por isso fustiguei-me, acirradamente, sobre minha própria pele, a ferida que me comovia, a esperança desvalida, e o som da harpa ao longe, como um sopro distante e como um abraço fugaz… Tudo isto, a provar a mim mesmo meu mérito, a ser eu mesmo meus sonhos, e a sonhar com todas as minhas esperanças, assim… como um jovem poeta!

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“Amigos”… por que mascaram a distância com uma palavra tão bela? Por que são inconsequentes, a ponto de se exclamar a inverdade e bradar a hipocrisia? Vejam como deturpam tão sagrada palavra! Notem como destilam o mal usando belos adornos, e como fazem do ouro típico fel.

É uma descompostura, certamente, perfilarem tão banais mentiras, sobre aquilo que em verdade nada se sabe nem nada se entende. Se, em nós mesmos, arregimentássemos as forças que somos capazes de arregimentar em qualquer outra parte, talvez, então, “meus amigos” fossem todos dignos de nota. Até lá, contudo, são apenas seres efêmeros e sem valor.

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Cai o orvalho sobre meus sonhos… Cai a terra sobre minha face…

Ensaios de vida: são isso os homens, como irrisórios protótipos de vida decadente?

Ah, tantas são as contradições, a falta de saber, de conhecimento, mas, sobretudo, de humildade.

Tantos são os erros, e tão poucos os acertos!

Tão poucos são os régios, verdadeiros nobres, mas tantos são os efêmeros, os que não são nada!

Na vida, tudo vale mais do que o homem. O homem… o homem já não existe. Em seu lugar há apenas máquinas, e um desejo ancestral de felicidade.

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Sair para respirar o aroma dos aloés, dos ciprestes, das magnólias, das rosas, das violetas… Eis que temos nos jardins as curas e não o sabemos! Muitas doenças são apenas desassossego, e um simples passeio à luz do sol, rodeado de aromas agradáveis, seria suficiente para diminuir as dores ou mesmo para extingui-las. A natureza é, em si, um estilo de vida que transforma a saúde. A natureza é o néctar da alma e do corpo. E a primavera o albor do espírito!

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Ah, como são cegos estes opacos seres humanos! Vivem a maltratar-se, a espionar-se, a enganar-se… enfim, a opor-se à Ordem.

Por que condenam os deuses, dizendo: “Por que deixaram que isto ocorresse?” Não é, pois, o homem, livre, por natureza? Não deu-lhe a natureza a própria liberdade como dom infinito de sua própria luz interna? E o que nós, de nosso lado, fazemos com relação a ela?

Não é estranho condenar os deuses, ou o deus, quando toda a responsabilidade, no fundo, recai sobre nós mesmos, e só a nós compete?

Ah, mas como são hipócritas os que dizem isso!

Em realidade, não estariam, ao fim, mais interessados em serem guiados como crianças, infantis que são, responsabilizando assim alguma coisa qualquer que lhes sirva de subterfúgio?

O homem maduro trabalhará para ser perfeito. E cabe a ele, e só a ele, alcançar a maturidade.

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Nas coisas mais simples, a bem dizer, estão os maiores obstáculos do gênero humano. O abraço, o olhar, o carinho, a atenção… essas coisas todas são aspectos da primavera. Por meio delas ilumina-se a vida, enternecem-se os sonhos e a vontade de viver. Sem elas nasce a lamúria, o enfado, a angústia, a tristeza, todas as emoções dilacerantes que afligem nosso coração e o fazem carecer de paz e alegria. Mas em seu ápice, em sua constante saúde, no seu exercício livre e espontâneo, está a paz, o bem-estar, o regozijo.

A humanidade se preocupa muito com questões sociais, mas se esquece do espírito, desses valores básicos. Em verdade, em nome de um pseudo-humanismo ela se tinge de iluminista, mas, na prática, ninguém ama, ninguém é atencioso, ninguém se abraça, ninguém se olha, ninguém é humilde nem sincero. Logo, tudo é falso, todos os discursos são vazios, todos carecem do mais importante.

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