Visita ao Santuário de Kashima – Por Basho

Tradução – adaptada pelo editor – de Kimi Takenakae Alberto Marsicano, do livro “Trilha estreita ao confim”, da ed. Iluminuras.

Visita ao Santuário de Kashima

Numa clara noite outonal de lua cheia, passando pela praia de Suma, um poeta de Kyoto escreveu:

sombra dos pinheiros
lua da décima quinta noite
poeta Chunagon

A imagem deste poema não me saiu da cabeça, até que neste outono tomei novamente a estrada, possuído pelo desejo de ver a lua cheia nascendo sobre as montanhas do santuário de Kashima. Acompanhavam-me nesta jornada um jovem e um monge errante. Este, como um corvo, trajava uma veste negra e portava nas costas um pequeno relicário com a imagem de Buda recém-iluminado. Caminhava à nossa frente empunhando firmemente seu cajado, como se tivesse livre acesso ao mundo através do Portal sem Portas. Eu também, embora não fosse monge ou leigo, estava de negro, vagueando como um morcego que se passava ora por pássaro, ora por rato. Tomamos o barco perto de casa e navegamos até Gyotoku, onde retomamos nosso percurso.
Cobrimos nossas cabeças com chapéus feitos com folhas de cipreste, gentilmente oferecido por um amigo da província de Kai, e rumamos para o vilarejo de Yawata, onde encontramos a imensa pradaria de Kamagai-no-hara. Conta-se que na China existe um campo tão extenso que os olhos num só relance avistam mais de mil milhas. Aqui neste lugar, a pradaria avança de forma contínua até o horizonte, onde encontra os imponentes picos do monte Tsukuba. Como duas espadas que apontam os céus, estes picos são tão formosos como os do monte Rosan, na China.

monte Tsukuba
nevado resplandece
sob a purpúrea bruma

Este poema foi escrito por meu discípulo Ransetsu, quando por aqui passou. O príncipe Yamatotakeru também imortalizou num poema esta montanha, cujo nome inspirou o título de sua antologia poética. Pouquíssimos poetas passaram por estas paragens sem escrever um tanka ou haikai.
A paisagem estava inteiramente coberta por flores de rara beleza. Comenta-se que certa vez Tamenaka caminhou até Kyoto levando várias delas como recordação.
Ao cair da noite alcançamos a cidade de Fusa, situada às margens do rio Tone. Os pescadores locais apanham o salmão em trançados de vime e os vendem nos mercados de Edo. Numa cabana de um deles demos um rápido cochilo sob forte cheiro de peixe. tomamos então o barco e navegamos até o santuário de Kashima sob os brilhantes raios do luar.
Começou a chover no crepúsculo do dia seguinte, e mão conseguimos ver o nascimento da lua cheia. fui visitar, então, o monge do santuário, que residia numa pequena ermida no sopé da montanha. A tranquilidade daquela morada inspirou meu coração com as palavras do antigo poema “um sentido profundo de meditação e recolhimento” ao ponto de fazer-me esquecer o pesar de não poder ver a lua cheia.

Pouco após o romper do dia, a lua cheia surgiu, radiando seus fulgores argênteos através dos clarões das nuvens. Acordei imediatamente o monge e os que dormiam e contemplamos por um longo tempo em completo silêncio os raios do luar tentando transpassar as nuvens ao som dolente da chuva. Era realmente espantoso o fato de termos vindo de tão longe apenas para observar o espectro tênue da lua, mas consolei-me lembrando a história da poetisa que retornou de uma longa caminhada que fez para ouvir o canto do cuco, sem compor um único verso. Os seguintes poemas foram escritos nesta ocasião:

sempre o mesmo
imutável no céu
o clarão da lua
mil espectros de luz
nas multiformes nuvens
Monge

voa a lua
pingos nos galhos
sorvendo a chuva
Tosei

por toda a noite no templo
com o límpido olhar
contemplei a lua
Tosei

após dormirem na chuva
os bambus se erguem
a contemplar a lua
Sora

como é solitária a lua
ao som do gotejar
da calha do templo
Soha


Poemas compostos no templo de Kashima

teriam estes pinheiros germinado
na época dos deuses?
outono no santuário
Tosei

retiremos no musgo
da pedra sagrada
o orvalho
Soha

frente ao santuário
com solene bramido
se prostra o cervo
Sora

Poemas compostos em meio ao arrozal

colheita no arrozal
pousa a cegonha
outono na aldeia
Tosei

colheita noturna
sob a lua clara
ajudo os camponeses
Soha

os filhos dos camponeses
ao debulhar o arroz
contemplam a lua
Tosei

folhas tremulam
no campo queimado
à espera da lua
Tosei

Poema compostos no campo

minha calças
serão tingidas
pelas flores de hagi
Sora

outono em flor
pastam o capim
cavalos errantes
Sora
campos floridos de hagi
por uma noite abriguem
aos cães da montanha
Tosei

No caminho de volta paramos na casa de Jijun, onde compusemos os seguintes poemas:

amigos pardais
façam desta palha seca
seu ninho
Jijun

em pleno outono
germina a semente de cedro
plantada no jardim
Escrito pelo convidado

para ver a lua
paramos o barcos
que subia a corrente
Sora

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