A substituição dos Heróis pelas celebridades! Virtude x Mediocridade – Por João Gabriel Simões

Certas ideias que sejam o nosso “imaginário popular” ou o “senso comum” valem ser (re)vistas, para que nosso pensamento seja cada vez mais lúcido.

Tudo começa com a ideia elementar de qualidades e tentativas, pontos positivos e negativos, virtudes e vícios, ideia presente em grande parte das culturas e períodos históricos da humanidade.

Como diria o filósofo Platão: “o homem necessita de heróis”. O herói é uma encarnação de virtudes, que se busca alcançar e de “vícios” que se busca evitar. O herói dá esperança e lembra ao homem o quão grande ele pode tornar-se.

A figura dá o sentido do trabalho de desenvolvimento, pois pode ser avaliada como um herói que pode ser considerado como uma referência ideal.

Na mitologia:

Sou tão corajoso como Perseu? Sou determinado como Ulisses? Sou resiliente como Hércules?

Na história factual:

Sou tão sábio como Platão? Sou tão prudente como Marco Aurélio? Sou tão corajoso como Gandhi?

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Perseu e Andrômeda — Pierre Mignard





Se olharmos para a história encontramos heróis que serviram como modelos de conduta nas mais variadas culturas. Heróis que, e de maneira geral, refletiram o que há de mais precioso na humanidade: fraternidade, justiça, sabedoria, força de vontade, resiliência, engenhosidade, etc.

Agora, será para o momento cultural atual que ainda encontraremos o herói capaz de encarnar tais virtudes da humanidade, no mesmo patamar dos heróis do passado?

A resposta é sim e não! Sim, pois existem “heróis” anônimos e não, porque aqueles que são conhecidos pela maioria e reconhecidos como modelo de conduta não são os heróis à maneira clássica, mas os ídolos criados pela mídia e a propaganda, a serviço de interesses mercadológicos, entre muitos outros.

São os produtores, artistas, atores, cantores e “famosos”. São eles que têm o maior poder de influência atualmente. São eles que seus filhos querem imitar e são eles que geralmente dizem que o devemos “ter” e que devemos “ser”.

Hoje em dia, uma revista de “fofoca” é tratada por muita gente, da mesma forma como a “odisseia” de Homero era tratada pelos gregos no passado. Veja só: e o “ato heróico” do mês foi o pedido de desculpas, de um ator famoso, endereçado a sua namorada depois de tê-la traído com sua melhor amiga. Foi realmente um momento histórico, virtuoso e importante para nossas vidas!!!

Em outras palavras, o que é exaltado atualmente é indubitavelmente a mediocridade. O homem pode fazer muito mais do que atualmente dizem que ele pode. E isso é sabido por qualquer criança que ainda não tenha sido condicionada a se nivelar por baixo! Por que gosta tanto de super-heróis?





O perigo do Relativismo Cultural

Na onda do relativismo cultural que, ao modo da falácia da “ladeira escorregadia”, “escorregou” da boca de alguns pensadores para as áreas da vida, se tornou politicamente inferior ou todas incorretas dizer que algo é politicamente incorreto ou superior, por exemplo, que o valor da música “pop” atual, em determinados aspectos, é inferior ao da música clássica de um Beethoven.

A propósito, de com Platão, “diga-me qual música os governantes suportem para a população que lhes direi a uma estrutura moral desta”. A música na Grécia antiga era pensada como elemento formador de caráter e, portanto, indispensável no processo educacional. E hoje, o que almeja a música, mais especificamente a pop? 





Perda da Noção de Hierarquia

Diante dessa perspectiva perde-se a percepção da percepção das diferenças de graus e matizes entre pior/melhor. Tudo se torna o mesmo, ou seja, uma espécie de pasta, que nivela tudo por baixo.

O que justifica essa criação é uma visão do mundo e do homem reducionista, materialista e niilista — disseminada direta e encontrada no “imaginário popular” ou inconsciente coletivo da sociedade. Ou seja, a ideia de que tal como cachorros, somos apenas animais que podem ser condicionados facilmente pelo meio e ser isso ou aquilo. Ideia que se desdobra na noção, cada vez mais popular nas redes sociais, de que podemos ser tudo o que quisermos, bastando querer e ter o meio necessário para se desenvolver. Tal noção não leva em conta como diferenças individuais, como diferentes predisposições genéticas e que os hindus chamavam de Dharma, disposições pessoais, ou em outras palavras, tratam os seres humanos como números, unidades, peças que podem exercer qualquer função indistintamente.

Tal visão terrena constituindo lugar fértil para a mediocridade e desvalorização do potencial, uma vez que suplanta a noção hierárquica, coloca e, por vezes, destitui o símbolo do herói como encarnação de virtudes/valores universais hierarquicamente superiores, e não da miríade de ídolos de “areia” que desaparecem ao menor sopro das modas e interesses do momento.

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Escolha entre a virtude e o vício— Frans Francken





Os efeitos nocivos dessas ideias podem ser selecionados:

  1. Na música popular — não qualifica a forma “sonora” mais complexa em favor do conteúdo mais “vulgar”.
  2. Na arquitetura, com as cidades, prédios quadrados e “desengonçados”; a reforma que leva, pouco a pouco, à perda da personalidade de cada cidade; as figuras iguais em feiura e desarmonia.




Diante disso o que podemos fazer?

Buscar uma educação humanista mais vasta: ler os clássicos da literatura, filosofia, mitologia e religião; entrar em contato com as grandes obras da humanidade (pinturas, músicas, esculturas, construções etc.) e assimilar, a partir disso, tanto na teoria como na prática, o que são as virtudes, o que é ser virtuoso e o que é ser um verdadeiro herói. Esse é o primeiro passo a ser dado por aqueles que querem fazer a diferença. Lembre-se de que é preciso ter a noção do que é o melhor para se saber o que é o pior!

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