Oração aos Moços – Por Rui Barbosa


Salvador, 1849 – Petrópolis, 1923

Quantas mais largas vastidões abrange o saber, tanto mais razão de serem modestos os seus cultores.

A circunstância visual se ensancha, à medida que a luneta do observatório alcança mais longe.

Mas o observatório é um ponto, que se reduz cada vez mais no centro do horizonte sensível.

Muito há que alguém disse: “O sábio sabe que não sabe”.

Considerai agora quanto mais discretos, quanto menos desvanecidos não devemos de ser, os que não transpomos a condição ordinária da mediocridade, e, com esses, os principiantes, os novos, as crianças, todos os que, ao revolver desses latifúndios, estão ainda à flor da terra. Não vos desacorçoo do estudo, meus amigos: tão somente vos acautelo da presunção. Por menos que seja a safra intelectual de cada um, pode ser um tesouro: um dia afortunado enriquece às vezes o explorador. Nem só os laureados entre os demais, os que aumentam de novos cabedais o património comum, se hão de ter por bem pagos da lida estudiosa.

Saber estudar, possuir a arte de aprender, habilitar-se a navegar seguro por essas águas e através desses escolhos já é ser abastado nas posses, e ter aproveitado o tempo. Conhecer a natureza quanto seja mister, para adorar com discernimento a Deus, e governar com acerto a vida, sobejamente compensa as maiores canseiras do entendimento, desde as porfias da escola, até às meditações do gabinete. Por distintos, porém, que vos logreis fazer entre todos, ainda que o mundo enrame a fronte de coroas, e o nome se vos grave entre os dos privilegiados na fama, não seja nenhum de vós confiado na sua suficiência, nem da sua glória se envaideça. Porque só há uma glória verdadeira, digna deste nome: é a de ser bom; e essa não conhece a soberba, nem fatuidade.

Depois, a ciência é grande, mas os cientes, na infinidade do seu número são pequeninos, como pequeninos são contemplados do espaço, os maiores acidentes da superfície terrestre.

Mocidade vaidosa não chegará jamais à virilidade útil. Onde os meninos campearam de doutores, os doutores não passarão de meninos. A mais formosa das idades ninguém porá em dúvida que seja a dos moços: todas as graças a enfloram e coroam. Mas de todas se despiu, em sendo presunçoso. Nos tempos de preguiça e ociosidade, cada indivíduo nasce a regurgitar de qualidades geniais. Mal desfloraram os primeiros livros, já se sentem com força de escrever tratados. Dos seus lentes desdenham, dos seus maiores desfazem, chocarreiam dos mais adiantados em anos.

Para saber a política, não lhes foi mister conhecer o mundo, ou tratar os homens. Extasiados nas frases postiças e nas ideias ressonantes, vogam à discrição dos enxurros da borrasca e colaboram nas erupções da anarquia. Não conhecem a obediência aos superiores e a reverência ao mestre. São os árbitros do gosto, o tribunal das letras, a última instância da opinião. Seus epigramas crivam de sarcasmos as senhoras nas ruas; suas vaias sobem, nas escolas, até à cátedra dos professores. É uma superficialidade satisfeita e incurável, uma precocidade embolada e gasta, mais estéril que a velhice. Deus livre a esta de tais sucessores, e vos preserve de semelhantes modelos.

Sede, meus caros amiguinhos, tais quais o verdor florescente de vossos anos o exige: afervorados entusiastas, intrépidos, cheios das aspirações do futuro e inimigos dos abusos do presente. Mas, não vos reputeis o sal da terra.

Habituai-vos a obedecer, para aprender a mandar. Costumai-vos a ouvir, para alcançar a entender. Afazei-vos a esperar, para lograr concluir. Não delireis nos vossos triunfos. Para não arrefecerdes, imaginai que podeis vir a saber tudo; para não presumirdes, reflecti que, por muito que souberdes, muito pouco tereis chegado a saber. Sede, sobretudo, tenazes, quando o objecto almejado se vos furtar na obscuridade avara do ignoto.

Profundai a escavação, incansáveis como o mineiro no garimpo. De um momento para outro, no filão resistente se descobrirá, talvez, por entre a canga, o metal precioso.

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