Reflexões sobre as Tradições Religiosas à Luz do Novo Pramantha – Por João Paulo Miranda

Existem sempre dois aspectos em todas as tradições religiosas.

Um deles representa o que é visto, aberto, exotérico. Aquele que é celebrado em rituais nos templos, por sacerdotes e baseado normalmente em escrituras sagradas.

As escrituras sagradas, de modo genérico, caracterizam-se como mandamentos, regras morais e de conduta que devem nortear os seguidores e ser obedecidas por eles a fim de se alcançar a conexão com a Divindade (a re+ligação, donde religião, termo derivado do latim religare).

O outro aspecto é o oculto, velado, esotérico, reservado apenas aos neófitos, discípulos e iniciados na Tradição Primordial.

A Tradição Primordial é a Gupta Vidhya, Sabedoria Iniciática das Idades, o tronco da árvore donde se ramificam, através de seus inúmeros galhos, várias tradições ocultas, resguardadas nos âmbitos das ordens secretas e das escolas iniciáticas e de mistérios.

As doutrinas (ocultas) das tradições iniciáticas são transmitidas oralmente, de boca a ouvido, de mestre a discípulo, mediante severo voto de silêncio que, no caso de quebra, sujeita o seu violador aos rigores da LEI maior, que a tudo e a todos rege, como bem denota o axioma “dura Lex sed Lex”, “a Lei é dura, mas é a Lei”.

Em seus aspectos exotéricos, as religiões, com o passar do tempo, vêem minguar suas essências e perder seus sentidos primordiais, resvalando-se, de modo inevitável, em dogmatismos, fanatismos, ou místicas meramente devocionais, com predomínio da tônica emocional.

Entrando em decadência, as religiões, sob os vieses exotéricos, perdem seus sentidos verdadeiros de conexão, “re+ligação”.

Os processos de decadência coincidem com os adventos de novos impulsos, que buscam trazer à tona as essências das religiões, reciclando-as e adaptando-as aos novos tempos.

Esses novos impulsos sempre nascem dos aspectos ocultos das religiões, marcando o retorno da essência através da luz que vem iluminar os ensinamentos, o “Espírito que vivifica” em detrimento da “letra que mata”, predominante nos tempos de decadência.

Os períodos de mudanças de ciclos caracterizam-se pelos surgimentos (ou ressurgimentos) de ordens e escolas de iniciação, e também pelos adventos de novas manifestações avatáricas, sejam Yokanaans (Anunciadores), Manus (Legisladores e Condutores de povos), e Bodhisatwas ou Budhas (Iluminados, Messias, Cristos, etc).

A mudança cíclica representa a “boa-nova”, o advento do novo pramantha, ou “estado de consciência”, mais elevado que o seu anterior.

O novo pramantha marca o restabelecimento da Lei Maior, que a tudo e a todos rege, em tempos de kali yuga (idade do ferro) marcados não apenas pela perda de essência e de sentido das religiões existentes, mas também de decadência moral, ética, de corrupção, de guerras, de injustiças de todos os tipos e de predomínio de forças involutivas.

Qualquer semelhança com o momento atual do nosso mundo não é mera coincidência. Estamos realmente vivendo o “fim de um ciclo apodrecido e gasto”, no dizer do alto iniciado Prof. Henrique José de Souza.

O final deste ciclo de kali yuga marca, ao mesmo tempo, o início (o novo pramantha) do ciclo de satya yuga (idade de ouro), que propicia à humanidade um notável potencial de evolução e consciência.

O processo de restabelecimento da LEI, a coincidir com a manifestação, no seio da humanidade, de um Avatara, remete à fala de Krishna ao discípulo Arjuna no livro sagrado hindu “Bhagavad Gita”: “Toda vez que a Lei justa (Dharma) se declina, que se levanta a injustiça (Adharma), Eu me manifesto para a salvação dos bons e a perdição dos maus. É para reestabelecer a LEI (Dharma) que renasço em cada ciclo. Eu sou tanto a morte que não poupa ninguém, como o renascimento que dissolve a morte.”

Lembremo-nos, nesse contexto, de que o termo Avatara significa justamente “a descida da Lei”.

Dentre seus inúmeros propósitos, o novo pramantha se serve para trazer luz, essência e sentido às religiões, de modo a satisfazer as necessidades das novas gerações, que não conseguem mais aceitar, pura e simplesmente, os velhos dogmas das religiões de seus antepassados.

Como um dos sintomas do “fim de um ciclo apodrecido e gasto”, as novas gerações percebem que os sentidos interiores das escrituras e das religiões de suas famílias se perderam e se transformaram em costumes vazios, meras formalidades destituídas de vivacidade e de essência.

Aqueles que pensam e questionam acabam se afastando das religiões, enquanto os puramente devocionais ou nelas se aprisionam, tornando-se fanáticos, ou as levam simplesmente como “muletas”.

É comum observar que os rebeldes, os inconformados, aqueles que ousam questionar os dogmas das tradições religiosas, mas que permanecem na busca de algo maior, com suas almas inquietas, acabam muitas vezes encontrando os mesmos princípios das suas fés familiares em outras tradições e religiões, das quais muitas vezes sequer tinham ouvido falar a respeito.

Isto ocorre porque todas as religiões e tradições possuem uma fonte comum; todas são filhas da Tradição Primordial, da Gupta Vidhya, ramos do tronco da árvore da vida, a Sabedoria Iniciática das Idades, que engloba todas as tradições iniciáticas e religiões a que dela são filhas, tanto do Oriente como do Ocidente.

Assim, o Hinduísmo, o Budismo, o Zoroastrismo, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo, e outras tantas religiões espalhadas pelo mundo são descendentes de uma única fonte, que é, repita-se, a Tradição Primordial.

Como já afirmei, a doutrina oculta é periodicamente reformulada e atualizada, na razão e de acordo com o advento do novo estado de consciência que será o guia do futuro da humanidade (o novo pramantha) a partir de então, o farol que indicará o caminho da evolução e da consciência.

Essa atualização, que não deixa de ser uma reavaliação da natureza humana, assim como da relação entre o ser humano (como microcosmo) e o universo (o macrocosmo), o homem e “Deus”, pode se dar (e efetivamente se dá) de diversas formas, porém a sua essência é sempre é a mesma.

A essência (o espírito, a verdade), é perfeita, completa, perene, apesar de poder e realmente se manifestar sob diversas formas e roupagens.

A doutrina oculta traz renovações às tradições religiosas, nos seus sentidos reais, verdadeiros, de re+ligar, de conectar, preservando, todavia, suas essências.

Não podemos nos esquecer, porém, que mesmo nos dias de hoje, neste advento do novo ciclo, deste novo “pramantha” a luzir, que será regido por cerca de 2.000 pela consciência de Aquarius, a transmissão da tradição oculta, sem desconsiderar a importância das escrituras, continuará sendo oral, de boca a ouvido, afinal, tradição é tradição.

Reitero que a tradição oral é a que preserva a essência, a verdade, o “espírito que vivifica”, em contrapartida à inevitável sujeição da linguagem escrita às limitações humanas do emocional e da mente concreta, das interpretações literais, dogmáticas e parciais, enfim, da inexorável sujeição das escrituras à “letra que mata”.

A despeito disso, a pessoa que busca apreender o sentido de uma escritura, por mais antiga que seja, com vistas à sua essência, ao “espírito que vivifica”, e não da “letra que mata”, seguramente terá sucesso no seu intento, pois a essência, perene e eterna, é resguardada pela linguagem simbólica, abstrata e intuitiva.

Não se trata, neste caso, de um processo de mero entendimento ou aprendizado, associado ao mental concreto (4º estado de consciência), mas de identificação e absorção, de linguagem dos símbolos e de suas chaves, ligado ao mental abstrato e à intuição, (5º e 6º estados de consciência).

É a “voz do silêncio” que dá essas chaves aos discípulos que se fazem dignos de recebê-las. A “voz do silêncio” é a voz da consciência, do mestre, que transmite ao neófito a tradição, de boca a ouvido.

Como afirma aquele velho axioma iniciático “quando o discípulo está preparado, o mestre aparece”Aparece e lhe fala.  O verbo, o som do silêncio.

Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Evangelho de São Mateus, 13:9).





João Paulo Miranda, maio de 2022.

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