Rio de Janeiro, a “Cária” brasileira – Por Vitor Manuel Adrião

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/259914336_10158381939743873_4683343594416407262_n.jpg?w=775

Quem está ou chega no Rio de Janeiro, a “cidade maravilhosa” e maravilhada pela sua disposição geográfica perfeita, plantada à beira da imensa baía de Guanabara dando-lhe beleza ímpar, imagem-postal que percorre o mundo, e pelas muitas tradições e monumentalidades erigidas ao longo dos tempos que criaram raízes e lhe aumentaram, a par da beleza natural, o valor da importância sociocultural necessária ao entendimento do passado histórico brasileiro, dizia, quem está ou chega se inquirido for sobre qual seja o mais antigo ex-libris da cidade, invariavelmente apontará a Pedra da Gávea.

Hoje é vista como desafio a escalar pelos montanhistas, a saltar do seu topo pelos praticantes de “asa-delta”, mas também como fonte de estórias mal-assombradas e pomo de confluência das atenções e romarias das crenças de toda a espécie, o que lhe acresce e mantém o halo de sobrenatural e mistério.

Mas não há fumaça sem fogo…

Diz a Tradição Iniciática pela voz da Teosofia Brasileira que esse imenso bloco granítico fora talhado, no tempo fenício, de maneira a configurar uma esfinge e no seu interior escavado haver um vasto espaço que inicialmente constituiu-se um templo hipógeo, depois convertido em jazigo tumular.

No sopé do colosso granítico tem-se a escassa enseada Recreio dos Bandeirantes, onde um carreiro leva directamente ao topo da Gávea; defronte a essa praia de cascalho, há umas pequenas ilhotas que debruam a enseada. Ora, quando está maré baixa vê-se numa delas uma imensa cavidade que o mar engole feroz quando a maré sobe. Quem já penetrou no seu interior e saiu vivo, pois que muitas vidas já se perderam aí, desde pescadores veteranos a mergulhadores profissionais, conta que essa gruta submarina se prolonga na direcção do continente e bem por baixo da Pedra da Gávea, o que acaso atestará a tradição da Gávea comunicar-se subterraneamente com uma ilha defronte a ela. Acaso teria sido “boca de fuga” em caso de ataque inimigo? Poderia ser e poderia não ser. Fica a conclusão para a especialidade espeleológica. Mas também poderia ou poderá, quiçá, ser muito mais ainda: embocadura levando ao ventre da Terra, a essas regiões subterrâneas sob a cidade do Rio de Janeiro que têm sido a origem de tantas lendas e polémicas. O facto provado é que à Pedra da Gávea os tupis e tamoios chamavam de Metaracanga, “cabeça bonita coroada”, e Piraquara, “a toca, o buraco de mar”.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/gruta-gavea.jpg?w=1024

Administrativamente, localiza-se no Bairro da Tijuca próximo de São Conrado, vizinho do Bairro da Gávea, no sul da capital carioca, tornando-se evidente ter sido essa Pedra a dar o nome a esse último bairro luxuoso, significando gávea, na língua portuguesa, o cesto colocado no alto do mastro de um navio, donde o marinheiro podia observar, vigiar e, eventualmente, avistar terra. Curiosamente, no caminho de subida ao topo do maciço o lugar da primeira vista que se tem de toda a cidade e baía em baixo, leva o significativo nome de Pedra do Navio, e logo depois, mais à frente, a Pedra do Grito ou do Avistamento. Por conseguinte, o significado desta palavra estende-se a alguém ou a algo que está a vigiar e a guardar alguma coisa.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/1-2.png?w=712

Pedra da Gávea, Esfinge do Brasil… De facto, ela carrega vários sinais indesmentíveis como assinalam diversos autores, mesmo que as suas explicações possam ser bastante discutíveis. Nisso está o caso do livro de Eduardo B. Chaves[1], apesar de fornecer uma série de informações importantes sobre motivos decorativos desaparecidos do colossal rochedo, as quais serão reproduzidas aqui.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/2-1.png?w=688

Um desses motivos seria a “cauda” da pressuposta “esfinge”, a tromba do elefante como lhe chamava o povo, enorme rochedo que numa noite chuvosa de 1919 rolou do alto da Pedra da Gávea. Informa também que, oculta sob a espessa vegetação escondendo a parte traseira da “esfinge”, existe uma escadaria com cerca de 50 degraus muito rentes (provavelmente desgastados pela erosão) levando a um terraço de formas ainda perfeitas que, “evidentemente, foi esculpido”. Aí existe um trono, com o braço direito semidestruído, voltado para o Oriente, ou seja, para o Sol Nascente[2].

Outro motivo seria um Sol esculpido em alto-relevo no topo, sobre a “cabeça” da Pedra da Gávea, destruído a marretada cerca de 1957, cujos vestígios do vandalismo ainda hoje podem ser confirmados facilmente.

Há também o famoso “portal” da Gávea, visto do Bairro da Barra da Tijuca. Contam os moradores da vizinhança que uma grande pedra rolou do seu alto numa noite de tempestade, dessa feita do lado esquerdo da montanha, tendo em vista que a “esfinge” não existe dessa parte. Quando o rochedo caiu, deixou à vista algo interessante: uma espécie de portal, inclusive visto de baixo. As suas dimensões são 15 metros de altura por 8 de largura e 4 metros de profundidade. Não falta quem acredite que essa seja a suposta famosa entrada para o interior da Pedra da Gávea[3].

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/3-1.png?w=796

Finalmente, exactamente defronte à Pedra da Gávea tem-se a Pedra Bonita, com os seus 609 metros de altura, cujo acesso a pé é facílimo. No seu cume aplainado, a exemplo do da Gávea, estão perfeitamente esculpidos na rocha viva sete círculos concêntricos, um dentro dos outros, defronte para a “esfinge” carioca.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/4-1.png?w=742

Lugar altaneiro de óbvio culto astrolátrico por povos primitivos, neste contexto podendo-se instalar cários e fenícios, esses sete círculos concêntricos para uma oitava coisa assinalada na própria “esfinge”, a Tradição Iniciática permite a possibilidade do conjunto lítico poder se inscrever no culto primitivo aos Cabires ou Kabirim, “deuses poderosos”, do orbe celeste (como os mesmos Cumaras ou Kumaras védicos, os “Planetários de Rondas” da nomenclatura teosófica), da devoção dos povos mediterrâneos, inclusive dos fenícios, cultores dos Mistérios Sagrados, segundo Helena Petrovna Blavatsky[4]. Simultaneamente, poderá ser a representação do primitivo Sistema Geográfico de Teresópolis, em guisa de “círculos planetários” ou “círculos geográficos” em torno do oitavo sintético representativo do Sol Oculto, Espiritual: Teresópolis, aliás, Charma.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/5-1.png?w=830

De maneira que desde muito cedo o contorno da Pedra da Gávea, na vertente meridional do maciço da Tijuca com os seus 842 metros de altura, foi associado a uma esfinge. Inclusive a maioria das pessoas conhecem hoje, sem mais apuramento ou erudição, o seu frontispício pelo nome de “Cara do Imperador”, referindo-se ao imperador D. Pedro II, em seu tempo caricaturado como uma esfinge na Revista Illustrada (1876), dispondo-o no lugar do maciço, provando assim que já na época existia a associação da Pedra da Gávea a uma esfinge. No interessante livro de Araken Távora[5], ele reproduz essa caricatura do imperador, informando ter ocorrido depois da sua primeira viagem ao Egipto em 1871, que era pessoa muita culta e inclusive dominava a língua sânscrita. Devido à mania de caricaturar o imperador teria surgido mais essa, mas cujo significado real, em última instância, só poderá ser: D. Pedro II era um Iniciado verdadeiro!

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/6-1.png?w=520

Uma coisa é certa: desde há muito que o enigma da Pedra da Gávea é pomo de discussões acaloradas nos meios académicos, gerador de controvérsias entre os analistas, e não faz muito tempo terem sido lançadas mais achas para a fogueira da polémica pelo jornal O Globo, na sua reportagem de domingo, 6.8.2000, assinada pelo jornalista Eric Brücher Câmara, com o título: Desvendado o Enigma da Pedra da Gávea, e o subtítulo: Expedição constata que supostas inscrições são resultado da acção do tempo e que não há túnel oculto na rocha. Pelas manchetes claramente tendenciosas revela-se já a intenção principal da reportagem: “desmistificar” tudo quanto foi dado à luz acerca do maciço como construção humana, como defendia e encabeçava a primazia teosófica do Professor Henrique José de Souza (São Salvador da Bahia de Todos os Santos, 15.9.1883 – São Paulo de Piratininga, 9.9.1963).

O jornalista informa que uma equipa de geólogos e geofísicos esteve na Pedra em 8 de Julho de 2000, levando equipamento GPR (sigla inglesa de radar de penetração no solo) que “vê” através da pedra, e que os dados obtidos não mostraram mais do que rocha maciça. Respeitante ao “Portal dos Fenícios”, reentrância rectangular com cerca de 15 metros de altura, bem próxima ao cume da Gávea, foi simplesmente remetido para o “terreno pueril da lenda”. Quanto às supostas inscrições fenícias, também foram explicadas por um dos geólogos da expedição: “Com as intempéries, os minérios mais sensíveis desgastam e o resultado é ficarem com a aparência de inscrições” (sic)!!!

Não havendo consenso entre geólogos e arqueólogos quanto à origem fenícia ou de alguma outra civilização antiga que tenha estado no Brasil e intervindo na Pedra da Gávea, assim recusando esta como sítio arqueológico ao apontarem “a “inscrição” como resultado do processo natural da erosão e o “rosto” um produto de pareidolia”, fenómeno psicológico envolvendo um estímulo vago e aleatório, geralmente uma imagem ou um som, sendo percebido como algo distinto e com significado, repito, essa última expedição apoiada pela Governo brasileiro parece ter se destinado a reconfirmar a sentença já proferida pelo mesmo quando, na década de 1950, o Ministério da Educação e Saúde do Brasil adoptou a atitude negativa do local não apresentar qualquer tipo de escrita nem alguma outra espécie de intervenção humana, até hoje sustentando essa postura oficial nas conclusões do químico suíço Paul Hermann: “A arqueologia brasileira nega totalmente a existência de inscrições fenícias em qualquer parte do país”[6]. Mas isso não é verdade, a não ser que se descartem os inúmeros estudos que contrariam tanto a posição do Governo quanto a de Hermann. Tal não pauta o preceito científico de não recusar até prova em contrário, porque a recusa da prova liminar deixa de ser preceito e passa a preconceito mais irracional que académico, gozando empiricamente de dados viciados ou preceitos supostos a priori, mesmo sem deixar de anacronicamente sugerir a América do Norte como a “eleita bíblica”, crença importada das seitas pentecostais norte-americanas, com tudo atirando para as calendas fenícias o princípio da incerteza de Heisenberg. Reafirma-se a eterna dependência, contaminação até nas ciências, desde a sociologia à política, do Brasil relativamente aos norte-americanos, cuja “cultura superior” afinal colheram da Europa onde têm a sua origem recente, menos de 300 anos.

Tomando a defesa da Teosofia no Brasil e do seu maior baluarte humano, Henrique José de Souza, devo afirmar que este nunca negou que a Pedra da Gávea não fosse um maciço rochoso, e sim que boa parte desse maciço fora esculpido de maneira a sugerir uma esfinge, com parte do interior escavado para conter um pequeno templo, depois convertido em túmulo… a que hoje não se tem acesso por qualquer parte externa do controverso maciço, para todo o efeito, monumental. Seja como for, tanto a sua gruta “garganta do céu” como a famosa “chaminé”, a trilha utilizada para chegar ao topo, revelam sinais de intervenção humana, cuja memória olvidada hoje é pomo de tantas discórdias. Também nisto, respeitante a hipógeos e outros espaço subterrâneos, os fenícios pós-atlantes (o Homo Atlantis ou Homem Diluviano, já hoje aceito e discutido na Academia Portuguesa de História, como confirmei pessoalmente em sessão magna de académicos de número) teriam herdado a sua tradição dos epoptae egípcios, conforme indicam Heródoto e Ptolomeu.

Ainda acerca do aparelho GPR, este não sonda mais de cinco a sete metros, e se a sonda estiver horizontal não capta o que está vertical, e vice-versa. Assim, por exemplo, se fosse colocada no piso em frente ao Cristo Redentor, o “Corcovado”, jamais poderia “ver” os túneis Rebouças, centenas de metros abaixo, e logo não captar o imenso afluxo de veículos que atravessam a base da montanha.

Creio que geólogos, arqueólogos, montanhistas e jornalistas obviamente não possuem bases positivas para concluir decisivamente acerca de factos ainda não completamente explorados por quem de direito, tal como, evidentemente, os historiadores, médicos e matemáticos não têm condições para validar a existência ou não de jazidas de minério. Isto a propósito da conclusão já citada do geólogo Marcos André Malmann, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que fez parte dessa expedição à Gávea no ano 2000; se os conhecimentos de História Antiga, Filologia Antropológica, Línguas Antigas comparadas, Paleontologia e Arqueologia fossem ministrados regularmente aos estudantes dos cursos de Geologia, então eu concordaria com esse senhor. Aliás, idênticas no género eram as afirmações da maioria dos geólogos e historiadores britânicos do século XVII ao meado do XIX, quando regressavam a Inglaterra com os resultados das suas expedições à Mesopotâmia e ao Egipto: que as inscrições cuneiformes e os hieróglifos nada mais eram do que meros desenhos decorativos sem significado algum, quando não simples desgastes causados pelas intempéries sobre as pedras. É universalmente sabido que foi necessário o aparecimento de um Champollion para que os “decorativos” ou os “desgastes” fossem assumidos como códigos e interpretados, de maneira à maravilhosa História do Antigo Egipto poder ser desvendada.

Mais valor terão as palavras do antropólogo que acompanhou a dita expedição, o professor Francisco Otávio da Silva: “Ainda não há prova científica da vinda dos fenícios ao Brasil”. Sim, propagar que os fenícios estiveram e se estabeleceram por largo tempo neste país, de que existem provas sobejas, embora ainda sem base científica aceite com a concordância de todas as parte, faz com que esse conhecimento se escoe e propague por outra via como é a do campo do mítico e do místico, enquanto “aguarda” a necessária comprovação científica, a qual vem sempre atrás da Ciência Iniciática, em todos os sectores, de que é exemplo a prova da existência do átomo ainda nos inícios do século XX, violentamente repudiada por alguns físicos eminentes, a despeito dos hindus, egípcios e gregos da Antiguidade já o conhecerem como atmanaton e atmon, donde átomo. Nisto também se inscreve o método de ensino do Professor Henrique José de Souza: “semear novos conhecimentos, ideias e ideais, e trabalhar para que eles se transformem, com o tempo, em realidades concretas”, acrescentando que “estamos vivendo no século da luz, mas não se deve deixar arrastar por ilusões. Raciocine-se imparcialmente e nada se aceite sem entender. Se não se compreender alguma coisa, não se a rejeite imediatamente. Procure-se estudar profundamente o assunto. Não se conforme com a pior das escravidões que é a mental. Nascemos para ser livres e só o seremos quando raciocinarmos livremente”.

As inscrições referidas encontram-se gravadas no lado direito da Pedra da Gávea, sendo atribuídas aos fenícios praticamente desde a época de D. João VI. Com efeito, na folha 66 do I Volume da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, encontra-se a seguinte carta lida pelo cónego Januário da Cunha Barbosa (Rio de Janeiro, 10.7.1780 – Rio de Janeiro, 22.2.1846), no expediente dos trabalhos da 8.ª sessão extraordinária de 23 de Março de 1839:

“Em uma das montanhas do litoral do Rio de Janeiro, ao sul da barra, há uma inscrição em caracteres fenícios, já muito destruídos pelo tempo e que revelam grande antiguidade. Esta inscrição foi vista e observada por um conhecedor das línguas orientais, e que ao vê-la concluiu que o Brasil tinha sido visitado por nações conhecedoras da navegação, e que aqui vieram antes dos portugueses. Ele me certificou que tinha dado conta desta descoberta ao governo de D. João VI, e que tinha copiado a inscrição do mesmo modo que se acha feita.”

“Requereu pois o Sr. Cunha Barbosa que o Instituto Histórico, atenta a importância desta notícia, peça com empenho aos nossos consócios oficiais de secretarias que se esforcem por descobrir nelas o relatório desta descoberta, feita no reinado de D. João VI, e oferecido pelo padre mestre Fr. Custódio, professor de grego, e versado nas línguas orientais. Esta carta foi remetida ao Sr. Guedes para fazer as indagações precisas para o descobrimento da memória de que ela fala.”

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/7-1.png?w=814

Mais adiante, nas folhas 98 a 103, encontra-se o Relatório sobre as referidas inscrições, acompanhado do desenho das mesmas, trabalho apresentado por uma comissão nomeada pelo Instituto com o fim de as estudar. Este valioso documento, que passo a transcrever, é concebido nestes termos:

“… Senhores. A comissão encarregada pelo Instituto Histórico e Geográfico para analisar e copiar a inscrição, que se acha gravada no morro da Gávea, transportou-se ao lugar, e não se poupou aos meios e fadigas, que uma primeira excursão demanda, para obter-se um resultado digno de sua missão; e vem hoje perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta do que viu e observou, assim como trazer uma cópia fiel da pretendida inscrição, desse monumento, que pertence à classe daqueles que Mr. Court de Gibelin coloca no seu “Mundo Primitivo”, e que têm chegado às recentes gerações envolvidas no mistério dos tempos com os hieróglifos, os caracteres cuneiformes e as construções ciclopeanas.

“A descoberta de uma inscrição é um facto, que pode trazer uma revolução na História; que pode reconquistar ideias perdidas e aniquilar outras em pleno domínio: um nome, uma frase em uma lápida podem preencher lacunas imensas, restaurando conjecturas e abrir uma estrada luminosa do Passado ao Futuro.

“Os povos que têm uma civilização nascente, são naturalmente crédulos, e sua imaginação os arrasta a ver tesouros encantados por todas as partes; e homens amigos do misterioso algumas vezes também crêem encontrar vestígios dos outros homens naquilo que é um acaso da Natureza.

“À comissão cumpre que aqui manifeste perante o Instituto Histórico e Geográfico a sua gratidão para com os Srs. Rev. Ex-vigário da Lagoa, Manoel Gomes Souto, Manoel Joaquim Pereira e João Luiz da Silva, pela bizarra e cordial hospitalidade que deles recebeu; assim como ao Rev. Sr. José Rodrigues Monteiro, capelão de S. M. I., que teve a bondade de acompanhar e servir de testemunha na averiguação da cópia que se fez da pretendida inscrição, participando dos incómodos sofridos nesta exploração arqueológica.

“Senhores. Que no cume da Gávea, do lado direito aos que vão pela Serrote da Boavista, numa pedra de forma cúbica existem caracteres, ou sulcos que a eles se assemelham é indubitável; mas a comissão não afirma que eles sejam gravados pela mão do homem, ou pela lima do tempo.

“Assim como a Natureza esculpiu sobre a rocha de ‘Bastia’ a forma de um leão em repouso; na gruta das Sereias, em ‘Tivoli’, um dragão em ar ameaçador; e na mesma Gávea a forma de um mascarrão trágico; assim como ela eleva pontes naturais, constrói fortificações e baluartes, que ao primeiro lampejo da vista fazem crer ao viajor monumentos da mão do homem e assim ela podia gravar na rocha viva aqueles caracteres que podem mais ou menos por suas formas aproximarem-se a algumas das letras dos alfabetos das nações antigas e orientais.

“A comissão não deseja representar perante o Instituto Histórico o papel dos antiquários de Walter Scott e Goldoni, para não encontrar a ilusão de suas conjecturas na ingenuidade de um mendigo, ou nas trapaças de um Brighella; tanto mais que com os seus próprios olhos ela encontrou em diversas pedra isoladas em roda da mesma Gávea, sulcos profundos entre dois veios do granito, que mais ou menos representavam caracteres hebraicos, e alguns até romanos, e de uma maneira assaz evidente e caprichosa.

“Pitágoras, senhores, olhava para o Sol como um Deus, e Anaxágoras como um Pedra inflamada. A comissão nesta sua primeira análise voltou, como os dois filósofos, vendo uma inscrição e vendo uns sulcos gravados pela Natureza.

“Argumentos notáveis se apresentam de uma e outra parte para que ambas as conjecturas tenham seu fundamento e suas principais proposições vos vão ser apresentadas.

“1ª. Que os diversos viajantes têm descoberto inscrições em diferentes rochedos do Brasil, e que a da serra da ‘Anabastabia’, aonde se crê, vai a descrição de uma batalha, assim como a das margens do ‘Iapurá’ e outras mais, que se vêem na famosa colecção das palmeiras de “Spik et Martiles”, dão uma prova da existência desta sorte de monumentos no nosso solo: acrescentando mais a tradição das ‘Letras do Diabo’ num rochedo em Cabo Frio, que depois de dados mais exactos algum de nós se transportará ao lugar para copiá-las, e descortinar mais esta ponta do véu que encobre a História primitiva desta Terra bem-aventurada.

“2ª. Que assim como Pedro Álvares Cabral, Afonso Sanches, empurrados pelos ventos, descobriram o continente da América, também algum desses povos antigos, que a ambição do comércio forçava a sulcar os mares, podia por iguais motivos aportar às nossas praias, e escrever sobre uma pedra um nome ou aquele acontecimento, para que a todo o tempo as gerações vindouras lhe restituíssem a glória de tão grande descoberta.

“3ª. Que a inscrição da Gávea se acha colocada de uma maneira vantajosa a estas conjecturas: voltada para o mar, em uma face da rocha cúbica, pouco escabrosa, com caracteres colossais de sete a oito palmos, ao rumo de L. S. E., pode ser vista a olho nu de todas as pessoas que por ali passarem; e notável é que os habitantes daqueles lugares todos conhecem as letras da pedra. A inscrição assim colocada está exposta à fúria das tempestades e dos ventos do meio-dia e por consequência, deve estar muito safada, tanto mais que o granito da pedra em que está gravada é de uma consistência menos forte, por conter muito talco e mica, e na sua base existem três concavidades esburacadas que formam o aspecto de mascarrão.

“Um dos dados arqueológicos para fortificar qualquer conjectura na averiguação de tais monumentos, é o da possibilidade de poder-se ou não gravar naquela altura imensa uma inscrição tão colossal, e o carácter geológico do mesmo lugar.

“O terreno que circunda as raízes do morro da Gávea é todo primitivo, à excepção de uma pequena enseada que está na base da colina da fazenda da Gávea, que é de terreno de aluvião, pouco acima do nível do mar, e que nada influi sobre os pontos principais que se denotam dos ‘Dois Irmãos’ à Tijuca e desta à Gávea que são massas enormes de granito, cobertas de uma crosta de terra vegetal, assaz delgada, e tendo aqui e ali glebas de carbonato de ferro, ou saibro micoso: o mar está muito próximo, nenhuma revolução grande, se exceptuarmos alguns calhaus destacados dos morros, se denota naquele recinto.

“O homem, que levado a aqueles lugares quisesse deixar uma memória da sua passagem, facilmente seria seduzido pela majestade e grandeza do morro da Gávea, e pela disposição daquela pedra com uma face quase plana, e fronteira ao mar; e quanto ao acesso do cume da Gávea, ele é incontestável, porque dias antes de nossa exploração alguns oficiais da marinha inglesa lá subiram, e colocaram umas bandeirinhas ainda que com muito custo.

“O lugar onde está a inscrição pode ser que em tempos remotos fosse mais aterrado, e que com os séculos tenha sido escalvado pelas contínuas humidades, chuvas e ventos do sul.

“Porém, senhores, além destas considerações e outras mais diminutas, que conduzem o nosso espírito à crença, outras se levantam para encontrá-las e nos obrigam a oscilar entre a afirmativa e a negativa.

“1ª. Que os pretendidos caracteres, que apresenta o rochedo da Gávea, não se assemelham aos dos povos do velho continente, que empreenderam as primeiras navegações, e muito menos aos dos modernos.

“2ª. Que estes caracteres, comparados com os alfabetos e inscrições, que Mr. Court de Gibelin dá na sua obra do “Mundo Primitivo”, não apresentam semelhança alguma de uma inscrição fenícia, cananeia, cartaginesa ou grega: e que mais parecem sulcos gravados pelo tempo, entre dois veios do granito, pois com iguais aparências se encontram não só no lado oposto do da inscrição da mesma Gávea, como em outras pedras destacadas, e principalmente numa grande, que se encontra à esquerda, na base do morro, quando se sobe para a casa do Sr. João Luiz da Silva.

“3ª. Que a parte da rocha onde começa a pretendida inscrição, além de perpendicular e de um acesso quase impossível, é a menos conservada ou a mais apagada: sendo aquela que está menos exposta à fúria das estações; alguns traços perpendiculares, outros mais ou menos oblíquos, mais ou menos curvos, ligados por hastes interrompidas, que muito e muito se assemelham a veios, fazem o todo da inscrição, e uma grande irregularidade de profundidade se observa na gravura, assim como no largo veio da base, que se poderia conjecturar como um traço, para melhor se descobrirem as letras, o que é interrompido visivelmente e dá formas não equívocas de um veio mais profundo. Este argumento é fortificado pela profundidade dos caracteres da parte esquerda que estão mais expostos do que os da direita, por entrarem na curva que se dirige para o norte.

“Os fenícios escreviam da direita para a esquerda, trabalhando destarte deviam dar a mesma profundidade às letras, para que elas fossem igualmente visíveis.

“Mas a comissão, senhores, vindo perante o Instituto Histórico e Geográfico dar conta de sua missão, está longe de protestar solenemente contra a ideia de serem, ou não, uma inscrição aqueles sulcos ou traços que se encontram no cume da Gávea, porque ela ainda não empregou os últimos recursos que lhe restam para a verificação de semelhantes monumentos; ela vem, em família, expor as suas impressões e conjecturas, e protestar que uma segunda exploração será feita com melhores instrumentos e com um dia mais favorável para ver se obtém um resultado de maior evidência, e mais positivo; lastimando, contudo, o não poder estudar a ‘Memória’ que o ilustre Fr. Custódio escrevera, noutros tempos, sobre esta mesma inscrição[7].

“A comissão tem presente na lembrança as navegações desses povos da Antiguidade, e se triunfar a ideia do ilustre Padre Mestre, ela a fortificará por uma ‘Memória’ mais ampla e circunstanciada, e nas formas demandadas pela ciência da Arqueologia, em que não somente passará em resenha todas as tradições, que temos das navegações dos antigos, como também procurará nas línguas e tradições de diversos povos a luminosa esteira traçada pela civilização dos fenícios, entre os povos das ilhas aonde eles tiveram as suas feitorias, e onde eles deixaram monumentos materiais de sua existência e passagem, tanto na Ásia e África como na América, que, segundo Stevan Sewall e Court de Gibelin, aí aportaram e deixaram inscrições na parte setentrional.

“A comissão não desespera da glória, que aguarda o Instituto Histórico e Geográfico, na descoberta de iguais monumentos; nem da esperança de ver aparecer em seu seio um Champollion brasileiro, esse Newton da Antiguidade Egípcia ou Cuvier do Nilo, para o facho de seu génio indagador iluminar esta parte tão obscura da História primeva do nosso Brasil; e porque ela pode num dia contemplar aquele monumento como Anaxágoras o Sol, e no outro como Pitágoras ver naquela rocha uma inscrição gravada pelo acaso e o tempo, ou um padrão, pelo cinzel do homem, deixado às gerações vindouras.

“Rio de Janeiro, 23 de Maio de 1839 – Manoel de Araújo Porto Alegre. – J. da C. Barbosa. Como testemunha, José Rodrigues Monteiro.”

Tal “Champollion brasileiro” estaria destinado a ser Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (Manaus, 13.11.1858 – Rio de Janeiro, 5.2.1931), que com a paciência e a minúcia de um sábio chinês, num longo e exaustivo estudo filológico comparativo das línguas antigas, chegou à conclusão de tratar-se de escrita fenícia, dando a seguinte tradução ao texto da Pedra da Gávea[8]:

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/8-1.png?w=825

Todavia o eminente autor deixou escrito no término do seu preciosíssimo estudo, na página 436 v da obra citada, sobre a sua interpretação da inscrição: “Dada a hipótese de não a termos interpretado fielmente, resta-nos o consolo de que bem empregámos o nosso tempo, determinando com nossas modestas investigações o estímulo aos competentes, que nos perdoarão esse alvitre”.

A frase viria a ser corrigida em Maio de 1954 pelo próprio Professor Henrique José de Souza, que assim a interpretou:

YETBAAL, TYRO FENÍCIA, PRIMOGÉNITO DE BADEZIR.

Quanto ao dito recheio interior havido na Pedra da Gávea até 1938, ano em que foi tudo retirado e lacradas ainda mais as suas passagens subterrâneas conforme a primazia autoral de Henrique José de Souza, este mesmo assim o descreve[9]:

“Dentro da Pedra da Gávea, além de duas múmias colocadas uma junto à outra sobre uma mesa de pedra, aos seus pés também se acham duas outras de dois escravos núbios, sendo que à cabeceira se encontram dois jarrões contendo flores em parafina, etc. E dos lados, em dois vasos canópicos, como outrora nos túmulos faraónicos do velho Egipto, os manes das duas referidas múmias… E mais adiante, depois de uma rampa que vai dar ao mar, pela parte traseira da mesma Pedra – como esfinge fenícia que é – uma barquinha de tecto esmaltado de azul, movida por uma roda que ia ter à pequena hélice, na popa, sendo accionada por referido escravo núbio.

Pelo que se vê, o ‘casal’ cujas múmias se acham sobre as mesas de pedra, outro não é senão ‘a parelha primogénita de Badezir’, do mesmo modo que o escravo (pois a escrava morreu alguns anos depois) que movia a barquinha, e que soçobraram na baía que hoje tem o nome de Guanabara (Niterói, em língua tupi, quer dizer ‘baía grande’, mas, em língua fenícia, chamava-se outrora Nish-Tao-Ram, ou ‘o caminho iluminado pelo Sol’, como se se dissesse que os dois referidos seres, já naquela época, preparavam, na mais excelsa de todas as tessituras, a sua própria Obra do Futuro, que deveria tomar forma na referida região).

“Quando Badezir veio a saber da morte de seus dois filhos, correu pressuroso, em companhia do sumo-sacerdote Baal-Zin e de um mago (médico e mumificador), chegando, infelizmente, muitos dias depois. O choque moral e a sua própria idade, concorreram para que ele durasse pouco tempo. Mas, antes de morrer, pediu ao supracitado sacerdote que ‘logo isso acontecesse, mumificasse o seu corpo, deixando-o ao lado dos dois filhos durante sete anos, findos os quais deveria ser transportado para certa região do Amazonas’, onde até hoje se acha, num pequeno santuário oculto nas referidas selvas.”

Fazendo agora uma ordenação geosófica, tem-se que além do morro próximo chamado dos Dois Irmãos (possível evocação toponímica dos malogrados Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel), dois outros perfazem uma triangulação com a Pedra da Gávea. Um é o Corcovado (possível evocação toponímica do velho Badezir), montanha granítica com mais de 700 metros de altura, onde foi levantada a estátua do Cristo Redentor. Aí existia antes de 1831 uma famosa Pedra Santa, que presumo ter sido algum ícone ou altar sobrevivente da Proto-História, destruído nessa data conforme a notícia dada por Brasil Gerson[10]: “… Era o padre Souto um homem inquieto, que levou uma comissão do IHGB à Pedra da Gávea para destruir a lenda de que nela existiam inscrições fenícias e recebeu da Ilustríssima Câmara a incumbência de retirar do Corcovado a famosa Pedra Santa, que ameaçava o caminho para o jardim (suponho, o Botânico), e quando ele deixou a sua paróquia, em 1831, sucederam-lhe…”.

O outro morro é o Pão de Açúcar. Foi no seu sopé que Estácio de Sá, no 1.º de Março de 1565, fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, depois de se derrotarem as pretensões francesas, entre 1560 e 1567, de fundarem aqui uma colónia, França Antártica, e uma cidade Henriville, pretendendo assim tomar posse do território brasileiro para a Coroa de França. Os franceses liderados por Nicolas Durand de Villegagnon, cavaleiro oficial da Ordem de Malta, foram definitivamente derrotados e expulsos de todo o território do Rio de Janeiro, cuja batalha da Baía de Guanabara foi decisiva para a vitória de Mem de Sá à cabeça dos portugueses e temiminós juntos contra o opressor estrangeiro[11], o qual depois se vingou pela calúnia perdurando até hoje, inclusive alimentada por certos meios intelectuais brasileiros, os quais melhor do que ninguém deveriam saber que lusos e tupis mais que fraternos são irmãos, nem que seja «só» pela ligação consanguínea donde resultou o mameluco; são, enfim, a argamassa racial do Brasil Ibero-Ameríndio!… Após a vitória decisiva e à semelhança do que muito antes fizera Badezir, em 1572 o Brasil foi dividido em dois Governos: o da Bahia (sendo governador Luís de Brito e Almeida) e o do Rio de Janeiro (sendo governador António Salema). Em 1577 aboliu-se essa dualidade governativa e ficou um só Governo do Brasil, sendo Lourenço da Veiga nomeado governador-geral com sede capital na Bahia, e só em 1763 a sede do Governo Central transferiu-se para o Rio de Janeiro, que então passou a ser a capital, capitã ou cabeça política do país.

A História igualmente conta que os portugueses, quando aí chegaram, perguntaram aos índios o nome daquela montanha junto à barra, talvez por acharem estranha a sua forma. A resposta teria soado como pau-nd-açuquã, que em tupi significa “morro isolado e pontiagudo”, tendo-a os portugueses traduzido como Pão de Açúcar, deturpando sem malícia essa forma fonética. Segundo o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda[12]pão de açúcar é o tronco de açúcar branco que se forma ao aparar-se internamente a forma de açúcar dos engenhos antigos, anteriores às fábricas. Naturalmente, os portugueses acostumados que estavam com esse sistema de produção de açúcar, associaram a forma de um pão de açúcar (cónica) das suas primitivas fábricas à forma da montanha em questão, além, naturalmente, da “coincidência” fonética com o nome que os índios lhe davam.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/pao-de-acucar.jpg?w=585

Os teósofos brasileiros consignam o Pão de Açúcar marco do Karma Atlante-Fenício, têm-no como lugar fatídico de mau agouro, apontando ter sido nas suas imediações que terá se afundado a barca que conduzia os Gémeos Espirituais fenícios de Niterói para o Rio de Janeiro. O facto é que até as mais antigas referências históricas sobre esse maciço granítico são-lhe pouco abonáveis. Gustavo Barroso, por exemplo, no seu magnífico livro[13] cita uma lenda árabe, possivelmente recolhida da cultura fenícia, onde aponta o nome da “Ilha Brasil” em cuja entrada da barra havia uma certa Mano Satanas, a qual fazia soçobrar as embarcações que ousassem atravessá-la. Como “não há fumaça sem fogo”, verifica-se, ao compulsar-se as cartas de Pedro Reinel, de 1519, e de Gian Baptista Ramusio, de 1556, no Roteiro Cartográfico da Baía de Guanabara e Cidade do Rio de Janeiro, séculos XVI e XVIII, apud Álvaro Teixeira Filho, o deparar, respectivamente, com os termos Sombreyo para o Pão de Açúcar, e Sombriere para a baía de Guanabara. Esses dois topónimos são derivados da palavra sombra… No francês, inclusive, o verbo sombrer tem o sentido de “soçobrar”, “fazer naufragar o navio”, etc.[14]

Essa Mano Satanas de péssimo agouro divulgada pelos navegadores árabes em África e na Europa, é uma entre muitas tradições recolhidas por eles nos “lugares incógnitos” aonde chegaram e depois difundiram. Com efeito, as posteriores geografia e cartografia dos navegadores portugueses da Idade Média foram maioritariamente herdadas dos árabes, por sua vez possuindo essas informações por herança mesopotâmica – turco-síria e iraniana-iraquiana – afim à antiga Fenícia, através da grande plataforma transcontinental de intercâmbio cultural de povos que era e ainda é Jerusalém.

Entendo por literatura geográfica árabe os famosos relatos de viagens célebres, como as de Soleimão, o Mercador, à China por mar. Essa literatura havia de servir para os tratados descritivos como o de Ibn Khordadhbeh que tomou o título, depois vulgarizado, de Kitâb Al-Massâlik wa Al-Mamâlik (“Livro dos Caminhos e dos Reinos”). A partir de então, os árabes acrescentaram a China e a Sibéria aos conhecimentos do mundo antigo, atingindo as terras de Gog e Magog. No entanto, os seus mapas obedeciam ainda aos critérios de Ptolomeu, apenas havendo a acrescentar que tornaram o mundo mais extenso. O primeiro período de esplendor da Geografia árabe é o definido, cerca do ano 1000, por nomes de sábios como Balkhi, Yacubi, Istakhri, Ibn Hauakal e Al-Massudi.

Ao mesmo tempo que a Geografia descritiva dá uma extraordinária riqueza de informação e pormenor (Al-Massudi é considerado, por isso mesmo, o Plínio árabe), a Cartografia prossegue o iniciado por Ptolomeu, com os cartógrafos utilizando desenhos esquemáticos e figuras geométricas para representar os países e os acidentes geográficos. É o caso dos mapas de Istakhri, bem elucidativos desse processo. Estava-se, precisamente, na época dos mapas do Islão.

Uma época à parte pode ser considerada a de Edrisi ou Idrisi ou Abu Abdullah Muhammad al-Idrisié no século XII (1110 – 1165), que trabalhando em Palermo às ordens dos reis normandos da Sicília, não só elaborou a sua monumental Geografia como também um gigantesco mapa onde representou todo o Mundo então conhecido, da China ao Magreb, do Andaluz à Índia, de Zanzibar à Terra dos Russ (Rússia)[15]. Nos séculos seguintes surgiram os criadores dos dicionários geográficos e enciclopédias: Yaqut, Qazwini, Abu’l-Fida.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/mapa-edrisi.jpg?w=940
Mapa-Mundi de Al-Edrisi, situando-se o Sul no topo

No que diz respeito à cartografia, importa registar que antes de Edrisi, que já representa um notável progresso na ubicação das costas marítimas do Mediterrâneo, Abu’l-Hassan, autor de um famoso tratado de astronomia, dá numericamente a posição de 131 cidades com tanta perfeição que se tornou possível o desenho de um mapa do Mediterrâneo, onde os erros em relação à realidade hoje conhecida são quase desprezíveis. Se comparar-se o mapa de Ptolomeu com o de Abu’l-Hassan (séculos X-XI), tem-se de reconhecer que com os árabes a Geografia deu um salto gigantesco trazendo-a quase até à posição actual.

A esfericidade da Terra era ponto assente para os árabes, e entre eles não faltaram autores que admitiam a existência de um continente onde está a América, como justamente protesta José Garcia Domingues[16]. Exemplo disso é a Geografia Taqwin al-Buldân, escrita nos inícios do século XIV por Abu’l-Fida (Abu’l-Fida Ismail Ibn Ali Al-Ayubi), que teve como fontes Ibn Hauqal, Edrisi e Ibn Kondhadhbeh. Apresenta uma particularidade mais que nova, notável: a de dar a situação das diferentes localidades por meio de coordenadas – latitude e longitude. A latitude a partir do Equador, definido pelos equinócios; a longitude a contar das terras do Extremo Ocidente[17], as “Ilhas Afortunadas” – Jaza’ir-as-Sa´adat.

Com efeito, a geografia árabe estava cheia de mitos a descobrir, tal como a sua cartografia repleta de mistérios a desvendar. Ambas consequência certa de cultura e saber legadas por civilização anterior afro-mediterrânea. Abentofaíl aludira às ilhas de Vac-Vac, às quais se chegava pelas estrelas, pela orientação estelar, e Edrisi à Ilha dos Carneiros ou Ilhas Fantásticas, num texto relembrando a Navegação de São Brandão. A ideia de viagem por Ocidente em busca de terras era de tal modo grata que, no século XII, os almagrurin de Alfama encetaram empresa de viajar Atlântico fora até às Canárias. Foi de Lisboa que partiram os navegadores que, no dizer de Edrisi, iam procuram saber o que havia no Mar das Trevas (Mar Tenebroso) e quais os seus limites, tendo atingido Ua açafi (Safim?) mas não as Canárias, segundo certos autores do século XIX[18], no que não concordo por serem vastas as provas e referências romano-árabes da presença arábica nessas ilhas, nomeadamente em Tenerife, ao lado dos templários e do médico, escritor e alquimista, afamado peregrino de Santiago de Compostela, Raimundo Lúlio. Ademais, as Canárias, tal como outras ilhas atlânticas, estavam bastante mencionadas na geografia árabe. Por exemplo, Maudi, no século X, aludiu na obra Os Prados de Ouro às “Ilhas Eternas” (Jaza´ir-al-Khalidat) no Oceano Ocidental, e a tais “Ilhas Eternas”, espécie de Paraíso Terreal, refere-se também Almacarí.

Na geografia como na astronomia, filosofia, matemática, química, a ciência árabe medieval foi, na verdade, o elo de ligação entre a ciência grega, de tão nobres tradições, e a moderna, não apenas no sentido de que transmitiu a ciência grega mas ainda por trazer o saber no nível em que os gregos o deixaram, até ao momento em que foi possível elaborar a ciência moderna.

A serem verídicas, poderão ser já da época da decadência do “império” fenício no Brasil as inscrições no Pão de Açúcar, descobertas e traduzidas por Ladislau de Sousa Melo e Neto, director-geral do Museu Nacional do Rio de Janeiro, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e catedrático em Ciências Naturais, citadas no livro de Peter Kolosimo[19]:

“Somos filhos da terra de Canaã. Sobre nós pesa a desventura e a maldição. Em vão invocamos os nossos deuses; eles nos abandonaram e assim morreremos desesperados. Hoje é o décimo aniversário do infausto dia em que chegámos a estas margens. O calor é atroz, a água é podre, o ar cheio de repugnantes insectos. Os nossos corpos estão cobertos de chagas. Ó deuses, ajudai-nos! Tiro, Sidon e Baal!”

Deixo essa informação à apreciação do leitor, e como não disponho de mais dados plausíveis até ao momento, não me é possível julgar da sua mais ou menos valia. Passo, pois, de imediato à origem toponímica de São Sebastião do Rio de Janeiro. Este nome depreende-se da tradição do santoral católico em se batizar as terras descobertas em conformidade aos dias das festas do calendário litúrgico. Ainda assim, a frota comandada pelo capitão D. Nuno Manuel ao serviço do rei D. Manuel I, com a missão de explorar a costa brasileira, fugiu à praxe adoptada, pois ao alcançar a região da Guanabara, no dia 1 de Janeiro de 1502, batizou-a primeiro de Rio de Janeiro, e só depois consagrou o lugar a São Sebastião.

A título de exemplo, repasso uma pequena lista dos lugares que receberam os nomes conformados ao calendário litúrgico: a 28 de Agosto, Cabo de Santo Agostinho; a 29 de Setembro, Rio de São Miguel; a 30 de Setembro, Rio de São Jerónimo; a 4 de Outubro, Rio de São Francisco; a 21 de Outubro, Rio das Virgens; a 1 de Novembro, Baía de Todos os Santos; a 13 de Dezembro, Rio Santa Luzia; a 21 de Dezembro, Cabo de São Tomé; a 25 de Dezembro, Baía do Salvador; a 6 de Janeiro, Angra dos Reis; a 20 de Janeiro, Ilha de São Sebastião; a 22 de Janeiro, Porto de São Vicente, etc.[20]

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/9.png?w=585

Janeiro, nome que encerra inúmeros simbolismos, deriva de Jano ou Janus, que na mitologia romana é o “deus das duas caras”, e por estar colocado no primeiro mês do ciclo anual com uma das caras presidia aos acontecimentos dos onze meses procedentes, e com a outra reflectia os sucessos e insucessos do ano precedente. De maneira que, em termos teosóficos, simbolizava o Manu Semente e Colheita presidindo ao início e ao final de um Ciclo de Evolução Humana, facto representado no Cristianismo nas duas chaves entrecruzadas do seu sumo-pontífice[21]: a de ouro (Manu – Vida – Semente – Encarnação) e a de prata (Yama – Morte – Colheita – Desencarnação). No contexto da Evolução Cósmica, as “duas caras” representam as Duas Faces do Eterno: a Divina e a Terrena. Uma é a face de um Velho barbado, o Ancião das Idades, e a outra é a de um Jovem, o Eterno Adolescente; uma que chora, e outra que ri. As Duas Faces do Eterno representam, pois, “o Começo e o Fim das Coisas” – o Alfa e o Ômega da Criação.

Quanto a São Sebastião, Juan Atienza faz eco da Tradição Iniciática quando o aponta como paradigma da condição Kshatriya, “Guerreira ou Real”, conformada ao ideário sinárquico de Agharta em que se inspirou St.º Agostinho para a sua Civitas Dei ou “Cidade de Deus”[22], e muito mais tarde a Maçonaria Adonhiramita, ao escolher a capital carioca para nela fundar a primeira Potência Maçónica do Brasil, ela mesma ao se considerar Arte Real perseguiu o projecto magno de edificar aqui mesmo a Nova Cidade de Deus, a Nova Jerusalém, já desde a lonjura dos tempos assinalada por vates e sibilas a sua aparição no Grande Ocidente do Mundo. Tudo isso, afinal, revelando-se causalidades da Lei Suprema que a tudo e a todos rege.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/10.png?w=821

Em 1921, o Governo Federal resolveu demolir o Morro do Castelo, antigo Morro de São Januário, onde se localizava a igreja de São Sebastião do Rio de Janeiro. No dia 20 de Janeiro de 1922, houve a trasladação das “relíquias históricas” da igreja de São Sebastião, acto cuja missa foi celebrada pelo então arcebispo coadjutor D. Sebastião Leme, depois cardeal. A família Leme, tão ligada à História do Brasil, de onde desponta um Fernão Dias Paes Leme, é de origem flamenga e se assinava Lem, cujos irmãos Martim Lem já haviam desempenhado papel importante na Basílica do Precioso Sangue, em Bruges, Bélgica, onde no século XV foi fundada e consagrada a Ordem do Tosão de Ouro.

Inclusive o primeiro governador do então povoado do Rio de Janeiro, Mem de Sá (Coimbra, 1500 – Salvador, 2 de Março de 1572), estava ligado à família Lem. No processo militar de expulsão dos franceses (que haviam angariado o apoio guerreiro dos tamoios contra os portugueses, por artifícios vários a ponto de depois os deixarem entregues à sua triste e má sorte), ele recebeu o auxílio de Ararigboia, chefe ou morubixaba dos temiminós, vindo com a sua gente do lugar do Espírito Santo[23] onde se haviam estabelecido em 1555, emigrados da Guanabara devido aos ataques dos mesmos tamoios.

A batalha foi rápida e brilhante, começando pela tomada do forte de Uruçú-mirim, situado na foz do rio Carioca (no fim da praia do Flamengo, próximo do local onde foi construído o Hotel dos Estrangeiros), generalizando-se depois à ilha de Villegaignon e à do Governador ou do Gato (Maracaiâ), onde se declarou a vitória final[24].

Durante o combate de Uruçú-mirim recebeu Estácio de Sá uma flechada no rosto, de que veio a morrer alguns dias depois.

Ao índio Ararigboia (em tupi, “cobra de tempestade” ou “cobra feroz”), em recompensa dos seus serviços, foi-lhe entregue o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo (tendo recebido o batismo cristão no Rio de Janeiro em 1530, segundo Frei Vicente do Salvador, recebendo do seu padrinho o nome de Martim Afonso de Sousa) e doada do outro lado da baía uma légua de terra no litoral com duas pela terra adentro, desde São Lourenço até Icarahy, compreendendo a maior parte da actual cidade de Niterói. O seu nome ficou ligado à colonização do Espírito Santo, do Rio de Janeiro e da Guanabara[25].

Mem de Sá retirou-se pouco depois para a Bahia e de lá continuou a insistir pela sua demissão, vindo a falecer em São Salvador dois meses antes da chegada do seu sucessor.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/pedra-dc2b4armas-rio-de-janeiro.png?w=793

Como disse, no Morro do Castelo estava a igreja de São Sebastião que durante quase quatro séculos foi o bastião da Sé, e no seu topo dominava a estátua do Arcanjo São Miguel, simples e bela, toda em cobre, que servia de ponto de referência aos navios que cruzavam a barra (Pão de Açúcar…) da baía de Guanabara. Este Arcanjo psicopompo, conduzindo as almas de um lado ao outro da vida, portador da Espada e da Balança, diz a Tradição Iniciática que seria representado pela secreta Ordem de Mariz, tendo dado início à extinção do Karma Fenício-Atlante que pesava sobre o Rio de Janeiro.

Tal Ordem Encoberta, Jina, como diria Mário Roso de Luna, avança ainda a Tradição Iniciática que ela é a Quinta das Sete Ramas da Grande Loja Branca, Maçonaria Universal ou Igreja de Melkitsedek – afim à chamada Linha Cabayu (tupi) ou Morya (sânscrito), em arábico Muridj ou Maridj, donde Mariz em português – e que levantou bem alto o seu Pavilhão Púrpura no Rio de Janeiro, a ponto de no Brasão de Armas deste a figurar centralmente o barrete frígio (simbólico do Adepto Independente ou o verdadeiro Homem Livre) sobreposto às três setas sebásticas, flechas incendiadas pelas Três Hipóstases do Deus Eterno Criador do Universo Mundanal, este assinalado na Esfera Armilar signatária do Hermetismo Manuelino, indicativa da Assiah ou o “Mundo”, que no Tarot se representa no Arcano 22 marcando o biorritmo do Brasil.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/11.png?w=629

No Ermitão da Glória, obra preciosa do Genial José de Alencar (ou “Jina de Além-Mar”…), fala-se de Aires de Lucena e de Maria da Glória, autênticos gémeos espirituais profundamente enamorados que, por causa do seu amor impossível, morre ela na flor da idade e ele se torna o ermitão da Glória. Esotericamente, ela, Maria, é Vénus (Mãe, Mater, Mariz…) e ele, Aires ou Áries, é Carneiro (o “Guerreiro da Arca ou Agharta”, que toma por espada o bastão de eremita e por couraça o solidéu da renúncia), no cume do Outeiro (Solar) com o nome daquela alma amada que tão jovem partiu. Assim, Lucena acaba encarnando em si o martírio do próprio Orago, e quis a Lei de Causalidade que lá em baixo, logo ao começo da subida, fosse postada a monumental estátua de São Sebastião, “bastião” da Mui Leal e Heróica Cidade do Rio de Janeiro.

Lucena e Glória, cuja morte acaba simbolizando a “Realização do Andrógino” como parelha gémea, ficaram representados nos dois golfinhos laterais do Brasão de Armas do Rio, bem se sabendo que o delfim é tanto símbolo da Pedra Filosofal como do Messias ou Avatara, seja Cristo ou Maitreya, tanto vale, por ser a mesmíssima Consciência Divina em nova manifestação como Espírito de Verdade.

O Outeiro da Glória tem por “balizas”: à sua esquerda, o Relógio da Glória, de “quatro faces”, as quais transpostas às quatro faces de Janus, o deus das Portas, dos Portais do Mundo, vêm a representar os quatro pontos cardeais. No pedestal posta-se Brasão de Armas da cidade, ostentando a quilha de uma caravela entre a parelha de golfinhos.

À direita, encontra-se o Monumento Comemorativo da Abertura dos Portos (28.1.1888), onde duas damas sentadas vis-à-vis, a primeira tem a mão esquerda apoiada numa âncora (marinha), e a segunda empunha um caduceu (comércio); no respectivo pedestal, mais uma vez, o Brasão de Armas da cidade. Se teologicamente expressa a Esperança, esotericamente a âncora representa a fixação de um Ideal em lugar predeterminado aportado por determinado Movimento, portanto e como muito bem diz Moysés Jakubovicz, é “o símbolo do Salvador, o Avatara ou Manu, cuja “Barca” ancora em Porto Seguro… para a eclosão dos Seus preceitos, que, devidamente vivenciados pela criatura humana, realiza o equilíbrio do masculino e do feminino, energias estas representadas pelas serpentes do caduceu de Mercúrio, uma das metas da Teosofia”.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/12.png?w=805

A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos e Brasília, a actual capital do país, têm uma característica comum: à luz da Tradição os seus nomes correspondem a princípios sagrados.

Cidade do Salvador – 1.ª capital (1549-1763). Início do Brasil Ibero-Ameríndio. Salvador, em grego, é Soter, com o sentido de Messias, Avatara, Legislador, Manu, etc.

Cidade do Rio – 2.ª capital (1763-1960). Brasil Luso-Mameluco. Janeiro provém de Janua, “Porta”, e Janus, o “Senhor das Eternidades”. Aqui foi a capital de Portugal e de todo o Império Português no Mundo, reinando D. João VI, e diante da dimensão geográfica do Império bem se poderá dizer que o Rio de Janeiro chegou a ser Capital do Mundo.

Cidade de Brasília – 3.ª capital (desde 1960). Brasil Americano, o Futuro. Brasília é feminino de Brasil, o que decerto terá a ver com o alvorescente V Império Universal ou a Era do Espírito Santo – a Idade do Veltro di Dio, a da Parúsia.

Para terminar, de volta à memória desse enigma brasílico que é a Pedra da Gávea e assim desfechar a saga do Brasil Fenício, informa, em lavra romanceada, Sérgio Órion de Souza do que terá sucedido após a morte abrupta de Yet-Baal-Bey e Yet-Baal-Bel[26]:

“O choque e a comoção apossaram-se do reino. Badezir foi mandado buscar às pressas pelos sacerdotes, apressando-se quanto pôde em vencer tão longo quão dificultoso trajecto, mas ao chegar nada mais pôde ser feito senão o sepultamento dos gémeos, que se deu no interior da hoje chamada Pedra da Gávea. Badezir retornou ao reino do Norte arcado pela imensa dor. Os reinos não mais lhe interessavam. Mesmo as redobradas responsabilidades políticas e administrativas – pois teve que assumir a ambos os reinos – não lhe dissiparam a tristeza de pai que muito se lamentava por nada ter conseguido fazer pela protecção dos filhos amados. Meses depois falecia Badezir de desgosto na capital de seu reino, em plena floresta amazónica. O seu corpo foi sepultado num templo piramidal, ainda lá existente, porém inacessível.

“Sob Badezir vigia a mais harmónica complementaridade entre os dois reinos, com a natural hegemonia do reino do pai, ao Norte. Com o desaparecimento dos supremos dirigentes, os sacerdotes e os militares tentaram de alguma forma manter coesos os reinos, mas as desavenças avultaram. Negavam-se os do Sul a serem governados pelos do Norte, chegando-se quase à declaração de guerra. O caos generalizou-se. Seguiram-se à dissidência política as crises administrativas e económicas. À falta de um governo central, as cidades fundadas às margens das rotas interiores foram deixadas à própria sorte; umas desapareceram, outras vingaram ainda por muito tempo, mas todas, com o passar dos séculos, foram abandonadas, pela vida mais fácil nas cercanias do litoral”… até desaparecerem definitivamente, com o fenício e o cário conversos simplesmente tupi e carioca.

https://lusophia.files.wordpress.com/2021/11/13.png?w=812

Em desfecho final ao tema, agora respigo breve trecho de obra privada da lavra do Professor Henrique José de Souza, escrita nos anos 50 do século findado, levando o sugestivo título Livro da Pedra:

– Acolá, a Pedra da Gávea respondendo aos sinais semafóricos dos náufragos da vida, querendo dar entrada na Barra da “Baía de Guanabara”. Do outro lado, a Nistaoram dos amores fenícios dos Gémeos contemplando o mistério. A barquinha tradicional encalhada no bojo da serra, do monólito estranho, como Templo-Túmulo de Dois Deuses do Passado… E querendo ela mesma revelar a imortalidade indiscutível dos Gémeos. As vísceras nos vasos canópicos… querendo sangrar com as dores e saudades de outrora, duas múmias de escravos núbios postados aos pés desses mesmos Gémeos… olhando fixamente os corpos dos seus senhores… À cabeceira, dois jarrões de vítrea forma e adornados com aves exóticas e multicoloridas… mais parecem “dois pêndulos do mesmo relógio” a marcar a “Ancianidade dos Tempos”… E o perfume das flores que dentro dos mesmos existem, também na imortalidade de sua existência, a perfumar, agridocemente, o mágico ambiente do multissecular Monumento. Sim, os festejos da face da Terra, nas suas águas oceânicas, a se confundirem com os festejos de Duat repercutidos na Agharta…

E a Pedra da Gávea faz ecoar, no “tintinábulo das pedras em seu redor”, acompanhando o marulhar das águas oceânicas:

“BADEZIR… BASIL… BRASIL!” Terra do Fogo Sagrado.

A Canaã da Kumárica e Pramanthica Quadrilateralidade.

Palavras cruzadas…

NOTAS

[1] Eduardo B. Chaves, Mensagem dos Deuses (Para uma revisão da História do Brasil). Livraria Bertrand, Lisboa, 1977.

[2] Cássio Costa, História dos Subúrbios: Gávea. Departamento de História e Documentação do IHGB, Estado da Guanabara, 1963.

[3] Brasil Gerson, Histórias das Ruas do Rio de Janeiro. Editora Sousa, Rio de Janeiro, 1954.

[4] Helena P. Blavatsky, Isis Sin Velo, tomo II, cap. VI. Editorial Sirio, S. A., Málaga, 1988.

[5] Araken Távora, Pedro II através de Caricatura. Editora Bloch, Rio de Janeiro, 1975.

[6] Paul Hermann, Conquest by Man – The saga of Early Exploration and Discovery. Harper & Brothers, New York, 1954.

[7] Trata-se do padre frei Custódio Alves Serrão (1799-1873), da Ordem dos Carmelitas Calçados da Província do Reino, que durante muito tempo foi professor catedrático de Física e Química na Escola Militar no Rio de Janeiro, neste onde dirigiu o Museu Nacional por decreto de 25 de Janeiro de 1828. Em 1839 escrevera uma Memória remetida ao rei D. João VI, relatando a sua descoberta e interpretação dos pressupostos petróglifos da Pedra da Gávea.

Sacramento Blake, literato, biógrafo e historiador brasileiro, no segundo volume do seu Diccionario Bibliographico Brazileiro (1893), assim descreve este religioso erudito:

“Custodio Alves Serrão — Filho de José Custodio Alves Serrão e de Dona Joanna Francisca da Costa Leite, nasceu na villa, depois cidade de Alcântara, no Maranhão, a 2 de Outubro de 1799, e falleceu no Rio de Janeiro a 10 de Março de 1873. Carmelita professo aos quinze annos de idade, apezar de sua manifesta aversão á vida claustral, mas por imposição de seus paes, em vista da rara intelligencia que demonstrava, foi mandado, à expensas da Ordem, para Coimbra, com o fim de seguir o curso dos estudos superiores; mas bem depressa teve de entrar em lucta com os frades conimbrenses, porque queriam estes obrigal-o a estudar theologia e, como ele teimasse em seguir o curso de sciencias naturaes, chegaram ao ponto de negar-lhe um talher em seu refeitorio! Obtendo, entretanto, o gráo de bacharel com as melhores approvações e com grandes sacrificios, veiu para o Rio de Janeiro em 1825; foi nomeado em 1826 lente do botanica e zoologia da Academia Militar, passando logo com a reforma da Academia a lente de chimica e mineralogia, e em 1828 director do Museo Nacional. Do primeiro destes logares obteve aposentadoria em 1847; do segundo a exoneração que pediu, depois de elevar o Museo ao gráo de aperfeiçoamento que elle ideava. Antes disto, em 1834, exerceu as funcções de membro da commissão de melhoramentos da Casa da Moeda, onde introduziu uteis reformas e processos de analyse e refinação de metaes, que então eram novidade; depois disto, em 1859, foi nomeado para o cargo de director do Jardim Botanico, onde conservou-se alguns annos, tendo alcançado breve de secularisação em 1840. Por occasião de uma viagem ao Norte, em 1835, explorou, em Sergipe, as serras de Itabaiana, onde se dizia existirem minas de ouro e de salitre, e em Alagoas a formação betuminosa das praias de Camaragibe, remettendo amostras ao Governo. Conhecia a lingua grega e varias linguas orientaes e era notavel naturalista, vindo a cegar completamente antes de fallecer, em consequencia das repetidas observações microscopicas a que se entregava. Foi membro do Instituto Fluminense de Agricultora, socio fundador da Sociedade de Melhoramentos da Instrucção Elementar, socio do Instituto Historico do Brazil, socio e presidente honorario da Sociedade Auxiliadora da Industria Nacional, e commendador da Ordem de Christo.”

Quanto às pesquisas na Pedra da Gávea, empreendidas por esse mesmo erudito, agrega Sacramento Blake:

“Consta-me que frei Custodio, em vista de uma inscripção em caracteres phenicios, já muito carcomidas pela acção destruidora do tempo, encontrada em uma das montanhas do littoral do Rio de Janeiro, ao sul da barra, escrevera uma Memoria, em que se prova que o Brazil fôra visitado por alguma nação conhecedora da navegação, antes que aqui viessem os portuguezes. Esta Memoria foi examinada por uma commissão do Instituto Historico, mas nunca se tratou mais disto.”

[8] Bernardo Ramos, Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica (Especialmente do Brasil), vol. I, cap. XIV, “As inscrições do Morro da Gávea”. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1930.

[9] Henrique José de Souza, Brasil Fenício. Brasil Ibero-Ameríndio. Revista Dhâranâ, ano XXIX, n.º 2, Maio / Junho – 1954, São Paulo.

[10] Brasil Gerson, História dos Subúrbios: Botafogo. Departamento de História e Documentação da Prefeitura do Distrito Federal, 1959.

[11] Vasco Mariz, Lucien Provençal, Villegagnon e a França Antártica: uma reavaliação. Nova Fronteira, Biblioteca do Exército Editora, Rio de Janeiro, 2001.

[12] Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Editora Positivo, Curitiba, 2010.

[13] Gustavo Barroso, Aquém da Atlântida. Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1931.

[14] Alfredo Pinheiro Marques, A Cartografia Portuguesa e a Construção da Imagem do Mundo. Edição trilingue (português – francês – inglês). Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1991. O citado Álvaro Teixeira Filho pertencia às Armas de João Teixeira Albernaz I que, cerca de 1640, pintou uma carta antiga de Portugal Continental que se conserva até hoje em Lisboa, no Museu Calouste Gulbenkian, recentemente acrescentada nos Portugalie Monumenta Cartographica. Sendo filho de Luís Teixeira, João Teixeira Albernaz I foi cartógrafo real, entre 1597 e 1612, e o que teve influência mais notável no estrangeiro, notoriamente na Holanda, onde está boa parte da sua obra. Deve-se a ele as cartas planisféricas do litoral e interior do Brasil, que assim passou a ser conhecido dos navegadores de Seiscentos, nomeadamente holandeses e ingleses, já que desde muito antes os portugueses conheciam bem o Brasil, cerne da sua diáspora mais cultural que comercial, ao inverso dos outros. A dinastia Albernaz teve continuação sobretudo com João Teixeira Albernaz II, neto do homónimo e bisneto de Luís Teixeira. Cf. Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica), referência aos Albernaz, pp. 37-38. Lisboa, 1961.

[15] Este mapa foi publicado em Monumenta Cartographica Africae et Aegypti, de Yousouf Kamal, t. 3.º, fasc. IV, p. 867, Cairo, 1934.

[16] José Garcia Domingues, Portugal e o Al-Andalus. Hugin-Editores, Ltda., Lisboa, 1.ª edição Outubro de 1997.

[17] O texto árabe da Geografia de Abu’l-Fida, Taqwin al-Buldân, foi publicado por Reinaud et Slane, Paris, 1840. A sua tradução, sob o título La Géographie d´Abulfêda, deve-se a Reinaud e Estanislau Guyard, Paris, 1848-83.

[18] J. da Costa Macedo, Memória (…) que os Árabes não conheceram as Canárias antes dos Portugueses, in Hist. e Mem. da A.R.C.L., Tomo I (1843), 37-268. Cf. Pinharanda Gomes, História da Filosofia Portuguesa – A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

[19] Peter Kolosimo, Antes dos Tempos Conhecidos. Edições Melhoramentos, São Paulo, 1970.

[20] Moysés Jacubovicz, A Pré-História do Brasil. Revista Aquarius, ano 3, n.º 9, 1977, Rio de Janeiro.

[21] René Guénon, Symboles Fondamentaux de la Science Sacrée. Éditions Gallimard, Paris, 1962.

[22] Juan G. Atienza, Santoral Diabólico. Ediciones Martínez Roca, S. A., Barcelona, 1988.

[23] Osório Duque Estrada, História do Brasil. Jacinto Ribeiro dos Santos, Editor, Rio de Janeiro, 1922.

[24] Esta ilha teve sucessivamente os nomes de Paranapuam ou ParanapucúMaracaiâ ou do Gatodos Sete Engenhos e, finalmente, do Governador (Mem de Sá).

[25] Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627). Editora Melhoramentos, São Paulo, 1931.

[26] Sérgio Órion de Souza, O Descobrimento do Brasil em três actos. Revista Dhâranâ, ano 76, edição 235, Janeiro 2000, São Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.