De Profecia e Inquisição (Defesa do livro intitulado QUINTO IMPÉRIO) – Por Padre António Vieira

Defesa do livro intitulado QUINTO IMPÉRIO, que é a apologia do livro CLAVIS PROPHETARUM, e respostas das proposições censuradas pelos senhores inquisidores: dadas pelo Padre Antônio Vieira, estando recluso nos cárceres do Santo Ofício de Coimbra.

Sendo ontem chamado à mesa, me foi dito que estavam nela os senhores inquisidores para sentenciarem a minha causa, e que antes disso queriam ouvir de mim tudo o que tivesse que dizer ou alegar para bem dela; e porque a última doença (de que estou mal convalescido) me não deixou com forças nem alento para poder falar em público, pedi licença para falar por papel, que me foi concedida. Protesto pois do modo que me é possível, diante desses senhores, que antes de se me dar a notícia que as minhas proposições estavam censuradas, e as censuras aprovadas por sua santidade, fazia eu tenção de propor em presença de vossas senhorias todos os pontos ou questões delas, dando os fundamentos das opiniões que segui, ou determinava seguir, respondendo aos das contraditas; mas depois que me foi dada a notícia da aprovação e autoridade do sumo pontífice, que é argumento a que a minha fé, resignação e obediência, não sabe outra solução senão a da veneração, obséquio e silêncio, sem que para isso seja necessário cativar ou fazer força ao entendimento, que sempre está e esteve sujeito aos menores acenos da Igreja, e de qualquer de seus ministros, havendo por esta via cessado o escrúpulo que só me dilatava; e tendo eu aceitado, sem mais demora da razão, ou explicação das ditas proposições, a todas as censuras delas, e suas dependências, nenhuma outra coisa se me oferece, que possa fazer ou dizer importante ao bem da minha causa, mais que o representá-la a vossas senhorias em um menor e mais abreviado processo, no qual a possa compreender toda junta de uma vez, dividindo-a para isso em partes certas e determinadas, onde se veja brevemente o dilatado, distintamente o confuso, e claramente o escuro e mal declarado por mim: e pois não posso fazer a dita representação com razões vivas (como muito desejava) falarão por mim estas poucas regras, não como nova alegação, pois não digo nelas coisa de novo, mas como um breve memorial deste processo, repartido, para maior facilidade, clareza, e distinção, nas oito ponderações seguintes:





PONDERAÇÃO 1ª

ACERCA DO ASSUNTO DO LIVRO

O argumento ou assunto do livro que quis há muitos anos escrever, e do qual tinha totalmente desistido, depois que me apliquei às missões, era o Império Consumado de Cristo debaixo do nome de Quinto Império: digo — Império — conforme o cômputo dos impérios de Daniel, entendendo-se por império consumado de Cristo, não algum império que Cristo havia de ter nos tempos futuros, senão um novo e maior estado do mesmo império e reino que Cristo hoje tem, e teve sempre depois que veio ao mundo, que vem a ser por outros termos, um novo e perfeito estado da Igreja Católica, que é o único e verdadeiro reino de Cristo.

As partes, circunstâncias, e felicidades de que se compõe esse novo e mais perfeito império ou estado, eram a extirpação de todas as seitas de infiéis, a conversão de todas as gentes, a reforma da cristandade, e a paz geral entre os príncipes, a mais abundante graça do Céu, com que salvariam pela maior parte os homens, e se encheria o número dos predestinados, sendo os instrumentos imediatos da dita conversão um sumo pontífice santíssimo, e alguns varões apostólicos de singular espírito, que, divididos por todas as terras de infiéis, as reduziriam e sujeitariam à Igreja, e um imperador zelosíssimo da propagação da fé, o qual empregaria toda a sua autoridade em serviço do dito pontífice, e favor dos pregadores, segurando-lhes o passo, e defendendo-os onde necessário fosse com as suas armas, e sujeitando com elas a todos os rebeldes, principalmente o império romano, com que o faria senhor do mundo.

Até aqui o assunto em geral, o qual de nenhum modo é invento meu, senão promessa e esperança, e exposição de muitos santos antigos e modernos, e de muitos comentadores das escrituras, e de muitas pessoas de espírito profético, geralmente aprovado e recebido, de que porei somente os nomes: S. Justino, e S. Gaudêncio, S. João Crisóstimo, S. Hilário, Osório, Uberto, Panônio, Eclio, Herculano, Pedro Bolorengo, Serafino de Berma, Genebrardo Taio, Pedro Galatino, Salazar, Serelego, Arrias Montano, Bandale, Joaquim Abade, Aperilas, S. Metódio, Teófilo Eremita, Malaquias, S. Francisco de Paula, S. Brízida, S. Amatildes, S. Isidoro, S. fr. Gil, o Beato Amadeu, S. Ângelo mártir, o irmão Mem Rodrigues da Companhia de Jesus, e outros muitos católicos pios, e, exceto o último, todos doutos.

E porque os sobreditos autores que falam no imperador que Deus há de dar à sua Igreja, para as execuções temporais desta espiritual conquista, não declaram absolutamente, que pessoa particular haja de ser, acrescentava eu, ou pretendia acrescentar, posto que digam muitas propriedades e circunstâncias, de que se pode conjecturar o argumento geral dos ditos autores à acomodação e explicação do reino, para que tinha Deus guardado aquela grande empresa e império, interpretando em honra da nação, que seria rei português, e do reino de Portugal, fundando este pensamento principalmente nas palavras de Cristo a El-Rei D. Afonso Henriques — volo in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire.

A este fim (o que muito se deve notar) determinava eu seguir ou supor duas opiniões necessárias ao dito intento, ambas comumente recebidas dos teólogos; a primeira, que o império de Cristo não só é espiritual, senão também temporal, cada um a respeito de seus vassalos, sendo este título ainda mais próprio no príncipe, que o fosse de todo o mundo, em suposição das quais duas opiniões, aplicando o sobredito império a um príncipe descendente D’el-Rei D. Afonso Henriques, se vinha a cumprir e verificar nele inteiramente toda a profecia das palavras e promessas de Deus, pois no tal príncipe estabelecia Cristo um império, o qual juntamente seria império de Cristo, e império dum descendente do mesmo D. Afonso Henriques, que é toda a energia — in te, et in semine tua — em seguimento desta aplicação, e descendo a individuar a pessoa deste príncipe, determinava eu chamar à pretensão do dito império todos os que descendem D’el-Rei D. Afonso Henriques, e principalmente por serem a sua décima sexta geração, ou descendentes dela, tinham conhecido direito à promessa de Cristo, como são ao presente o imperador da Alemanha, por filho da imperatriz D. Maria: El-Rei de França por filho da rainha D. Ana, ambas irmãs de Filipe IV de Castela, ou seu filho pela própria descendência.

Mas porque o meu intento total era concluir que este príncipe não só havia de ser descendente D’el-Rei D. Afonso Henriques, senão também rei português, e de Portugal, assentado neste princípio segundo, chamava da mesma maneira a pretensão aos reis portugueses, que parece podiam ter maior direito a ela, pondo em primeiro lugar a opinião comum D’el-Rei D. Sebastião, e todos os fundamentos que tinha, e no segundo a El-Rei D. João IV, pela estimação também comum com que na restauração do reino foi reputado pelo verdadeiro encoberto, satisfazendo ao fortíssimo argumento da sua morte, com exemplos e razões que mandei à rainha nossa senhora no papel deste assunto, por ser o que naquela ocasião podia servir de alívio de sua majestade, sendo porém certo que o meu intento não era resolver por último, que o Senhor Rei D. João fosse ou houvesse de ser o prometido imperador: assim o puderam testemunhar algumas pessoas dignas de toda a fé, a quem foi força comunicar o meu segredo e o meu pensamento, os quais sabem que verdade era dedicar eu este livro a El-Rei D. Afonso VI, que Deus guarde, e concluir por remate de tudo, haver sua majestade ser o futuro imperador, em quem tivesse princípio o império prometido ao rei do mesmo nome, provando esta final resolução com a cláusula do mesmo juramento do rei, e promessa de Cristo — usque ad decimam sextam generationem in qua atenuabitur proles, et in ipsa sic atenuata respiciam, et videbo — nas quais palavras expendia ou havia de expender, que o relativo — in ipsa — não se referia à décima sexta geração, que foi El-Rei D. João IV, senão à prole da décima sexta geração, que é El-Rei D. Afonso.

Este é, senhores, em geral todo o argumento daquele assunto, esta em particular toda a aplicação, ou a acomodação dele, em que peço se ponderem quatro motivos, que não pouco demonstram a sinceridade e pureza da minha tenção:

1.º Quanto ao assunto em geral, se me não deve imputar culpa, pelo ter por católico e pio, e sem escrúpulo de perigosa doutrina, pois tem por si a autoridade e revelações de tantos santos, e de tantos e tão graves autores de nossos tempos, cujos livros, aprovados pelo Santo Ofício, correm sem reparo algum em toda a cristandade.

2.º Quanto à aplicação do dito assunto, e imperador dele, o rei de Portugal, que Rusticano (ita), um dos autores acima alegados, religioso de S. Francisco, em um livro que imprimiu em Veneza, aprovado pelo Santo Ofício de sua santidade, com título de recopilação das profecias modernas, aplica o mesmo império a el-rei de França, o qual rei se vê estampado em muitas partes do mesmo livro: e pois é coisa lícita e aprovada pelo Santo Ofício, e maiores ministros da Igreja, o ser a mesma aplicação a um príncipe da cristandade, porque me não pareceria a mim também lícito aplicá-lo a outro, principalmente não havendo nenhum no mundo que tenha a seu favor um tão notável e autêntico testemunho, como o do juramento D’el-Rei D. Afonso Henriques?

3.º Quanto ao dito assunto, e aplicação dele, se colhe manifestamente qual foi a tenção que tive em seguir a opinião comuníssima do mesmo temporal de Cristo por partes, se eu supusesse a opinião contrária, que admite em Cristo o império espiritual, quando viesse a dizer sobre a cláusula — intemihi — que o mesmo império de Cristo, e mais d’el-rei de Portugal, papa ou cabeça da Igreja; pois o império espiritual de Cristo não tem, nem pode ter outra cabeça senão o papa: sendo porém esta razão tão natural e manifesta, e sendo outrossim a eleição da dita opinião do império temporal de Cristo, forçosamente necessária para o dito assunto, bem se deixa ver quão alheio do meu sentir é o fundamento sobre que me foi argüida tanta máquina de suspeitas e erros, fundados todos na opinião do dito império temporal de Cristo, e quão impossível coisa parece, que a disposição de todo este meu fundamento, assim como estava truncada e imaginada, se houvesse de penetrar ou perceber antes de se declarar, donde nasceu interpretar-se o título de Quinto Império, como são também todas as conseqüências que dele se inferem.

4.º Que o dito chamado livro, verdadeiramente de nenhum modo é, nem foi, nem se pode chamar livro, senão pensamento de livro, e pensamento retratado, e totalmente deixado, por haver mais de onze anos que tinha desistido do sobredito pensamento: nem faz contra esta verdade, bem provada com o retiro do Maranhão, e com me haver aplicado à conversão das gentes, o intento que tinha de dedicar o dito livro a sua majestade, porque este pensamento era ex necessitate, et preter intentionem, depois que pelos cargos que se me deram no Santo Ofício fui obrigado a explicar o dito assunto, e o Quinto Império, e questões dele, para mostrar os fundamentos e motivos por que o tivera por provável e sã doutrina; e em disposição de me ser forçoso gastar o tempo neste estudo, faço conta de o não perder, e dedicar o dito livro a el-rei, no caso em que depois de representar nesta mesa todos os pontos principais, mas não reprovassem em coisa essencial que desfizesse o dito assunto. Assim que, quanto à minha tenção, nem por pensamento me passara fazer o dito livro, e só tratava de alimpar e imprimir os meus sermões, como o padre geral me tinha mandado.

Um comentário em “De Profecia e Inquisição (Defesa do livro intitulado QUINTO IMPÉRIO) – Por Padre António Vieira

  1. Grato pela partilha, em julho recente visitei o sistema Itaparicano e dias antes estive em Salvador onde visitei a igreja dos Passos e vi o púlpito onde Vieira pregou muitos dos seus sermões
    Tb estive na Se de Salvador onde onde o mesmo foi Goro .

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