A Torre do Inferno do “rei do lixo” (Coina) – Por Vitor Manuel Adrião

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2.04.2012

O meu reconhecido agradecimento ao senhor doutor Rui Pires, dedicado investigador da história da Quinta da Torre de Coina e devotado amigo da terra, por todas as informações que me disponibilizou e confiou. – O autor.





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Inicio o presente estudo evocando a Quinta da Regaleira de Sintra que é uma elegia familiar à Portugalidade e à Religião, soerguendo aos céus da serra sagrada a Torre de Deus expressiva do ideal sebástico da pressuposta “Quinta Monarquia”, tudo motivos suficientes para nesse período conturbado dos finais do século XIX e inícios do seguinte serem desencadeadas as fúrias republicanas a ponto de, inclusivamente, terem pretendido contrapor à invejada Regaleira do realengo “Monteiro dos Milhões” outros e novos espaços de cultura aposta e oposta como era então a dominante botânica maçonista, e que algum deles também tivesse torre cuja figura bastasse para infernizar as consciências realengas que, para gáudio da República triunfante, deviam cozer na caldeira do inferno de Pêro Botelho por toda a eternidade.

Pois sim, essa torre existe e está na margem sul do Tejo. Com efeito, dominando a paisagem circundante, altiva e estranha, a Torre do Diabo encontra-se junto à Estrada Nacional n.º 10 em Coina, freguesia do concelho do Barreiro, na antiga propriedade do famoso e controverso Manuel Martins Gomes Rodrigues Júnior, o “rei do lixo”, que deu brado em Lisboa e na margem sul nos primeiros decénios do século XX.

Essa propriedade, abrigando a também chamada Torre de Coina, chamava-se no século XVIII Quinta de São Joaquim e era um pouso, lugar de recreio e passagem entre as duas bandas do Tejo e deste para o Além-Tejo (Alentejo), que “mandou fazer a sua fazenda (expensa)” Joaquim de Pina Manique, desembargador da Casa da Suplicação, “cavaleiro fidalgo da Casa de Sua Majestade e professo da Ordem de Cristo no Mestrado da mesma Ordem”, irmão mais novo do célebre Intendente-Geral da Segurança Pública no reinado de D. Maria I, Diogo Inácio de Pina Manique, o ultraconservador que fundou a Casa Pia de Lisboa. Ainda hoje a marca de D. Joaquim está patente aqui, numa inscrição lapidar encimada pela Cruz de Cristo encrostada no muro da propriedade. Mas com as mudanças políticas ocorridas no século XIX e a dispersão da família Pina Manique, a quinta entrou numa fase de abandono e decadência até que, nos finais desse século, foi comprada pelo famoso “rei do lixo”, que vinha construindo um império a partir do nada.

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A vida de Manuel Gomes Júnior replete-se de contradições em lances “claros-escuros”, onde a obscuridade dos factos é maior que a clareza dos actos, motivo que tem levado os seus raríssimos biógrafos a confessar ser a mesma mais conhecida pelas confissões dos inúmeros inimigos que granjeou ao longo da vida do que pelos factos provados, os quais mantendo-se desconhecidos tornam impossível fazer-se a sua biografia verídica e completa.

Manuel Martins Gomes Rodrigues Júnior nasceu em 11 de Novembro de 1860 no seio de uma família humilde em Santo António da Charneca, no Barreiro, filho de Manuel Martins e de Maria Gertrudes Martins. Desde cedo prometera a si mesmo mudar da vida miserável e tornar-se rico, e foi o que fez! Após ter trabalhado durante algum tempo como marçano em Lisboa e juntado algumas economias, regressou ao Barreiro onde comprou uma padaria de venda de cereais; para ter autonomia no negócio, adquiriu o moinho de água de moagem de cereais em frente à Quinta de São Vicente, que também viria a ser sua e onde fundaria a Sociedade Agrícola da Quinta de São Vicente. Posteriormente, com a compra de propriedades rurais a norte e a sul do Tejo, sobretudo no Alentejo, fundou a Companhia Agrícola de Portugal, contribuindo consideravelmente para o desenvolvimento socioeconómico da lavoura e agropecuária no país, mormente na região sul. Diz-se – sem prova nenhuma mas originada no “diz que disse” do regateio inflamado das inimizades republicanas/monárquicas do seu tempo – que após assinar um contrato com uma seguradora, ele próprio terá ateado fogo ao moinho, e como nunca se provou que não tivesse sido acidente foi indemnizado com uma elevada quantia.

Com parte desse dinheiro comprou uma pequena propriedade e entregou-se à especulação agrícola, emprestando dinheiro, sob pesados juros, aos proprietários vizinhos de Coina, necessitados de verbas destinadas ao cultivo dos seus terrenos. Em época em que as colheitas foram más e os agricultores não tinham como saldar as dívidas contraídas, Manuel Gomes não lhes perdoou: anexou as parcelas dos devedores à sua, formando assim uma quinta com mais de 300 hectares.

Em 1908 já era dono da Quinta da Trindade na Azinheira, Seixal, tendo chamado a si a reconstrução do edifício apalaçado e ainda construído o «castelinho», nessa que fora propriedade de D. Brites Pereira, sobrinha do condestável D. Nuno Álvares Pereira, que aí fundara a ermida da Senhora da Boa Viagem para os religiosos trinos da Ordem da Santíssima Trindade, extinta em 1834. Foi assim, também, que anos antes, a partir de 20.5.1897 (segundo a Carta de Arrematação do Ministério das Finanças), a Quinta do Manique ou de São Joaquim ficou na sua posse, tudo graças aos seus dotes de especulador sem escrúpulos, remata sentenciosa a vox populi.

Tornou-se um grande proprietário, e havia que rentabilizar o terreno. Dedicou-se à suinicultura após firmar um contrato com um grande negociante e exportador de carnes de Lisboa. Alugou-lhe o espaço da quinta para criação de porcos e fez sociedade com ele. Mas como pouco tempo depois o seu sócio morreu, Manuel Gomes assumiu o controlo total do negócio e passou a ser um rico negociante de carnes. Devido à sua inclinação natural para os negócios e ao seu carácter empreendedor, atingiu o auge ao assegurar o controlo da recolha dos lixos em Lisboa (nessa época os lixos eram apenas matéria orgânica), após arrematação feita com a Câmara lisbonense em 27 de Março de 1907, transportando-os para Coina nas suas cinco fragatas destinados a servir de alimento aos porcos, com isso não gastando um só tostão!

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Morreu na sua Quinta da Alfarrobeira, na Estrada do Calhariz de Benfica, e foi enterrado, no dia seguinte à sua morte, no cemitério do Alto de São João, Lisboa, em 9 de Novembro de 1943, numa simples cova aberta à última hora, nas traseiras de majestosos jazigos, tendo por mortalha quatro tábuas de pinho forradas de pano preto e por acompanhamento nas exéquias fúnebres, além de poucas pessoas de família, meia dúzia de amigos que conseguiram romper a discrição em que foi envolvido o acto. Vítima de doença prolongada, ainda assim a lenda popular insiste que ele morreu em circunstâncias estranhas cujas causas nunca foram apuradas.

Após o seu falecimento, a Quinta da Torre de Coina passou para o seu genro, António Zanolete Ramada Curto, e tornou-se o principal centro agrícola da região. Em 1957 vendeu-a a José Mota, irmão dos grandes proprietários e industriais de curtumes Joaquim Baptista Mota e António Baptista Mota, que transformou a propriedade numa importante exploração pornícola. Igualmente melhorou-se o seu jardim que vinha do antigo palácio, o labirinto de arbustos, a escadaria de pedra, o pomar e as palmeiras em volta da capela.

Em 1972 a herdade foi novamente vendida, desta vez a António Xavier de Lima, conhecido urbanizador da margem sul. Este afirmou publicamente possuir um projecto para reconverter a quinta e transformar o palácio numa pousada com cerca de 85 quartos. Mas, desgraçadamente, na noite de 5 de Junho de 1988 o palácio foi totalmente devorado pelas chamas de um incêndio, que não poucos dizem ter sido ateado de propósito. Xavier de Lima disse depois ao jornal A Capital que o restauro do imóvel implicava um investimento não suportável. Desde então, o palácio com a torre e a quinta em volta encontram-se num total abandono, já tendo abatido toda a parte intermédia e o terceiro terraço do edifício, a cada dia transformando-se mais e mais numa enorme ruína, ele que é o ex-libris da histórica vila de Coina cuja autarquia, sem dúvida, deveria cuidar melhor do seu património, muito mais sendo este um exemplar de arquitectura única no país construído com os mais ricos materiais da época.

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Manuel Martins Gomes Júnior e a sua família nunca habitaram a Quinta da Torre (por as suas obras terem sido interrompidas cerca de 1913-1914, deixando o imóvel incompleto), mas o facto de a ter adquirido e lhe imposto o aspecto realengo imponente, algo assim como memória póstuma do primitivo pouso de Pina Manique ligado à Casa Real, e sendo também ele “rei” (do lixo) por certo quis ter um palácio condigno com tal título, ou melhor, alcunha, que os mais desaforados de Coina igualmente apodavam de “porco sujo”. Com isso, descurava-se o óbvio da sua intenção escondida, além da empresarial: contribuir para a higiene pública da capital fragilíssima em cultura profiláctica, ao mesmo tempo que a sua perspicácia empresarial via nisso uma forma gratuita de aumentar a sua riqueza.

Diz a vox populi que foi a sua vingança republicana sobre o regime monárquico, pousando lixo e porcos neste lugar dos antigos cortesãos. À propriedade rebatizou-a com o novo e inquietante nome de Quinta do Inferno, com a sua Torre do Diabo que mandou fazer em 1910 (significativamente o mesmo ano em que terminaram as obras na Quinta da Torre da Regaleira), dizendo-se ter transformado a capela da quinta em armazém e estábulo (sendo certo que abriu nela, em 1906, uma escola bem dotada que ofereceu para a educação gratuita dos seus empregados e seus filhos), e às suas fragatas transformadas em arrastos do lixo deu-lhes os nomes de Mafarrico, Mefistófeles, Demo, Diabo, Satanás, Belzebu, Horrífico, Caronte, Plutão, Averno e outros mais mimosamente escolhidos para decerto chocar a conservadora e católica flora. Por certo tratou-se de uma provocação desaforada ao regime eclesiástico secular que a recente Revolução de 5 de Outubro depusera, mas com isso ficou até hoje com a fama de ateu antiteísta impenitente dotado de um feitio irregular pouco ou nada afectivo.

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Casado com Maria de Oliveira Bello (1871 – 23.7.1967), às suas duas filhas legítimas pôs os nomes de Ceres e Cibele, e às ilegítimas, anteriores ao casamento, os de Proserpina e Flora; a um sobrinho deu o nome de Libertino, e a um outro afilhado quis pôr-lhe o nome de Livre Pensador, e tal como tal não fosse possível, após reflectir um instante, mandou que lhe chamassem Rodas Nepervil, que é o mesmo nome lido ao contrário. Estes nomes são já um sinal claro de erudição requintada de Manuel Martins e também, aparte a óbvia provocação desaforada ao regime eclesiástico, indício da sua possível afiliação e perfilha secreta do pensamento hermético greco-latino adoptado, sobretudo, pela Maçonaria do tempo.

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Figura política de peso na época, republicano e humanista, foi regedor de Santo António da Charneca, construiu a primeira escola de ensino primário na freguesia, financiou colectividades, fundou a supradita Companhia Agrícola de Portugal, concedeu regalias aos seus funcionários e protegeu os pobres. Foi um apóstolo do ideal de “sociedade republicana” justa e igualitária que se sonhou nos primeiros tempos do regime, conformada ao ideal político perfilhado pela Maçonaria Portuguesa na qual Manuel Martins possivelmente seria afiliado, o que não está provado mas também não está descartada a hipótese severa de o ter sido, como aliás quase todos os republicanos desse período, de uma maneira ou de outra, andaram de ligações com essa Ordem. Se acaso não foi maçom, como era o seu irmão, então certamente andou de familiaridades com a Maçonaria.

Mas os conflitos permanentes, os vícios públicos e privados dos políticos aburguesados, o esquecimento rápido do ideal de “sociedade justa e perfeita” e a cada vez maior ditadura republicana onde o radicalismo carbonário embatia violentamente contra os princípios elementares do regime recente, afligindo o povo esmagado pela estultícia dos golpes e contragolpes militares onde de manhã havia um parlamento e à tarde outro diferente, tudo isso terá levado Manuel Martins Gomes Júnior à desilusão profunda do regime que acreditara e ao seu afastamento, em 1913, do círculo político do Partido Democrático de Afonso Costa, apesar de em 1922 ainda ter apoiado a direcção do Partido Radical (formação republicana populista que não passou de partido minoritário) que financiou, talvez pretendendo contribuir através dele para a restauração do ideal republicano que sonhara e via seriamente moribundo, muito mais desde que Portugal sofreu o sério revés no conflito da I Grande Guerra Mundial (1916), e depois com o assassinato de Sidónio Pais (1918). Se ele foi maçom como o seu amigo pessoal e Prémio Nobel da Medicina, professor Egas Moniz, seu executor testamentário, então o seu desquite do Grande Oriente Lusitano terá acontecido por volta de 1913, o mesmo ano em que Egas Moniz se afastou da Maçonaria por sérias discordâncias com ela, ao ponto de bater-se em duelo (1914) com o general Norton de Matos, futuro Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano.

O ateísmo do opulento Manuel Martins terá sido mais blague provocadora de fachada que convicção íntima, provocação como essa de repreender a esposa sempre que a via pôr azeite nas lamparinas do oratório da capela na sua quinta de Benfica: “Maria, não é melhor guardares o azeite para regar o bacalhau e as batatas?”

Em contraste flagrante com o aparente zelo jacobino misturado a um apreciado gosto anarquista de bon-vivant provocateur, deixou no seu testamento (onde consta a fortuna fabulosa orçada em 34.552.370$80 contos: 24 milhões e 152 mil escudos em bens imobiliários, e 9 milhões e 50 mil escudos em bens mobiliários, segundo a Relação de Bens a 24 de Outubro de 1943, sendo notário José Valente de Araújo, de Lisboa, e a fonte do Ministério das Finanças o processo n.º 7385 de 9 de Novembro de 1943) a doação de larga quantia em dinheiro às Misericórdias franciscanas da sua escolha prévia: duzentos e cinquenta contos em dinheiro à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Setúbal; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, com a condição desta última legatária manter permanentemente uma escola primária mista em Coina, satisfazendo todas as despesas da mesma. Isto além de ter contribuído amplamente para substituir a desmoronada capela de Nossa Senhora dos Remédios de Coina por uma outra igreja mais condigna, e de ter decidido e promovido a construção da sede da Sociedade Filarmónica União Agrícola 1.º de Dezembro, em Santo António da Charneca. Assim se revelou tão humanista quanto religioso que no íntimo era mas escondia…

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Além disso, descobre-se sem esforço no Palácio e Torre da Quinta do Inferno a presença de simbologia deísta, cujo conhecimento Manuel Martins Júnior terá recolhido no meio esotérico em voga na época, fosse através da Sociedade Teosófica, fosse por algum Movimento Rosacruciano, ambas as correntes com doutrinas bem estruturadas, fosse ainda na própria Maçonaria Iniciática, no que ela tem mais de simbologia e falerística espiritual, que não sendo doutrina já de si encerra doutrina, nada de nadíssima a ver com quaisquer hodiernas correntezas «luciferinas» que se mostram familiares do satanismo, como agora aventam alguns menos menos informados e muito desprevenidos em matéria iniciática, mostrando que se deixam levar pelas manifestações aparentes e gratuitas das “blagues” provocadoras anti-eclesiásticas de Martins Júnior. Por isso, ainda hoje a vox populi diz sem saber que o edifício destinava-se a ser a nova sede da Maçonaria Portuguesa por a anterior ter ardido há pouco tempo, o que não é verdade, pelo menos no tocante à sede central onde está o Palácio Maçónico na Rua do Grémio Lusitano, no Bairro Alto de Lisboa. Também desconheço o ter havido incêndio em alguma Loja da margem sul. Concluo que o sentido de “nova sede maçónica” será diverso daquele da voz popular: ele está na própria arquitectura do edifício que causa estranheza geral, menos àqueles que detêm o conhecimento exacto do seu significado iniciático: os possíveis arquitectos maçons que edificaram o imóvel e deixaram os sinais secretos da sua afiliação esotérica, por certo de acordo com a vontade expressa do proprietário, mesmo acaso ou decerto despossuído de maiores aprofundamentos no pensamento hermético.

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A botânica maçónica marcou presença determinante junto do operariado, do empresariado, dos intelectuais e até dos religiosos da margem sul do Tejo. Nisso é incontornável a pessoa do farmacêutico António Augusto Louro (Sabugal, 22.10.1870 – Alcanena, 1.8.1949), cuja farmácia no Seixal foi local de encontro e debates dos ideais maçónicos e republicanos. Carbonário e maçom conciliador, foi nomeado Garante da Amizade entre os irmãos das Vendas e das Lojas situadas no Vale do Seixal. Autorizado por decreto do Grão-Mestre interino Francisco Gomes da Silva, em 16 de Julho de 1906 fundou no Barreiro a Loja “Esperança de Porvir”, e já antes, em 13 do mesmo mês, fundara em Sesimbra o Triângulo n.º 82, instalado a 22 de Novembro de 1906 e que em 1912 ainda estava activo. Em 4 de Dezembro de 1906, foi autorizado a fundar um novo Triângulo na Moita, que se transformou na Loja “Boa Viagem”. Esta Loja, instalada em 10 de Maio de 1908, recebeu o n.º 275 e seguia o Rito Francês. Pertenceu a ela João Martins Gomes, irmão do supracitado Manuel Martins Gomes, que exerceria o cargo de Venerável na Loja “Renascença” do Grande Oriente Lusitano, em Lisboa, depois da cissão ocorrida no Grande Oriente Lusitano Unido em 1914, quando a Loja “Boa Viagem” adoptou o nome de Loja “Firmeza”, vindo a abater colunas, a encerrar em 1919. Existem também registos do Triângulo “Feio Terenas”, no Seixal.

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Todos esses núcleos maçónicos, onde maçons e carbonários estavam inextricavelmente misturados, seguiam o Rito Francês, cujos ideais de há muito vinham inspirando os republicanos portugueses até que culminaram no regicídio (1908) e na consequente revolução (1910), com a Carbonária à dianteira e a Maçonaria por detrás. E como esta ficasse bem para trás em relação àquela que lhe impunha a linha política do Partido Democrático segundo o seu entendimento particular, o Grão-Mestre Magalhães Lima, do Grande Oriente Lusitano Unido, contestou, em 1914, a autoridade do Supremo Conselho do Grau 33.º (entidade reguladora dos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite, tradicionalmente tuteladora dos Graus Simbólicos do mesmo Rito), forçando a uma direcção única sob a sua égide (uma direcção «democrática» fortemente politizada, que a um tempo administraria a Obediência e regularia o Rito). Magalhães Lima, sabendo que o Supremo Conselho coexistia com o largo espectro político, não quis ver-se refém da governação da República. Dessa querela brotou a dissidência esperada e provocada: a generalidade dos membros do Supremo Conselho abandonou o Grande Oriente Lusitano, acompanhada de várias Lojas, indo formar o Grémio Luso-Escocês, só voltando a reintegrar-se naquele em 1926. Os dois irmãos Martins Gomes acaso terão seguido, como fez Egas Moniz, o Grémio Luso-Escocês.

A ser verdade que fosse maçom, o que está por provar, então o “rei do lixo” com certeza terá frequentado a Loja “Boa Viagem”, na Moita, e a Loja “Esperança de Porvir” (… a sociedade republicana), no Barreiro. Esta funcionava no primeiro andar do edifício hoje ocupado por um restaurante no Largo Alexandre Herculano. Tinha como extensão gremial a Sociedade Democrática União Barreirense – Os Franceses. Nesta, os anarquistas, socialistas e republicanos tinham um espaço de favorecimento cultural, não só através do convívio mas também pelo acesso franco a bibliotecas. Este centro republicano tal como outros idênticos foram um dos veículos de infiltração da Carbonária, organização revolucionária armada paralela da maçónica de que existiram vários núcleos ou “vendas” na margem sul do Tejo, nomeadamente no Barreiro, em Palmela, na Moita, em Almada, em Cacilhas, na Aldeia Galega e em Alcochete. Na antecipação da proclamação da República, pelas 12:30 horas do dia 4 de Outubro de 1910, nos Paços do Concelho do Barreiro, situados na antiga Rua Albers, eram carbonárias as vozes proclamadoras de Ricardo y Alberty e João dos Santos Pimenta, membros da Junta Revolucionária.

O símbolo mais evidente da porventura afiliação de Manuel Martins Gomes Júnior ao pensamento esotérico está no seu ex-libris (gravado nos objectos pessoais, nas fragatas, nas alfaias agrícolas e até nos badalos ou chocalhos do gado): uma meia-lua erecta com as pontas voltadas para a direita, e uma estrela de cinco pontas dentro dela. É signo islâmico, aliás, retrata o próprio Islão (com isso Manuel Martins igualmente pretendendo, a modo de provocação, declarar o seu estatuto de «herege» desafiador do pietismo conservador da Igreja), o qual é muito comum no Alentejo (onde este proprietário possuiu várias herdades próximas de Alcácer do Sal) onde frequentemente se encontra na etnografia popular, sempre dotado de propriedades mágicas profilácticas. À meia-lua o povo confere o poder de preservar as crianças dos ataques ou doenças da Lua, e Gomes Júnior tê-la-ia aplicado nas suas propriedades e bens em modo de protecção dos males psíquicos ou lunares que pudessem afligir tanto a ele como aos seus familiares, empregados, gados e terrenos. O signo de Salomão, o pentagrama, reforça o sentido de protecção, exorcismo e esconjuração dos males. Isto é atestado pelo professor Joaquim Roque no seu trabalho sobre Etnografia Alentejana – Rezas e benzeduras populares (Beja, 1946). A Teosofia aprofunda o significado desse emblema recorrendo à ciência dos Tatvas ou “vibrações subtis da matéria”, assinalando a meia-lua vertical virada para a direita como expressão do estado Subatómico (Anupadaka, em sânscrito) sob a influência planetária de Mercúrio (Budha, em sânscrito), enquanto o pentagrama constitui-se na reunião dos cinco elementos naturais manifestados de que o quinto é a expressão geradora de todos eles: o Éter (Akasha, em sânscrito) sob a influência planetária de Vénus (Shukra, em sânscrito). Ora, estando juntos Mercúrio e Vénus, ou Hermes e Afrodite, donde Hermafrodita, segundo a Teosofia expressam o estado primordial a que volverá um dia o Homem como Ser Perfeito, reintegrado na condição Divina. Ignoro se era esta reintegração final a mensagem que Manuel Martins Gomes Júnior pretendia afirmar veladamente no seu ex-libris, dispondo-se sob a protecção mágica dos deuses MarusMarutasMoriasMarizes, vulgo Mouros, os mesmos dos tesouros encantados vivendo como “Ali-Babás” (Allah-Baal) em cavernas mágicas, a despeito das minhas dúvidas severas sobre os seus conhecimentos iniciáticos.

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Voltando ao Palácio do Inferno, o sinal mais evidente da sua intenção esotérica está no labirinto, tanto o floral do jardim como o pétreo do palácio, onde circular neste mostrava-se bastante complicado para o visitante, não só como uma demonstração cabal de grandeza e poder pela imponência do edifício em si, mas também por ele ser verdadeiramente um labirinto, cujo significado liga-se inteiramente ao mundo da Tradição Primordial.

A origem mitológica do labirinto é o palácio cretense de Minos, onde estava encerrado o minotauro e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio de Ariadne. O minotauro representa a natureza animal, o labirinto o caminho tortuoso da Iniciação a ser percorrido por Teseu, o Iniciado, e sair triunfalmente do mesmo graças ao fio de Ariadne, ou seja, à ligação permanente à sua alma ocultada sob a veste carnal. Vencer a besta animal em si equivalia a alcançar o Centro Primordial e triunfar na Iniciação. A ver com isso e ao mesmo tempo, os labirintos esculpidos no chão de algumas igrejas medievais eram a assinatura das confrarias iniciáticas de construtores livres, e os que não tinham posses para viajar substituíam pelo labirinto a peregrinação efectiva à Terra Santa. Por isto, às vezes encontra-se no centro do labirinto a figura do próprio arquitecto, ou a do Cristo ou ainda a do Templo de Jerusalém, para todo o efeito, representando o eleito que chega ao Centro do Mundo, assinalado pelo Templo. Assim, o crente que não podia realizar a peregrinação real percorria em imaginação o labirinto até chegar ao ponto central, ao lugar santo: era peregrino sem sair do lugar, fazendo devotamente o trajecto de joelhos.

Na tradição cabalística judaico-cristã, retomada pelos alquimistas medievais e renascentistas, o labirinto preenchia uma função mágica que seria dos segredos atribuídos ao rei Salomão. Por esta razão, é que o labirinto das catedrais (sendo uma série de círculos concêntricos interrompidos em certos pontos de modo a formar um trajecto bizarro e inextrincável) se chamava labirinto de Salomão. Aos olhos dos alquimistas, tratava-se de uma imagem do trabalho inteiro da Grande Obra com as suas principais dificuldades: o caminho estreito mas seguro que o alquimista deve percorrer para alcançar o Centro, representado pela Pedra Filosofal, sinónima de Iluminação ou Realização Espiritual, com a sua natureza superior (representada nos metais nobres, como o ouro e a prata) dando combate à sua natureza inferior (assinalada nos metais impuros, como o chumbo e o ferro); esses conhecimentos valiam-lhe para vencer e sair incólume do intrincado labirinto da Iniciação. Essa interpretação ia de encontro à professada na doutrina anacorética de alguns místicos cristãos e árabes: concentrar-se em si mesmo, em meio dos mil rumos incertos das sensações, das emoções e das ideias, eliminando todo o obstáculo à intuição pura, e volver-se à Luz Espiritual sem se deixar cair nos desvios das veredas sensoriais e mentais. A ida e volta no labirinto eram representativas da morte e da ressurreição espiritual.

De maneira que o labirinto expressa o caminhar do homem para o interior de si mesmo, para uma espécie de santuário ou cripta misteriosa (representada na cave do Palácio do Inferno) expressando o que há de mais misterioso e sagrado nele. É aí, nessa cripta, verdadeiro templo do Espírito Santo na alma em estado de graça, que se reencontra a unidade perdida do Ser que se dispersara na multidão dos desejos. A chegada ao centro do labirinto, como no fim de uma Iniciação, introduz o iniciado numa cela invisível, que os artistas dos labirintos sempre deixaram envolta em mistério, ou melhor, que cada um podia imaginar segundo a sua própria intuição ou afinidade pessoal.

O sentido teológico de Inferno também merece abordagem. Sobre este tema do Inferno ou Hades, as crenças antigas – egípcias, gregas e romanas – variaram muito e por isso na Antiguidade eram diversificadas e numerosas. Entre os gregos, Hades era o deus dos mortos que reinava no mundo subterrâneo ocultado aos que vivem sobre a Terra, e por isso chamavam esse deus de o Invisível. Como ninguém ousasse pronunciar-lhe o nome, temendo excitar a sua cólera, ele recebeu o apodo de Plutão, o Rico, nome que implica um terrível sarcasmo, mais que um eufemismo, para designar as riquezas subterrâneas da Terra que fazem parte do império dos mortos e são guardadas por eles, o que está em conformidade com o sentido de “as riquezas infernais inalcançáveis pela cobiça do homem vulgar”. Esse sarcasmo de o Rico torna-se ainda mais macabro quando é colocada a cornucópia da riqueza nas mãos de Plutão, ainda que no simbolismo tradicional o mundo subterrâneo, indicativo das jazidas ricas, represente o lugar supremo das metamorfoses dos seres, das passagens da morte à vida, da germinação mística das criaturas humanas e da germinação natural de toda a Vida.

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As características do Hades ou Inferno, também chamado Tártaro, são as mesmas por toda a parte: lugar invisível, eternamente sem saída (salvo pela porta da (re)encarnação da alma num novo corpo humano, como prova da piedade divina assinalada na Virgem, aqui Nossa Senhora dos Remédios na capela de Coina, que pertenceu à Quinta do Manique), perdido nas trevas geladas e no lume da consciência atormentada, assombrado por monstros e demónios que vêm castigar incessantemente as almas impenitentes dos defuntos que nas suas vidas terrenas se caracterizaram pela maldade dos seus actos. No Egipto, conforme está ilustrado no túmulo de Ramsés VI em Tebas, o Inferno era simbolizado por cavernas tenebrosas (as mesmas Talas do Hinduísmo ou o Baixo Astral da Teosofia) repletas de almas danadas, chamadas pretas ou porcus, em sânscrito e latim, como os mesmos kamarupas que talvez tenham provocado a «morte misteriosa» de Manuel Martins Gomes Júnior, vítima do choque de retorno das suas próprias expressões, atendendo ao princípio de que a energia segue o pensamento. Isto para aumentar o encanto tenebroso da lenda negra da «malvadez» de Manuel Martins, na qual não creio. Mas nem todos os mortos eram vítimas de Hades: os eleitos, os iniciados, os sábios e heróis conheciam outras moradas mais além das regiões tenebrosas, pois dirigiam-se para as Ilhas Venturosas, os Campos Elísios (as mesmas Lokas do Hinduísmo ou o Mundo Mental da Teosofia), onde a luz e a felicidade lhes eram prodigadas. E também nisto se integra Gomes Júnior quando “faz as pazes”, quando se “reconcilia” com Igreja depois de 1914. Isto se alguma vez andou desavindo com ela…

Alguns textos bretões da Idade Média mencionam o Inferno qualificando-o de an ifern yen, “o inferno gelado”. Esta expressão é de tal modo contrária às normas usuais que deve ser considerada como uma reminiscência das antigas concepções célticas relativas ao não-Ser, ou a não manifestação da Vida na Forma.

Segundo a crença dos povos turcos altaicos, chega-se perto dos espíritos do Inferno quando se caminha do Oeste para o Este, ou seja, no sentido inverso ao do percurso solar que é o do movimento vital progressivo. Essa caminhada no sentido oposto ao da luz, em vez de ir ao seu encontro, representa a regressão para as trevas, expressada pela inversão dos valores naturais e dos símbolos tradicionais.

Na tradição cristã, a conjunção luz-treva expressa os dois princípios opostos: o Céu e o Inferno. Plutarco já descrevia o Tártaro como privado de Sol. Se a luz se identifica com a Vida e com Deus, o Inferno significa a privação de Deus e da Vida. A essência íntima do Inferno é o próprio pecado mortal em que os danados morreram. É a perda da presença de Deus, e como já nada mais pode iludir a alma do defunto, separada do corpo e das realidades sensíveis, o Inferno é a sua desventura absoluta, a privação radical, tormento misterioso e insondável. É a derrota total, definitiva e irremediável de uma existência humana. A conversão do danado já não é mais possível, empedernido em seu pecado está para sempre cravado na sua dor.

Contudo, para os cristãos resta um ponto de apoio seguro para não tombar na danação eterna, esse ponto é a milagrosa Maria Santíssima encarnando o mistério da Misericórdia Divina e a sua prática entre os homens (e a ela, Misericórdia, se encomendou o acaso ateu Manuel Martins). Concebida como envolta na Benevolência eterna e infinita do Pai pelo Filho e o Espírito Santo (preservada do pecado original da carne atiçada pelo demónio), o seu agir está assinalado pelo amor efectivo à Humanidade, especialmente aos pecadores e sofredores (o que vai bem com o humanitarismo do mesmo Manuel Martins). Oficialmente, a Igreja Católica aprovou em 15 de Agosto de 1968 o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”, mas a invocação “Salve, Rainha de Misericórdia” encontra-se pela primeira vez no bispo Adhemar de le Puy (+ 1098), que destaca a qualidade do olhar materno de Maria, “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e conclui com o sentido desta sua Misericórdia: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”. Já o título “Mãe de Misericórdia” crê-se que foi dado pela primeira vez a Maria por Santo Odão (+ 942), abade de Cluny: Ego sum Mater misericordiae (“Eu sou a Mãe de Misericórdia”), disse-lhe Maria num sonho. Na Igreja Oriental encontram-se testemunhos ainda mais antigos, tendo o religioso Tiago de Sarug (+ 521) aplicado a Maria explicitamente o título de “Mãe de Misericórdia” (Sermo de transitu), o que é considerado por muitos como a primeira e absoluta atribuição.

O Palácio da Quinta do Inferno dispõe-se em três corpos distintos: a torre sobre o edifício (com três níveis, rés-de-chão, primeiro e segundo andares e a cave, o que constitui uma prefiguração simbólica das Três Pessoas da Trindade dispostas em Planos igualmente distintos, como seja: a torre para o mais alto, o Céu ou o Mundo do Pai; o edifício para a Terra santificada pela presença do Filho; a cave para o Inferno ou Infera, “lugar inferior ou interior” de onde e de si mesmo o Espírito Santo dá à luz a Criação Universal.

Finalmente, tem-se a Torre do Diabo como uma espécie de espada cravada nesta cunha ou coina ribeirinha do Concelho do Barreiro. A espada cravada na rocha ou no chão é simbolismo que pessoalmente já vivifiquei ou realizei algumas vezes, tendo levado alguns a vociferarem sobre o que desconhecem absolutamente, tanto no real como no simbólico, ficando-se pela impertinência beata e simplista como característica primária da ignorância cabal das profundezas do mundo iniciático.

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Esse é o símbolo tradicional do centro axial de um enclave iniciático (ou sistema geográfico) marcado pela espada cravada na rocha, prefiguração do símbolo astrológico da Terra (um círculo ou um monte coroado por uma cruz) e igualmente a chave da Sabedoria Iniciática, de quem foram custódios zelosos aqui em Coina e nas redondezas os primitivos cavaleiros templários, regulados pela Regra de Cavalaria prescrita por São Bernardo de Claraval (in Regula). O cavaleiro cristão demandava por essa forma dinâmica a iniciação espiritual, tomado de ânimo e coragem no manuseio destemido das armas sagradas, evocando sempre a protecção de Santa Maria e a força de São Miguel, como protótipos celestes do seu ideal terreno que era fazer a guerra santa, a cruzada (ou a crescentada), cujo sentido maior era dar combater a si mesmo, aperfeiçoar-se humana e espiritualmente debastando as suas imperfeições ou vicissitudes mortais, derrotando os seus demónios interiores, e com isso, não raro, além de guerreiro também era monge, unindo a espada à fé, a acção da virtude humana de bom cavaleiro ao dote da santidade demandada.

Cravada na rocha levantada ou no alto do monte, tem-se a espada como símbolo axial e polar identificado ao fiel da balança. Entre os citas, o eixo do mundo e a actividade celeste eram representados por uma espada fincada no cume de uma montanha. A ideia da espada cravada na terra poder produzir uma fonte, não deixa de estar relacionada com a actividade produtora do Céu, pela relação existente com o relâmpago anunciando a queda da chuva. Como a espada simboliza o fogo em forma de relâmpago, este é atraído pela água da terra, e por isto a têmpera da espada expressa sempre a união dos dois elementos fogo e água, ou por outras palavras, o perfeito equilíbrio do Espírito e da Alma na própria Matéria.

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A espada de fogo designa, segundo Fílon (in De Cherubim), o Logos e o Sol. Quando Deus através de São Miguel expulsou Adão e Eva do Paraíso Terreal, postou à entrada do Jardim do Éden os Querubins armados com o fogo da espada flamejante para proteger o caminho da Árvore da Vida (Génesis, 3:24). Ainda segundo Fílon, os dois Querubins representam o movimento do Universo, o deslocamento eterno do conjunto do céu, ou ainda os seus dois hemisférios. Numa outra interpretação do mesmo autor, os Querubins significam os dois atributos supremos de Deus: a Bondade e o Poder (representados posteriormente em Santa Maria e São Miguel). A espada refere-se ao Sol, cujo percurso faz a volta do Universo inteiro, marcado pelos 12 signos, no prazo de um ano terrestre. A espada relaciona-se também com a razão que reúne, a um só tempo, os dois atributos de Bondade e de Poder: pela razão Deus é generoso e soberano ao mesmo tempo (De Cherubim, 21-27).

Na tradição cristã, a espada é a arma nobre que pertence exclusivamente ao cavaleiro. Ela é mencionada muitas vezes nas canções de gesta. Rolando, Olivier, Turpin, Carlos Magno, Artur Pendragon, Ganelão e o emir Baligant, todos eles possuíam espadas individualizadas que tinham nomes, em guisa de “génios mágicos” encadeados às mesmas, como, por exemplo, Joyeuse (“Alegre”), DurandalExcalibur ou CaliburnaCorteBantraineMusaguine, etc. Esses nomes provam a individualização da espada, sempre associada à ideia de luminosidade, de claridade por a sua lâmina ser qualificada de cintilante.

Por essa relação com a luz e o relâmpago a lâmina da espada brilha: ela é, diziam os antigos cruzados, uma prefiguração da Cruz de Luz. Na Índia, a espada do sacrificador védico é o raio do deus Indra, relacionado ao Fogo Celeste a quem chamam Fohat. Em termos de Alquimia, a espada dos filósofos é o fogo do cadinho. Ainda na Índia védica, a espada apareceu associada aos deuses Assuras ou da “Mente elevada”, mas empunhada pelo Bodhisattva ou “Budha de Compaixão”, como símbolo do combate pela conquista da Sabedoria e da libertação dos desejos inferiores, pois a espada luminosa corta as trevas da ignorância e do pecado. Do mesmo modo, a espada do Deus Vishnu (equivalente ao Filho na Trindade cristã) é de fogo e expressa a Sabedoria pura e a Virtude absoluta. Quando está dentro da bainha esta representa a nescidade e a obscuridade, razão porque um não cavaleiro ou um profano jamais poderia retirar a espada da bainha, sob pena dos maiores castigos corporais e espirituais.

Finalmente, a espada é o símbolo da condição militar (kshatriya, em sânscrito) e da sua virtude, a bravura, bem como da sua função, o poderio. O poderio tem um duplo aspecto: o destruidor (embora essa destruição possa aplicar-se contra a injustiça, a maledicência e a ignorância, com isso tornando-se positiva) e o construtor, por estabelecer e manter a paz e a justiça. Todos esses adjectivos convêm literalmente à espada, quando é o emblema do rei e da nobreza. Quando é associada à balança, relaciona-se mais especialmente com a justiça representada pela dupla lâmina: a que premeia o justo e a que castiga o prevaricador.

Símbolo guerreiro, a espada é também o símbolo da guerra santa (e não das conquistas arianas, tal como pretendem alguns a respeito da iconografia hindu, a menos que se trate de conquistas espirituais). Antes de tudo, a guerra santa (jihad), a “guerra justa” de São Bernardo de Claraval, é uma guerra interior, e esta será igualmente a significação da espada trazida pelo Cristo (Mateus, 10:34). Sob o seu duplo aspecto destruidor e construtor, ela é o símbolo do Verbo, da Palavra. O khitab ou orador islâmico costuma segurar uma espada de madeira durante a sua predicação; o Apocalipse de São João (1:16) descreve uma espada de dois gumes saindo da boca do Verbo Vivo. Relacionada com a ideia de Verbo, de Sabedoria e Revelação, a espada chega a designar a palavra e a eloquência, pois assim como ela também a língua tem dois gumes.

Sendo a espada símbolo do Verbo, já a torre expressa aqui a de Babel, que foi onde a Humanidade começou a falar as diversas línguas numa babilónia onde ninguém se entendia, depois de Deus ter sido desafiado e castigado dessa forma as suas criaturas (Génesis, 11:1-9). Babel ou confusão é também a que provoca a visão imediata da Torre do Diabo no comum das gentes, sejam esclarecidas ou simples, para todo o efeito, desprevenidas e logo surpreendidas.

O conjunto arquitectónico do imóvel transporta-me para leituras teosóficas ou iniciáticas inteiramente diversas das comuns. Após hesitar muito em escrever este e os quatro parágrafos seguintes, acabei por fazê-lo. Pois bem, o palácio suportando a torre do “rei do lixo”, quer um quer outra repartem-se em três andares, ficando a torre para o Mundo Celeste (Mental, Astral e Etérico) e o palácio para o Mundo Terrestre (Agharta, Duat, Badagas), representando a cave do edifício o ponto de intercessão entre os dois Mundos, ou seja, o Plano Físico, pelo qual se sobe ou se desce. Por outra parte, o imóvel completo compõe-se de sete andares (incluindo a cave) ou divisões que juntas ao apodo inferno remetem para a tradição oculta da Torre de Babel, cuja história é muito diferente da descrição in littera bíblica e recua aos meados da 4.ª Raça-Mãe, a Atlante, anterior à actual 5.ª Raça-Mãe Ariana. O País de Mu, como era então conhecida a Atlântida, repartia-se em sete reinos, regiões ou cantões, cada qual com o seu governador próprio, tendo como dirigente máximo um Governo Central geral composto por uma tríade imperial ou khou habitando numa oitava cidade (Muakram ou Aptalântida), separada das demais por altíssimas muralhas. Nessa oitava cidade encontrava-se a representação humana da própria Divindade na Terra, nas pessoas de Mu-Ka, Mu-Ísis e Ra-Mu expressando, respectivamente, os 1.º, 2.º e 3.º Logos ou Aspectos (Hipóstases ou Prosapas) de Deus Único. A Bíblia relata que a Torre de Babel foi construída como uma tentativa de “escalar o céu” (as altíssimas muralhas), e que essa tentativa foi interrompida devido à confusão advinda (castigo kármico ou pena do pecado de ter ousado desafiar Deus Altíssimo) dos próprios construtores, que passaram a falar diferentes línguas (também sendo alusão velada à fundação de sete Colégios Iniciáticos, cada qual com tónica diferente dos outros, e assim mesmo aos sete Ramos raciais destinados à sementeira humana da Raça futura, cada qual dirigido por um desses Colégios, cujo quinto levava de nome Kurat-Avarat).

Na verdade, a passagem bíblica (Génesis, 11:1-9) refere-se ao ocorrido com a tentativa de destruição das altíssimas muralhas da oitava cidade atlante. De facto, no sentido sentido caótico Babel significa “confusão” (do hebraico Bavel), por os Nirmanakayas Negros influindo nos Rakshasas da mesma espécie, ou sejam, os magos negros agindo pelos feiticeiros seus discípulos, por sua vez inspirando o povo à cólera e à revolta, terem tentado derrubar as muralhas da referida cidade para a destruir e assassinar os membros do Governo Central. Como não o conseguissem, mataram os dois tulkus (espécies de sósias) dos Gémeos Espirituais Mu-Ka e Mu-Ísis, estes a quem o seu filho, o sacerdote Ra-Mu, deu cobertura defensiva na sua retirada.

A partir desse evento o País de Mu entrou em decadência, muito mais quando a Fraternidade Negra tentou e conseguiu exercer a sua terrível influência sobre o governante da 4.ª cidade atlante, fazendo deste um avatara ou messias tenebroso liderando o movimento destruidor que varreu do mapa da face da Terra tão portentosa civilização dos finais do Período Terciário e de quase todo o Quaternário. Nisto, vale bem o apodo sinistro Torre do Inferno, e também a transposição desse episódio funesto dos tempos atlantes para os tempos agitados ante e pós República em Portugal.

Mas no sentido iniciático, evolucional, a Torre de Babel como zigurate (torre-templo destinada ao culto astrolátrico, sobretudo o do Sol) expressava a própria Muakram representativa do Céu na Terra, e por isso Bab-El mais que tudo quer dizer Porta do Céu, tal qual o acadiano Bab-Ilu (donde o termo Babilónia), Portal de Deus. Esse termo acadiano passando ao sumério, ao caldaico, ao fenício e finalmente ao hebraico, aparece como Bab-El junto a Baal, este como SenhorDeus, e aquele com a sua MoradaBaal ou Adon (Adonai) era um Deus Fálico, isto é, Gerador da Vida na Forma, e por isso representava-se por uma torre elevada ou por um alto monte onde se plantava um santuário, ou então, posteriormente, tão-só uma cruz ou uma espada cravada no cimo do monte. “Quem subirá ao monte (o lugar elevado) do Senhor? Quem estará no lugar de seu Kadushu (Sol)?” (Salmos, 24:3). Baal vem a ser assim o Sol, e quando num certo sentido é devorado pelo ardente Moloch, o seu irmão sinistro que vive na cripta do Mundo, ou seja, o próprio Deus SaturnoBaal assume então o nominativo Baal-Tzephon, o Deus da Cripta, representando o Sol da Meia-Noite, o saturnino ou subterrâneo expressivo da própria ShamballahWalhalah ou Salém como Sol Central da Terra. Trata-se do mesmo Baal-Adonis dos Sôds ou Mistérios Judaicos pré-babilónicos, que se converteu, graças ao Massorah, no Adonai, o Jehovah posterior com vogais.

Baal-Adonis é também herança filológica atlante por referir-se a Push-Adonis ou Poseidonis, a Morada de Adonis, o 7.º Princípio Espiritual, e que designa a parte do continente atlante que submergiu 9.564 anos a. C. O nome dessa “ilha” sobrada do primeiro cataclismo que vitimou a Atlântida há cerca de 850.000 anos, foi transmitido por Platão nas suas obras Timeu (ou a Natureza) e Crítias (ou a Atlântida).

Sinceramente não acredito que Manuel Martins Gomes Júnior detivesse todos esses conhecimentos iniciáticos, (assim como a maioria dos esoteristas contemporâneos), mas talvez os possuíssem fragmentados alguns dos construtores deste seu imóvel, já que a simbologia da sua arquitectura conforma-se com o que a Tradição Primordial diz sobre o assunto, inclusive com o Rio Tejo fazendo a vez de “Mar da Atlântida” em cuja margem se levantou a célebre Torre de Babel, nesta de Coina servindo para o “rei do lixo” subir ao topo e ver as suas propriedades no Seixal que iam até Alcácer do Sal, diz a vox populi sempre com explicação simples e prática, mas não me parecendo verossímil por a torre nunca ter sido concluída.

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Mas sem dúvida que esta obra foi uma demonstração da grandeza e poder do proprietário, a quem não me atreverei a chamar, ao contrário de alguns, de “nababo ricaço”, nisso também podendo ter querido celebrar a memória do há muito desaparecido castelo de Coina, destruído durante a reconquista cristã da margem sul do Tejo aos árabes, acontecimento no qual a Ordem dos Templários e a Ordem de Santiago tiveram primazia ainda durante o reinado de D. Sancho I.

Como lugar extremo do concelho do Barreiro, a etimologia de Coina liga-se à sua posição estratégica. Com efeito, em documentos indo do século XII ao XIV existem registos da grafia cuinhacoinha e coina, provindas de cunha, “rochedo isolado cuja forma lembra uma cunha”. Coina é também a vassoura feita de hastes secas para limpar o trigo do casulo e do palhiço, sendo que o transitivo coinar significa “limpar o trigo com a coina”. Possivelmente será referência ao palhiço que cresce nos sapais junto às margens pouco profundas e lodosas desta parte do Tejo que comunica com a sua bacia, o Mar da Palha.

Vários filologistas dão origem latina ao nome desta localidade, afirmando derivar de “água boa” (igualmente não deixando de ser, queira-se ou não, memória ultramarina da Atlântida): EquabonaQuabonaQuounaCouna e Coina, sendo que o documento mais antigo que se refere a ela é o Roteiro Militar de Antonino Pio, do princípio do século II d. C., informando que próximo daqui viveu o general e estadista romano Quintus Sertorius (126 a. C. – 73 a. C.). Mário de Sá, no tomo VI das Grandes Vias da Lusitânia (O itinerário de Antonino Pio), Lisboa, Sociedade Astória Lda., 1967, descreve:

“(…) Exacta é a posição de Equabona em Coina-a-Velha (no vale de Coina e junto do “Castelo dos Mouros”) onde houve uma remota localidade romana. Coina (a Nova), no esteiro do Tejo, era o porto marítimo de Equabona que, desenvolvendo-se adentro da era portuguesa, veio a ganhar foros de vila. E foi das mais notáveis da Riba Tejo, debaixo da simples designação de Coina.

“Na época romana a via de Lisboa a Equabona era, tanto quanto possível, terrestre, e é na deste teor que se marcam as XVI milhas de extensão do cais de Cacilhas a Coina-a-Velha por Cova da Piedade, Torre da Marinha (extremidade do esteiro da Amora), Rio do Judeu, Foros do Perú, Quinta da Conceição. É curso para 13,26 quilómetros, na equivalência das XVI milhas do texto.”

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Ainda sobre Equabona ou Aquabona, o poeta e professor do Liceu de Évora, António Maria de Oliveira Parreira, num trabalho avulso feito em 13 de Novembro de 1882, escreveu o seguinte:

“(…) A situação de Equabona é completamente incerta, não obstante designar-se unanimemente como correspondente a Coina, valendo para isso uma remota semelhança das palavras e a circunstância de haver perto um lugar chamado Coina-a-Velha. Alguns escritores chamam-lhe Abona e num códice na Biblioteca de Paris, pertencente ao século X, encontra-se a denominação Aqua Bona. Pode ser que essa povoação romana estivesse situada nesta região da margem sul do Tejo, apesar de não se lhe poder determinar a situação precisa. O nome Aqua Bona só por ironia poderia convir à Coina moderna, local apaulado e sezonático, mas poderia pertencer a qualquer povoação que demorasse da falda dos montes de Azeitão e que desse o nome a todo esse trato de terreno até ao Tejo. Em Coina-a-Velha, lugar de que fala Hubner, numa propriedade denominada Casal do Bispo, no cimo de um monte existem as ruínas de um castelo que conserva ainda as quatro paredes da torre meridional, em perfeita conservação até à altura de mais de três metros, outra torre mais arruinada do lado norte, pedaços de muralha abatidos e uma cisterna, tudo envolto em altas moitas de carrasco. As paredes da cisterna são de uma argamassa composta de cal, areia e tijolo britado, o que lhes dá o aspecto de um só tijolo inteiriço: só desabou a parte da abóbada. Os lanços abatidos das muralhas parece terem sido demolidos expressamente à cunha, e não ser a sua ruína obra do tempo.”

Joaquim Pedro da Assunção Rasteiro é de opinião que o castelo de Coina-a-Velha é o mesmo de que fala D. Afonso Henriques num documento de 1184 (in castelo caune), fazendo doação dele a Bernardo Mendes, cónego da igreja de Santa Maria de Lisboa, aparecendo também no testamento do seu filho D. Sancho I (constructione murorum de couna). Alexandre Herculano, na sua História de Portugal, fala na forte linha defensiva dos castelos de Almada, Coina, Palmela e Alcácer do Sal, dizendo que em 1191 o conquistador árabe Iacub-al-Mansur tomou o castelo de Coina arrasando-o, mas em 1195 a região seria novamente reconquistada por D. Sancho I o qual, possivelmente, mandaria reconstruir a fortaleza, para todo o efeito, desaparecida há muitos séculos.

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Em resumo, pode dizer-se que há 800 anos existia no Casal do Bispo uma povoação que se chamava Equabona e tinha um castelo. O povo foi mudando o seu nome até ficar o de Coina. O terreno que fica entre a Vala Real e a Ribeira dos Canais, também veio a chamar-se Coina, e o de Azeitão ficaria como Coina-a-Velha e a outra como Coina-a-Nova, ou só Coina. A povoação de Casal do Bispo foi abandonada até que desapareceu, mas nasceu outra mais adiante com o mesmo nome. No século XVIII a povoação de Coina-a-Velha foi batizada com o nome de Aldeia de Nossa Senhora da Piedade, ou só Aldeia da Piedade. Isto porque Diogo da Silva de Carvalho, dono da Quinta das Donas, construiu na sua propriedade uma capela privada pondo-a sob o Orago de Nossa Senhora da Piedade, e depressa o nome da capela passou para o da aldeia.

Memória sumptuosa dos tempos idos resta a Quinta da Torre de Coina, em avançado estado de degradação. Se não forem tomadas medidas urgentes, este património singular do concelho do Barreiro e único no país tem morte anunciada, mandando para o lixo mais uma página da História de Portugal como coisa de somenos importância. Deixo o apelo às boas vontades das consciências da autoridade política e da proprietária do imóvel, para que se entendam e acudam rápido a salvar e recuperar a quinta em nome do interesse cultural comum, nacional. Por enquanto se mantiver de pé o Palácio de Coina, por certo a memória do “rei do lixo” permanecerá viva!

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