Destruens et Construens – Por Martha Queiroz

A Idade Contemporânea está terminada. Embrenhamo-nos, vertiginosamente, pela Era Atômica. O nome que merece lhe será dado pelos vindouros. E não é, propriamente, o que nos interessa. O que nos interessa e que, com qualquer denominação, será a pós-história dos atuais homens ou a pré-história doutra etapa evolutiva em que os seres viventes terão outras características. Preocupa-nos é o hiato entre essas duas etapas, 5ª e 6ª duma escala setenária. Não porque ignoremos o modo dessa passagem, nem lhe desconheçamos a justeza de atuação, de tal modo nos tem avisado palavras passadas, ou mortas, e a palavra viva, palpitante, que ecoa irredutivelmente aos ouvidos mais apurados.

Mas, precisamente, porque sabendo-a terrivelmente próxima, assistimos, estarrecidos, à inércia das criaturas – obstáculo intransponível, antecipando sua realização.

“Pura fantasia”, dirão os céticos – covardes mentais.

“Invencionices”, dirão os comodistas – covardes materiais.

“Ora, o mundo sempre foi assim”, dirão os aproveitadores – covardes morais.

Nós, os teósofos, continuaremos afirmando:

“Há mudanças radicais na história da Terra e na vida dos homens”.

Observemos o que se passa em torno de nós mesmos: uma estrutura apodrecida, prestes a desabar, onde se equilibram tremendas contradições e por onde transitam, incoerentemente, vislumbres de ideias novas. Impulsos jovens estourando velhas cascas. Um Destruens desmesuradamente ativo fazendo ruir, aqui e ali, as tradições, rompendo elos do raciocínio por demais sistematizado, afrontando preconceitos, diluindo perspectivas anteriores, preceituando novas tomadas de posição e urgentíssimas. Em tudo: do velho ao infante; do empírico ao científico; do previsto ao improvável; do estabelecido ao apenas formulado; do concreto ao abstrato: do rotineiro ao esdrúxulo. Criaturas de moldes tradicionais, encerradas comodamente em estreitas paredes, com que se julgam inatacáveis e isentas de perigo, esbarram, entretanto, numa inviabilidade que lhes desarticula a razão, deixando à solta torrentes emotivas a custa das quais despenham em vertiginosa queda para um dantesco impasse coletivo.

Do que chamam história dos homens – uma singela 5ª etapa de alguns bilhões de anos – sobressaem sempre três aspectos: a velhice, a maturidade e a juventude. Os antigos fazendo de sua alardeada experiência a ponte que consideram passagem obrigatória para os demais; os atuais enrodilhados nos seus afazeres de caráter emocional e econômico, orgulhosos de sua potencialidade em qualquer dos setores da vida material, que se consideram de seu limitado ponto de vista, como de maior importância no quadro geral. E os futuros, os jovens de todas as épocas, sementes brotadas intempestivamente através de uma lei genérica de reprodução do tipo animal. Isto tem sido sempre assim desde que de um Adão e Eva, não se sabe bem como, nasceram todos os demais seres, na opinião dos tradutores das escrituras. Devemos responsabilizar os tradutores – como “traditori “? Aqui fica a pergunta.

Em todas as épocas da atual 5ª raça, insistimos, tem havido, portanto, velhice, maturidade, juventude. Parece ser lei imposta – não importa as razões anteriores – aos seres humanos nesta etapa evolutiva.

No momento presente, as cousas se passam de modo um tanto diferente. Positivemos nosso ponto de vista: Por futuro ou juventude, entendemos os que, na hora atual da história humana estão abaixo de 27 anos. E aos demais consideramos a todos, indistintamente, como passado. Há, portanto, duas etapas no mundo de hoje: os homens de ontem e os de amanhã. Não é pela idade cronológica que se avalia da experiência que possa ser vantajosamente utilizada, nem pelo ímpeto atuante dos mais convictos de suas possibilidades. Que separa, então, todos esses por nós rotulados de – passado – da categoria dos jovens, cuja característica é uma incoercível e incompreendida rebeldia?

“Sempre houve esse choque entre as gerações”, dirão alguns, teimosamente.

Sim, havia diferença de atitudes, de formas, de reações, mas não de essência. E esta é a que agora existe – diferença fundamental, diferença de tônicas, diferença de categorias.

A Sociedade Teosófica Brasileira fornece a explicação: O que separa, o que desvincula o passado do futuro é um julgamento. As portas se fecharam para todos aqueles que neste ano de 1962 tenham mais de 27 anos. Os nascidos, portanto, em 1935 são velhos, com aspecto embora de novos. São irremediavelmente velhos, porque já foram julgados. A tesoura da lei separou definitivamente a humanidade: de um lado os julgados, do outro os julgadores, com cara de irresponsáveis pelo seu verdor. O grande balanço de um fim de ciclo – o da 5ª rodada, foi feito. Não importa que, perante os olhos físicos dos homens, tão escassamente perceptivos, não descesse um Deus antropomorfizado, sentado num pesado trono sobre frágeis nuvens: não lhes ensurdecessem os ouvidos, tão reduzidos quanto a visão, as trombetas dum Arcanjo anunciador: não se reunissem, enfim, todas as criaturas numa irrealizável assembleia e não nos pusessem, a nós, mortais, numa apregoada balança. Porque tudo isso teria que ser físico, para que os senhores homens acreditassem, mas infringindo, flagrantemente, as próprias leis científicas que conhecem.

“Não, isto não se deu, nós não vimos. Então o julgamento não pode ter sido feito”, dizem os incrédulos. E, pior que isto, muito pior, os que exploram a credulidade de muitos para dela usufruírem vantagens materiais, alguns que dizem falar em nome de Deus…

Não sabem aqueles, os primeiros, ver.

Não querem estes, os segundos, deixar ver.

Os primeiros agem por ignorância.

Os segundos são criminosamente responsáveis.

Um terror que se traduz por agressão ou sob a forma de pânico generalizado vai-se alargando em urna grande vaga – já atingindo a Terra em sua periferia vai se infiltrando teimosamente nas consciências, das mais sensíveis às mais embotadas, produzindo a efervescência que reina no mundo atual.

Porque da ciência nem tudo podemos esperar. As minas dos homens estouram, os aviões, os melhores, caem, os navios afundam, os edifícios desabam, os projéteis falham, os aparelhos enguiçam, as previsões falecem. Onde a idoneidade moral dessa ciência que pretende ser o método comprovador até das cousas do espírito, das cousas essenciais que regem os universos? Se falha na execução como não falhar no que presume? Como e por que dar-lhe integral e definitivo crédito de confiança?

Não – os problemas mais sérios da criatura humana, o porque das suas investigações, o bálsamo a suas angústias interiores não foi ainda solucionado quer pelo inegável avanço da técnica, quer pelo avanço das formas governamentais, quer pela disseminação das verdades eternas na prática dos vários ritos religiosos existentes até hoje. Nem poderiam ser resolvidos, pois o homem está apenas a caminho dum conhecimento integral que o livre em definitivo, do desejo, das dores, causadas pela ignorância do que deve desejar e pelo mau emprego de suas próprias possibilidades. Não adiantam as formas de governo por melhores que aparentem ser: maculadas, todas, dos erros do passado.

Não adiantam as religiões por mais verídicas e profundas que tenham sido suas raízes. Caducaram. Padecem do mesmo mal das formas governamentais. Cascas ocas, por mais brilhantes que pareçam. Inúteis, portanto, para quem vem sob nova diretriz e sente e sabe o que nem tolos veem ou possam saber.

Será, então, a falência da ordem e da razão?

– É o Destruens que prevalece no momento. Não o estamos preconizando. Tentamos, com toda a nossa energia, evitá-lo, mas não podemos ignorar que é chegada a hora da derrubada de tudo que for considerado falso, ilusório, aparente, por força de julgamento legal, que só aceita as credenciais do Espírito definindo as consciências.

Os meios de que dispomos para tomar conhecimento dessas cousas, já vos tem sido exaustivamente repetido para que o façamos agora. São os progressivos sistemas de divulgação condicionados às várias épocas e que transmitem aos homens em determinados ciclos os novos aspectos da Sabedoria única e Eterna.

A humanidade foi julgada e, portanto, a partir daquela hora agoniza irremediavelmente. Mas direis – e os que passaram nesse julgamento? Padecem também pela agonia dos que foram seus irmãos e que não lograram vitória. E como saber o resultado desse julgamento? Perguntareis, ainda. No interior daquele que cumpriu dignamente a lei traçada, repercute como Voz do Silêncio – o resultado memorável.

Cada ser julgado como aproveitável SABE ou DEVE SABER que o é. Há vozes, no mundo, auxiliando aos que ainda não a perceberam nitidamente. É um dos trabalhos da S.T.B., no Brasil, para o Mundo.

Voltamos agora à parte mais importante: à sementeira, feita de outra massa, vibrando a outra tônica, chocando-se, debatendo-se, lutando contra os desmandos do homem do passado que vê nessa atitude simplesmente uma revolta errônea e incorrigível. Incorrigível sim, por não poder voltar atrás o que está à frente – revolta sim, pela reação às velhas formas – errônea, nunca, porque é o impulso decisivo da hora – A Era de Maitréia.

Saibam os velhos ver com outros olhos, se possível lhes for, as atitudes da juventude rotulada de tarada, de louca, de cínica, simplesmente porque reage inconscientemente, ainda, a situações deterioradas, imprestáveis. A juventude de hoje não se identifica com o ciclo que morre e se agita, e se defende em um não conformismo que parece revolta e é apenas fruto de uma constatação. O Destruens pode vir da juventude não para especificamente atingir os seus maiores, mas pela lei de causalidade, para limpar os caminhos por onde pisará Aquele que lhe dá a Tônica, Aquele que e sua razão de existência. Aquele que já veio com outras roupagens e com outras vozes, Aquele que é Quem é, por não ser ninguém, mas ser o Todo.

E nesse afã de limpeza, usando do poder da intuição, que é seu apanágio, investe a juventude contra o que lhe parece supérfluo ou errado. Percebe o que e ilusório, pois sua visão é mais completa. Vê o que é puro na podridão, o que é justo na desorganização e o que é errado na aparência de correção. Porque o homem de amanhã, a juventude de hoje, desta “hora marcada com o destino”, na sábia expressão de Franklin Delano Roosevelt, não é um animal pensante, será um ser pensante que se apropriou duma nova parcela da verdade, de maneira mais rápida e mais incisiva que um 6o sentido lhe proporciona – o sentido da Intuição. Virá, então, a era do “Construens“. E na Terra, livre do joio nefasto, florescerá, finalmente, o trigo das searas divinais.

Por isso já se abalam homens de responsabilidade, educadores, mais afeitos às coisas e as gentes novas, mais sensíveis ao que será – a pregar que às crianças de hoje se deve ensinar facultando-lhes o uso da intuição para que assim aprendam mais depressa e melhor.

Para as sementes da era da intuição não vale o raciocínio rançoso, não valem as velhas normas de aprendizagem longa e fastidiosa para elas, inteiramente fora de seu raio de percepção.

E dizem muito bem os mestres que assim falam em defesa duma juventude incompreendida e injustiçada. Realmente sobre o professorado, ainda velho, repousam as graves responsabilidades de preparar as novas sementeiras por processos diferentes daqueles pelos quais aprenderam, agora inteiramente desajustados as necessidades.

Esta é a palavra de ordem dos Dirigentes da Sociedade Teosófica Brasileira – Henrique José de Souza e Helena Jefferson de Souza, a quem neste momento, mais uma vez, reverencio nesta 14ª Convenção. Palavra que se ergue no Brasil – Terra de Promissão – onde arde a chama dum mundo novo a ser mantida e vivificada pela nova geração que se situa precisamente a partir de 1935. Sim, renovemos o modo de educar os jovens. Convençamo-nos, nós, os antigos, da inutilidade de nossas experiências, a não ser para concordar em que devamos nos transformar de acordo com a nova palavra de ordem. Nós, os antigos, é que devemos ir à nova geração, para através dela se minorarem os inexoráveis efeitos do ciclo que morre.

Informemo-la e formemo-la, segundo suas próprias necessidades e inerentes qualidades. Adaptemo-nos à sua Tônica, que é a de Maitréia, o Cavaleiro das Idades em nova aparição nos cenários terrenos.

Entre a juventude e o passado há, portanto, um hiato – maior ou menor em decorrência de maior ou menor compreensão dos homens em relação a essa situação.

Entre o velho mundo e o novo mundo também existe essa mesma diferença. Desse novo mundo o Brasil é o herdeiro universal dum direito que compartilharia com os Estados Unidos se estes não tivessem, por abuso de suas forças ou possibilidades, infringido a Lei da Causalidade no indevido emprego da energia atômica, como agora mesmo a Rússia também o fez incidindo em idêntica penalidade – porque, para a Justiça da Lei de Carma, não há direita nem esquerda – há o reto caminho da Sabedoria, equilíbrio justo entre os extremos.

O Brasil faz jus a esta herança e praza aos céus que a saiba honrar e conservar nos seus devidos termos e resista a circunstâncias perigosas do momento que o estão seriamente ameaçando.

Entre os sistemas políticos também existem os hiatos – nenhuma das formas governamentais atuais é a condizente com o novo ciclo. Por isso umas às outras, das que existem, se destroem.

Nenhuma das religiões vigentes prevalece, de vez, que representam ecos deturpados da Palavra Divina de outras eras. Entretanto, duas mais chegadas a nós poderiam, se se completassem, se se acordassem, – subsistir numa simbiose perfeita.

O Budismo e o Cristianismo. Uma representa o fatalismo, outra o livre arbítrio, pecando ambas por um extremismo não convincente nem solucionados. Uma leva à anulação da iniciativa – a outra preconizando uma liberdade irrestrita, leva à desorientação. Ambas falseiam porque são elementos que se completariam na difícil fase do momento presente. Entretanto se opõem, se chocam, se digladiam.

Os que pregam o Cristianismo repudiam a reencarnação por dizerem-na ausente da Palavra de Cristo. Entretanto, 33 anos de vida, dos quais 20 em escola iniciática, que a Igreja não reconhece – fora do convívio dos homens comuns, portanto, não chegam para se julgar de tudo em que a missão do Filho de Deus se constituiria.

E o crime de sua crucificação que apresentam, por incrível que pareça, sob aspecto fatalista, para ser aceito, por dogma, nada mais foi que um erro dos homens, levando à cadeira elétrica daqueles tempos um justo que atrapalhava os interesses políticos e sociais do momento. E a esse Ser, que levava o selo do Espírito, coube, por sua morte, deixar uma doutrina de liberdade de ação, que a Ele não lhe competiu sequer usar. E essa morte, de que se deveriam culpar todos os homens, e ainda hoje explorada com foros de fatalismo. “Cristo veio para morrer pelos homens” … dizem os que se chamam de cristãos, mas que são os primeiros a infringir as palavras daquele Ser que dizem venerar.

Nós teósofos, mais budistas que os budistas, mais cristãos que os cristãos, afirmamos solenemente: não concordamos com as diretrizes divergentes dessas duas correntes religiosas. Isoladas e opostas elas levam ao caos, ajudam a destruição. A oportunidade passou dum entendimento entre ambas, em mãos do grande Pontífice Pio XII, a quem cabia esse momento histórico. Mas a ambição de alguns prevalecendo, encerrou-se (antes do necessário), neste mundo o trabalho daquele que foi Pedro, o fundador da Igreja Católica Apostólica Romana, o Pedro que negou a Cristo, para que sua Obra permanecesse.

Hoje, com João XXIII, talvez ainda vejamos algumas atitudes que comprovem essas nossas palavras vindas de Quem sabe o que diz por conhecer os mistérios da vida e da morte.

Esse conhecimento não é privilegio de uma única etapa no mundo. Ele é periódico, cíclico e se justifica. Entretanto, conhecer as diretrizes da Lei, enunciá-la aos outros também não significa obrigatoriedade de realização, sempre presente o justo equilíbrio entre determinismo e livre arbítrio: este alterando, aquele corrigindo, permanentemente. Usamos mais uma vez as palavras de Roso de Luna – “os astros inclinam, mas não obrigam”. “Los astros inclinam, pero no obligan”.

Buda, Cristo e agora Maitréia. Com esse nome é prevista a vinda à Terra de mais um impulsionador da eterna roda da vida.

Para isso, a juventude existe e aí está com suas incompreendidas atitudes contra o que está decrépito, deformado, carcomido. Daí a grande responsabilidade dos governantes, dos políticos, dos sacerdotes, dos mestres – todos igualmente sujeitos já a um julgamento cíclico. Porque a nós velhos, na acepção explícita dos maiores de 28 anos, cabe transmitir aos verdadeiros donos o que houver de bom, de aproveitável, do ciclo que morre. E transmiti-lo já, porque as cornetas do Arcanjo anunciador já soaram, embora nem todos as ouvissem. E mesmo Deus em seu Trono, pesado, sobre frágeis nuvens, já se expôs a olhos avisados, que realmente veem, e os homens já foram colocados nos imponderáveis pratos da balança cósmica em termos de universalidade. A sorte está lançada. Resta colher os náufragos da grande jornada cíclica, papel que cabe aos jovens devidamente compenetrados de sua atuação nos cenários do mundo. Porque ainda e sempre haverá os mal informados por culpa de quem não soube ser devidamente mestre ou governante e de que eu, como professora e política, me escuso dizendo: “Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”.

Honra, portanto, aos homens que preconizam modificação nos sistemas educacionais, como ainda agora acontece.

Honra aos que, perscrutando pelo raciocínio, chegaram ao conhecimento de que é pela Intuição que as crianças de hoje devem aprender.

Honra aos que lutam pela Paz e pela Justiça, acalentados pelas chamas de Amor Universal.

Porque a hora de responsabilidade está mais do que nunca nas mãos de todos os mestres.

A estes pois, em todas as partes do mundo, no Brasil e principalmente em São Lourenço as homenagens da Sociedade Teosófica Brasileira que nesta hora os investe do direito do bom uso da única palavra cabível – EDUCAÇÃO.

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