Janela para passarinho, o bordado em processos de individuação – Por Nádia Tobias Yanim

Nadia Tobias Yanim

Arte-terapeuta, pedagoga, bordadeira, fotógrafa
e pesquisadora de culturas ameríndias





O tempo é circular, assim como também a minha escrita precisou ser. No aqui e agora deste escrito final, fui buscar traduzir em palavras, sensações, awareness, figura-fundo, autorregulação e experiências fundantes e relevantes neste presente instante de abertura de “janela para passarinho”. Disse que visava reexaminar, transver as imagens. 

Retroalimentei-me, dancei com minhas imagens, relembrei danças, oficinas, cursos, encontros. Bordei linhas do tempo coloridas ou p&b. Fotografei.

Então, para poder “transver”, adentrei ao campo da pós em arteterapia que tem como foco as imagens de “clientes” construídas em diferentes suportes, formas; imagens fomentadoras de diálogos e reflexões.

A partir do conhecimento adquirido ao longo da vida, com minhas vivências, experimentações e estudos em arte e educação, compreendi e pude amalgamar criativamente, pensamentos e awareness nas imagens. “Sentipensando” minhas experiências, bem ajustado ao sentido que nos explicou Larrosa (2002, p.21):

A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo que se passa está organizado para que nada nos aconteça Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara.

Pratiquei as três linguagens artísticas retromencionadas, visto que são de minha maior afinidade e segurança quando executadas. O foco da escrita continua sendo a imagem que vem acompanhada da imaginação, da memória e da percepção, pois de acordo Laing (1986, p.30) “imaginação, memória e percepção são três modalidades de experiência.

São duas décadas coexistindo com essas três linguagens, gozando dos belos momentos, mas que ao mesmo tempo, por força dos meus sabotadores mentais, por vezes sentia-me incompleta, algumas vezes duvidosa, outras sabotei-me impedindo a minha caminhada, que buscava ampliação consciente e flexibilidade do Ego, revelando outros lados inconscientes da minha trajetória de Psique que busca a integração.

A partir daqui apresento passagens retroativas num movimento meio ouroboros, ou seja, degustar-me reflexivamente. O olho se estreita para olhar o “mundo janela de passarinho”. Movimento minha escrita como ouroboros, agora vou para os anos entre 2009-2011, nesta narrativa faz sentido citar estas passagens dentro do meu trajeto antológico.

Começa pelo ISE Vera Cruz, espaço de felizes contatos, amizades de almas, onde o conhecimento se expande para as raízes do brincar, do ser criança e da natureza. Nas trocas entre culturas nasceu o artigo Devaneios poéticos e a cultura de brincar de boi bumbá – finco os pés no meu rincão. Foi através desse artigo que fui catapultada para a Faculdade de Educação da FEUSP – dois mundos ecoando dentro de mim. Também foram anos difíceis de distanciamento, perdas, descobertas, alegrias, luxúria, brincadeiras, fotografias e danças; 2014 marcou meu reencontro com o bordado livre. O pulsar das imagens vindo d’alma. Bachelard (2008, p.05) esclarece bem minha escolha pela palavra alma neste contexto:

A palavra alma é uma palavra imortal. Em certos poemas ela é indelével. Uma palavra do alento. Por si só, a importância vocal de uma palavra deve pender a atenção de um fenomenólogo da poesia. A palavra alma pode ser dita poeticamente com tal convicção que envolve todo um poema. Portanto, o registro poético que corresponde à alma deve ficar aberto às nossas indagações fenomenológicas.

Em 2015 tornei-me uma das coordenadoras de Lab-Arte Fios & Tramas: bordado livre. Também foi nesse mesmo ano que autodeclarei-me indígena. Uma história linda que aconteceu por ocasião de uma visita ao meu rincão. Numa reunião, um jovem pajé da etnia cambeba – do grupo estabelecido nas proximidades de Manaus-AM, batizou-me pelo nome YANIM (boto) devido minha forte ligação com as águas, com a exuberância liquida – Amazônia.

A vida é mesmo um grande movimento dinâmico de tantas contradições e belezas – a vida não é plana. Por isso creio que somente a ideia da autopoiese (PESCE, 2011) dará conta de traduzir delicadeza a circularidade desses momentos de criar a si mesmo, momentos de cocriação.

De acordo com Maturana e Varela (apud FAGALI s/d):

O homem é responsável pela própria natureza e se cria em conexão com ela. A autopoiese traz esta concepção ética do homem e até da ciência, conectando natureza, linguagem e criação, e ressaltando a responsabilidade ética do homem e a dimensão do olhar do homem que sempre apresenta um lado cego possível de ser olhado e ampliado.

Por outro lado, Urrutigaray (2003, p.25) nos diz que “toda realidade é constituída de fatos”. Trago fatos da minha história, tanto pessoal quanto de outras histórias que me compõem como a um mosaico. São fenômenos, são imagens que demandaram maior entendimento, sutis percepções e acolhimentos que inicialmente não os tinha. Incompletude.

Sentia-me incompleta. De acordo com Ribeiro (1994, p.15) “o ser humano lida mal com o inacabado, com o incompleto”. Que provocativo! Esse lembrete abre espaço para uma busca interna existencial. Assim sendo, busquei outras formações. Então, participei do curso de extensão, no Sedes Sapientiae, onde encontrei a professora Cristina Y. Syono. Ela foi a primeira luz bruxuleante para a minha autoprodução.

O curso Retratos na Arteterapia tinha um viés arteterapêutico por meio da fotografia. Com nossos celulares, máquinas fotográficas, em duplas de preferência, saíamos para fotografar uma à outra; a partir disso, estabelecia-se um diálogo sobre cada processo.

Nesse mesmo período de 2015 recuperava-me da primeira cirurgia no meu corpo, vesícula, mal conseguia andar. Semanas antes da cirurgia e do curso havia renovado minha carteira de identidade com o “brasão” do Estado de São Paulo, que pulsava e destacava-se mais que tudo.

Incompletude. O “brasão” aumentou meu mal-estar com relação a tantas outras questões, que já povoavam meu “ser habitante” de São Paulo. Reverberou forte a pergunta: quem eu sou? 

Syono, fez-me ver quem de fato eu era, onde eu estava inserida, os fios que me ligavam e as conexões possíveis. Foi uma grande e emocionante conquista. Desde então, fiquei muito apaixonada pela arteterapia e mais ainda pela fotografia, meu nicho de trabalho e lazer.

Anos depois, em 2018, em uma outra tentativa de decidir se eu permaneceria ou não como psicopedagoga, visto que estava trabalhando em ateliê, na função de psicopedagoga, retornei ao Sedes para um curso rápido com a encantadora professora Izilda (Zizi) Rolim na psicopedagogia. O acolhimento dela foi o “disparador”, balancei entre permanecer na psicopedagogia ou seguir para a arteterapia. Lancei-me ao novo, à arteterapia.

Qual a relevância em narrar o acontecido? Narro para compartilhar a experiência acontecida entre mim e o outro, quem sabe, por intuição ancestral indígena. “O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas às experiências dos seus ouvintes” (BENJAMIN, 1994, p. 201). Pois não tenho intenção de gerar informações escritas de algo que já aconteceu. Aqui não há um ser, há um sendo.

Como diz Lorthiois (2021, webpage):

O autoconhecimento do educador e seu empenho para integrar esse conhecimento, material para a construção da sua personalidade, contribuem para transformar o contágio negativo em influência. Pois, explicava Jung, aquilo que o educador é, e não tanto aquilo que ele diz ou faz, é absorvido pelo aluno.

Narrar, creio eu, pode ser também revisitar o que foi esse longo processo de ajustamento criativo. De acordo com Ribeiro, (1994, p. 15) “descrever o processo é mais importante que interpretá-lo. A pessoa termina por encontrar seu próprio sentido através de seu processo vivido e escutado interiormente por ela”.

Deixar passar pelo meu corpo/alma para viver e sentir na pele os processos com as linguagens artísticas da tríade simbolizou uma grande abertura para um entendimento além do ato, da técnica, da estética e do fazer. Sentipensando. Abrir meu corpo, expandir gestos, aguçar sensações e brotar reflexões foram e são “adubos” para esta escrita acadêmica.

A formação em arteterapia apresentou-me outras teorias como suporte, antes de ser suporte. Os conteúdos abordados mesclam-se sabiamente com arte, e Ostrower, Ribeiro, Fagali, Saviani, Ciornai; acrescentei Manoel de Barros entre outros.

A arteterapia é ferramenta de cura e de autopercepção, auxilia no contato com situações em que nos deparamos com dificuldades. A prática envolve artes com materiais diversos, com a escuta e com o acolhimento. Nesse nicho envolvente e artístico aflora o ser criativo, e junto emerge o ser autocrítico que é “trabalhado”, tentando harmonizá-lo.

A arte faz acessar sentimentos tensos e densos, tanto do cliente quanto do terapeuta. É ela também que auxilia na projeção do por vir e tantas outras descobertas preciosas.

Mariotti (2000) faz reaparecer o pensamento autopoiético com a força do ajustamento, que vai produzindo mudanças nas estruturas sistêmicas e práticas da vida cotidiana. Foi exatamente o que aconteceu com todos os anos de observação e estudo do insaciabilidade do olhar – original. Quando me percebi como arteterapeuta em processo, muitas coisas foram se ajustando mutuamente.

Maturana afirma que os sistemas e o meio em que eles vivem se modificam de forma constante e congruente. A esse processo interativo ele dá o nome e acoplamento estrutural. Na sua comparação, o pé está sempre se ajustando ao sapato e vice-versa. É uma boa maneira de dizer que o meio produz mudanças na estrutura dos sistemas, que por sua vez agem sobre ele, alterando-o. (MARIOTTI, 2000, p. 73).

Das duas últimas décadas, seis anos passei labutando nessa construção de conhecimento específico na arteterapia. Ora sendo o “pé”, ora sendo o “sapato”. Foram quatro anos de prática de ateliê e dois anos, quase três por conta da pandemia, cursando arteterapia; tempo suficiente para ganhar consciência, afirmação e muita curiosidade. O “novo” trouxe ampliação do mundo, integrando as partes para perceber a totalidade literalmente.

Integração e totalidade são duas palavras que flertam com a gestalt também. A gestalt “é uma terapia humanística/existencial que acredita que as pessoas nascem com os recursos e a capacidade de estar em um contato recompensador com os outros seres humanos, e levar uma vida criativa e satisfatória” (PHIL e SILLS, 2016, p.20).





O bordado livre

Comecei bordando na intimidade da casa familiar onde dei os meus primeiros pontos. Fui criança num tempo pitoresco – das “escolas de sabenças”. Ainda cunhatã fui estudar numa dessas escolas para aprender manualidades. A minha “escola de sabenças”, conhecida como Abrigo Redentor, era dirigida por freiras católicas da paróquia de Santa Luzia – AM. Nesse lugar fui apresentada a quase todas as atividades artístico-manuais que se possa imaginar.

O meu comportamento livre e lúdico rendeu-me aprendizados inesquecíveis, puxões de orelhas e castigos. Não tenho nenhuma Gestalt aberta com relação a esse assunto. Sempre achei bem interessante; nutro as boas recordações. Neste mesmo espaço de “sabenças” dei continuidade ao aprendizado do bordado.

Fui buscar conhecimentos sobre a arte de bordar na história da arte e da humanidade. Comecei pela Europa, evocando as imagens das primeiras mulheres que lá nos primórdios do mundo bordavam. No tempo paleolítico, ossos foram usados para confeccionar agulhas; os fios eram feitos de fibras vegetais ou tripa do próprio animal caçado para alimentar toda a tribo. 

Tudo era bem aproveitado. As agulhas que datam de “15.000 anos atrás […] padrões de pontos decorativos com aproximadamente 11000 anos” (KENDRICK, 2013, p.06).

No Brasil, devemos ter várias outras histórias, mas vou me deter à força feminina da primeira mulher que aprendeu a bordar de acordo com a cosmogonia Hui Kui Siriane. Ela encontrou as primeiras bolas de algodão nas cores branco, vermelho e preto, seu gesto deu origem ao artesanato, a tecelagem do povo do Rio Jordão, no Acre.

Eu brinco dizendo que o bordado é um contador de histórias, como vemos na tapeçaria Bayeux, uma incrível peça que remonta à batalha Hastings. A origem dessa peça é cercada por histórias e lendas:

A famosa Tapeçaria Bayeux é um exemplo: a peça de bordado em crewel do século XI celebra a vitória de Guilherme, o Conquistador, em Hastings. Esses e outros importantes artefatos históricos mostram a rica herança do bordado. Não apenas utilizado para exaltar reis, o bordado foi largamente utilizado dentro de igrejas e mosteiros. O pomposo trabalho em seda e linhas de metal da Inglaterra medieval dos séculos XIII e XIV, conhecidos como Opus Anglicanum, estabeleceu o padrão decorativo de bordado eclesiástico, copiado desde então. (KENDRICK, 2013, p. 06).

A bíblia traz passagens que exaltam a presença do bordado como elemento de ostentação social e econômica. Interessante é a composição escrita das passagens, o trabalho artesanal narrado ganha poesia. As narrativas bíblicas preciosas estão no livro Êxodo 28:39; 38:18; 39:29; livro dos salmos 45:14; Ezequiel 16:10. “Para a entrada da tenda foi feito o véu de púrpura, violeta e escarlate, de carmesim e linho retorcido, artisticamente bordado” (BÍBLIA, 2006, 36:37, p. 139).

Outra história é a do Lenço dos Namorados (Portugal séc. XVII e XVIII). Hoje em dia esse material é peça documental de um tempo em que o letramento feminino era restrito e a função da mulher era procriar, cuidar, zelar.

Creio que as histórias exercem um fascínio em quem busca aprender a arte do bordado à mão livre. Nos tempos atuais alguns jovens de todos os gêneros, idades estão buscando esta manualidade como atividade terapêutica, hobby e como fonte de renda. A “modernidade” agregou estilo e valor comercial ao bordado, abrindo as portas de galerias e exposições. Digo que o bordado da vovozinha só ficou com o nome carinhoso em homenagem às vovós que bordaram e bordam. Sigamos.

A minha história pessoal com o bordado recomeçou em 2014 no pós Lab-Arte de Narração FEUSP. O bordado exigiu de mim reflexões e escritas, publiquei artigos e participei de seminários nas universidades UNICAMP e UFMT/Rondonopólis. O bordado me deu “linha”, voei dançando como facilitadora de oficinas com danças e bordados por tantas outras universidades como UFMT/Rondonopólis, SBS/GDF, AM/SUSAM.

Em 2019, ano “divisor de águas”, comecei a pós em arteterapia, último ano de encontros presenciais, no meu caso, usando das três artes relatadas aqui nesta minha escrita. A derradeira fotografia foi de um personal trainer, a última dança com grande público foi mosaico, e o último grupo de bordado foi com os estudantes do lab-arte.

Foi também a partir de 2019 que passei a “transver”, ou seja, minha comunhão com os pensamentos e os conceitos adquiridos neste ano inicial da pós em arteterapia ajudaram-me a sentir como era ser uma “terapeuta elefante”, tudo em mim se ampliava para além da audição.

A proposta para este derradeiro grupo presencial foi o bordado em papel, com auxílio de materiais utilizados em atendimento arteterapêutico como aquarela, pincéis, lápis coloridos, canetinhas, agulhas, tesouras e linhas.

Foto: Nádia Tobias – Unravel – Lab





Percebi as formas, as linhas, a intencionalidade dos gestos, as escolhas dos materiais, das cores, a organização tanto na coordenação motora quanto no aspecto cognitivo; ao falar, observar o corpo, a voz, o olhar, enfim, sutis percepções. A proposta era bordar sobre algo. Trago alguns relatos desse vivido.

Em setembro de 2020 fomos chamados para uma reunião on-line com o coordenador do Lab_Arte FEUSP. Naquela ocasião ele nos contou que os estudantes estavam vivendo situações bem difíceis de medo, angústia, depressão e estresse. Solicitou ajuda para que alguns coordenadores “ativassem” seus Lab’s. Aceitei. Fiz uma proposta de usar o espaço do Lab-arte fios & tramas como apoio arteterapêutico para cumprimento das minhas 100 horas de estágio. A proposta foi aceita; limitei o número de participantes a 6, no máximo. O Fios & tramas passou a ser Diálogos afetivos arteterapêuticos com a supervisão generosa da professora Iraci Saviani.

Em 2021, após nova reunião, o Lab-arte fios & tramas: bordado ganhou sua primeira versão on-line, ainda em plena pandemia. No primeiro semestre, mais de 20 jovens se inscreveram; no segundo, 25 jovens se inscreveram. Uma experiência absolutamente nova, inédita e desafiante. Minha cabeça deu uma expandida, pois, como ministrante das aulas, fui além dos fios e das tramas, passei a dançar com fotografias, filmagens, cenas criativamente montadas sem perder a poesia.

Foram dois semestres intensos de muita atenção, dedicação e acolhimento. Muito aprendizado e trocas. Paralelamente, criei e ministrei meu primeiro curso de bordado on-line particular durante os dois semestres de 2021. O bordado com viés terapêutico.

Seguem alguns relatos dos estudantes do Lab-arte fios & tramas que serviram de objeto de estudo desde 2019, último ano presencial e de 2021 o primeiro Lab-arte no formato on-line.

Relato 1 – Vit. Em 2019 “começamos aprendendo o bordado no papel, um trabalho rude, porém, não menos bonito. […] Do início e final dos encontros optamos por praticar a dança circular. Tantos os momentos em que estávamos compenetradas em nossa costura e conversando ou apenas ouvindo as narrativas das colegas, quanto os encerramentos com a dança circular, foram extremamente importantes pra mim. Era um ambiente seguro, leve, reflexivo e divertido. A atividade de encerramento foi extremamente significativa para mim, nela desenhamos um autorretrato, de olhos fechados, e depois colorimos e bordamos. Fiquei muito feliz com o resultado, me sentindo contemplada com tal fechamento para um projeto que busquei por estar desconectada de mim e da minha liberdade de expressão”.

Relato 2 – Vit. Em 2021 “Eu senti muita falta do calor humano que experienciamos em uma roda de bordado, e na dança circular, mas a calma, a paciência, bom humor, sensibilidade e compreensão com as quais os encontros foram conduzidos, supriram grande parte dessa falta. Além disso, tive uma experiência completamente diferente trabalhando com os tecidos e bastidores. […] estou extremamente satisfeita com a participação no projeto e as novas vivências que ele me trouxe”.

Relato Grazi 2021. “Quando percebi, o bordado tinha se tornado uma forma de elaborar meus sentimentos também. Quando sentia raiva, alegria, dúvida, eu bordava. Experimentei formas que dialogassem com isso também em meus dois bordados favoritos foram formas que vieram do coração. O bordado é arte, é terapia e também alegria. Minha amiga apresentou as portas e a Nádia me permitiu descobrir também um pouco de mim mesma. Que todo mundo possa quebrar os paradigmas com isso e ser feliz se desafiando como eu tô fazendo”.

Sinto reverberar dentro de mim as falas dos participantes nos fechamentos dos nossos encontros. A distância se atenua, dada a continuidade dos encontros. Nos respeitamos, nos ouvimos, nos acolhemos, isso facilita estarmos juntas nesse formato virtual. Principalmente porque as aulas com o bordado não exigem uma rigidez e nem se exalta a perfeição e a cobrança por resultados. O tempo de cada pessoa é acolhido e respeitado, me esforço para atender os estudantes.

Pela janela virtual, meu esforço para “transver” vem através da fala, da imagem que foi escolhida para bordar, uma escolha pessoal de cada participante. Fixo meu olhar na pressão dos pontos nas tramas do tecido, amplio meus sentidos para ouvir profundamente a voz que chega até meus ouvidos, pois a imagem da câmera do computador, às vezes, congela a pessoa.

Neste formato de encontro, a narrativa ganha força engendrando forma, integração ampliação ao meu processo de individuação. É nítida a potência da narração, pensando nela como um recurso natural e espontâneo. A história individual de cada um é o novo sendo revelado com os conhecimentos da arteterapia; são histórias de matrizes afetivas.

Como disse Jung (2015, p.14): “Podemos ter qualquer tipo de vivência; mas, se passarmos por ela sozinhos, então é como se não tivéssemos de fato nos dado conta. É preciso que a dividamos com alguém, assim teremos a possibilidade de tomar consciência de forma plena”.

Foto: Nádia Tobias – esperança




Mulheres-árvores

Com a “janela para passarinhos” aberta, sigo captando imagens das irmãs mulheres-árvores que ressaltam aos meus olhos desde que cheguei em “Avalon”. Neste “não lugar” todas as criaturas da natureza ganham um nome, patos, gatos, aves…tudo. Desde muito menina, sempre busquei “transver” os troncos das árvores, nessa brincadeira via árvores bailarinas, grávidas e muito me agradou saber da existência do livro Contos do cântaro, da escritora chilena Ximena Nohemi Ávila Hernandez, em que ela conta como surgiram as mulheres, mulheres/árvores. Há um trecho que diz: “um dia, a avó, saudosa, fez brotar uma pequena árvore no ventre de cada mulher-árvore – nossa parte invisível de cada útero”. Desde então selou-se a nossa conexão árvore+mulher+terra. Epifania!

Foto: Nádia Tobias – Mulheres-árvores

Esse conto agrada-me profundamente; creio que seja por isso que eu as vejo em todos os lugares. Em “Avalon” as vejo à beira dos lagos, nos vales e nas montanhas quase sempre perto das pedras ancestrais. Não sei se eu as vejo ou se elas me veem – sinto-me una como elas.

Retorno ao meu quadro bordado. No fluxo de todos esses acontecimentos segui bordando o quadro, agora, são várias passagens do tempo. Mulheres e suas cores e seus simbolismos.

Foto: Nádia Tobias – Bordado livre – Axé coco





A mulher de roxo declara resistência aos abusos, ao desgoverno, ao feminicídio. Destaca a presença feminina para a cultura popular tão machista. As flores simbolizam a “força feminina, essa força delicada, mãe que nos ensina” (Dan Sonora), e as cem mulheres que compõem o Bloco Axé Coco – manas que me ensinaram a ser.

Resumidamente um pouco sobre o coco de toré que é praticado pelos indígenas Potiguar da Bahia da tradição ancestral, no Estado da Paraíba. Há embolada entre as duas raças de indígenas e negros resultou em uma das mais belas batidas e musicalidade da cultura popular brasileira: o coco, o carimbó, o lundu e tantos outros ritmos.

A misteriosa mulher da lua cheia, a face minha, da mulher selvagem, tem parte do corpo coberto por uma “canga” verde. Mistério que me remete ao lendário amazônico, meu rincão. Eu, mulher lua, ciclicidade humana, interna e/ou externa, revela simbolicamente outra face do meu processo de individuação que possibilita ampliar meu autoconhecimento. Continuo a delinear as voltas cíclicas de uma mandala que abre para se completar.

Foto: Nádia Tobias – Bordado livre – Lua cheia





A mulher Psique (em busca de si mesma – lembrando o conto mitológico), que me reconheço ser, neste momento, incansavelmente em busca de mim mesma, traz além da sensualidade a sábia xamã-feiticeira-bruxa e busca se comunicar com os seres encantados, do tempo, do visível e do invisível. É também a guardiã das medicinas, benzedeira, dos chás, dos banhos de assento, do escalda pés, dentre outras. A curandeira de si.

Foto: Nádia Tobias – Bordado livre – Sacerdotisa Vó





Sentada com o rosto parcialmente à mostra, vemos a sacerdotisa vó, quase uma gueixa a esperar seus amantes. Ela se comunica com a mulher pedagoga, psicopedagoga, lúdica, bordadeira, fotógrafa, contadora de histórias e dançarina; aquela que se transverte para transpassar experiências. Ela traz os “esqueletos” das suas histórias não paridas numa versão mais amistosa, pois já adentrou aos infernos, já comeu as romãs. Sim, tudo isso a compõe. E vestida com seu manto vermelho, segue no ritmo da Ciranda Maria.





A dançarina no giro amarelo dourado do seu vestido arma seu véu/xale vermelho no ar, ela roda para levantar poeira do chão, sacudindo tudo que não lhe pertence mais.

Passamos muito tempo buscando ou tentando dar sentido para fatos da vida, por vezes, esquecemos de apenas ser. Hoje, entendo que foi o sacode das saias, literalmente, o meu ritual de aterramento, de fixar o chão sob meus pés. Flores gigantes lembram flores ancestrais. A Nanã dança, a Yaradoura escreve, elas me habitam. No ritmo dançante aproximo-me de Eliana, Rosa e Osvaldinho – brincantes cirandeiros.

Foto: Nádia Tobias – Bordado livre – Giro AMARelo





Mas o quadro estava incompleto, voltamos à incompletude do início da escrita. Na realidade, falta enraizamento. Onde estão as irmãs-mulheres-árvores? Neste quadro bordado desenhei as duas árvores das primeiras visões. Gostei da sensação de tê-las em imagens bordadas. Elas deram um enraizamento às imagens. Para finalizar, não poderia deixar de fora os elementares, água, fogo, terra e ar do mestre Bachelard, basta “transver”. Bordei duas representações dos elementos em formato de corpo feminino, minha anima bordadeira.

Foto: Nádia Tobias – Quadro enRAIZamento




Referências

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura história da cultura. São Paulo: Brasiliense 1994.

FAGALI, E. Quadros. Jung, Arquétipos e o inconsciente coletivo In: monografia 2015, p. 55

KENDRICK, Helena, W. Enciclopédia do bordado: o guia de bordado completo. São Paulo: A&C, 2013.

HERNADEZ, Ximena Noemí Ávila. Contos do Cântaro. Chile: Cântaro Sagrado CL, 2021.

JUNG, C. Gustav. Sobre sentimentos e a sombra: sessões de perguntas de Winterthurer. Petrópolis: Rio de Janeiro, vozes, 2015.

KENDRICK, Helena, W. Enciclopédia do bordado: o guia de bordado completo. São Paulo: A&C, 2013.

LAING. R.D. O eu e os outros: o relacionamento interpessoal. Petrópolis, Vozes, Lisboa, Centro do livro brasileiro, 1986. 176p.

LARROSA, J. Bondia. Nota sobre a experiência e o saber de experiência, Revista Brasileira de educação do Departamento de Linguística da Universidade Estatual de Campinas-SP, nº 19 p.20 – 119, 2002.

LORTHIOIS, Céline. Qual a utilidade de psicologia junguiana em educação? Disponível em:

https://www.editoraappris.com.br/noticias/ver/287-qual-a-utilidade-da-psicologia-junguiana-em-educao?fbclid=IwAR30EbVT1Ca5xHj91zjdtzow4smfhelIiA2sXT9Fh8BHhF3RVYgY9yMr4Ac Acesso em: 05 dez. 2021.

MARIOTTI, Humberto. As paixões do Ego: Complexidade, política e solidariedade. São Paulo : Palas Atenas, 2000,

PESCE. Lucila. Teoria da autopoiese – Maturana e Varela. Disponível em: http://www.slideshare.net/lucilapesce/teoria-da-autopoiese-maturana-e-varela Acesso em: 12 out. 2011.

PHIL, Joyce e SILLS, Charlotte. Técnicas em Gestalt: aconselhamento e psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2016.

RIBEIRO, Jorge P. Gestalt – terapia: o processo grupal: uma abordagem fenomenológica da teoria do campo e holística. São Paulo: Summus, 1994.

URRUTIGARAY. Maria. C. Arteterapia: a transformação pessoal pelas imagens. Rio de Janeiro: WAK, 2003

Um comentário em “Janela para passarinho, o bordado em processos de individuação – Por Nádia Tobias Yanim

  1. Lindo relato de seu percurso 🌟 Formar, formando-se… narrar, narrando-se… bordar, bordando-se… nessa nossa eterna descoberta de nossas inúmeras potencialidades como ser humano… muito bonito ver esse entrecruzar de tantas linguagens artísticas resultando nessa composição tão singular que és tu… que somos cada um nós… existências plurais, que se dão no coletivo, que se enlaçam e entrelaçam… mas que ao mesmo tempo são únicas e preciosas cada uma a sua maneira. Gratidão pela partilha 🌟

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