Os Contos de Fadas e a Alquimia – Por João Paulo Miranda

Na obra “Coraline”, o escritor inglês Neil Gaiman diz que Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados.”

Nessa perspectiva proposta por Gaiman, os contos de fadas seriam mais do que meros relatos fantasiosos, frutos da fértil imaginação popular? Os contos de fadas teriam algo mais a nos dizer?

Estou convencido de que sim, os contos de fadas nos falam muito mais do que imaginamos.

De fato trarei, a seguir, algumas das razões que me convenceram a acreditar que os contos de fadas constituem um manancial formidável da própria sabedoria hermética. 

Pois bem. É certo que os contos de fadas têm origem nas tradições orais folclóricas de diversos povos, sendo impossível precisar exatamente quando teriam surgido. 

Eles têm relação próxima com os mitos, as fábulas e as lendas. Dentro desse contexto, fazem parte do universo dos “arquétipos”, do “inconsciente coletivo”, segundo o conceito criado pelo grande estudioso da psique humana, o suíço Carl Gustav Jung

Os contos de fadas falam das realidades internas, das nossas almas, das verdades inerentes ao “insconsciente”, do “inconsciente” que, na verdade, “nada tem inconsciente”, pois na verdade é a fonte de toda “Consciência”. 

Isto pode parecer paradoxal, mas de fato não é, porque o que se concebe como “inconsciente”, é-o apenas com relação à perspectiva da realidade física e exterior em que projetamos os nossos sentidos. 

Para esta, “consciente” é apenas o que pode ser visto, o que é palpável, enquanto o “inconsciente” é o invisível, o “oculto”. 

Assim, sob a perspectiva integral dos seres humanos, constituídos de 7 corpos (7 Estados de Consciência), sendo 4 manifestados (quaternário inferior, matéria, a “pedra bruta”) e 3 latentes (a Trindade Superior, Espírito, a “Pedra Filosofal”), o “Inconsciente” é a fonte de toda a “Consciência”. 

Neste esquema setenário da fisiologia oculta do ser humano, o “Inconsciente” está, portanto, na “Trindade Superior”, no “Espírito”, ou seja, nos 3 Estados de Consciência Superiores ainda latentes.

Contos de fada são mais do que verdades porque falam, de forma alegórica, das “verdades” concernentes às nossas existências enquanto seres humanos em evolução, dotados de um corpo e de uma alma (que formam o quaternário inferior) e de um Espírito (a Trindade Superior). 

E nesse contexto, insere-se a própria alegoria das figuras dos “dragões”, mencionado por Gaiman em “Coraline”.

Seres fantásticos como os dragões são personagens essenciais dentro do universo dos contos de fadas, em que se retratam também gigantes, ogros, ciclopes, sátiros, magos, feiticeiras, elementais da natureza, como os duendes, gnomos, salamandras, sereias, ondinas, silfos, além das próprias “fadas”. 

De qualquer modo, não obstante os papeis desempenhados pelos personagens dos contos de fadas, sejam eles seres fantásticos como os dragões, animais ou seres humanos comuns, isto se mostra menos importante do que o papel simbólico que exercem. 

Tal atribuição simbólica é da própria essência dos contos de fadas. E essa essência não é outra senão a própria natureza humana. 

Os contos de fadas conversam com as nossas almas porque é justamente no âmbito da “alma” que eles nos tocam. 

É a alma que identifica, através de processos do “inconsciente”, que é a fonte de toda a linguagem simbólica, as mensagens que os contos de fada querem transmitir. 

Segundo o ilustre teósofo Rudolf Steiner, os contos de fadas se originam dos tempos em que as almas de nós, seres humanos, eram mais integradas aos mundos mais sutis, mais próximas da Espiritualidade, que é o próprio mundo da pura Consciência.

O fato de os seres humanos antigos viverem mais integrados à natureza, propiciou uma maior integração e contato com as forças sutis que a animam, através dos seres elementais ligados à terra (gnomos), à água (ondinas, sereias), ao fogo (salamandras), e ao ar (silfos, fadas, duendes etc.). 

Essa maior proximidade com o meio ambiente também propiciou, decerto, o processo de compreensão e controle das forças da natureza pelo homem.  

O ser humano é vulnerável à força bruta da natureza. A sua debilidade frente às forças incontroláveis da natureza e as ameaças de destruição que elas representam, tomam, nos contos de fadas, as formas gigantes, dragões, bruxas, feiticeiros etc., que invariavelmente desafiam a figura do “herói” da história. 

Como já mencionei, os contos de fadas tratam da jornada da evolução humana, e a evolução humana se processa no âmbito psíquico (da alma). 

A Alquimia hermética ensina esse processo de evolução que se processa na alma humana, no decorrer dos ciclos de nascimentos e mortes dentro da Roda de Samsara.

Na Alquimia, ciência hermética e simbólica por excelência, a transmutação do chumbo em ouro, que equivale à transmutação da pedra bruta na Pedra Filosofal, simboliza exatamente a jornada evolutiva da alma humana, embrutecida, inconsciente, adormecida (chumbo, pedra bruta) rumo ao seu aprimoramento, lapidação, despertar, iluminação, Consciência (Ouro, Pedra Filosofal).

Os contos de fada clássicos, como “Branca de Neve e os 7 Anões”, a “Bela Adormecida”, “Pinóquio”, dentre outros, por exemplo, são riquíssimos em simbolismos alquímicos. 

E não apenas falam de Alquimia, mas tratam de temas correlatos, sempre relacionados à Iniciação e ao despertar da Espiritualidade, da Consciência.

Os contos de fadas abordam quase sempre aspectos da Teurgia, a Magia Divina, o Caminho da “Mão Direita” e do Amor Universal, muitas vezes simbolizado nas figuras das próprias “fadas”.

Como se evolui dentro do contexto de contraste, como nos ensina a própria Lei Hermética da Polaridade, os contos de fadas também falam, em contrapartida, sobre Involução, Queda, Inconsciência, Materialismo, Paixões, Invejas, Magia Negra (Caminho da “Mão Esquerda”), mediante personagens como, por exemplo, dragões e feiticeiras.  

Nesse sentido, trago como exemplo o clássico “Branca de Neve e os Sete Anões”, fazendo uma breve análise dos símbolos herméticos nele presentes.

Na “Branca de Neve” está presente símbolo arquetipal da escala evolutiva, já que o cabalístico “7” é o número que rege a Evolução, representado pelos “anões”.  

A Branca de Neve é “oitava – 8ª”, como representação da própria “Mãe Divina”, que se projeta na matéria como “Mater-Rheia”, ou Mãe-Terra, a força do Amor Universal que tudo conecta, alimenta, mantém e preserva.

Os “7 Anões”, que na verdade são “Gnomos”, as forças elementais da terra e do Reino Mineral, como bem assinalou o Prof. Henrique José de Souza em artigo publicado na Revista Dharâna, simbolizam claramente a escala “setenária” processo evolucional em todas as suas correlações. 

Em determinado ponto crucial da história, Branca de Neve “morre” ao ingerir uma maçã enfeitiçada oferecida por uma “bruxa” (magia negra).

A figura da feiticeira equivale à do dragão, isto é, a força adversária que desafia neste caso a nossa “heroína”, aprisionando sua alma nas trevas da inconsciência.   

Ora, considerando que a “maçã” simboliza os desejos e as ilusões que o permeiam, ingerir a maçã significa manter a alma cativa, adormecida nas “mayas” (ilusões) passageiras e nas cegueiras da inconsciência. A alma lunar, pedra bruta, esfinge. É, de fato, como se estivesse morta.  

O Príncipe, que desperta a Branca de Neve com o beijo, representa o Espírito, a Luz, a Pura Consciência, a Imortalidade.  

O despertar da Branca de Neve implica a iluminação da alma pelo Espírito, o Sol (a pura Consciência), assim como a sua integração a Ele. É a Alma purificada, iluminada, imortalizada, a Pedra Filosofal.

É a esfinge decifrada. O “dragão” derrotado.      

As fases alquímicas estão simbolizadas na face da Branca de Neve; o nigredo (a morte), por seus cabelos negros como a noite, o albedo (a purificação), por sua pele branca como a neve, e o rubedo (o despertar, a ressurreição), nos seus lábios vermelhos como o sangue.

Existe ainda a quarta fase, “citrinitas”, de cor amarela, que representa a Imortalidade, a Pedra Filosofal, o Ouro (o Azoth dos Alquimistas).  

Na “Branca de Neve” é simbolizada para o lugar iluminado, indicado pelo SOL, para onde se dirigem, no final do conto, Branca de Neve e seu Príncipe (a alma iluminada e integrada ao Espírito).  

Esse lugar é a “mansão dos imortais”, Agharta, Shangri-La, Walhalla, Avalon, onde a Branca de Neve e o Príncipe, integrados pela Boda alquímica Lua & Sol, viverão “felizes para sempre”. 





JOÃO PAULO HAAK MIRANDA, para a Revista Ganso Primordial., Setembro de 2022.





Justus et Perfectus. 

PAX. BIJAM!

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