Poemas – Por Fernando Pessoa

NEÓFITO, NÃO HÁ MORTE!”

“NUNCA TE DEIXES VENCER PELOS INCOMPETENTES.”

Fernando Pessoa





Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, Largo de S. Carlos. freguesia dos Mártires, 15:20 h de 13.6.1888 – Lisboa, Hospital de S. Luís dos Franceses, freguesia de Santa Catarina, 20 h de 30.11.1935), poeta e ensaísta que tão nobre, anónima e pobremente em seu tempo serviu a Língua Portuguesa sua Pátria de quem foi vate certo, acabou por morrer só, abandonado na cama fria do Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, às 20:00 horas da tarde triste de 30 de Novembro de 1935, na única presença de Jaime de Andrade Neves, seu primo e médico, depois de anos, dias e noites seguidas, intermináveis de solidão e angústia pela feitura de uma Obra que se quer Divina. 

As suas últimas palavras premonitórias ou de pressentimento da passagem próxima, escritas em inglês já no hospital no dia 29, nas vésperas de falecer, resultaram fatalmente certeiras: I know not what tomorrow will bring – “Eu não sei o que o amanhã trará”. 

Sepultado no jazigo de família (Seabra Pessoa), no Cemitério dos Prazeres em 2 de Dezembro desse ano, em cujas exéquias Luís de Montalvor, em nome dos sobreviventes do Orpheu, proferiu um breve discurso, o féretro de Fernando Pessoa foi depois, em 16 de Outubro de 1985, trasladado com toda a justiça, e é onde deve ficar para todo o sempre, para o claustro do Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou deitado junto à coluna tumular legendada, verificando-se na altura que o corpo mantinha-se incorrupto, estava tal qual quando falecera (talvez por ser inumado em caixão de chumbo, conforme a saúde pública obrigava, demorando o corpo longuíssimo tempo a “voltar ao pó”), ele que proclamara próximo das vésperas da sua morte: “Neófito, não há morte!”, e “nunca te deixes vencer pelos incompetentes”, que é dizer, pelos medíocres abaixo da crítica.





Vitor Manuel Adrião





“Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma”.





Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).

Entre o sono e o sonho,

Entre mim e o que em mim

É o quem eu me suponho

Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,

Diversas mais além,

Naquelas várias viagens

Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito

A casa que hoje sou.

Passa, se eu me medito;

Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre

No que me liga a mim

Dorme onde o rio corre –

Esse rio sem fim.





——————-

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.

Continuamente me estranho.

Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.

Quem tem alma não tem calma.

Quem vê é só o que vê,

Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,

Torno-me eles e não eu.

Cada meu sonho ou desejo

É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem,

Assisto à minha passagem,

Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo

Como páginas, meu ser

O que segue não prevendo,

O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li

O que julguei que senti.

Releio e digo: «Fui eu?»

Deus sabe, porque o escreveu.





24-8-1930

Meu pobre Portugal

Meu pobre Portugal,

Dóis-me no coração.

Teu mal é o meu mal

Por imaginação.

Tão fraco, tão doente,

E com a boa cor

Que a tísica põe quente

Na cara, o exterior.

Meu pobre e magro povo

A quem deram, às peças,

Um fato em estado novo

Para que o não pareças!

Tens a cara lavada,

Um fato de se ver

Mas não te deram nada,

Coitado, que comer.

E aí, nessa cadeira,

Jazes, apresentável.

(…)

O transeunte amável.





8-11-1935

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Mudo, mas não mudo muito.

A cor das flores não é a mesma ao sol

De que quando uma nuvem passa

Ou quando entra a noite

E as flores são cores da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:

Se estava virado para a direita,

Voltei-me agora para a esquerda,

Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés –

O mesmo sempre, graças ao céu e à terra

E aos meus olhos e ouvidos atentos

E à minha clara simplicidade de alma…





Alberto Caeiro

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