Poemas – Por Javier Alberto Prendes Morejón

1

Impreterível mundo novo em sonho, 

de nenúfares coroado,

de uma singela flor de lis nascido,

absorto em luz e em mimos estrelados.





2

É de vivo peito e viva voz,

enternecido, que com afã 

consagro às Musas minha vida, 

desta fazendo o seu relicário 

e templo vivo.





3

Dar azo à fantasia é, por desenlace,

avoar mundos imagináveis e invisíveis.

Vida e fantasia constituem um só laço,

e a imaginação é o seu baluarte empíreo.





4

Fazer de ti amor maior, 

jamais infausto, mais e mais 

a cada dia em teu sopro

eu respiro, vibro e me enalteço.

Nos teus olhos, por fim, 

o repouso tão almejado.

(A Tamara Castro)





5

Discurso à Rosa

Em minha vida pequena e malgasta,

o melhor dela são rosas engastadas de prata,

formosas pétalas e botões 

que perfumam os dias e as noites.

Crepusculares são os espinhos

que são homens; boreais e alvas

as rosas do amor que são auroras

e à aurora despontam com força 

e esplendor.

Entretecido eu por elas,

regozijo-me, pela ventura dada de tê-las. 

Muito pouco são os homens, 

deles nada espero: das mulheres

feitas rosas insignes, dessas tudo espero.

Fui homem entre rosas, e sem saber,

sem querer, afeiçoei-me. 

Nelas tenho as Plêiades em minha alma,

e no mundo dos homens um cativeiro.

Nesta prisão, uso uma máscara de ferro.

Meu ser, que não é pequeno, usa adornos 

de mulher. Desta feita em minha vida, 

queira Deus a obra plena.

Não fosse a Dama, 

triste e vazia toda cavalaria. 

A Torre sem Rei, sem Deus, 

porque o Rei sem a Dama.

Nisto que a vida é, nada vale.

Nela o amor e a inteligência libertadora. 

Madonna da sabedoria, da beleza e da bondade. 





6

Querendo chegar ao fundo 

de mim mesmo, 

sou incapaz de fazê-lo. 

Mas quem é hoje incapaz, 

amanhã pode não sê-lo.

Desditada como a humanidade é,

também com ela convalesço, desditoso.

Quimérico este mundo desavindo, 

ilusão bem tátil e caprichosa

em que enrodilhados nos prostramos. 

Profântidas e sibilas apontam o fio

sinuoso do destino mútuo,

dos agravos e das alegrias. 

Mas o mundo é tão mau, 

que quase perco a esperança na retidão,

no estrito sendo de beleza fina 

e de justiça perfeita. Direito tornado

opróbrio, razão diminuída em fel,

e os corações diluídos em pranto.

Angústia, solidão e sempre

mais acessos de ira e revolta. 

Meu papel é tudo que tenho

que sinto ser meu e só meu. 

Tinta como harpa, como arma,

como cinzel. Xadrez de sílabas, 

pensar ourobórico. 

Minha chama, minha vida,

minha desdita, meu canto,

meu esforço. De tudo que fiz,

o maior lapidário foi meu 

próprio Eu. Sem ele, de real,

absolutamente nada. 

Cavaleiro da Rosa… teimo

em ser quem sou, para bem

e para mal, e claro-escuro marcho, 

talvez triunfal, talvez apenas triste,

à morte certa. 





7

A pretendida lisura 

deste mundo, 

e a preferida 

mediocridade. 

8

Madonna Murmurante, 

Madonna dos murmúrios, 

rosa silente 

de amores rubros. 





A forma mais bela 

na alma mais grande

no espírito mais excelso…





10

Vai-se embora, serpenteante, 

a Verdade eternamente virgem, 

deixando atrás de si os abstrusos. 

Deixa, contudo, sempre, tênue rastro, 

trilha de migalhas douradas 

que conduzem às Mansões Divinas. 

Numa toca brilhante, enfim, se recolhe,

diante de um céu insuspeito, de um povo ignoto,

entre enormes templos 

entre enormes galerias de mármore. 

Fogo divino a alimenta, vetusta e sublime;

é ela o Excelso Fogo da Divindade. 





11

¿Hacia dónde va la Eternidad

colmada de anillos? ¡Angustiante velo!…

Entre lirios y entre silencios 

en su lecho escondida, bella,

la Divina Dama de la Noche Eterna

recostada entre estrellas y soles suspira, 

de su proprio reflejo enamorada,

imutable no-Ser que todo mira.   





12

Soy algo nuevo entre los míos.

¡Ni en la patria ni en el exilio! 

Quizás no hayan olido las rosas que yo olí

y en el camino no vieron lo que yo vi. 

¿Y por qué? ¿Por qué será así?

No hay semejanza que me sea útil;

es en la discrepancia dónde vivo.

En este océano no hay harmonía, 

pero con un puñado de artistas 

-de lo Divino, de lo insospechable- 

se puede construir un nuevo día. 

Que en esta realidad 

sea yo un esclavo y algo insólito sin valor, 

y desde luego poco preciado por la industria, 

no es algo, ni en lo mínimo, 

que afloje mi avance o que lo impida. 

¡Ni la muerte podría impedirme!

La muerte, esa sabia consejera

e implacable mano izquierda de 

la Justicia Divina, es dueña del cuerpo, 

pero no puede someter al espíritu. 

El sol en nosotros es mayor que la tierra 

en nosotros y la propia luna. 

Así de ser, la muerte, de las ilusiones, 

de las mayas, es la mayor. Del otro lado del mapa,

los Misterios que nunca fueron escuchados. 





13

Tiene en sí la mancha fúnebre,

cadavérica, insoportable.

Sin lozanía, vive sin vivir,

huele sin oler, respira sin sentir.

Mil clavos en su piel; tormento,

furor de toros, garras de buitres;

el destrozar de las rosas, aplastadas,

y el reino de lo inhumano, 

el reino del fango.





14

Rictos infernal de dores

e alegrias movediças;

triste, efêmero e mortífero

diapasão dos dias.





15

A palavra, que tanto salva 

quanto perde; que tanto é ouro 

quanto é ferro. A palavra, 

que é tudo ou é nada. 





16

Como és do vento 

cativa enternecida;

como em flores no peito

as rosas da vida;

como és o raio

da manhã e o cipreste;

como és o que foi

e o que há de ser;

como és borboleta

pronta para renascer;

como visas o céu

e o céu é tua vida:

tesouro em ti sem par,

de Ísis outra filha,

bendita mulher.

17

O povo embrutecido, 

pão, vinho e circo.

A maçã de ouro

jaz ensombrada e embalsamada,

a esmeralda do saber – joia rara –

a poucos dada, 

por poucos vista e defrontada. 

Onde estará o meu acerto?

Só em mim! Nada há fora

que não se encontre aqui,

dentro de mim. Fora e dentro

– mas que importa? 

O mundo é enxame e eu colibri.

Tenho asas de anjo e escamas

de dragão dourado, 

contudo meu voo é baixo e caio,

Ícaro insensato, Hércules transviado. 

Mas este baixio de brumas há de parar-me

o passo? A estrada a impedir-me?

A nuvem cinza a ofuscar-me?

Nada! Disso nada nem nunca, 

de definitivo. Tal veemência, 

tal esperança: trata-se de ser 

e de esforçar-se. 

Só perde que renuncia 

à renúncia. 

Neste jogo só triunfa

quem é ousado e precavido. 





18

Por subir na descida

é que faço-me grande. 

O caminho de volta

após a ida. 





19

Do símbolo abstrato 

ao símbolo vivo.

Ou seja: da Iniciação

ao Iniciado.





20

O imenso simbolismo 

iniciático das Idades,

arcabouço sem fim.

A busca primaz 

pelo Primeiro e Último,

eterna sede insaciável.





21

Sabe-te inteiro

para seres inteiro sem pedaços;

sem pedaços fumegantes 

de tristonha vida, 

de dura lida, pelo mar afora,

pelas rebentações e charcos,

pelos veios de ouro do coração

apurpurado, que o coração

é acácia e como acácia exala.

Vai mais majestoso

para o que não tem dono. 

Sê ferreiro sábio de tuas

próprias armas.





22

A poesia tem o poder 

intrínseco da navalha 

e o aroma inextricável 

das flores. Ela tanto fere

quanto perfuma. 

23

A ordem na complexidade,

como o vário no uno.





24

Com a bondade equilibrada 

e pela sapiência esclarecida,

falta o timão que é a vontade:

assim se produzem os melhores 

frutos e alcança-se a imortalidade.





25

Sei que a poesia – e tantas coisas! – não vale em tempos sombrios, mas o que fazer: ir contra minha tendência natural? Fica o dissabor frente o mundo, e a inspiração sempre escudada dentro do peito, esse fole, esse relicário hermético, essa gruta do Ser onde o Ser se esconde. É como diz a estória: ali Brahma escondeu o maior dos tesouros, logo abaixo do nariz humano, de modo que desse tesouro magno não se desse conta, a não ser que o desatento abra os olhos, dilate as pupilas, cultive-se nas letras, nas artes, nas coisas do espírito, e tudo mais vá abandonando – o acúmulo visível e invisível das coisas nulas. 





26

Conejo, conejo, contigo al Infierno yo desço – dito hermético andaluz

[…] De modo que a pedagogia é um instrumental para tornar os homens conscientes de si próprios e da Natureza ao derredor, que é em si ilusória, que vive “escondendo-se”, como que brincando, muito arteira. Mas de brincadeira em brincadeira a coisa pode ficar mais séria, e quem sabe não se encontre algo de valor… De tanto perseguir-se coelhos, quem sabe à toca do mesmo não se achegue!

A vitória do homem é a vitória do anjo em si próprio!





27

A Natureza, que é grande e bela em todas as coisas, e que sempre renova-se integralmente, como um algo que despe-se de velhas peles – ela a Mãe Metamorfa e camaleônica por excelência – e que reequilibra-se quando das causas e efeitos divinos e erros humanos, diante dos homens tonteia-se, com um vasto quê de perplexidade. Pois é Mãe, fecunda e lúcida como nenhuma fêmea mortal, abarcando a todas as criaturas sob seu regaço divino, e no entanto sua cria mais excelsa descarta-a ao mar como coisa nula. Por isso os vulcões, fingindo estar adormecidos, em si reúnem a energia viril que tarde ou cedo, diante do despautério civilizacional, cuspirá arrojando como fogo destrutivo e purificador, tal como a febre que queima os elementos invasores, justamente para curar. Também os mares, fartos dos destratos da insensatez, cansa-se, vindo sulcar a terra numa avalanche atroz, ou como uma besta marinha que engole os imprevidentes, os desatentos e mal-intencionados, apagando com suas águas os massivos incêndios morais que dão larga margem ao escrutínio pasmódico do terror e da infâmia. 

Por não saber saber-se, vive menos e não é. Resvala, tropeça e cai, por nunca aprender a endireitar-se, pois arte, na vida em si, é também traquejo e barba rija. 





28

Por Zeus Philíos ou, se se quiser, por Zeus Hetarios, amizade em perpétua camaradagem. Libam as taças em risos em uníssono, riem em zênites de alegria; agora tornou-se sereno o coração e as falas em histórias se alegram, percutindo no peito como estrelas, doces sensações, e como botões florais se abrem e perfumam os ares. Grande é esse amor que não inveja e de tudo quanto é virtuoso abunda. Não de palavras foi feita a amizade, como a assignou Zeus Hetarios, mas na honra da fidelidade, na renúncia, em provações práticas e diárias, e mais que tudo no olhar cândido. Súmula de luz, súmula de amor, a amizade que jamais definha. Eis porque a amizade é vida e nem a morte pode apalpá-la. Amor primaveril em eterna ode a Zeus Hetarios, a Zeus Philíos. Razão mor de tudo quanto é belo, doce e imarcescível.





29

Dedos, como todos somos, de uma mesma mão – por mais que nos circunde e domine nefastamente a heresia da separatividade – neste infindo anfiteatro chamado Eternidade, em perpétuo evolver. Não é este, ora, o ensino medular de todo Mestre, de todo verdadeiro Pedagogo? Recém-nascidos à vida espiritual ou ainda acabrunhados no inócuo realismo diário, ou ainda pérolas brilhantes, jades engastadas de amor e iluminados… que importa, se somos todos, ao fim e ao cabo, dedos de uma mesma mão?





30

Eu, na condição de poeta, discirno que a amizade é a maior das dádivas (e não poderes quaisquer, sejam físicos mundanos ou psíquicos transcendentais), porque por ela padecemos os maiores rigores, muitas vezes sem isto ser-nos fardo próprio, mas de bom grado aceito em pró do outro, e por ela a vida adquire colorido ímpar, pois o amigo é, com efeito, a doçura e o encanto que nos brinda a vida; por isso ela praticamente inexiste, por o mundo humano brindar apenas palavras e não amizade real. Ao invés do genuíno laço, pese as distâncias eventuais, trocamo-lo pelo bajulador e pelo ilusório de um amor que não passa de água fria e não vai além de palavras e conveniências; pois a amizade em nosso mundo não passa de sofística e de parasitismo mútuo mormente alimentado por nossa carência extrema. Por um lado, dizem amar-nos, por outro, morrem de inveja indisfarçada. Daí que o amor verdadeiro é o único escudo contra o egoísmo, pois quem ama de fato não odeia, não inveja, não tem medo, e não desiste. Somente os amigos de verdade realizam entre si o valor intrínseco do Paraíso, isto é, a amizade como amor genuíno e indestrutível. É o único laço que vale e não definha. No Mundo como na Iniciação, só vale a amizade, por ser ela a FRATERNIDADE em carne viva, o Ideal vivificado. Tudo mais é ilusão e autoengano, rotinas supérfluas que jamais levarão à meta das metas – a harmonia entre tudo e todos.

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