Poemas – Por Tamara Castro

Ficsonho

caminhávamos à beira da rua

quieta

alguns carros cruzavam o silêncio

e os pássaros revoavam sua fúria

viva

na disputa de frutas

ocupados entre cantar e bicar

a manhã amadurava em sol

ardendo a pele tão cedo

e os membros terrestres queriam asas

alcançar a sombra dos pássaros

ir além dos passos

vulgares, lentos

alçar o corpo grave

além da rua

além dos carros

além das árvores

além das aves

além das nuvens

as costas recostadas ao tronco

rugoso

os pés enraizados na calçada

rachada

os braços envolvendo

outros braços

à espera de voltar ao destino 

conhecido

e as areias seguiam seu curso

lento ou veloz

no pulso do tempo

minutos, horas, dias

tempo que voa 

e tudo transforma

inclusive braços presos

em asas

pés pousados

em caminho

pássaros

em silêncio

——————————–

“e quando o amor acaba

resta apenas a ficção”

(Carola Saavedra, Inventário das coisas ausentes)





talvez seja

apenas ficção 

o amor

a pena

da ficção 

e o sangue 

que nela pulsa

tinge o silêncio 

de sua ausência 

com sua impossível 

música 





——————————–

sombra de pássaros 

sempre passos 

à frente 

ou atrás do desejo

intangível 

como amor 

que se sonha

pensando viver





——————————–

bússola

encontrar a paz

no meio do redemoinho

o silêncio

no cio do burburinho

o a-mor

no fio que destece a-morte





——————————–

Ave poeta

Para Javier





meus dedos já sabem

de cor

as linhas com que o amor

desenhou teu rosto

tantas vezes passearam 

na planície da fronte

até a campina macia 

sobre teus olhos

e se deitaram nos cílios 

que os sombreiam

e que minha boca ama

porque velam tua luz morena

tuas histórias, tua luta

teus sonhos, utopias

– vislumbres d’outros mundos –

sementes plantadas na tua poesia

e da tua flauta órfica

soa a palavra canora

anúncio e memória

de uma nova antiga aurora





——————————–

amor é quimera 

em constante mutação 

vez ou outra surpreendo

de soslaio

 sua fuça fugidia

e capto uma libélula 

ensaio entre inseto 

e bailarina de ar

outras vezes paquiderme de cristal

em coração acidentado

a cada pisada 

abre abismos

impossíveis de atravessar

mas talvez seja mesmo

esquisito ornitorrinco 

indeciso entre serpente foca e pato

anfíbio transitório

num mundo onde não tem lugar

Quíron Pégaso Unicórnio 

o amor anda a galope

por caminhos de pântano e pedra

areia escaldante e neve

e embora desacreditado 

pesado de cicatrizes 

segue adiante

tangendo na lira

seu canto de errância

amor, enfim, é hidra 

de cabeças infindas

que Héracles confinou

7 mil léguas do chão 

mas no coração andarilho

os pés sentem seu pulso

sua respiração ofegante 

a cada passo

do caminho esquecido





——————————–

pássaro de fogo

transmuta terra 

em pedra

em lava

água torna 

nuvem

e o meu coração

enchente de rio

rio rio

corrente de flores

abertas sobre dores

amor





——————————–

meu amor

é minha paz no olho do caos

ilha de poesia 

em meio aos pregões da avenida

quando o jogo fútil do mundo me extravia de mim

tua palavra me acorda

teu olhar me refloresce

teu abraço me aquece

e me recordo de mim, de nós

te quero a cada nascer da lua

em todo pôr do sol

a cada levantar da estrela

no botão que se abre

ao som da tua voz poeta

nas asas do teu coração menino

que me inspira a te amar mais e mais

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.