Poemas (Ritmo; Epitáfio da Navegadora) – Por Cecília Meireles

RITMO





O RITMO em que gemo

doçuras e mágoas

é um dourado remo

por douradas águas.

Tudo, quando passo,

olha-me e suspira.

– Será meu compasso

que tanto os admira?

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EPITÁFIO DA NAVEGADORA

A Gastón Figueira





SE TE PERGUNTAREM quem era

essa que às areias e gelos

quis ensinar a primavera;

e que perdeu seus olhos pelos

mares sem deuses desta vida,

sabendo que, de assim perdê-los,

ficaria também perdida;

e que em algas e espumas presa

deixou sua alma agradecida;

essa que sofreu de beleza

e nunca desejou mais nada;

que nunca teve uma surpresa

em sua face iluminada,

dize: “Eu não pude conhecê-la,

sua história está mal contada,

mas seu nome, de barca e estrela,

foi: “SERENA DESESPERADA”.

MUITAS VELAS.

Muitos remos.

Âncora é outro falar …

Tempo que navegaremos

não se pode calcular.

Vimos as Plêiades. Vemos

agora a Estrela Polar.

Muitas velas. Muitos remos.

Curta vida. Longo mar.

Por água brava ou serena

deixamos nosso cantar,

vendo a voz como é pequena

sobre’ o comprimento do ar.

Se alguém ouvir, temos pena:

só cantamos para o mar …

Nem tormenta nem tormento

nos poderia parar.

(Muitas velas. Muitos remos.

Âncora é outro falar…)

Andamos entre água e vento

procurando o Rei do Mar.

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