As mil e uma noites (Um livro esotérico?) – Por Challita Monsour

Num dos contos das Mil e uma noites (a História de Bulukya), há uma descrição do inferno e de seus tormentos, inigualável e inesquecível. Ei-la:

No início dos tempos, Alá criou o Fogo e fechou-o em sete regiões diferentes: Chamou a primeira região Jahanam e destinou-a às criaturas rebeldes que se recusam a arrepender-se. Chamou a segunda região Laza e destinou-a àqueles que, depois da vinda de Maomé, permanecem nas trevas e no erro e rejeitam a nova fé. Chamou a terceira região Jahim e destinou-a aos dois demônios Gog e Magog. Chamou a quarta região Sair e destinou-a a Ibliss, o líder dos anjos rebeldes. Chamou a quinta região Sakhdan e destinou-a aos ímpios mentirosos e orgulhosos. Então, cavou uma caverna imensa e, enchendo-a de ar abrasador e pestilento, chamou-a Hutma e destinou-a às torturas dos judeus e dos cristãos. Chamou a sétima região Huyiê e reservou-a ao excedente de cristãos e judeus e àqueles que são crentes só no nome. Estas duas últimas regiões são as mais horrendas, enquanto a primeira é a mais tolerável. Todas essas regiões têm a mesma estrutura. Dá ideia de sua capacidade de castigar o condenado o fato de que a primeira região, a menos severa, contém 70 mil montanhas de fogo; e cada montanha, 70 mil vales; e cada vale, 70 mil cidades; e cada cidade 70 mil torres; e cada torre, 70 mil casas; e cada casa, 70 mil locais; e cada local, 70 mil suplícios. Para calcular o número total de suplícios, basta multiplicar 70 mil por 70 mil sete vezes seguidas. Obtém-se assim o número 57.640.010.000, isto é, mais de 57 bilhões de suplícios diferentes.





As mil e uma noites: Um livro esotérico?

Sobre o valor das Mil e uma noites e seu destaque na literatura universal, não existem divergências. A única controvérsia relaciona-se com o sentido verdadeiro e a finalidade das Mil e uma noites. Serão elas uma simples obra de ficção, ou uma sátira social, ou mesmo uma obra esotérica em que fantasias aparentemente levianas escondem segredos somente acessíveis aos iniciados? “Sob o véu engenhoso do apólogo”, diz o Larousse, “esses contos tão poéticos pintam admiravelmente o caráter e os modos dos orientais”. Mardus, que traduziu A mil e uma noites para o francês, acrescenta: “As cenas são eróticas, mas não pornográficas. Os árabes veem todas as coisas sob o aspecto hilariante. Seu sentido erótico só conduz à alegria. Riem como crianças onde um puritano gemeria de escândalo”. Jorge Adoum, pensador místico, que foi um dos chefes do movimento Rosacruz na América Latina, foi mais longe. Para ele, As mil e uma noites são “o livro iniciático por excelência”, cada história velando símbolos espiritualistas ou verdades científicas. Consagrou um terço de seu livro “El pueblo de las mil y una noches” à demonstração dessa tese. Afirma ele que o nome mesmo do livro é uma indicação e uma prova. “Mil e uma noites” representa, em simbologia numérica e com apenas uma transposição mínima, o caduceu de Mercúrio, a serpente do Éden e a de Moisés no deserto, isto é, uma serpente boa e outra má. Assim, as Mil e uma noites, equivalem ao véu de Ísis, ou seja, a um livro no qual são ocultas verdades iniciáticas. “Os antecedentes do livro são hoje obscuros porque são verdades de uma idade mais feliz que a nossa, em que os homens falavam com os deuses e com os espíritos da Natureza”, acrescenta Adoum. A procura da lâmpada de Aladim seria a procura do conhecimento iniciático. As dificuldades que Aladim encontra seriam as dificuldades sempre encontradas no caminho da verdade. O descobrimento da lâmpada maravilhosa equivaleria à chegada à sabedoria interior. E conclui Jorge Adoum: “Assim, em conto após conto do grande livro, aparecem as fadas, seus jardins encantados, seus tesouros indescritíveis e sua perfeita libertação deste triste cárcere de matéria física: todo um mundo impenetrável a nós como corpos, mas perfeitamente penetrável àqueles iniciados que chegaram à libertação.” Tese engenhosa que, certa ou não, em nada prejudica o encantamento produzido pelas histórias de Chehrezade e, antes, acrescenta-lhes um fascínio especial.

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