Bordar memória, transbordar o verso – Por Tamara Castro

Memórias são tecidos finos, rotos, esgarçados. À espera de agulha e linha que remendem brechas de traça e esquecimento. Pontos fantasia que inventem tramas perdidas com retalhos de imagens, cheiros, palavras ouvidas atrás da porta. Cenas revividas nos vãos e avessos, tramas bordadas em fios coloridos de espessuras diversas.

O primeiro tecido esgarçado e jamais cerzido: a bolsa rota por onde passou a primeira luz, o grito inaugural e o esquecimento. As primeiras lembranças da mãe e do mundo são pano corroído, enodoado, tramas desfeitas que tento bordar. Algumas vêm em visões de sonho. Outras em cheiros na cozinha. Cenas em flash vêm em contraponto, um olho no avesso, outro no verso. Muitas passam tão ligeiras na ida e vinda da agulha que não consigo fisgar. Algumas se guardam no avesso do vivido e voltam em sonho ou num verso distraído. 

Da avó resgato o retalho das mãos pintadas pelos anos e texturizadas por veias altas, ensinando a salvar rasgados da sina de pano de chão. “Isso é cerzir, minha filha”, dizia com voz mineiramente mansa de quem, como ninguém, sabia fazer um café bem docinho. E com essa mansidão ancestre, reabilitava o velho vestido para, quem sabe, um derradeiro passeio de domingo.

Da mãe remendo a revolta seca contra a máquina de costura, parceira-inimiga com quem compôs algumas peças. De um mar de lembranças baças emerge o vestido de flanela marrom e bege, e o avental verde de organza, traje pra dançar quadrilha na festa junina da escola. (Quantos anos? Sete, talvez… Que falta de jeito com as mãos segurando a ponta do vestido diante do coleguinha, um pouco mais baixo que a menina, magrela e tímida, querendo escapulir como agulha no entremeio da trama.) Essa foi a cena arrematada pela lembrança da linha perfurando o pano e o carretel girando, girando, enquanto a agulha desenhava carreiras em zigue-zague, sob o comando de mãos e pés nervosos e cenho franzido. “Que merda de máquina! Não nasci pra isso!” (A mãe costumava esbravejar em palavrão. Mas criança não! Se falar vai lavar a boca com sabão.) 

Outra lembrança que agulha e linha me trazem: a mãe ensinando, com sua paciência ímpar, a filha desajeitada a bordar panos de prato com desenhos de revista. Ai, que tédio aqueles pontos em cruz, todos iguais, que não acabavam nunca! A desatenção levava ao devaneio, ao erro e à bronca: “Presta atenção, menina! Desse jeito não dá, os pontos precisam ser iguaizinhos, senão fica uma merda!”

Diante de tanto grito e revolta, nunca me animei a lidar com essas máquinas encrenqueiras que engolem panos e engasgam com linhas. Só aprendi a costurar – à mão – algumas roupas de boneca, mais tarde botões e barras que economizavam idas à costureira. Décadas depois, aprendi a bordar. Bordado livre, não o infeliz ponto cruz, preso a desenhos pré-fabricados de revista. 





Bordando sonhos no labirinto dos 8 fios

Confesso que não foi uma volta pacífica ao mundo das linhas e agulhas. Meu ser desperto, armado de curso e discurso, me dizia que isso não era pra mim. Muito atrapalhada, muito atarefada, muito empoderada. Dona do próprio nariz. Por que bordar? Pra que bordar? Em tempos de lazeres fáceis e amores fluidos, o que querem esses dedos dedicados a mergulhar e emergir a agulha no pano? Que doçura – ou tortura – guarda tão antiga arte de perfurar o linho em busca de… caminhos? 

Foi por causa de um sonho que voltei a bordar. A Fabiana Rubira, amiga querida, narradora de estórias, que diversas vezes havia me chamado para participar dos encontros de bordados no nosso grupo de estudos em arte e educação, onde fazia meu mestrado, me apareceu num sonho, do qual só me lembro a frase: “Você precisa entrar no labirinto dos 8 fios”. 

Foi assim, guiada pelo fio narrativo de um sonho e pela voz da Fabiana, que me rendi ao convite dos fios e das tramas, em 2015, coordenado por amigas muito queridas e especiais: Nádia, Tanna, Fabiana, Carol, Camila… O primeiro sim para o bordado me deu coragem a me arriscar a dançar, com outra amiga do grupo, Bárbara, e expor meus poemas, sempre escondidos a sete chaves no fundo da gaveta, a outras janelas e olhares.

Sobre sincronicidades e recorrências simbólicas neste caminho, o labirinto dos 8 fios, lugar onírico, se realizou para mim em um lugar chamado Lab_Arte, o espaço de pesquisa e experimentação em arte, educação e cultura da Faculdade de Educação da USP. Lugar em que me permitiu voltar a sonhar e criar artisticamente. Lugar onde desenvolvi minha pesquisa de mestrado e até hoje me encontro com parceiras e parceiros de travessias entre linguagens artísticas e oníricas. Meu lugar labiríntico, onde perdi meu medo paralisante de me expor, me perder, e onde enfim me encontrei. Um lugar de travessia e iniciação.

“O labirinto é uma figura associada à iniciação, o neófito atinge o centro e se voltar vivo, cumpre seu rito iniciático – é o que acontece com Teseu. A angústia de quem percorre o labirinto está sempre associada ao medo de perder-se e do inesperado que espreita na próxima esquina, mas o herói do mito tinha o fio condutor. Mas qual seria o fio para nos conduzir?”, pergunta a Fabiana em Dançando com o Minotauro nas noites (2015), sua tese de doutorado.

Labirinto… Volto a esse enigmático e irresistível lugar presente no imaginário humano mais para frente. Mas por ora…

 

… bora falar de bordado

Alinhavos simples, ponto arroz, areia e matiz preencheram o algodão branco com uma avidez de azul. Meus primeiros pontos livres já ensaiaram trazer à tona o grande amor da vida: o mar, ou melhor, la mar, como dizia o velho pescador de Hemingway:

“O velho sempre pensava no mar como sendo la mar, que é o que o povo o chama em espanhol, quando verdadeiramente o querem. Às vezes, aqueles que o amam lhe dão nomes feios mas sempre como se se tratasse de uma mulher.” (HEMINGWAY, O velho e o mar, 1972.)

Depois desse primeiro ensaio de mergulho, as mãos acordadas pelo vai-vem da agulha no pano, e a imaginação prenhe de imagens, me arrisquei a bordar um desenho próprio. Com personagem e cenário. 

Neste segundo bordado, se mistura uma sede de travessia por águas doces que o rio desperta, junto ao desejo de se estabelecer à margem de um remanso, semeando e florindo a querência onde a alma sonha fincar raízes. Assim nasceu a oleira modelando seu grande vaso repleto de sementes à beira-rio. Sempre a água a seguir os passos e os pontos do bordado. Ou seria este a segui-la? 

A paisagem bucólica deste bordado me trouxe à tona uma peculiaridade desta aprendiz de bordadeira que escreve: preencher sem trégua todos os espaços possíveis com detalhes, cores, pontos diversos, linhas de espessuras variadas.

Que difícil silenciar a alma quando agulha e linha acordam tantas imagens desejantes, vegetais! Floresci as águas com uma vitória-régia, flor que habita meu imaginário desde menina. Adornei o vaso com helicônias, planta que embelezava o quintal da casinha onde morei em Paraty. Recheei a boca do vaso com muitas sementes, promessa de fartura e futuro. Preenchi com pontos verdes a serra que acolhe as águas como colo de mãe. Ao menos em sonho posso reflorestar nossa bela Mata Atlântica…

“No meu jardim, no meu jardim
As flores falam
E sabem ler, sabem entender
A dor que calam

Quem cala não consente
As flores sabem mais
A dor que a gente sente
A dor nos vegetais
Adornos vegetais”


(Dércio Marques, Segredos vegetais.)









No devaneio das mãos, se materializa o desejo de tornar mais belo o real. Lembrando Manoel de Barros, “Minhocas arejam a terra; poetas, a linguagem”. Seguindo a toada: Bordadeiras arejam o tecido da imaginação. 





Pra onde vai nossa anima enquanto a gente trans-borda?

A agulha enlaça a linha e a leva a navegar pelo leito do tecido. A agulha entra e sai, entra e sai. Fálica, aguda, a agulha quer movimentos retos e rápidos. Mas a linha e o tecido nem sempre o permitem. As mãos bordadeiras sentem no tato a abertura ou resistência do pano. Sentipensam que por vezes o caminho melhor caminho não é reto e busca desvios, veios, vãos. Em movimentos ondulatórios, a agulha se torna serpente para melhor penetrar, mergulhar, fecundar o breu e voltar à superfície. A agulha-lança-serpente faz as vezes de psychopompo, mensageiro entre mundos: o desperto, terreno, superficial – a frente do tecido -, e o adormecido, sombrio, subterrâneo – seu avesso.

É nessa dança de mãos que agulha, linha e linho vão se entretecendo e abrindo canais para imagens que vivem à sombra venham à luz. Como no crepúsculo, sol e lua, razão e sentimento coexistem compondo um quadro de contraste e beleza. No ritmo do bordar, a razão instrumental, que classifica tudo em utensílio ou inutilidade, cede vez e voz para o devaneio, matéria-prima da poiesis:

“A poesia é o inutensílio. A única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa. Porque elas são a própria razão de ser da vida. Querer que a poesia tenha um porquê, querer que a poesia esteja a serviço de alguma coisa é a mesma coisa que querer que o orgasmo tenha um porquê, que a amizade e o afeto tenham um porquê. A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam de um porquê.” (Paulo Leminski).

Bordar, como expressão artística, permite dar forma a percepções e imaginações, e, assim, aprofundar o enraizamento estético-espiritual de imagens que poderiam simplesmente passar despercebidas pelo ser desperto. 

Foi de um devaneio enraizado no corpo-alma que nasceu meu terceiro bordado. Um devaneio dançante que captei em desenho numa manhã, dentro do ônibus no caminho para o trabalho. No dia anterior tinha participado de um encontro de dança coordenado pela minha amiga Bárbara – um encontro de corpocriação coletiva, como ela denomina em sua pesquisa de mestrado.  O movimento de braços se lançando no espaço, que repeti diversas vezes, encantada com a possibilidade de arborescer e ao mesmo tempo navegar, como uma canoa que lembra sua origem vegetal, ficou guardado no corpo. E no dia seguinte, a imagem de uma mulher de braços abertos me visitou em meio ao trajeto cotidiano de ônibus.

 

Por causa da minha pouca destreza em desenhar braços e mãos, ou talvez pelo fascínio que as árvores exercem em mim desde sempre, a mulher adquiriu galhos, folhas e flores em vez de membros superiores. Uma lágrima se une à hidrografia de sangue que percorre o peito, ganha fluxo no ventre e desce como raízes aos pés dessa mulher-árvore, que por fim deságua em onda. 

Enquanto os bordados anteriores, em algodão cru, trazem cenas diurnas, para este escolhi brim azul escuro, prateado por uma grande lua cheia. Navegando pelo tecido, me veio o desejo de celebrar minha metade materna, oriental: assim vieram peixes, barcos e tsurus em forma de origami.

Ohara Shoson (1877-1945), Tsuru com filhotes no pinheiro.

O tsuru, ave sagrada no Japão, é um psychopompo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, daí o hábito, herança xintoísta, de se colocar origamis desse pássaro sobre o túmulo para que este conduza a alma a sua nova morada. A Fabiana, em sua tese, relembra, na mitologia grega, a simbologia dessa ave, também chamada de grou. Na dança do grou, ensinada por Dédalus, o criador do labirinto, ao herói Teseu, há um bailarino condutor que marca o ritmo e é seguido em fila pelos demais. O fio humano dançarino tece e destece voltas, numa espiral que imita o caminho do herói solar em direção ao centro do labirinto, ao encontro com o Minotauro, o senhor da Morte, da Noite e do Mistério.


Demorei cerca de 9 meses para parir esse bordado, que me possibilitou trazer à tona e dar forma a imagens queridas, e a sentipensar ideias, símbolos e poemas que me habitam. 

Plenilúnio 
a luz no auge
se concentra 
em fruto madurado
à sombra

carne de mel 
de sangue 
tecida em silêncio 
na luta no escuro
sob o peso da terra 

na lida dura
de escavar-
-se
em busca das águas 

doçura que agora
deleita a língua 
leito onde deita
o sumo segredo
de lama e abismo

Ao bordar, sentipenso que a agulha engastada à linha pesca o ainda indizível, a pré-palavra adormecida nas entrelinhas do tecido, a pausa antes da música. Tal como a caneta, o lápis, a agulha com sua tinta têxtil abrem canais para que venham à luz imagens submersas, sub-versas, sob o verso. Em forma poética, lembro a origem agrária da palavra verso.

versar – do lat. uersus
abrir sulcos na carne
da terra

arejar a matéria escura
amaciar com saliva
nãos encalacrados
entre os nós dos dedos

ossos do ofício
dentre os orifícios da máscara
que sufoca mas não
cala

verter silêncio em grito
versar gemido em canto





Fios e tramas transbordam tempos e espaços

Bordar nos permite transbordar a fala ordinária em direção a diálogos e trocas para além das conversas cotidianas, da linguagem limitada a instrumento de reprodução de um mundo já posto, dado, onde o espaço de criar(-se) é cada vez mais limitado.

Num mundo onde as ações e as relações são cada vez mais virtuais e menos materiais, a artesania, religando corpo, sentimentos, memórias e imaginação, talvez seja um caminho para nos tirar das limitadoras caixinhas e reintegrar corpo, alma, espírito. Nessa trilha, as mãos (e os pés) são nossos silenciosos mestres, lembra Saramago, n’A caverna

“O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do ácido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo.” (2005, p. 83).

Em uma conversa sobre bordado, a Fabiana, que, como exímia narradora e pesquisadora de estórias, é uma buscadora de mitos e símbolos, me disse: “quando sentipensamos, quando conciliamos os contrários, aprofundamos os mistérios e ampliamos significados e sentidos, enraizando-nos em nós… como as Nornas, tecelãs que cuidam das raízes de Yggdrasil…”


Em Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, Mirella Faur (2015) resgata esse mito:

“Sob cada uma das três raízes de Yggdrasil brotava uma nascente, com nomes e funções diferentes. A nascente de Urdh ou Wyrd nascia sob a raiz superior e pertencia às Nornes, as Senhoras do Destino. Diariamente elas tiravam água da fonte, molhavam as raízes da árvore e as cobriam em seguida com argila branca, para manter a umidade e conservar a vitalidade da árvore. As Nornes decidiam os destinos e os traçavam em runas sobre as folhas e os galhos de Yggdrasil ou as gravavam sobre os galhos. Ao redor da fonte de Urdh as divindades Aesir se reuniam todos os dias em busca de orientação, conselhos e presságios futuros conferidos pelas Nornes; lá também era a sede dos seus concílios, que visavam apaziguar conflitos ou disputas e resolver problemas.”


Yggdrasil, árvore que simboliza o eixo dos nove mundos na mitologia nórdica 

Ao tratar do imaginário das raízes, diz Bachelard, em A terra e os devaneios do repouso (2003):

“A raiz é a árvore misteriosa, é a árvore subterrânea, a árvore invertida. […]. A árvore dispersada na terra unifica-se para brotar do solo e para encontrar a vida prodigiosa dos galhos, das abelhas e dos pássaros. Mas vejamo-la em seu mundo subterrâneo: a árvore é então, um rio […]. O sonho das profundezas que acompanha a imagem da raiz prolonga sua misteriosa estada até as regiões infernais. […] Assim, uma espécie de síntese ativa de vida e da morte aparece muitas vezes na imaginação da raiz.”

Vida e morte se tramam nessa árvore, resguardada no útero da terra, em seus ínferos, sob os cuidados da tríade feminina, que, não à toa, também tece os fados humanos. 

 Na mitologia grega, as Moiras (Parcas, na romana), filhas da Noite (ou de Zeus e de Témis) eram as deidades que teciam o destino dos mortais, e nem mesmo Zeus poderia contestar suas decisões. Eram também chamadas de Fates, de onde deriva fado e fatalidade. Cloto (que em grego significa “fiar”) tecia o fio da vida. Láquesis (“sortear”) esticava e enrolava o fio tecido, determinando sua extensão. Por fim, Átropos (“afastar”) cortava o fio do destino.

As três Moirai, relevo de Johann Gottfried Schadow.





Na parte final de A República, de Platão, Sócrates conta a viagem de Er ao mundo dos mortos e o regresso das almas à vida, passando pelo lugar onde estavam as “filhas da Necessidade”, as Moiras: Láquesis (o Passado), Cloto (o Presente) e Átropos (o Futuro). Ao fim de sete dias, seja de prêmios, seja de penas, de acordo com as boas ou más ações realizadas em vida, as almas se dirigiram a um local onde, “no meio da luz, viram as extremidades dos vínculos do céu, porque essa luz é o laço do céu”. E segue a descrição:

“A essas extremidades está suspenso o fuso da Necessidade, que faz girar todas as esferas; a haste e a agulha são de aço, e a roca, uma mistura de aço e outras matérias. É a seguinte a natureza da roca: quanto à forma, assemelha-se às deste mundo, mas, segundo o que dizia Er, deve-se representá-la como uma grande roca oca por dentro, à qual se ajusta outra roca semelhante, mas menor, do modo como se ajustam umas caixas às outras, e, igualmente, uma terceira, uma quarta e mais quatro. Com efeito, há ao todo oito rocas inseridas umas nas outras, deixando ver no alto os seus bordos circulares e formando a superfície contínua de uma única roca em tomo da base, que passa pelo meio da oitava.”

John M. Strudwick, Um fio de ouro, 1885. Óleo sobre tela.





Em ambos os mitos, as deidades tecelãs estão próximas do eixo do(s) mundo(s) – Yggdrasil, o fuso, a roca – e seu ofício, circular, espiral, se liga ao início, à duração e ao fim da vida.

na ruína das horas
uma ronda de palavras
embrenha nervuras negras


murmúrio lamacento que serpenteia
na superfície verde das folhas
alumiada à sombra
de pestanas castanhas


castanholas percutem no pulso
herança paterna
será o eco de uma voz
submersa toda a vida?

minha avó de Granada
grão encalacrado no oco
deste baú de nadas
cujo fundo é um espelho em cacos

Parcas fiando as rugas que
em mim tecem
raízes abissais e seus lentos habitantes

A maioria dos mitos relacionados aos fios e às tramas tem protagonistas femininas, com algumas exceções. É o caso de Anansi (também conhecido como Ananse, Anancy ou Kwake Ananse), híbrido entre homem e aranha. Suas narrativas, atribuídas aos Ashanti, povo nativo da região de Gana, se espalharam por todo o oeste africano e chegaram, com os escravizados, às Índias Ocidentais e à América, onde são conhecidas como as histórias da tia Nancy. Figura controversa, Anansi é caracterizado pela astúcia e pela trapaça, muitas voltadas para o bem comum. Ele é o intermediário entre a humanidade e o dono do céu, Nyame. Um dos mitos mais conhecidos é aquele em que Anansi traz ao mundo humano as histórias, antes reservada a Nyame. Conta uma das várias versões do mito:

Adinkra Ananse Ntontan, símbolo de criatividade e sabedoria.





Não havia histórias no mundo. Nyame, o dono do céu, guardava todas só pra si. E as pessoas humanas viviam às cegas, sem passado, sem memória, sem enredo. Sem ter o que contar. Uma chatice sem fim. 

Anansi, entediado, se dispôs a trazer as histórias de Nyame pra encantar seu povo. Esperto e habilidoso, teceu uma teia de prata longa e forte que o levaria ao céu. Ao chegar, ouviu de Nyame que o preço pelas histórias era alto. Anansi deveria trazer Osebo, o terrível leopardo, Mmboro, os marimbondos de fogo, e Moatia, a fada invisível que rondava florestas. 

Sem pestanejar, Anansi aceitou a proposta e ainda afirmou que traria Ianysiá, sua própria mãe. Assim, o tenaz homem aranha desceu pela teia até a selva, onde encontrou Osebo. Vendo que este avançava para o devorar, Anansi propôs um jogo: quem amarrasse o outro mais rápido seria o vencedor. Claro que Anansi venceu e levou Osebo bem amarradinho até Nyame.

Para dominar os marimbondos de fogo, Anansi se valeu de outro artifício: fez um orifício em uma cabaça e com ela escondida sob uma folha de bananeira, guardou nela água da chuva. Ao chegar à morada dos marimbondos, respingou toda a água. Em seguida, como se fosse salvá-los, mostrou a cabaça, onde poderiam se esconder da chuva. Gratos, os Mmboro entraram sem perceber que era uma armadilha.

Por fim, Anansi esculpiu uma boneca de madeira, besuntou de goma e deixou em frente de uma árvore onde as fadas se reuniam. Colocou inhame assado num prato e amarrou numa das mãos da boneca. Quando as fadas chegaram, a esfomeada Moati, tomando a boneca por gente, lhe perguntou se podia comer o inhame. Anansi, escondido atrás da boneca, a fez sacudir a cabeça em permissão. Depois de saborear o quitute, a fada agradeceu, mas, diante da falta de resposta da boneca, se irritou e lhe deu um safanão. Ao fazer isso, sua mão grudou na cola. Para se livrar do enrosco, colocou a outra mão e os pés, acabando toda grudada na boneca. Nesse momento, Anansi apareceu e levou Moati pela teia. Antes, passou pela casa da mãe para convidá-la a ir junto visitar Nyame. Foi assim que o mundo ganhou suas histórias.

Um fio de prata tecido com arte e astúcia é a origem das histórias no mundo humano, nos conta o mito. O fio de palavras, imagens, matéria vivida e trans-vivida pelo sonho e pela arte, é o enredo que dá sentido aos passos de cada um e de todos nesta grande trama coletiva, que formamos e que nos forma, transforma. Trama humana e divina. Divinumana.





De volta às voltas pelo labirinto

meu signo é da perdição
ser ponto perdido é o que me acha
entre os fios e as tramas deste labirinto
quando deixar de me perder
terei me perdido de mim





E retorno ao mito que, por meio de um sonho, me trouxe ao bordado: o labirinto. E a uma personagem em especial, pela mão de quem ingressei no sonhado labirinto dos 8 fios: Ariadne. Princesa de Creta, filha do rei Minos e da rainha Pasífae, é uma das protagonistas do mito do Minotauro. Apaixonou-se por Teseu, a quem deu o fio que permitiu o herói seguir pelo labirinto e enfrentar o senhor da Noite e da Morte, metade homem, metade touro.

Ariadne é considerada uma deusa/sacerdotisa fiandeira, como Aracne. A proximidade sonora entre os dois nomes, Ariadne, Aracne, aguça a intuição sobre um vínculo mais profundo a ser investigado. Como o mergulho da linha no tecido, o fio amoroso dado por Ariadne a Teseu, para seu mergulho no labirinto e enfrentamento do Minotauro, o senhor da Noite, tece vínculos e tramas que ampliam sentidos. No mesmo movimento de aprofundamento e amplitude, o amor, que etimologicamente é a não morte (a-mors), me traz, por meio de Javier Alberto Prendes Morejón, editor desta bela revista, Ganso Primordial, que agora abriga estas linhas sentipensadas, outros sentidos e conexões, entre tantos fios, ao labirinto. 

Investigando o signo de Áries, Javier, em uma postagem em rede social, traz um trecho de Os mistérios das catedrais, do alquimista francês Fulcanelli, que numa arqueologia etimológica, encontra um fio que conecta Áries a Ariane e a Aracne: 

“Ariane é uma forma de airagne (em francês, araignée: aranha) por metátese do i. Em espanhol, não se pronuncia nh; αραχνη (araignée, airagne, aranha) pode então ler-se arahnê, arahni, aranhe. Não é a nossa alma a aranha que tece o nosso próprio corpo? Mas esta palavra apela ainda para outras formações. O verbo αιρω significa tomar, colher, arrastar, atrair; de onde αιρην, o que toma, colhe, atrai. Então αιρην é o ímã, a virtude encerrada no corpo que os Sábios chamam a sua magnésia. Prossigamos. Em provençal, o ferro é chamado aran e iran, segundo os diferentes dialetos. É o Hiram maçônico, o divino Carneiro, o arquiteto do Templo de Salomão. A aranha, entre os félibres, diz-se aranho e iranho, airanho; em picardo, arègni. Relacionai tudo isto com o grego Σιδηροζ, ferro e íman. Esta palavra possui os dois sentidos. E não é tudo. O verbo αρυω exprime o levantar de um astro que sai do mar; daí αρυαν (ariano), o astro que sai do mar, que se levanta; αρυαν ou ariane é então o Oriente, por permutação de vogais. E mais, αρυω possui também o sentido de atrair; então αρυαν, é também o ímã. Se agora aproximarmos Σιδηροζ, que deu o latim sidus, sideris, estrela, reconheceremos o nosso aran, iran, airan provençal, o αρυαν grego, o sol nascente. 
Ariana, a aranha mística, desaparecida de Amiens, apenas deixou no pavimento do coro o traçado da sua teia…”

A escavação etimológica, assim, nos desvela a labiríntica teia em que a princesa fiandeira de Creta, Ariadne, e a jovem tecelã da Lídia, Aracne, se revelam alquimicamente ímã e iran, o ferro, metal de Áries. 

Nessas intrincadas idas e vindas fiandeiras e bordadeiras, labirínticas, a agulha metálica, fálica, fatal, aliada à fluência da linha, penetra no linho, em imersões e emersões, fecundando com outras cores e formas o tecido virgem. Em hieros gamos, feminino e masculino se unem e se fecundam, tornando ao Um e parindo outras possibilidades.


Sem nenhuma pretensão acadêmica, arremato esse ensaio bordadeiro sem conclusões e mais pontos perdidos que achados. Mas, prenhe em devaneios, encerro com um texto em que procuro enraizar as lições que duas vivências artísticas me permitiram incorporar: o bordado e o tambor. Eis o escrito:

Viver é andar por planícies e precipícios, multidões silenciosas e desertos ruidosos. Entre toques e pausas, a melodia se faz mais rica e suingada se a gente aprende a dançar com ela, no ritmo de cada pancada, respirando entre as pausas. Essa é a lição que o tambor me dá, na “gravidade das pequenas coisas”, como diz o poeta amigo Jorge Miguel Marinho. Entre pesos e levezas o passo se faz voo e a vida banal, obra de arte, arte em obra. Na des-aventura de se tornar aquilo que se é, com toda a dor e a alegria que isso envolve. Entre encontros e desencontros, palavras e silêncios, o segredo de uma vida boa é aprender a tornar as pedras no caminho em pedrarias do nosso bordado. Cantar o instante tornando-o significativo. Nem sempre feliz, nem sempre rico, nem sempre belo. Cada passo um ponto do bordado, cada pessoa Ariadne a nos dar o fio que medeia o caminho em direção ao centro do labirinto, onde enfim se dará o temido e esperado encontro com nós mesmos.

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Diálogos bibliográficos

BACHELARD, Gaston. A terra e os devaneios do repouso: ensaios sobre as
imagens da intimidade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

FAUR, Mirella. Ragnarok, o crepúsculo dos deuses. São Paulo: Cultrix, 2015.

FREIRE, Roberto. Coiote. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1986.

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Trad. Eric Nepomuceno. 2. ed. Porto Alegre: L&PM, 2002.

MUGLIA-RODRIGUES, Barbara. Corpocriação: ensaios mareados sobre caminhos de criação poético-corporal em educação Dissertação (mestrado em Cultura, Organização e Educação). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2015.

PLATÃO. A república. 14. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, s.d.

RUBIRA, Fabiana. Dançando com o Minotauro nas noites: narração de estórias e formação humana. Tese(Doutorado em Cultura, Organização e Educação). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2015.

SARAMAGO, José. A caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 

Um comentário em “Bordar memória, transbordar o verso – Por Tamara Castro

  1. “Bordadeiras arejam o tecido da imaginação”… que lindo isso Tamara… um texto que nos traz essa potência do sentipensar… nesse alinhavo entre memórias, histórias, estórias, poesias, bordados, imagens, fatos, sonhos… adorei me ver bordada nesse seu texto-tecido, uma linha a dialogar e compor possíveis diálogos com tantas outras nessa sua prosa-poético-científica rumo ao encontro de si… Gratidão pela partilha 🌟

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